Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema
27 CAPÍTULO 26 — O CHAMADO DE MIGUEL

Azuki chegou ao café da manhã como uma tempestade mal penteada. O cabelo estava preso de qualquer jeito, a franja caía um pouco sobre os olhos, e o tablet parecia prestes a escapar de seus braços por causa da quantidade de papéis dobrados, anotações soltas e folhas rúnicas amassadas que carregava junto. Mesmo assim, o sorriso no rosto dela era tão evidente que chamou atenção antes mesmo de qualquer palavra. Não era apenas animação. Era descoberta.
Raziel já estava sentado em uma mesa próxima à janela do refeitório, com uma bandeja simples e uma xícara de café ainda quente. O salão estava mais vazio do que em dias úteis, mas alguns alunos espalhados pelo ambiente viraram o rosto quando Azuki passou falando consigo mesma. A invocadora não percebeu. Vinha repetindo termos como “abertura”, “sintonia”, “permissão” e “fluxo externo” em velocidade alta demais para quem realmente tivesse dormido.
Ela largou tudo sobre a mesa com um cuidado que quase não existiu.
— Eu entendi. Quer dizer, acho que entendi. Não tudo, mas o suficiente para saber que eu estava pensando errado desde o começo. O círculo não pode conter. Se ele contém, vira prisão. Se vira prisão, a entidade rejeita. Mas se a estrutura for aberta, se os pontos de recepção forem colocados no lugar certo, então talvez o símbolo não force a presença, ele cria uma passagem.
Raziel olhou para os papéis espalhados, depois para o rosto dela.
— Quantas horas você dormiu?
Azuki piscou.
— Isso é irrelevante diante da descoberta.
— Então nenhuma.
— Houve repouso ocular.
— Isso não é sono.
— É uma versão acadêmica de sono.
O espadachim levou a xícara aos lábios, escondendo uma reação que quase virou sorriso. Azuki estava exausta, isso era óbvio. As olheiras discretas, a velocidade das palavras e o modo como segurava o tablet denunciavam uma noite de estudo intenso. Mas havia algo diferente nela naquela manhã. Uma luz pequena atrás do cansaço. Não mana. Não ainda. Algo mais interno, como se uma peça tivesse finalmente encontrado encaixe.
— Você fez progresso — disse ele.
A frase simples fez Azuki parar. A invocadora parecia preparada para discutir, explicar ou defender suas teorias, mas não para receber reconhecimento direto. O rosto dela ganhou um brilho satisfeito, quase infantil, antes que tentasse recuperar compostura.
— Eu fiz?
— Fez.
— Ótimo. Porque eu trouxe dezoito diagramas, quatro hipóteses e uma teoria que talvez seja ofensiva para três escolas de magia.
— Só três?
— Estou sendo conservadora.
Raziel pousou a xícara sobre a mesa.
— Então chegou a hora de mostrar o próximo passo.
Azuki ficou imóvel.
A empolgação não desapareceu, mas mudou de forma. Ficou mais atenta, mais séria. Durante semanas, Invocação Divina havia sido uma promessa distante, uma ideia grande demais para caber nos métodos que ela conhecia. Depois da noite anterior, com o brilho dourado respondendo ao símbolo incompleto, a hipótese deixou de ser apenas esperança. Agora, quando Raziel falava em próximo passo, a palavra tinha peso real.
— Que próximo passo?
— O poder da oração.
Azuki inclinou a cabeça.
— Oração como canal?
— Oração como intenção. Como permissão. Como alinhamento entre quem chama e aquilo que pode responder.
Ela baixou os olhos para as anotações, processando. Até então, símbolos sempre foram ferramentas. Círculos prendiam, guiavam, formavam ou sustentavam. Orações pertenciam a outro campo, um lugar entre fé, tradição e história. Raziel, porém, não parecia falando de religião como costume. Falava de mecanismo. De uma língua antiga que talvez a magia tivesse tentado imitar sem compreender por completo.
— Mas antes disso — continuou o espadachim — você precisa entender uma coisa.
Azuki percebeu o tom e ficou em silêncio.
— Invocação Divina não é uma técnica adicionada ao que você já faz. Não é uma camada nova sobre as sombras. É outro caminho.
O refeitório pareceu mais distante. Alguns alunos ainda conversavam ao fundo, talheres batiam em pratos, cadeiras arrastavam discretamente no chão, mas nada daquilo entrou na conversa. Azuki manteve os dedos sobre uma das folhas rúnicas, como se precisasse tocar suas próprias anotações para lembrar até onde havia chegado.
— O que isso significa?
— Significa que você não precisa odiar o caminho que te trouxe até aqui. As sombras ensinaram controle, estrutura e vínculo. Mas, se quiser abrir essa porta, não pode continuar segurando a escuridão com uma mão e chamando a luz com a outra.
A frase atingiu fundo.
Por muito tempo, Azuki aceitara o rótulo que deram a ela porque parecia não existir outro. Estranha. Sombria. Necromante. A garota que chamava coisas que os outros preferiam não ver. Mesmo quando aprendeu a se defender, mesmo quando as invocações ficaram estáveis, parte dela ainda carregava a ideia de que aquele era o único lugar disponível. Raziel havia oferecido outra possibilidade. Mas possibilidades reais exigiam perdas reais.
— Eu teria que renunciar às sombras? — perguntou, mais baixo.
— Como fonte principal. Como identidade. Como dependência.
Ela demorou para responder.
Raziel não pressionou.
O silêncio entre os dois não era vazio. Era escolha sendo formada. Azuki olhou para as próprias mãos, lembrando dos círculos escuros, das primeiras sombras tremendo ao seu comando, das noites tentando provar que não era perigosa apenas por existir. A escuridão não havia sido inimiga o tempo todo. Em muitos momentos, foi abrigo. Mas abrigo também podia virar cela quando alguém crescia demais para caber dentro.
— Eu aceitei as sombras porque achei que era tudo que existia para mim — disse por fim. — Se existe outra porta… eu quero atravessar.
Raziel observou a expressão dela com atenção. Não havia impulso vazio ali. Havia medo, mas também havia decisão. E isso bastava.
— Então vamos.
— Agora?
— Agora.
Azuki arregalou os olhos.
— Eu estou com aparência de quem dormiu em cima de livros.
— Tecnicamente, você fez isso?
— Não confirma o problema.
Antes de sair, Raziel pegou o celular e abriu o grupo que compartilhava com Azuki e o AXION. Digitou sem floreios, como sempre.
Raziel: Hoje não vamos treinar com vocês. Preciso ensinar algo específico para Azuki sobre invocação.
A resposta veio quase imediata.
Blaze: “Algo específico sobre invocação” é o novo código para encontro?
Azuki: Não é isso. É estudo.
Blaze: Estudo misterioso fora da academia. Entendi tudo.
Kael: Não entendeu.
Sakura: Ninguém esperava que entendesse.
Lyra: Tomem cuidado.
Alya: Se ele cancelou treino, não é algo pequeno. Avisem se precisarem de apoio.
Azuki olhou para a tela por cima do ombro de Raziel.
— Por que parece que eles acham que vamos fazer algo perigoso?
— Porque vamos.
— Você podia ter mentido melhor.
— Eu não menti.
— Esse é o problema.
Saíram da academia pouco depois. O domingo tinha uma calma diferente, com ruas menos apressadas e lojas abrindo devagar. A cidade parecia respirar em outro ritmo, sem a urgência dos dias de aula. Azuki caminhava ao lado de Raziel segurando o tablet contra o peito, agora mais silenciosa. A empolgação da manhã havia cedido espaço para uma expectativa densa. A renúncia às sombras ainda ecoava dentro dela.
O destino só ficou claro quando a igreja matriz surgiu ao fim da avenida.
Azuki parou no meio da calçada.
— Raziel.
— Sim?
— Isso é uma igreja.
— Eu percebi.
— Nós vamos entrar?
— Sim.
Ela olhou para a construção, depois para ele.
— Você realmente está levando uma necromante para uma igreja para ensinar Invocação Divina?
— Ex-necromante, se tudo der certo.
Azuki abriu a boca, fechou, depois apontou para a fachada.
— Isso é absurdamente simbólico.
— Sim.
— Você fez de propósito?
— Também.
A igreja matriz era uma das construções mais antigas da cidade. Erguida antes de algumas torres modernas e reformada após o Grande Impacto, mantinha uma imponência que não dependia de altura. As paredes claras carregavam detalhes em pedra trabalhada, os vitrais coloridos refletiam luz sobre a escadaria, e duas estátuas de anjos guardavam a entrada principal com espadas voltadas para baixo. Não pareciam ameaçar quem entrava. Pareciam lembrar que certos lugares exigiam respeito.
Lá dentro, o silêncio abraçou os dois.
O salão principal era amplo, com bancos de madeira escura alinhados em fileiras, piso de pedra polida e velas pequenas tremulando em nichos laterais. A luz do sol atravessava os vitrais e se quebrava em tons dourados, azuis e vermelhos sobre o chão. Imagens de anjos guerreiros decoravam colunas e arcos, algumas com lanças, outras com escudos, outras apenas com as mãos abertas em gesto de bênção. No centro do altar, uma representação majestosa de Deus surgia acima das nuvens, uma mão estendida como se abençoasse todos que se aproximavam para pedir força.
Azuki reduziu os passos sem perceber.
A pressão ali não era como mana densa em dungeon, nem como aura de um Rank S. Era diferente. Mais silenciosa. Mais antiga. A invocadora sentiu o próprio poder se recolher, não por medo, mas por respeito instintivo. As sombras internas que por anos responderam ao seu chamado pareciam quietas. O lugar não as atacava. Apenas não pertencia a elas.
Raziel conduziu-a até uma capela lateral reservada para orações. O espaço era menor, ornamentado com vitrais de anjos em combate e uma imagem central do Arcanjo Miguel pisando sobre a escuridão, espada erguida e escudo brilhando diante do peito. Havia bancos baixos, velas acesas e um círculo de luz natural vindo de uma abertura alta no teto. A claridade caía exatamente sobre o centro da capela, como se o lugar tivesse sido construído para receber alguém ali.
— Não recite como fórmula mágica — disse Raziel.
Azuki virou para ele.
— Como devo recitar?
— Como pedido. Fórmulas tentam produzir resultado. Orações abrem intenção.
A invocadora assentiu, mas a garganta parecia seca.
— E se nada responder?
— Então você aprende. E tenta de novo.
— E se responder?
Raziel olhou para a imagem de Miguel.
— Então sustenta.
A resposta não ajudou no nervosismo, mas ajudou na clareza. Azuki respirou fundo e se posicionou no centro da luz. Raziel ficou ao lado, um pouco atrás, não para comandar, mas para apoiá-la caso algo saísse do controle. Aquilo não era uma técnica comum. Era uma porta sendo aberta em território desconhecido, e mesmo com as memórias da vida passada, o espadachim não tinha certeza do que aconteceria.
— Repita comigo — disse.
A voz dele veio baixa, respeitosa, sem teatralidade.
— São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…
Azuki repetiu.
— São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate…
A primeira vela tremeu.
Raziel percebeu, mas não interrompeu.
— Sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio.
— Sede o nosso refúgio contra as maldades e ciladas do demônio.
O som da cidade desapareceu.
Não diminuiu.
Desapareceu.
Azuki sentiu a pele arrepiar quando o silêncio da capela ficou completo demais. Os vitrais pareceram ganhar brilho próprio, e a luz que caía sobre o chão tornou-se mais densa, como poeira dourada suspensa no ar. Linhas invisíveis começaram a se formar ao redor dela, semelhantes aos círculos que havia desenhado na noite anterior, mas sem tinta, sem carvão, sem qualquer material visível. Eram espaços abertos na própria luz.
Raziel continuou.
— Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos…
— Ordene-lhe Deus, instantemente o pedimos…
A mana de Azuki respondeu.
Por um instante, uma sombra fina surgiu aos pés dela, reflexo antigo de seu poder. Mas não avançou. Não se ergueu como invocação. A luz a tocou, e a escuridão não gritou, não se desfez com violência, não foi destruída. Apenas mudou. O preto profundo perdeu densidade, tornando-se cinza, depois prata pálida, até se dissolver em partículas douradas que subiram como brasas ao contrário.
Azuki sentiu os olhos arderem.
Não de dor.
De libertação.
— E vós, Príncipe da milícia celeste — prosseguiu Raziel — pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos…
A invocadora repetiu com a voz trêmula, mas firme.
— E vós, Príncipe da milícia celeste, pelo divino poder, precipitai no inferno a Satanás e a todos os espíritos malignos…
As velas se inclinaram na mesma direção, embora não houvesse vento. A imagem de Miguel pareceu mais nítida, as sombras das asas projetadas na parede alongaram-se, e os símbolos de luz ao redor de Azuki abriram pequenas falhas, como portas esperando permissão. Raziel sentiu a pressão crescer, mas não como ameaça. Era julgamento. Não contra eles, mas sobre a intenção que carregavam.
— Que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.
— Que andam pelo mundo para perder as almas. Amém.
A capela respondeu.
O chão brilhou.
Azuki levou a mão ao peito, respirando com dificuldade. Cada batida do coração parecia ecoar nas paredes. Raziel deu meio passo, mas ela ergueu a mão, pedindo para continuar. Havia medo em seus olhos, mas também havia uma determinação que não existia antes. A garota das sombras estava diante da porta e, pela primeira vez, não recuava.
Raziel assentiu.
— Agora a segunda parte. Mais curta. Mais direta. Não peça como quem teme. Peça como quem aceita ser guardada.
Azuki fechou os olhos.
— São Miguel Arcanjo, defendei-nos e protegei-nos — disse Raziel.
— São Miguel Arcanjo, defendei-nos e protegei-nos.
A luz desceu sobre ela.
— Com vossa espada, cortai todo o mal.
— Com vossa espada, cortai todo o mal.
Uma linha dourada se formou no ar, vertical, afiada como lâmina.
— Com vosso escudo, guardai-me.
— Com vosso escudo, guardai-me.
Um círculo de proteção abriu-se sob seus pés, incompleto e perfeito ao mesmo tempo.
— Amém.
Azuki abriu os olhos.
— Amém.
A capela desapareceu.
Não houve queda. Não houve impacto. O mundo simplesmente mudou.
Raziel e Azuki estavam diante de um espaço branco, amplo demais para ter paredes, alto demais para ter teto. Colunas douradas se erguiam ao longe, sustentando estruturas impossíveis que pareciam templos e fortalezas ao mesmo tempo. O chão refletia luz como mármore polido, mas não havia sol em lugar algum. Tudo brilhava de dentro para fora. Ao redor, silhuetas angelicais permaneciam imóveis, sem rostos definidos, com asas enormes e armas de luz repousando nas mãos.
Azuki tentou falar, mas a voz falhou.
Raziel ficou ao lado dela, corpo tenso, olhar atento. Mesmo esperando algo, não imaginara aquilo. Na vida passada, ouvira rumores sobre pactos divinos, relatos fragmentados de entidades que respondiam a invocadores raros, histórias desacreditadas por acadêmicos que não aceitavam o que não podiam medir. Estar ali era diferente de qualquer memória. Era como se a alma tivesse sido chamada para uma sala onde mentiras não encontravam onde se esconder.
Então a voz veio.
Não de frente.
Não de cima.
De todos os lugares onde havia luz.
— Aquela que nasceu entre sombras escolheu não ser definida por elas.
Azuki prendeu a respiração.
A voz não era alta, mas fazia cada pensamento se ajoelhar. Forte, clara, antiga. Não esmagava. Sustentava. Ainda assim, havia autoridade suficiente para fazer qualquer orgulho parecer pequeno. A invocadora soube antes que alguém dissesse o nome.
Miguel.
Raziel baixou levemente a cabeça, em respeito.
Azuki tentou fazer o mesmo, mas o corpo parecia pesado demais.
— Renunciar à escuridão não apaga o caminho percorrido — continuou a voz. — Apenas impede que ele governe o destino.
Lágrimas surgiram nos olhos dela antes que pudesse impedir. Durante anos, a palavra sombra parecia uma marca, algo que explicava por que os outros se afastavam. Agora, naquele lugar impossível, a mesma história estava sendo reescrita. Não como vergonha. Como origem. Uma origem que não precisava ser prisão.
— Eu aceito — disse Azuki, quase sem voz.
O espaço branco vibrou.
Três silhuetas se moveram entre os anjos. Não caminhavam exatamente; avançavam como reflexos de uma vontade maior. A primeira usava armadura branca e dourada, escudo largo no braço esquerdo e espada reta na mão direita. As asas de luz se abriam atrás dela como muralhas, e sua presença parecia feita para ficar entre o perigo e aqueles que deveriam ser protegidos.
— Guardião Celeste — disse Miguel. — Espada e escudo. Aquele que sustenta a linha quando os fracos precisam de tempo para respirar.
A segunda figura surgiu com armadura mais leve e uma espada de duas mãos repousando diante do corpo. A lâmina era longa, dourada, envolta por um brilho afiado que não parecia fogo nem eletricidade. Era corte em forma de luz. As asas dessa invocação eram menos abertas, mais tensas, como se cada pena estivesse pronta para avançar.
— Executor Celeste. Lâmina de julgamento. Aquele que corta o mal quando a hesitação ameaça permitir sua raiz.
A terceira presença veio por último. Vestia manto branco, capuz baixo e segurava um cajado com uma pedra dourada no topo. A luz ao redor dela não feria os olhos; acalmava. Onde seus pés tocavam, pequenos círculos de bênção apareciam e desapareciam. Não parecia fraca por ser suporte. Parecia o tipo de força que mantinha todos de pé quando a guerra durava mais do que deveria.
— Arauto Celeste. Cajado e manto. Aquele que cura, protege e purifica quando a alma se desgasta antes do corpo.
Azuki observou as três figuras sem conseguir respirar direito. Não eram sombras moldadas. Não eram cadáveres recordados. Não eram formas vazias esperando comando. Havia presença nelas. Mesmo sem rosto visível, mesmo sem nomes completos, existia vontade, direção e dignidade. A invocadora entendeu, com uma certeza que atravessou cada teoria estudada na noite anterior, que jamais poderia tratá-las como ferramentas comuns.
— Elas vão me obedecer? — perguntou, antes de perceber que talvez a palavra estivesse errada.
A voz de Miguel respondeu sem dureza.
— Elas caminharão ao seu lado enquanto sua fé sustentar a porta. Comande com arrogância, e a luz se afastará. Chame com propósito, e responderão.
Azuki levou as mãos ao peito.
— Eu não sei se tenho fé suficiente.
— Fé não é ausência de dúvida. É escolher avançar mesmo quando a dúvida permanece.
Raziel olhou para ela. Aquela frase parecia escrita para ambos.
A luz ao redor começou a se intensificar. O espaço branco tremeu suavemente, e as três invocações deram um passo à frente. Não entraram no corpo de Azuki, nem desapareceram como simples energia. Tornaram-se símbolos. Três marcas douradas giraram diante dela: escudo, lâmina e cajado. Depois, uma a uma, tocaram o círculo aberto sobre seu peito e se recolheram como chaves guardadas em uma fechadura invisível.
A voz de Miguel ecoou uma última vez.
— A primeira porta foi aberta. Agora, aumente sua fé, refine sua vontade e aprenda a sustentar aquilo que chamou. Luz sem humildade vira orgulho. Poder sem propósito vira queda.
Azuki assentiu, chorando em silêncio.
— Eu vou tentar.
— Então comece.
O mundo branco se desfez.
A capela voltou de uma vez.
O ar parecia pesado demais. As velas ainda estavam acesas, mas suas chamas repousavam perfeitamente imóveis. Os vitrais não brilhavam mais com a mesma intensidade, e o som distante da cidade retornou como se alguém tivesse aberto uma janela. Azuki estava no centro do círculo de luz, pálida, trêmula, com os olhos cheios de lágrimas e um sorriso pequeno no rosto.
Diante dela, invisível para qualquer pessoa comum, uma janela translúcida surgiu.
[Sistema — Caminho Especial Desbloqueado]
Classe Emergente: Invocadora Divina
Condição Principal Atendida:
Renúncia da Fonte Sombria como identidade primária.
Canal Divino: Aberto
Fonte Anterior:
Mana Sombria / Invocação de Sombras
Nova Fonte Reconhecida:
Luz Sagrada / Mana Divina
Invocações Iniciais Concedidas:
Guardião Celeste
Função: Defesa / Linha de Frente
Arma: Espada e Escudo
Especialidade: Barreira Sagrada, Proteção de Aliados, Contenção de Impacto
Executor Celeste
Função: Ofensiva / Dano Direto
Arma: Espada de Duas Mãos
Especialidade: Corte Sagrado, Pressão de Combate, Purificação de Alvos Corrompidos
Arauto Celeste
Função: Suporte / Defesa Espiritual
Arma: Cajado e Manto
Especialidade: Cura Leve, Escudo Divino, Purificação e Fortalecimento
Classificação Atual: Rank A Superior
Proximidade com Rank S: 72%
Observação:
A usuária abriu o primeiro canal entre invocação e presença divina.
A evolução dependerá de fé, estabilidade emocional e capacidade de sustentar vínculos sem domínio forçado.
Azuki tentou ler tudo, mas as letras começaram a se misturar.
— Raziel…
A voz saiu fraca.
Ele já estava perto.
— Eu consegui?
O sorriso dela tremia, mas era verdadeiro. Pela primeira vez, não parecia a garota tentando provar que as sombras não a tornavam errada. Parecia alguém que havia encontrado uma resposta além do medo.
Raziel segurou-a antes que os joelhos cedessem.
— Conseguiu.
Azuki tentou rir, mas o corpo não acompanhou. O peso da conexão recém-aberta caiu sobre ela como sono profundo, uma exaustão que não vinha apenas de mana, mas de alma. Antes que a consciência escapasse por completo, ouviu a voz do espadachim perto o bastante para atravessar o escuro com clareza.
— Parabéns, Azuki.
O sorriso dela permaneceu por mais um instante.
Então a invocadora desmaiou nos braços de Raziel, enquanto as velas da capela tremulavam uma última vez, como se três presenças invisíveis tivessem acabado de se despedir.
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