Awakening: O Regressor Escolhido pelo Sistema
5 CAPÍTULO 4 - PRIMEIRA MISSÃO

O fluxo de alunos se espalhava pelos corredores como um rio apressado.
Telões digitais indicavam salas, horários e comunicados de clubes. O primeiro dia do último ano sempre carregava uma energia diferente, menos ansiedade juvenil, mais expectativa silenciosa. Não eram mais iniciantes. Eram quase profissionais.
Raziel caminhava em direção à Sala 3-C.
Os dois primeiros anos tinham sido dominados por teoria: fundamentos de mana, história das dungeons, ética de guildas, análise de criaturas, cálculos de conjuração e treinamentos básicos e intermediários de combate. Agora, o terceiro ano mudava o eixo.
Execução. Combate. Ranks.
Era o ano em que deixavam de aprender sobre o mundo e começavam a aprender contra o mundo. Foi então que ouviu as risadas.
Não altas ou escandalosas. O tipo de riso que tenta parecer casual para não chamar atenção. O corredor lateral estava parcialmente vazio, próximo aos armários. Três alunos cercavam alguém junto às janelas altas.
Alguns passavam e desviavam o olhar. Outros diminuíam o passo… e continuavam andando.
Azuki.
Ela segurava o tablet contra o peito. A franja caía sobre os olhos castanhos, o cabelo longo preso de forma simples. Não parecia amedrontada, mas cansada. O uniforme levemente largo reforçava a sensação de alguém que nunca se preocupara em ajustar aparência ao olhar alheio.
— Necromancia? — disse um dos alunos. — Sério? Vai levantar esqueleto em raid?
— Depois reclama quando ninguém quiser formar equipe — completou outro.
Raziel parou a poucos passos.
Já tinha feito trabalhos com ela. Lembrava-se das simulações do segundo ano, a jovem era precisa. Cálculos perfeitos, diagramas sem erro, hipóteses que batiam com a prática mais vezes do que o normal.
O problema nunca foi a teoria. Era execução. Tinha potencial bruto. Só precisava lapidar a aplicação.
— Tem algum problema com isso?
O silêncio caiu como um objeto no chão.
Não foi grito ou desafio, apenas direto.
Os três se viraram ao mesmo tempo. O espanto não vinha da frase, mas de quem a disse. Raziel não era conhecido por intervir. Muitos lembravam dele por ser neutro demais.
— A gente só tá conversando — respondeu um deles, defensivo demais para soar natural.
— Então conversem andando. — disse Raziel. — E sem decidir o caminho dos outros.
Alguns alunos que fingiam não ver agora observavam abertamente. O “apagado” tinha escolhido falar. Isso era o suficiente para quebrar a dinâmica.
Os três recuaram com risadas vazias e se dispersaram pelo corredor. Azuki ergueu o olhar, surpresa mais pela interrupção do padrão do que pela defesa em si.
— Obrigada…
— Não precisa. — respondeu ele. — Você sabe o que está fazendo. Só precisa mostrar.
Ela hesitou por meio segundo, como se aquela frase tivesse atingido um ponto que raramente era tocado. Ajustou o tablet e seguiu na mesma direção que ele.
Sala 3-C.
A janela surgiu diante dos olhos de Raziel sem som, translúcida como um reflexo em vidro.
[Sistema — Ativação Parcial]
Conduta compatível detectada.
Avaliação: Interferência consciente em evento social de opressão.
[Missão Inicial Disponível]
Continuou andando. Ninguém percebia o que flutuava à sua frente.
Tocou a interface mentalmente.
[Missão — Fundação]
Objetivo: Completar 7 dias consecutivos de treinamento físico, mental e mágico.
Critérios mínimos diários:
– Corrida contínua
– Exercícios de força corporal
– Meditação focada
Recompensa:
+1 Ponto de Atributo Livre
Vislumbre Parcial da Classe:
Sword Saint
Falha:
Reinício do ciclo.
Simples. Direto. Inescapável.
Antes que fechasse a janela, outra menor se abriu, mais discreta.
[Sistema — Missão Bônus Desbloqueada]
Título:
Eco Silencioso
Objetivo:
Levar Azuki a reconhecer o potencial real da Necromancia como caminho de poder.
Recompensa:
+1 MentalAfinidade Social OcultaFragmento de Conhecimento de Classe
Falha:
Nenhuma
Tempo:
Indefinido
Não demonstrou reação. O sistema não queria que ele a protegesse. Mas que ele ajudasse alguém a acreditar no próprio caminho. Fechou ambas as janelas.
A Sala 3-C estava parcialmente cheia quando entrou. Mesas alinhadas em semicírculo, telas digitais embutidas nas paredes e um painel central exibindo o cronograma do ano.
Azuki sentou-se duas fileiras à frente. Não olhou para trás.
Alguns alunos ainda comentavam o episódio do corredor em voz baixa. Admiração? Não, apenas surpresa. A percepção pública dele havia se deslocado meio grau, o suficiente para ser notado, não o bastante para virar assunto principal.
O professor entrou poucos minutos depois.
Alto, expressão firme, uniforme preto com detalhes prateados que indicavam instrutor de campo. O tipo de profissional que já tinha visto gente morrer e voltar diferente.
— Último ano. — disse sem rodeios. — Isso significa que a teoria acabou.
O painel atrás dele mudou.
DISCIPLINAS — ANO 3
Combate Avançado IndividualCombate Tático em EquipeSimulações de DungeonControle de Mana em Situação RealEstratégia de GuildaAvaliações de Rank Solo e Grupo
— Os dois primeiros anos deram base. — continuou. — Este ano é execução. Vocês serão avaliados por desempenho real, não por prova escrita.
Murmúrios percorreram a sala.
— Participarão de ranks simulados e missões monitoradas. Solo e em equipe. O objetivo não é passar de ano. O objetivo é sobreviver fora daqui.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer grito.
O jovem apoiou os braços na mesa, atento. Aquilo confirmava o que já sabia: o terceiro ano era filtro. Não para inteligência. Para consistência.
Azuki anotava cada palavra. Execução, isso que faltava.
O painel exibiu o primeiro módulo do semestre:
Treinamento de Campo — Início em 7 dias.
Sete dias.
Raziel quase sorriu.
A missão do sistema e o calendário da academia tinham o mesmo intervalo. Não era coincidência. E sim, alinhamento.
Ele olhou pela janela por um segundo. O campus pulsava lá fora, moderno, conectado, cheio de telas e anúncios. Mas o que realmente definiria aquele ano não aparecia em telões.
A contagem já tinha começado.
Dia 1.
E, pela primeira vez, ele não se sentia atrasado.
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