O fluxo de alunos se espalhava pelos corredores como um rio apressado.

Telões digitais indicavam salas, horários e comunicados de clubes. O primeiro dia do último ano sempre carregava uma energia diferente, menos ansiedade juvenil, mais expectativa silenciosa. Não eram mais iniciantes. Eram quase profissionais.

Raziel caminhava em direção à Sala 3-C.

Os dois primeiros anos tinham sido dominados por teoria: fundamentos de mana, história das dungeons, ética de guildas, análise de criaturas, cálculos de conjuração e treinamentos básicos e intermediários de combate. Agora, o terceiro ano mudava o eixo.

Execução. Combate. Ranks.

Era o ano em que deixavam de aprender sobre o mundo e começavam a aprender contra o mundo. Foi então que ouviu as risadas.

Não altas ou escandalosas. O tipo de riso que tenta parecer casual para não chamar atenção. O corredor lateral estava parcialmente vazio, próximo aos armários. Três alunos cercavam alguém junto às janelas altas.

Alguns passavam e desviavam o olhar. Outros diminuíam o passo… e continuavam andando.

Azuki.

Ela segurava o tablet contra o peito. A franja caía sobre os olhos castanhos, o cabelo longo preso de forma simples. Não parecia amedrontada, mas cansada. O uniforme levemente largo reforçava a sensação de alguém que nunca se preocupara em ajustar aparência ao olhar alheio.

— Necromancia? — disse um dos alunos. — Sério? Vai levantar esqueleto em raid?

— Depois reclama quando ninguém quiser formar equipe — completou outro.

Raziel parou a poucos passos.

Já tinha feito trabalhos com ela. Lembrava-se das simulações do segundo ano, a jovem era precisa. Cálculos perfeitos, diagramas sem erro, hipóteses que batiam com a prática mais vezes do que o normal.

O problema nunca foi a teoria. Era execução. Tinha potencial bruto. Só precisava lapidar a aplicação.

— Tem algum problema com isso?

O silêncio caiu como um objeto no chão.

Não foi grito ou desafio, apenas direto.

Os três se viraram ao mesmo tempo. O espanto não vinha da frase, mas de quem a disse. Raziel não era conhecido por intervir. Muitos lembravam dele por ser neutro demais.

— A gente só tá conversando — respondeu um deles, defensivo demais para soar natural.

— Então conversem andando. — disse Raziel. — E sem decidir o caminho dos outros.

Alguns alunos que fingiam não ver agora observavam abertamente. O “apagado” tinha escolhido falar. Isso era o suficiente para quebrar a dinâmica.

Os três recuaram com risadas vazias e se dispersaram pelo corredor. Azuki ergueu o olhar, surpresa mais pela interrupção do padrão do que pela defesa em si.

— Obrigada…

— Não precisa. — respondeu ele. — Você sabe o que está fazendo. Só precisa mostrar.

Ela hesitou por meio segundo, como se aquela frase tivesse atingido um ponto que raramente era tocado. Ajustou o tablet e seguiu na mesma direção que ele.

Sala 3-C.

A janela surgiu diante dos olhos de Raziel sem som, translúcida como um reflexo em vidro.

[Sistema — Ativação Parcial]

Conduta compatível detectada.

Avaliação: Interferência consciente em evento social de opressão.

[Missão Inicial Disponível]

Continuou andando. Ninguém percebia o que flutuava à sua frente.

Tocou a interface mentalmente.

[Missão — Fundação]

Objetivo: Completar 7 dias consecutivos de treinamento físico, mental e mágico.

Critérios mínimos diários:

– Corrida contínua

– Exercícios de força corporal

– Meditação focada

Recompensa:

+1 Ponto de Atributo Livre

Vislumbre Parcial da Classe:

Sword Saint

Falha:

Reinício do ciclo.

Simples. Direto. Inescapável.

Antes que fechasse a janela, outra menor se abriu, mais discreta.

[Sistema — Missão Bônus Desbloqueada]

Título:

Eco Silencioso

Objetivo:

Levar Azuki a reconhecer o potencial real da Necromancia como caminho de poder.

Recompensa:

+1 MentalAfinidade Social OcultaFragmento de Conhecimento de Classe

Falha:

Nenhuma

Tempo:

Indefinido

Não demonstrou reação. O sistema não queria que ele a protegesse. Mas que ele ajudasse alguém a acreditar no próprio caminho. Fechou ambas as janelas.

A Sala 3-C estava parcialmente cheia quando entrou. Mesas alinhadas em semicírculo, telas digitais embutidas nas paredes e um painel central exibindo o cronograma do ano.

Azuki sentou-se duas fileiras à frente. Não olhou para trás.

Alguns alunos ainda comentavam o episódio do corredor em voz baixa. Admiração? Não, apenas surpresa. A percepção pública dele havia se deslocado meio grau, o suficiente para ser notado, não o bastante para virar assunto principal.

O professor entrou poucos minutos depois.

Alto, expressão firme, uniforme preto com detalhes prateados que indicavam instrutor de campo. O tipo de profissional que já tinha visto gente morrer e voltar diferente.

— Último ano. — disse sem rodeios. — Isso significa que a teoria acabou.

O painel atrás dele mudou.

DISCIPLINAS — ANO 3

Combate Avançado IndividualCombate Tático em EquipeSimulações de DungeonControle de Mana em Situação RealEstratégia de GuildaAvaliações de Rank Solo e Grupo

— Os dois primeiros anos deram base. — continuou. — Este ano é execução. Vocês serão avaliados por desempenho real, não por prova escrita.

Murmúrios percorreram a sala.

— Participarão de ranks simulados e missões monitoradas. Solo e em equipe. O objetivo não é passar de ano. O objetivo é sobreviver fora daqui.

O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que qualquer grito.

O jovem apoiou os braços na mesa, atento. Aquilo confirmava o que já sabia: o terceiro ano era filtro. Não para inteligência. Para consistência.

Azuki anotava cada palavra. Execução, isso que faltava.

O painel exibiu o primeiro módulo do semestre:

Treinamento de Campo — Início em 7 dias.

Sete dias.

Raziel quase sorriu.

A missão do sistema e o calendário da academia tinham o mesmo intervalo. Não era coincidência. E sim, alinhamento.

Ele olhou pela janela por um segundo. O campus pulsava lá fora, moderno, conectado, cheio de telas e anúncios. Mas o que realmente definiria aquele ano não aparecia em telões.

A contagem já tinha começado.

Dia 1.

E, pela primeira vez, ele não se sentia atrasado.