A semana passou rápido demais para quem observava de fora, mas lenta o suficiente para Azuki contar os dias com uma ansiedade mal disfarçada. Desde que recebeu o convite de Elisa Akhium, a invocadora parecia alternar entre curiosidade, nervosismo e uma espécie de pânico silencioso que surgia toda vez que lembrava quem exatamente iria conhecer. Não era apenas a irmã mais velha de Raziel. Era uma das despertadas mais famosas do país, uma Rank S reconhecida antes mesmo de completar a adolescência, e seu nome carregava peso suficiente para mudar o tom de qualquer conversa dentro da academia.

Nos dias seguintes, Azuki tentou fingir naturalidade, mas falhou em quase todas as oportunidades. Durante os treinos, errava detalhes simples nos círculos rúnicos porque havia passado a madrugada pesquisando reportagens antigas sobre Elisa. No refeitório, ficava olhando para o tablet enquanto a comida esfriava. No campo lateral, revisava anotações sobre a Nightfall como se fosse cair em uma prova oral. Raziel percebeu tudo, mas demorou mais do que o normal para comentar, talvez porque havia algo quase divertido em ver a futura Invocadora Divina intimidada por um café.

— Você enfrentou dez invocações simultâneas sem tremer — disse em uma manhã, enquanto ajustava o traço de um círculo no chão. — Mas vai desmaiar por tomar café com minha irmã?

Azuki ergueu o olhar devagar, como se ele tivesse feito uma comparação absurda.

— Invocações não têm reputação mundial, Raziel.

— Algumas deveriam.

— Invocações também não se tornaram Rank S aos quatorze anos.

Raziel não respondeu de imediato. O nome de Elisa carregava exatamente esse tipo de impacto. Aos quatorze, enquanto muitos despertados ainda aprendiam a sustentar mana sem perder o fôlego, ela havia alcançado oficialmente o Rank S em uma operação que virou notícia nacional. Aos vinte e dois, sua presença já era discutida fora do país, mencionada em relatórios de guildas internacionais e analisada em fóruns estratégicos como exemplo de eficiência em combate com espada de duas mãos. Entre caçadores, soldados de guilda e nobres, era conhecida por um título simples e pesado: a Dama de Ferro.

O sobrenome Akhium também não ajudava a diminuir a pressão. O pai de Raziel não era apenas um patriarca de família influente. Era o fundador da Nightfall, uma das cinco guildas mais fortes do país, uma organização nascida após crises de dungeon e consolidada em operações que salvaram cidades inteiras. Ter o sangue daquela família significava carregar expectativas, alianças, inimigos e olhares constantes. Para quem estava do lado de fora, parecia prestígio. Para quem vivia dentro, era uma lâmina colocada sobre a mesa desde o nascimento.

Raziel sabia disso melhor do que gostaria. Na primeira vida, interpretou muitos silêncios como abandono e muitos afastamentos como indiferença. Agora, com as peças se movendo de forma diferente, começava a perceber rachaduras na própria memória. Talvez algumas distâncias tivessem sido criadas para protegê-lo. Talvez Elisa não tivesse se afastado por vergonha, mas por cuidado. E essa possibilidade era mais difícil de aceitar do que qualquer ofensa que já recebera, porque transformava anos de mágoa em algo incompleto.

O sábado chegou com céu limpo e vento leve. Azuki apareceu na entrada da academia usando uma roupa casual mais arrumada do que a habitual, com tons escuros e detalhes discretos que combinavam com sua personalidade. O cabelo estava solto, a franja cuidadosamente ajustada, e o tablet — como sempre — permanecia preso junto ao corpo como se fosse parte dela. O detalhe engraçado era que, mesmo tentando parecer tranquila, os dedos batiam na lateral do aparelho em ritmo rápido demais para enganar alguém.

Raziel a aguardava próximo ao portão principal. Também não estava de uniforme. Vestia roupas simples, mas bem escolhidas, em tons escuros, com uma jaqueta leve que escondia parte da postura de combatente, embora não o bastante para quem soubesse observar. Quando Azuki se aproximou, o espadachim percebeu o esforço evidente para não perguntar se estava apresentável. Por respeito — ou talvez por piedade — decidiu não provocar de imediato.

— Pronta?

— Não.

— Vamos mesmo assim.

A invocadora suspirou.

— Ótimo. Adoro quando meu estado emocional é ignorado com eficiência.

— Você está funcionando.

— Essa foi a coisa menos reconfortante que ouvi hoje.

O caminho até o centro da cidade pareceu mais curto do que o normal. O movimento nas ruas crescia à medida que se afastavam da academia, misturando estudantes, trabalhadores, pequenos comerciantes e carros que dividiam espaço com motos rúnicas e drones de entrega. A cidade moderna pulsava ao redor deles, viva e barulhenta, lembrando que o mundo fora das dungeons ainda insistia em seguir com cafés, vitrines, mensagens, anúncios e pessoas tentando viver como se monstros não existissem além dos portais.

O Café Sete Estrelas ficava em uma avenida elegante, cercado por árvores baixas e luminárias de ferro escuro. A fachada misturava pedra clara, madeira envelhecida e janelas amplas com molduras trabalhadas, dando ao lugar um ar rústico e sofisticado ao mesmo tempo. Não parecia apenas uma cafeteria. Parecia o tipo de lugar onde acordos discretos eram fechados entre uma sobremesa e outra. O cheiro de café torrado, pão quente e açúcar caramelizado escapava pela porta mesmo antes de entrarem.

Azuki percebeu os seguranças primeiro. Dois homens de terno escuro estavam posicionados perto da entrada, discretos, mas atentos demais para serem funcionários comuns. Um deles reconheceu Raziel antes mesmo que chegassem aos degraus e endireitou a postura imediatamente. O movimento foi pequeno, quase imperceptível para clientes casuais, mas Azuki notou.

— Jovem Mestre — cumprimentou o segurança, inclinando levemente a cabeça.

A invocadora travou por meio segundo.

Raziel respondeu com um aceno curto, como se aquilo fosse menos constrangedor do que parecia.

— Minha irmã chegou?

— Sim, senhor. A senhorita Elisa aguarda na sala reservada. Pediu que fossem conduzidos assim que chegassem.

Azuki esperou até passarem pela porta para cochichar.

— Jovem Mestre?

— Não começa.

— Eu nem falei nada.

— Seu rosto falou.

— Meu rosto está processando informações de alto impacto.

O interior do café era ainda mais impressionante. O salão principal tinha mesas de madeira escura, cadeiras estofadas em couro marrom, estantes com livros antigos e luminárias douradas que espalhavam luz quente sobre o ambiente. Vitrines exibiam tortas, éclairs, pães recheados, salgados folhados, doces de frutas e pequenos bolos cobertos por glacê brilhante. Azuki tentou manter a postura, mas seus olhos traíram completamente qualquer tentativa de elegância.

Raziel notou.

— Você está encarando os doces.

— Estou avaliando a arquitetura gastronômica.

— Isso significa que quer comer tudo?

— Significa que este lugar entende prioridades.

Antes que ele respondesse, uma voz feminina veio da direção de uma porta lateral.

— Ela pode comer o que quiser, Raziel. Eu não convidei sua amiga para torturá-la com uma vitrine.

Azuki virou quase rápido demais.

Elisa Akhium saiu da sala reservada com a naturalidade de quem não precisava anunciar presença para dominar um ambiente. O cabelo preto e liso descia até o meio das costas, brilhando sob a luz quente do café como prata limpa. Os olhos azuis tinham a mesma tonalidade profunda dos de Raziel, mas carregavam uma serenidade diferente, mais madura, mais afiada. A pele clara como neve contrastava com a roupa social impecável: calça de alfaiataria, camisa clara, blazer ajustado e sapatos elegantes, tudo simples demais para ser ostentação e perfeito demais para parecer casual.

O corpo atlético era evidente mesmo sob a roupa formal. Não havia exagero, apenas a presença de alguém que treinou a vida inteira e transformou disciplina em postura. Azuki entendeu no mesmo instante por que chamavam Elisa de Dama de Ferro. Não era frieza sem emoção. Era controle. Uma beleza refinada sustentada por algo que nenhum vestido, joia ou maquiagem conseguiria imitar: poder real.

Raziel permaneceu imóvel por um segundo a mais do que pretendia. Na primeira vida, a imagem da irmã vinha misturada a lembranças de ausência, admiração e perda. Agora estava ali, viva, sorrindo de leve, como se a tragédia que ele carregava na memória não tivesse o direito de tocar aquele momento. O reencontro não deveria doer tanto. Mas doeu, de um jeito silencioso.

Elisa se aproximou e, sem cerimônia, tocou de leve o ombro do irmão.

— Você cresceu.

— Todo mundo resolveu me dizer isso ultimamente.

— Talvez porque finalmente esteja ficando difícil ignorar.

A frase veio com um sorriso suave, mas havia orgulho ali. Não o orgulho distante do pai, moldado pela dureza da sobrevivência, e sim algo mais familiar, mais caloroso. Elisa olhou para Azuki em seguida, e a invocadora quase endireitou a postura como se estivesse diante de uma comandante.

— Azuki, certo?

— Sim. É… um prazer conhecer você.

— O prazer é meu. Raziel tem bom gosto para companhias.

Azuki abriu a boca, fechou, depois lançou um olhar rápido para o espadachim.

— Ele não me avisou que você falava esse tipo de coisa.

— Ele provavelmente não sabia o que avisar. Meu irmão sempre foi ruim em explicar pessoas.

Raziel suspirou.

— Já começou.

— Comecei antes de vocês chegarem.

Elisa os conduziu para a sala reservada, um espaço menor e mais tranquilo, com uma mesa redonda próxima à janela, flores discretas em um vaso baixo e uma bandeja já preparada com cafés, sucos, pães, tortinhas e salgados. Azuki tentou não olhar demais para a comida, mas falhou de novo. Elisa percebeu sem qualquer esforço e empurrou o prato de doces na direção dela.

— Coma. Se ficar tentando parecer educada demais, vai sofrer à toa.

— Eu gosto dela — murmurou Azuki, antes de perceber que falou em voz alta.

Raziel olhou de lado.

— Rápido assim?

— Ela autorizou doces sem julgamento. Isso cria vínculos.

Elisa riu baixo, e o som deixou o ambiente menos formal. Durante alguns minutos, conversaram sobre coisas simples: a rotina da academia, os treinos, a fama repentina de Raziel, o crescimento de Azuki e os vídeos que continuavam circulando nos fóruns. Elisa fazia perguntas com leveza, mas cada uma carregava precisão. A Dama de Ferro não interrogava; apenas conduzia a conversa para onde queria, como alguém acostumada a ler campos de batalha e salas de reunião com a mesma atenção.

Quando a conversa começou a acalmar, Elisa pousou a xícara sobre o pires e voltou o olhar para o irmão. O sorriso não desapareceu, mas ficou menor.

— Eu me afastei de você por tempo demais.

Raziel sentiu a frase atingir um lugar antigo.

Azuki percebeu a mudança no ar e ficou em silêncio.

— Na época, achei que era a melhor escolha — continuou Elisa. — Quanto mais forte eu ficava, mais pessoas procuravam uma forma de me alcançar. Amigos, subordinados, conhecidos… família. Qualquer vínculo podia virar arma se estivesse exposto demais.

Raziel sustentou o olhar da irmã, mas o peito apertou. A explicação encaixava peças que antes pareciam soltas. Na vida anterior, o afastamento de Elisa havia sido interpretado como abandono natural de alguém brilhante demais para olhar para trás. Agora, a verdade surgia com contornos diferentes. Talvez ela tenha se afastado porque se importava. Talvez o erro não tenha sido falta de amor, mas confiança excessiva na própria capacidade de manter todos seguros à distância.

— Você achou que, se ficasse longe, ninguém me usaria contra você — disse Raziel.

Elisa assentiu.

— Eu era jovem. Forte, mas jovem. Acreditava que conseguiria controlar tudo se mantivesse as pessoas certas fora do alcance errado.

A frase atravessou Raziel como uma lâmina fina. Na primeira vida, Richard matou Elisa. A lembrança não veio com imagens detalhadas, mas com o peso do resultado: a irmã caída, a família quebrada, a Nightfall tomada por sombras internas. E se Richard não tivesse vencido por força? E se tivesse usado justamente esse ponto cego? Se Elisa protegia Raziel mantendo distância, o irmão mais velho talvez tenha entendido antes de todos onde ela ainda era vulnerável.

A possibilidade fez a garganta fechar por um instante.

Azuki observou o espadachim com cuidado. Conhecia aquele silêncio. Era o mesmo que surgia quando lembranças antigas passavam perto demais.

Elisa percebeu também, mas não pressionou.

— Raziel?

— Estou entendendo algumas coisas tarde demais.

— Algumas coisas só fazem sentido quando estamos fortes o bastante para olhar para elas.

A frase era simples, mas carregava mais verdade do que conforto. Raziel respirou devagar e baixou o olhar para a xícara diante de si. Durante duas vidas, carregou a sensação de ter sido deixado para trás por todos. Talvez alguns tenham realmente falhado com ele. Outros, porém, talvez apenas tenham tentado protegê-lo da forma errada.

A conversa seguiu por mais algum tempo, agora com um tom mais íntimo. Elisa falou sobre a Nightfall sem entregar segredos, comentou a pressão sobre o pai e mencionou como a guilda havia se tornado uma das cinco maiores do país. Explicou que poder, naquele mundo, nunca vinha sozinho. Sempre trazia dívida, ameaça, expectativa e disputa. Azuki escutava com atenção, claramente impressionada com a naturalidade com que Elisa falava de coisas que, para muitos, seriam inalcançáveis.

No fim, Raziel pousou a xícara sobre a mesa.

— Quero dizer uma coisa.

Elisa percebeu imediatamente que não era um comentário casual.

— Estou ouvindo.

O espadachim se levantou. Azuki olhou de um para o outro, sem entender totalmente o que estava prestes a acontecer. Raziel deu a volta na mesa e parou diante da irmã mais velha. Por um instante, a imagem da primeira vida quase se sobrepôs ao presente, mas dessa vez não havia sangue, queda ou arrependimento. Havia escolha.

Então se ajoelhou diante dela.

Azuki prendeu a respiração.

Elisa ficou imóvel.

Não havia submissão naquele gesto. Não era fraqueza, nem pedido de proteção. Era juramento. Uma decisão tomada por alguém que finalmente entendia o próprio lugar dentro da guerra que se aproximava.

— Eu não quero disputar o que é seu por direito — disse Raziel, a voz firme. — Não quero tomar a liderança da família, nem competir pelo lugar que deveria ser seu. Quando chegar a hora, vou me aliar a você.

Elisa não desviou o olhar.

— Raziel…

— Vou fazer de tudo para que seja a próxima líder da família Akhium. E se precisar de uma lâmina ao seu lado, ficarei feliz em ser uma das suas.

O silêncio na sala ficou denso.

Azuki levou a mão à boca, emocionada demais para fingir neutralidade. Elisa permaneceu parada por um segundo, talvez dois, antes de se aproximar e tocar o ombro do irmão. A expressão da Dama de Ferro continuava controlada, mas os olhos azuis estavam mais suaves do que antes.

— Levante.

Raziel obedeceu.

Elisa segurou o rosto dele por um instante, gesto raro demais para alguém tão medida em público.

— Você nunca precisou se ajoelhar para ficar ao meu lado.

— Eu sei.

— Então por que fez isso?

— Porque eu precisava escolher em voz alta.

A irmã sorriu, e dessa vez havia emoção clara.

— Então eu aceito. Não como senhora de uma lâmina, mas como sua irmã. Se quiser caminhar comigo, caminhe. Se quiser lutar comigo, lute. Se quiser discordar de mim, tenha força para sustentar. É assim que família deveria funcionar.

A frase abriu algo dentro de Raziel. Não apagou o passado. Nada apagaria. Mas criou um ponto novo, uma lembrança que não existia antes e que talvez pudesse mudar o peso das antigas.

Elisa soltou o rosto dele e recuperou um pouco da postura brincalhona.

— Além disso, pelo que ouvi, você não precisa mais de tanta proteção. Está quase virando Rank S.

O efeito foi imediato.

Azuki congelou.

Raziel também.

Elisa piscou uma vez e fez uma expressão quase imperceptível de quem acabara de falar mais do que pretendia.

— Ops.

A invocadora virou lentamente para Raziel.

— Quase… Rank S?

— Não exatamente.

— O que significa “não exatamente” vindo de você?

— Significa que ainda falta.

Elisa pegou a própria xícara, tentando parecer inocente.

— Tecnicamente, eu não disse nada confidencial.

Raziel estreitou os olhos.

— Como sabe disso?

A irmã tomou um gole de café antes de responder.

— Tenho olhos, contatos e uma família cheia de pessoas que acham que conseguem esconder coisas.

Azuki apontou para Raziel, indignada de um jeito quase cômico.

— Você ia me contar quando?

— Quando fosse relevante.

— Quase Rank S é relevante até para uma conversa sobre clima.

Elisa riu baixo.

— Ela tem razão.

Raziel olhou para a irmã.

— Você não está ajudando.

— Estou me divertindo. É diferente.

O clima pesado se dissolveu aos poucos, substituído por algo mais leve e inesperadamente familiar. Elisa ficou mais alguns minutos, mas logo explicou que tinha compromissos ligados à Nightfall. Antes de sair, chamou Azuki de lado com uma naturalidade que deixou a invocadora visivelmente desconcertada.

— Cuide bem dele.

Azuki ficou vermelha quase instantaneamente.

— Eu… não é bem assim.

— Ainda não?

A pergunta veio com um sorriso elegante demais para ser inocente.

— Não somos… isso.

Elisa olhou para Raziel, depois para Azuki, e pareceu ler uma página inteira onde os dois enxergavam apenas letras soltas.

— Claro.

A invocadora abriu a boca para responder, mas a Dama de Ferro continuou antes que conseguisse.

— Só digo uma coisa: quando o rank oficial dele sair, algumas mulheres vão lembrar de repente que sempre acharam meu irmão interessante. Como boa namorada, vai precisar cuidar do território.

Azuki quase derrubou a colher.

— Eu acabei de dizer que não sou—

Elisa já caminhava para a porta, erguendo a mão em despedida.

— Sábado que vem talvez eu pergunte de novo.

— Espera, não foge depois de falar isso!

A irmã de Raziel apenas sorriu por cima do ombro.

— Estou sendo estratégica.

E saiu.

A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Azuki encarava a porta como se tivesse acabado de perder um duelo social sem entender as regras. Raziel, por outro lado, parecia estranhamente tranquilo, embora o canto da boca denunciasse que segurava um sorriso.

— Não ri — disse a invocadora.

— Não estou rindo.

— Você está pensando em rir.

— Pensar ainda é permitido.

Azuki cruzou os braços, mas a vermelhidão no rosto não ajudava sua tentativa de impor autoridade.

— Sua irmã é perigosa.

— Mundialmente reconhecida por isso.

— Agora entendi o título.

Raziel olhou para a porta por onde Elisa havia saído. A Dama de Ferro estava viva, mais próxima do que antes e, aparentemente, sabia mais do que deveria sobre o crescimento dele. A reunião trouxera respostas, mas também abriu novas perguntas. Como Elisa sabia tanto? Quanto a Nightfall estava observando? E, mais importante, se a irmã já percebera sua ascensão, quanto tempo levaria para Richard se mover de verdade?

Azuki recolheu o tablet, ainda tentando recuperar dignidade.

— Então… quase Rank S?

Raziel soltou o ar devagar.

— Ainda estou longe.

— Você tem uma definição horrível de longe.

— Talvez.

A invocadora o encarou por alguns segundos, depois desviou o olhar para a vitrine de doces do lado de fora da sala.

— Já que sua irmã disse que eu podia comer o que quisesse…

— Você quer levar alguma coisa?

— Eu mereço. Fui atacada politicamente.

Raziel se levantou, e pela primeira vez naquele dia o sorriso apareceu sem esforço.

— Escolhe.

Azuki caminhou em direção à vitrine com a seriedade de alguém indo analisar uma relíquia sagrada. O espadachim a acompanhou em silêncio, mas a mente continuava presa ao encontro. Elisa havia mudado algo. Não apenas no presente, mas na forma como a primeira vida era lembrada. O passado não se corrigia, mas podia ser reinterpretado. E isso, às vezes, era o primeiro passo para impedir que se repetisse.

Ao deixarem o Café Sete Estrelas, a tarde já começava a cair sobre a cidade. Os seguranças se despediram com a mesma formalidade, chamando Raziel de Jovem Mestre mais uma vez. Azuki não comentou, mas o olhar divertido dizia que o assunto voltaria em algum momento inconveniente.

O caminho de volta ao campus foi mais silencioso do que a ida, mas não desconfortável. Cada um carregava pensamentos demais. A invocadora provavelmente pensava em Invocações Divinas, doces, Elisa e na palavra “namorada” dita com precisão cruel. Raziel pensava na Nightfall, em Richard, no pai e na irmã que, na vida passada, havia sido perdida antes que ele pudesse entendê-la de verdade.

Dessa vez, porém, Elisa estava viva.

E Raziel havia escolhido seu lado antes que o futuro pudesse roubá-la novamente.