O final de semana trouxe algo que a academia raramente oferecia durante os dias comuns: silêncio. Não um silêncio absoluto, mas uma redução perceptível no ritmo constante que dominava os corredores, os campos de treino e as salas de estudo. Menos alunos circulavam, menos desafios eram feitos, e até o ar parecia mais leve, como se o próprio ambiente permitisse que os despertados existissem por um instante sem a necessidade constante de provar algo.

Raziel percebeu isso antes mesmo de sair do alojamento. Fez uma leve pausa, bem pequena. Parecia ser necessária. Foi por isso que, naquela manhã, tomou uma decisão diferente das últimas semanas. Assim que avistou quem procurava, já foi executando o plano que imaginava.

— Azuki.

— Hm? — Ergueu o olhar do tablet quando o garoto se aproximou.

— Vamos sair.

Não houve explicação imediata. A invocadora piscou duas vezes, processando a proposta.

— Sair...?

— No centro da cidade. Preciso explicar algo com calma.

O olhar dela mudou. O que ele precisava conversar com ela que seria necessário sair. E algo mais sutil, que ela mesma talvez não tivesse percebido de imediato.

— Tá... — respondeu, fechando o tablet. — Só me dá um tempo. Preciso me arrumar, e se eu fosse você, iria se arrumar também.

Raziel concordou. Não perguntou quanto, e ambos foram para seus quartos se arrumarem, assim que ficou pronto, uma mensagem no celular avisou o local de encontro, Azuki pediu para que se encontrassem na entrada da academia.

O encontro foi alguns minutos depois, próximo à entrada principal. O fluxo de alunos era menor do que o habitual, e isso tornava mais fácil notar quando alguém destoava do padrão. Raziel percebeu antes mesmo que ela chegasse completamente ao campo de visão.

Azuki não estava com o uniforme. A diferença era imediata. A roupa era simples, casual, mas bem ajustada. Tons neutros, leves, que contrastavam com a imagem que ela normalmente passava dentro da academia. O cabelo estava levemente diferente, mais solto e a franja ajustada delicadamente, menos preso à formalidade do ambiente escolar.

Por um instante, apenas observou. Ela parou a poucos passos.

— Demorei?

— Não.

Uma pausa curta.

— Tá diferente.

— Se isso foi um elogio dizendo que estou mais arrumada, agradeço as palavras. — disse desviando o olhar por meio segundo. — Mas admito que faz tempo que eu não saio sem uniforme.

O tom era leve, mas havia um traço de nervosismo ali. Raziel assentiu.

— Vamos indo então, pode ser?

O caminho até o centro da cidade era longo, mas suficiente para marcar a transição. À medida que se afastavam da academia, o ambiente mudava gradualmente. O ar parecia mais vivo, mais imprevisível. O fluxo de pessoas aumentava, carros passavam em intervalos irregulares e as vitrines refletiam uma realidade que não girava exclusivamente em torno de poder, treino e evolução.

Ali, estavam sendo apenas dois jovens andando lado a lado. Não despertados ou combatentes. Apenas... pessoas. Azuki caminhava ao seu lado, observando tudo com atenção. Como tinha conhecimento do futuro, sabia que sua família vinha da nobreza, mas que achavam que ela seria fraca e por isso não teria direito a assumir o comando da família.

Estava acostumada a ambientes mais controlados, mais previsíveis. Aquilo era diferente. Mal sabia eles que o futuro dela seria grandioso, e com os ajustes que iriam acontecer, Raziel levaria ela para o caminho mais justo e correto.

— Você vem aqui com frequência? — perguntou ela.

— Não.

— Então por que...?

— Porque aqui dá pra conversar.

A lanchonete ficava em uma esquina movimentada, com janelas amplas e mesas distribuídas de forma organizada, mas sem rigidez. O som ambiente era constante, não alto o suficiente para incomodar. Conversas paralelas, talheres, passos. Um cenário comum.

Assim entraram. E, como era inevitável, chamaram atenção. Pareciam um casal de adolescentes, a ideia não seria ruim pensou Raziel, afinal, a invocadora era muito bonita e acreditava nele. Percebeu que um ou outro olhar demoravam mais. Algumas conversas interrompidas por segundos.

Azuki percebeu primeiro.

— Pessoal ta olhando bastante, credo.

Raziel não respondeu de imediato.

— Sim.

Ela puxou levemente a manga da própria blusa, ajustando de forma quase automática.

— É estranho.

— Acostuma.

Soltou um leve riso, mais nervoso do que divertido.

— Não sei se quero acostumar com isso.

— Você é bonita, deveria acreditar nisso.

Ele não insistiu, pode perceber que ela baixou levemente a cabeça com vergonha. Apenas escolheu uma mesa mais ao canto. Mais afastada e tranquila. E por ali se sentaram.

O pedido foi simples. Nada elaborado. O famoso hamburguer com fritas, junto de um bom refrigerante. O tipo de escolha que não exigia atenção. Porque o foco não estava ali. Azuki apoiou os cotovelos na mesa, inclinando levemente o corpo para frente.

— Então... — manteve o olhar nele. — O que você queria me explicar?

— O que você faz hoje... funciona. Concorda?

— Sim.

— Mas não é o limite.

O olhar dela mudou, aumentando o foco.

— Você falou isso ontem.

— E é verdade. Bom, vamos lá, você mais do que ninguém sabe que a Necromancia depende de vínculo. E Invocação comum depende de contrato.

Ela acompanhava cada palavra.

— Porém, se eu te falar que existe um terceiro caminho.

O silêncio entre eles se aprofundou.

— Qual?

Raziel apoiou levemente os dedos sobre a mesa.

— Invocação Divina.

Azuki franziu o cenho.

— Invocação Divina...?

— Não é negociar com algo externo, necromancia você vai lidar com algo que está morto, pode ser algo bom ou ruim, mas tem um custo que é gerar um vinculo com aquilo. Já na invocação, você apenas cria uma sombra, não tem personalidade e apenas obedece você sem questionar nada.

O olhar dela ficou mais intenso.

— Mas em uma Invocação Divina, o seu núcleo e coração, vão entrar em sintonia com entidades divinas, e através do contrato formado, você pode comandar um avatar que vai representar aquela entidade aqui na terra, detalhe... É muito mais forte do que tudo já visto.

— Isso... é possível?

— Ainda não.

A resposta veio direta.

— Ainda?

— Ainda.

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Então por que você tá me falando disso?

Raziel respondeu sem desviar.

— Porque você vai ser a primeira.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Azuki desviou o olhar por um instante, como se precisasse reorganizar os próprios pensamentos.

— Eu mal estabilizei as dez invocações...

— E já passou do ponto onde a maioria para. — Não suavizou. — Você não é a maioria.

— Divinas... — Azuki repetiu, quase em um sussurro.

— Lembrando que não são sombras ou restos mortais. São entidades criadas com base na sua própria mana, núcleo e contato com o divino.

O coração dela acelerou.

— Isso... não existe na academia.

— Não.

— Então como você...?

Raziel interrompeu antes que ela completasse.

— Isso não importa agora.

Ela fechou a boca sem desviar o olhar.

— O que importa — continuou ele — é que você precisa mudar uma coisa.

— O quê?

— Base.

— Base? Que raios você ta chamando de base, seriam os círculos de invocação?

— Viu como você entende rápido?

Ela piscou.

— Mas eles funcionam.

— Funcionam para o que você faz hoje. Mas não para o que você vai fazer.

O silêncio voltou, estava processando as informações, tentando se adaptar.

— Então você quer que eu... mude tudo?

— Não. É aqui onde sua inteligência se sobressai dos demais, quero que você reconstrua.

— Isso vai demorar. — Azuki soltou o ar devagar.

— Eu acredito que vai ser mais rápido do que imagina, precisa parar de duvidar de si mesma.

— Vai ser difícil.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos. E então, lentamente, sorriu.

— Bora fazer.

Por mais difícil e absurda que a nova ideia parecesse, o brilho no olhar da garota era visível, se sentia animada com a situação, com as possibilidades, o que encontraria nesse novo caminho? Que entidade seria? Precisava chegar na academia e procurar definições sobre o que é divino ou divindades.

— Começamos amanhã, ainda temos o domingo de folga e podemos aproveitar.

A conversa seguiu por mais alguns minutos, agora mais leve. Ajustes iniciais, conceitos básicos, direções possíveis. Não era um treino ainda. Estavam apenas alinhando. Quando terminaram, o movimento da lanchonete já havia mudado. Algumas mesas estavam vazias, outras ocupadas por novos clientes. O tempo havia passado sem que percebessem completamente.

Se levantaram, pagaram a conta e começaram o caminho de volta.

O céu já começava a mudar de tom, indicando o final da tarde. A luz mais suave refletia nas janelas da cidade, criando um ambiente mais tranquilo do que o início do dia. O fluxo de pessoas ainda existia, mas já não era tão intenso.

Azuki caminhava ao lado dele. Mais próxima agora, não sentia desconforto, no fundo começava a sentir talvez até algo mais que admiração por ela.

— Raziel.

— Hm.

— E o Darius? O desafio... Vai acontecer?

Uma pausa. Seguido por um sorriso leve.

— Vai.

— Quando?

— Mais cedo do que imagina. — Raziel manteve o olhar à frente.

Ela observou o perfil dele por alguns segundos.

— Você tá tranquilo demais.

— Não é sobre estar tranquilo.

— Então o quê?

O espadachim respondeu sem olhar para ela.

— É sobre estar pronto.

— Então... eu também preciso ficar pronta. — Azuki assentiu levemente.

— Relaxa, seu crescimento é admirável.

Eles continuaram caminhando. Já conseguiam ver o campus à distância. E, pela primeira vez em muito tempo... O próximo confronto não parecia um obstáculo. Parecia inevitável. E inevitável... exatamente onde Raziel funcionava melhor.