Awakening - O Despertar

10 Realidade e Segredos IIX


“Se tem medo do escuro, porque fecha os olhos?” Ele perguntou com inocente curiosidade.

“Não é do escuro que eu tenho medo. Ninguém tem medo do escuro. Temos medo da luz.”

“Mas da Luz? Como? Não dá para se esconder em um lugar com luz”. Ele retrucou pensativo. Naquela época o garoto era um especialista em esconde-esconde, o líder da turma, o garoto popular, o que ditava as regras e criava as histórias, Luce concluiu que algo havia acontecido, o Caleb que ela mal conhecia não parecia ser o garoto que ela observava. Naquele momento, ela pode ver que a mãe era seu mundo. Ele a observava com muito amor e intensa curiosidade, o brilho inconfundível nos olhos inocentes, a espera de uma resposta que ele ainda não sabia, mas mudaria a sua vida.

Ela se ajoelhou em frente ao garoto segurou suas mãos, a expressão dela era mais séria do que de costume, mas os olhos emanavam o mais puro amor e também medo, os lábios pareciam tremer enquanto respondia para o pequeno “Não, mas a é a luz que revela as coisas que te dão medo... No escuro, nossa imaginação pode criar o que quisermos, e o que nos dá medo no escuro pode nem ao menos existir, mas quando acendemos a luz e só então podemos ver. Não se esqueça disso Caleb, nossa imaginação no escuro pode criar o medo, mas a luz pode trazer o mesmo à realidade.”

A voz dela era suave e calma, os olhos brilhavam enquanto o encarava a procura de um sinal que lhe mostraria que ele havia entendido. Ele a encarou confuso por alguns segundos, levou o dedo até a boca em um gesto automático e ponderou sobre a resposta. Alguns segundos depois abriu a boca para uma resposta, mas, não a considerou digna da discussão e logo a fechou.

Ela usava uma camiseta xadrez, vermelha e preta, calça jeans azul e tênis branco. As mãos pareciam macias e quentes e seus dedos se entrelaçavam nos dele. Ela olhou para baixo, um dos olhos eram de um bonito castanho esverdeado e o outro tinha um tom verde-musgo, perfeitamente maquiados com uma linha negra na pálpebra, brilhavam ao olhar para ele. Seria uma lágrima?

Os lábios carnudos e avermelhados se abriram em um sorriso tão grande que causaria inveja em qualquer um, Luce pensou que ninguém nunca havia olhado para ela daquela maneira, o amor que ela sentia por ele, era palpável. Rosto de ambos tinham o formato de coração, os narizes eram pequenos e idênticos, no entanto ele possuía olhos acinzentados, e a mandíbula era mais larga. A pele dela tinha um tom mais claro que a dele, ambos possuíam sobrancelhas grossas e escuras como os cabelos. Os dela longos e terminavam no meio das costas em perfeitos cachos, os dele, compridos e muito lisos, iam até os ombros. Ela parecia magra demais e sua pele, sem imperfeições, parecia seca e sem vida, ela andava devagar, parecia lutar em esconder algo nos seus gestos ensaiados, e algo por trás do que ela disse mais parecia um alerta. Naquela época ele parecia ter talvez quatro ou cinco anos, sua inteligência e raciocínio rápido eram invejáveis, mas ele parecia não entender o possível aviso. Eles caminhavam devagar, e logo estariam ao lado de Luce, que não parecia preocupada. A mulher ainda segurando as mãos do filho, levantou o rosto e pareceu encara-la, olhou diretamente em seus olhos, Luce se assustou, isso nunca havia acontecido antes, era impossível, ninguém nunca a via. Petrificada pelo medo mal conseguia respirar, e aqueles olhos estranhos e perfeitamente maquiados continuavam a olhar para ela.

O olhar era intenso e Luce quis fugir e se esconder, mas não se atrevia a mexer, algo poderia acontecer, sua mente estava ocupada com tantas perguntas sem resposta a principal era como aquela mulher conseguia vê-la enquanto o mundo a sua volta a ignorava. Os olhos de cores diferentes eram imãs impossíveis de resistir, brilhavam enquanto era tomado por lágrimas que ela não deixaria cair, e tudo isso durou apenas alguns segundos. Os lábios avermelhados tremiam de maneira quase imperceptível, e se moviam devagar “Por favor, cuide dele. Por favor, mostre a ele. Por favor, você é a única esperança. Por favor Luce, por favor”, e em um piscar de olhos, elas não mais se encaravam, agora ela apenas sorria para o seu pequeno mundo, observando seu sorriso enquanto ele saltitava ao seu lado imerso em alegria e esperança, alheio a dor e incerteza que os olhos da mãe não conseguiam esconder, mas ele continuava segurando a mão dela como se aquele gesto fosse o prêmio máximo de uma vida. Por um breve instante, ela voltou a se virar e encarar Luce com os olhos marejados, e sussurrou mais uma vez algo que só Luce parecia ouvir, o pequeno Caleb parecia alheio a tudo que acontecia ao seu redor.

Em um instante seu corpo parecia ter se esquecido da vital importância do ar e seu cérebro tentava em vão lutar para que o ar voltasse a fluir dentro do seu corpo. E mais uma vez Luce se sentiu pesada demais e logo percebeu não conseguiria impedir a queda e o seu mundo escureceu. Isso ia doer.

“Porra!” Ela falou um pouco mais alto do que deveria. O corredor parou e todos encaravam a cena. Luce de alguma maneira impossível de se explicar havia caído encima do cara mais esquisito da escola, o repetente retardado que provavelmente tinha algum tipo de distúrbio de atenção ou talvez autismo. “Filho da puta não olha por onde anda e ...” ela sussurrava enquanto ele a encarava estranhamente assustado. Ela tentava disfarçar, enquanto meio milhão de estudantes passavam por eles fazendo piadinhas sem graça, apontando e rindo descaradamente. Caleb estava no chão, o aparelho celular em algum canto do corredor aos pedaços e o fone, que fora arrebentado caia da orelha esquerda, incrédulo, ele encarava Luce que ainda estava caida encima dele em uma posição desconfortável. E ambos questionavam mentalmente como isso aconteceu

“Hey, hey” Luce estalava os dedos na altura dos olhos de Caleb enquanto tentava inutilmente se levantar, foi então que percebeu que as mãos de Caleb a segurava firmemente pela cintura, ela sentiu as mãos quentes em um limitado pedaço de pele entre a calça jeans e a camiseta vermelha, os olhos de todos pareciam estar focados nela, mas os dele ainda questionavam o evento e pareciam buscar respostas em sua alma. Por alxguns segundos, que pareciam durar uma eternidade ele continuou segurando a pela cintura firmemente, e os olhos encaravam Luce que podia sentir a racionalidade dando lugar a fantasia e a história se transformava em um romance cheio de clichês e finais felizes.

Mas os olhos de Caleb não a encaravam como se ela fosse a garota de seus sonhos, eles a encarava como se ela fosse o seu pior pesadelo. Ela podia ver sem muito esforço o medo, duvida, dor e até repulsa que ele sentia. Mas o sentimento principal era curiosidade. Então sua mente moldada desde criança por animações da Disney e filmes de romance adolescente começava a criar algo o que ela não podia evitar, afinal uma garota tem o direito de sonhar não é mesmo? Era o que a grande maioria das garotas sonhara, o romance com o príncipe rebelde não parecia ser assim tão ruim, mas com a sorte que Luce tinha, ele provavelmente quebraria seu coração e ela ficaria dias, talvez meses olhando pela janela enquanto o outono viraria inverno e a primavera de sua juventude se esvaneceria, no final das contas, muitas rugas e olheiras a deixariam com cara de um paciente terminal, amor e câncer, na mente de Luce, e não havia muita diferença, você podia sobreviver a eles, ou não. Voltando a sua história de romance louca e fictícia, Luce, após ter o coração partido teria que encontrar outro cara, mais novo e que na verdade seria um tipo de lobo ou talvez um metamorfo que se apaixonaria por ela sem motivos, afinal, ela seria irresistível, mas não poderia ama-lo pois participava de um grupo de proteção animal e não acreditava em relacionamentos com outras espécies, principalmente espécies peludas. Bom, ao menos ele teria um corpão e passaria metade do tempo sem camisa e ela se sentiria desconfortável, mas agradecida por isso. Ela então tentaria se matar algumas vezes para superar o coração partido e a vergonha de ter sido abandonada, mas ela na verdade só faria isso por que estaria enlouquecendo e ninguém iria se importar, sua família só acharia que isso é uma fase e ignorariam a obvia necessidade por atenção e provavelmente antidepressivos. Mas ações perigosas e provavelmente mortais seriam a única maneira de entrar em contato com o amor de sua vida, que apareceria em alucinações pré suicidas, Luce o nomearia “Edward” em algum momento de quase morte, e o já conhecido e nada surpreendente final era inconcebível para sua mente, pois ela se considerava jovem demais e esperta demais para gerar uma versão menos assustadora, e muito questionável do Bebe de Rosemary.

A fantasia foi interrompida pela sensação de algo frio em contato com sua pele, mais parecia uma lâmina. Mas na verdade eram mãos cheias de pequenas cicatrizes e longas unhas pintadas de preto que tentavam inutilmente mover o corpo de Luce. Os olhos verdes eram muito claros, adornados por uma maquiagem preta que lembrava os olhos de um urso panda, que encaravam Luce ainda no chão com certa confusão e curiosidade, enquanto era erguida pelas mãos frias e o inconfundível e doce aroma que a traziam de volta a realidade, Luce pode sentir o frio tomando o lugar que antes era preenchido pela sensação quente e confortável do corpo de Caleb. Enquanto se deixava levantar percebeu as pernas magras e longas e não pode deixar de sentir uma certa inveja.

Emily sem muito esforço levantou Luce com cuidado e a sua voz rouca e sexy questionando se ela estava bem ou se precisava de ajuda. O sangue queimava no rosto de Luce a fazia corar intensamente, ela estava no chão ainda fantasiando sobre o namorado da garota enquanto a mesma tentava sem muita sorte obter informações sobre o estado físico dela. Emily parecia genuinamente preocupada se Luce tinha realmente algum problema mental ou batera a cabeça mais forte do que parecia.

Luce tentou responder firmemente que estava bem, mas a voz vacilou, Emily sorria e dizia algo sobre Caleb ser distraído ou um panaca enquanto se abaixava para pegar as partes do celular que estavam no chão do corredor. As pessoas ainda passavam por eles, e continuavam a apontar e rir, típicos adolescentes.

Quando conseguiu se colocar firmemente de pé e pegar os poucos objetos que haviam caído de sua bolsa, Luce se virou para Caleb que ainda estava no chão, na mesma posição, ele parecia não ter se mexido, continuava meio sentado com o tronco elevado, a mão apoiada no chão e as pernas jogadas para frente. Ele a encarava com curiosidade que só parecia ter aumentado, os lábios de Emily se moviam, ela falava algo, mas Caleb parecia não escutar, na verdade, nada mais parecia existir para ele, só Luce , e ela conhecia aquele olhar.

Rapidamente Luce agradeceu a Emily da melhor maneira que conseguiu, a jovem sorriu gentilmente para ela enquanto tentava obter alguma reação de Caleb, Luce então se abaixou novamente ao perceber que alguns livros ainda estavam no chão e apertou os olhos fortemente enquanto pensava no computador que estava dentro da bolsa, ela pediu aos deuses que ele ainda estivesse inteiro, e se virou o mais rápido possível em direção ao banheiro mais próximo, mas antes mesmo que pudesse perceber ou se conter, seus olhos encontraram os de Caleb. Ela precisava entender o que havia feito, o que havia acontecido.

Ela andava agora apressada e distraída pelo corredor, quase corria até o banheiro feminino, o sinal indicando o inicio da primeira aula tocou, as pessoas que estavam amontoadas nos corredores obedientemente se dirigiram até as suas devidas salas, e os sons de passos, vozes e vida não mais tomavam sua mente. A única coisa que Luce se preocupava naquele momento era a necessidade de se esconder no banheiro até que as aulas acabassem, correr para casa e tentar descobrir o que acabara de acontecer, mas isso não era assim tão simples. Existiam regras e elas não podiam ser quebradas ...

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.