Avesso

6 Capítulo 6 - Resignação


Mu hesitou por um momento. Olhou o cabelo da menina, trançado por Kanda. Ela estava linda! Alguns pequenos fios caíam pelo rosto delicado, a pequena flor cor de rosa que adornava o cabelo a deixavam ainda mais bela. Quase não se lembrava mais da última vez que estivera tão próximo de uma jovem mulher. Não era dados às farras, como Milo, Máscara e Aioria. Não se sentia confortável em relações casuais, não se sentia no direito de usar uma mulher para satisfazer seus instintos mais primitivos. Fora nascido e criado no Tibete, tinha pleno controle de seus impulsos básicos. Procurou tratá-la de maneira que nunca percebesse a atração irresistível que sentia.

Mas não condenava seus companheiros. Tinham uma vida invejável aos olhos alheios. Cavaleiros da alta elite de Atena, tinham lá suas regalias. Possuíam em suas casas zodiacais quantos servos quisessem e seus caprichos prontamente atendidos. Eram alvos de profunda admiração de todos no santuário, idolatrados por aprendizes que desejavam mais do que tudo ser treinados por estes, todos se servos desejavam servi-los, todos os cavaleiros de prata e bronze os devotavam profundo respeito e submissão. Quando desciam em Rodório, então, era uma festa! O pequeno povoado praticamente parava, a bajulação era sem fim. Todos queriam ver as jóias do exército de Atena. E, se por um lado eram admirados pelos homens, eram intensamente desejados pelas mulheres. Até mesmo pelas amazonas, por aquelas mulheres que cobriam o rosto rejeitando a sua feminilidade e renunciando o papel de mãe e esposa para se dedicar por inteiro ao exército de Atena. Podia ver os olhares compridos, os murmúrios ao passar, a mudança de expressão corporal tentando atrair de alguma maneira o sexo oposto. Mal sabiam todos o peso do fardo que carregavam. O peso da morte.

Os cavaleiros de ouro são treinados desde muito jovens para morrer em batalha. Na pior batalha que o mundo já teve notícias. A batalha contra Hades. Em toda a história da humanidade, só houveram dois cavaleiros a sobreviver. Dohko, o velho cavaleiro de libra e Shion, seu mestre. Mas não nutriam tal esperança. Sabiam que a possibilidade de sobrevivência era mínima. E cada um, mesmo que jamais admitissem, mesmo que se sentissem privilegiados com seu destino heróico e felizes em fazer parte daqueles que defenderiam a humanidade... cada um possuía uma maneira diferente de lidar com o fato de que suas vidas jamais pertenceriam a eles próprios. Suas breves vidas. Incrivelmente breves.

Milo, tão adepto ao modo de vida carpe diem, deleitava-se no vinho e no passageiro amor de belas mulheres. Aioria igualmente, com o agravante de usar o mesmo método para negar um amor impossível. O amor da bela amazona de águia. Embora fizessem vistas grossas e ambos negassem com plena convicção, todos sabiam do relacionamento conturbado com a moça. Conturbado pelas crises de consciência da própria amazona, visto Aioria ser um rebelde, pouco se importando com as convenções do santuário, desde que seu irmão fora morto — segundo ele, injustamente. Máscara descontava sua revolta em seus oponentes, sendo conhecido por sua impiedade. Shaka, seu melhor amigo juntamente com Aldebaran, embora jamais admitisse, preferia morrer sozinho a deixar alguém que ame. Usava sua aparente arrogância e indiferença como armas para afastar qualquer um que ousasse, mesmo que em pensamento, tirá-lo de sua vida ermitã. "A razão de todo sofrimento é o apego", dizia. E quanto à Mu? Bem, à Mu restava-lhe a resignação. Aprendeu a viver com pouco, a se alegrar com pouco. Aprendeu a conformar-se com a idéia que teria um tempo mínimo de vida. E com todas as implicações que o fato lhe proporcionava. Unir-se afetivamente à alguém, por exemplo, além de trazer sofrimento a ambos, desviaria sua atenção de seu foco principal. Relacionamentos talvez fosse uma escolha para os de bronze ou prata. Para os de ouro, nunca.

Mu aprendera a viver sem felicidade.