Avesso

17 Capítulo 17 - Revelação Dourada




- Então acho melhor você contar tudo agora. Posso ajudar com isso, se quiser.

Mu respirou fundo. Tinha receio de que a garota não quisesse o acompanhar ao santuário, por deixá-la mais longe de qualquer coisa que pudesse levar ao seu paradeiro. Mas teria que fazer o inevitável.


- Skamar, junte-se a nós! Venha comer conosco. — Mu foi chamá-la.

Skamar veio à cozinha.


- Ah, claro! Mas esse almoço saiu mais cedo do que de costume, né? Ainda são sete da manhã. — riu.


- Fiz para acompanhar o fuso horário de Aldebaran, Skamar. — sorriu. — Ele estava agora a pouco na Grécia e lá é hora desta refeição.


- Agora há pouco na Grécia? Há pouco? — disse Skamar, estranhando a informação.


- Isso mesmo. Em quanto tempo você chegou aqui, Debas?


- Acredito que em dois segundos. — respondeu despretensiosamente, sem interromper a refeição.

Skamar arregalou os olhos. Que tipo de loucura está acontecendo ali? Deviam estar brincando com ela.

Mu a olhou no fundo dos olhos.


- Eu o teletransportei até aqui, Skamar.

Não, definitivamente, Mu não estava brincando, pensou.


- Eu não estou entendendo...


- Mu. Traga as armaduras de áries e touro para cá, para que ela possa ver.

Em alguns segundos, duas caixas douradas apareceram frente à garota.


- AAAAAAAAAAAAAA — gritou Skamar, assustada.

Aldebaran ria divertido.


- Skamar, você se lembra quando eu lhe disse que sou um lemuriano? Pois bem, os lemurianos possuem algumas habilidades incomuns às demais etnias humanas. Nós temos a capacidade de teletransporte. Temos também telecinese, que é a capacidade de mover algo apenas com o poder mental... Veja...

A urna da armadura de touro se colocou em cima da urna de áries, sem nenhum tipo de interferência visível. Mu estava usando a telecinese.

A menina olhava tudo boquiaberta.


- Mas o melhor está por vir. — disse Aldebaran, mordendo um pedaço de carne de iaque.


- Skamar, aqui em Jamiel, sou um pastor de ovelhas, como você sabe. Mas tenho outro ofício. Tenho um ofício que é o real propósito da minha existência e não apenas um ofício em si. Eu sou um cavaleiro de Atena.


- Agora vai ficar bom. — soltou Aldebaran.


- Mas... eu... nunca... vi um... cavalo aqui...

Aldebaran não se aguenta e solta uma gargalhada escandalosa.

O ariano ri divertido e carinhosamente com o comentário da moça. Mu então conta em detalhes sobre Atena, sobre o santuário e os guerreiros, sobre a missão de proteger Atena e a Terra, sobre energia cósmica e as armaduras, contou até mesmo sobre a guerra contra Hades e a probabilidade de morrerem neste conflito. Conta sobre suas obrigações com o santuário e a necessidade de voltar. Contou sobre tudo o que sua mente alcançou naquele momento, que deveria ser contado.


- Então... quer dizer... que vocês são os cavaleiros de áries e touro... e que essas são as armaduras... — dizia, enquanto olhava as urnas de olhos franzidos, ajoelhada diante delas.

Aldebaran ainda achou a menina com ar desacreditado.


- Skamar. Veja isso. — disse o brasileiro, levantando da mesa. — Venha, touro! — ordenou.

A urna de touro de abre, causando uma explosão de luz. Skamar olha a frente e vê Aldebaran, de braços cruzados, trajando sua armadura e seu elmo, com chifres enormes. Sem fazer uso dela, a imagem de Aldebaran já é intimidadora, trajando a armadura, então...


- MINHANOSSINHORA, É O DIABO!!!!!! — gritou assustada, escondendo-se atrás de Mu.

Aldebaran riu escandaloso.


- Tá vendo? Ajudou até na amnésia, já se lembrou da religião — sentou no chão de pernas cruzadas — São os chifres do touro, te garanto que não são os chifres do diabo — riu — Veja, pode tocar.

Skamar um pouco receosa, tocou os chifres do elmo. O lemuriano ria ao notar que o amigo se divertia ao apresentar sua armadura, parecia um grande animal interagindo com um humano.

Skamar, depois de verificar que os chifres de touro realmente não eram do diabo, olhou sorridente e ansiosa para Mu, como que esperando para conhecer áries.

Mu sorriu, meneando a cabeça. Nunca imaginou que algo tão bélico como as armaduras, pudessem gerar algum tipo de felicidade infantil. Elevou seu Cosmo e um clarão banhou a sala. Quando a luz se dissipou, lá estava ele: imponente, radiante em sua armadura de Áries

Skamar pára admirada por alguns segundos.

"Não é o Mu que conheço!", pensou. Na verdade era, porém é como se tivesse descoberto sua nova identidade. Sua verdadeira identidade. Agora tudo fazia sentido.

Não era mais o singelo pastor de ovelhas que estava em sua frente. Mu ainda se parecia com um anjo, mas agora com um arcanjo guerreiro, talvez.


- Muito prazer, guerreiro de áries. — sussurrou Skamar, enquanto tocava suavemente a armadura — De alguma forma, eu sempre soube que você estava aí.

A menina tocava sua armadura em seus braços, abdômen, tórax, elmo, ombros. Mu fechou os olhos, apreciando o momento, se conectando com Skamar.


- O carneiro dourado — sorria, enquanto tocava delicadamente nos chifres da armadura que, estranhamente, vibrava suavemente demonstrando aceitação à moça.

Skamar não sabia exatamente como ou porquê, mas tinha a sensação que aquela imagem lhe remetia a algo que foi apagado de sua memória.


- Nós já nos conhecemos, Mu? — sussurrou Skamar.

Mu meneou negativamente a cabeça.


- Você nunca me passaria desapercebida, Skamar.


- Se não nos conhecemos dessa vida, nos conhecemos de outra, então — sussurrou, tocando as palmas da armadura, entrelaçando seus dedos com os de Mu.


Aldebaran pigarreou alto.


- Gente?

Mu e Skamar continuam conectados, como se hipnotizados.


- Genteee


- Oi Debas. — disse Mu serenamente, despertando do "transe".


- É só pra lembrar vocês que eu tô aqui, viu?


- Mestre Mu, quando nós vamos... — Kiki entra no ambiente — Tá... tudo... bem...? — diz, ao ver os cavaleiros com suas armaduras.


- Está sim, Kiki. Estamos contando tudo à Skamar.


- Que boooooooom, eu não tava aguentando mais não usar nossos poderes! — disse, se teletransportando para a cadeira mais próxima.


- Não há mais nada que você não saiba — disse Mu, tocando com carinho o rosto da moça. — O santuário pode ser um lugar hostil, em algumas situações. Mas eu sempre vou proteger você. Com a minha vida, se necessário.

Ele tocou o rosto dela com carinho.

- Eu preciso saber se você deseja me seguir, Skamar.


- Eu só preciso saber quando partimos — sorriu.


Aldebaran bateu palmas.


- Agora sim, minha gente! Vamo simbora!