Avesso

11 Capítulo 11 - A Jóia de Neve


Deixou Mu andar alguns passos a frente, na esperança de que o tempo sozinho consertasse as coisas.

O encontrou momentos depois sentado em uma mureta de pedra, apreciando a paisagem a sua frente. Sentou-se ao seu lado sem nada dizer, observando também a vista à sua frente. Realmente era algo digno de se parar para observar.

A mureta parecia ser o limite da cidade de Lhasa. A estrutura delimitava um despenhadeiro, que terminava em um campo verdejante que seguia até um grande lago, que se avizinhava às cordilheiras majestosas.

O céu vibrava em um azul celestial totalmente límpido e emoldurava a cordilheira imponente, o lago refletia a luz do sol, lhe dando uma mágica coloração dourada, como se a lagoa fosse feita de um ouro puro e reluzente.

Em torno dele, podia-se ver ao longe, pessoas realizando a kora: a peregrinação em torno dos lugares sagrados na tradição budista.

Foi ele quem quebrou o silêncio:

— O Tibete te agrada, senhorita? — sorriu.

— É peculiarmente lindo.

— Gosto de vir aqui, sempre que venho a Lhasa.

Em sua caminhada por Lhasa, Skamar percebeu a peregrinação de fiéis que andavam em sentido horário em torno dos lugares que consideravam sagrados. Observou que alguns penitentes entremeiavam a marcha com prostrações: paravam, deitavam de bruços com a testa em contato com o solo e com os braços entendidos à frente, murmuravam mantras e se erguiam para continuar a peregrinação, que incluía muitos quilômetros. Mesmos protegidas por camadas de calos, as palmas das mãos de muitos peregrinos chegavam a sangrar.

Mu já havia lhe explicado que se tratava da kora, as longas peregrinações sagradas em torno dos lugares santos para a religião, feitas ao mesmo tempo em que se rezava e recitava mantras, pois os caminhantes buscavam a iluminação espiritual e a purificação do karma.

Agora, observando fora dos limites de Lhasa, era possível observar que a kora também ocorria em locais fora da cidade. Percebia que as peregrinações de longos quilômetros deviam ser feitas sem nenhuma interrupção sejam quais fossem as condições do caminho: neve ou lama gelada não justificavam hesitação em prostrar-se. Ainda haviam os que levavam às costas quilos de escrituras sagradas. Mu a explicou que estas pessoas acreditavam que, por serem analfabetas, recebiam o mesmo mérito de haver lido todos os textos nelas contidos, ao percorrer o caminho com essa carga. O rapaz ainda lamentou-se por como a vida das pessoas mais desfavorecidas era mais difícil, até mesmo nos confins do mundo.

— A kora está sendo feita ali também... Aqueles lugares são sagrados? — disse, apontando a um monte e ao lago.

— Ah sim, com toda certeza. Na verdade, senhorita, acredito que ali sejam os lugares mais sagrados do Tibete. Vê aquele monte?

A menina assentiu com a cabeça.

— Não seria exagero dizer que aquele monte é o lugar mais sagrado do Tibete... Veja... Aquele é o monte Kailash, o monte de cristal, para os indianos, ou Khang Rinpoche, a jóia de neve, para os tibetanos. Temos três religiões pelas imediações, senhorita, e para as três ele é considerado extremamente sagrado. Para os jainistas, é o local que o fundador de sua fé se libertou do renascimento. Para os budistas tibetanos, o Kailash é a morada de Demchok Buda, o Buda da felicidade suprema... Para os hindus, é a morada de Shiva, o deus da destruição do mal. Do monte também nasce o Ganges, o tão sagrado rio indiano.

— Então quer dizer que se escalarmos o monte, posso encontrar Shiva?

O tibetano riu.

— Muito pouco provável, Skamar. O Kailash é inescalável. Todos que tentaram, morreram. Há quem diga que seja por conta de ser a morada das divindades, há quem diga que é uma região radioativa. Mas o fato é que nunca ninguém chegou ao cume do Kailash.

— Que pena. Gostaria de visitá-lo — brincou. — Deve ser muito triste viver solitário no alto de uma montanha. — olhou disfarçadamente para o lemuriano, para ver a reação do rapaz.

Mu manteve a feição serena.

— Ah, está enganada, senhorita — sorriu. — A lenda diz que Shiva mora no monte Kailash com sua esposa, Parvati. A lenda conta que Shiva veio à Terra como um yogi e que Parvati se apaixonou perdidamente por ele assim que o viu.

— Mas quem ia imaginar que um logo um yogi, um homem que busca a paz... provavelmente ele tinha um aspecto absurdamente pacífico... Quem iria imaginar que esse homem teria um potencial tão grande de destruição? Que seria Shiva, o próprio deus da destruição?!

— Nem toda aparência corresponde à realidade, Skamar. Às vezes há muito mais por trás do que uma realidade aparenta ser a um primeiro momento. — Mu olhava para o monte, mas ainda assim Skamar percebeu algo em seus olhos, como se houvesse alguma outra mensagem oculta por detrás de sua fala, mas preferiu ignorar.

— E Shiva então se uniu a ela?

— Não. Shiva veio a este mundo como um yogi. — olhou para a menina — Não era seu propósito se unir a alguém. Não era sua missão. Shiva deveria ficar sozinho e cumprir sua missão na Terra.

— Mas então...

— Então o amor de Parvati foi mais forte que as circunstâncias. Ela também se tornou uma yogini e acabou por conquistá-lo. Mas a verdade, é que de qualquer forma seria inevitável. Parvati era o amor de toda a existência de Shiva — sorriu serenamente para a moça.

Ficaram em silêncio por alguns momentos, com os olhos fixos um no outro.

— O amor é uma bênção do Criador, não acha, Mu?

— Sim. Porém, é uma pena que não seja para todos os homens — sussurrou para a garota.

— Me perdoe por hoje mais cedo. Não foi minha intenção causar constrangimento, eu realmente não sabia o que estava fazendo. Peço desculpas.

O lemuriano riu divertido, cruzando as pernas em lótus sobre a mureta.

— Ah, não se preocupe, senhorita. Que bobagem. Não foi culpa sua.

— Fico preocupada que o que aconteceu possa prejudicar sua honra de alguma forma.

Mu aproveitou a deixa para dar uma alfinetada e sentir a reação da garota:

— É possível. Embora seja uma capital, Lhasa é muito pequena, os rumores sobre as pessoas correm com muita facilidade... Acredito que o único modo de provar o contrário, seja me casando, gerando filhos... Talvez não seja má ideia, sabe, Skamar? Talvez seja um bom momento para começar a reparar em algumas aldeãs ou moças daqui de Lhasa... Porque não... Não é agradável viver só em uma montanha.

Skamar sentiu seu rosto pegar fogo e uma mistura de sentimentos que não sabia definir bem quais eram, mas desconfiara incluir raiva, medo, vergonha e tristeza, tomou-lhe repentinamente como uma avalanche.

O sereno lemuriano, sem em nada alterar sua tonalidade habitual de voz, gestuais ou expressão facial, sem em nada se esforçar ou sequer desejar, desestabilizou Skamar em sua totalidade, em uma velocidade imediata.

Skamar estava ardendo em ciúmes.

A menina parou por alguns segundos boquiaberta diante da revelação de Mu. O ariano esperou que a moça quebrasse o silêncio, enquanto via a olhos vistos seu rosto ficar em um vermelho vivo. Se controlava para não rir, enquanto mantinha a expressão mais natural que conseguia, fingindo não perceber o ciúme que Skamar sentia.

— Vou ao banheiro. — disse, quase gritando, enquanto saia sentido ao banheiro público próximo onde estavam.

Tropeçou em um paralelepípedo no caminho dando um leve salto, esbravejou e xingou um palavrão, o que fez Mu rir com gosto, pois já não o podia ver mais. Apreciou sua visão por mais alguns instantes, até sumir do campo de visão do rapaz.

Não lhe restava mais dúvidas. Se sentia completamente atraído pela garota e era correspondido. Um sentimento de felicidade inundou seu coração, mas antes que isso o dominasse, respirou com a profundidade aprendida com os monges tibetanos. Limpou a mente. Uniu as mãos e reverenciou a Khang Rinpoche. E lhe prometeu, que não importava o quanto amava aquela moça, ele faria o que era certo.

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