Avesso

9 Capítulo 9 - Lhasa


Inexplicavelmente, Skamar não sentia angústia pela incerteza de sua vida. Andar em Lhasa estranhamente lhe apaziguava o coração.

Lhasa possuía uma aura de devoção, criada pelo sentimento de um povo que buscava sabedoria, compaixão e serenidade.

Andavam por entre os templos, abundantes em toda cidade. Com arquitetura tipicamente oriental, os templos eram cerceados por jardins delicadamente cuidados ou por grandes pátios de paralelepípedos, onde os monges se abrigavam embaixo das cerejeiras ou cedros do Himalaia. Por toda região, era possível sentir o aroma de incenso vindo do templo, que se misturavam ao cheiro dos cedros do Himalaia que tocados pelo sol, liberavam um aroma deliciosamente amadeirado. As pétalas de flores de cerejeira, já desabrochadas, rolavam pelo ar e faziam lindos tapetes de cor rosa pelo chão que circulavam os templos. Sentiu vontade de ver mais de perto.

Se aproximou de um templo próximo, se misturando às pessoas que caminhavam em procissões ou que rezavam ao redor deles.

Já no pátio, perceberam que duplas de monges tibetanos, trajados em seus tradicionais trajes monásticos laranjas e envoltos em mantos bordôs, travavam calorosos debates religiosos ao ar livre, formando ao derredor uma pequena platéia de transeuntes que os observavam, o que se tratava de uma prática comum e constante entre os monásticos, que visavam aprimorar sua sabedoria através dessa prática.

Observou que o monge desafiante, que lançava a pergunta ao parceiro, permanecia em pé, enquanto o monge desafiado, a responder, permanecia sentado ao chão em posição de lótus, frente ao desafiante. A menina parou junto aos poucos espectadores para observá-los e pensou que se entendesse um pouco mais da língua tibetana, poderia passar horas os ouvindo.

Aprendizes e mestres ou mesmo dois monges de igual conhecimento trocavam desafios sobre as escrituras budistas e todos seguiam o mesmo ritual: primeiro, giravam o rosário de orações no braço e batiam uma mão na outra e batiam o pé no chão, durante uma pergunta. A resposta do aprendiz devia vir de imediato, sem tempo para pensar. Ainda que lhe faltasse a memória, Skamar tinha certeza que assistir esse debate era uma experiência diferente de tudo o que já tinha visto.

— Porque eles batem uma mão à outra quando fazem a pergunta ao outro? — questionou à Mu.

— Simboliza a espada da verdade destruindo a ignorância, Skamar. Caso o monge desafiado não saiba responder ou se contradiga, o desafiador faz o movimento inverso. Significa, vergonha.

— Pode traduzir um trecho pra mim, Mu?

— Ora, ora... Temos uma futura monja aqui? — brincou.

Skamar riu.

— Se isso me trouxer o benefício de sempre poder ver Kiki e você, posso pensar na possibilidade. — sorriu, secretamente angustiada com a possibilidade de não os vê-los mais.

Mu silenciou por um minuto, prestando atenção nas palavras do monge, para traduzi-las.

— "Não se apegue ao passado, nem se angustie com o futuro. O passado já ficou para trás, e o futuro ainda está por vir. Saiba discernir com clareza a natureza do presente em meio à realidade. Aquele que, sem se perturbar, percebe claramente o presente, eleva seu estado de vida. O homem deve dedicar-se simplesmente a fazer aquilo que deve ser feito hoje."

— Uau! O destino e suas formas de me dizer o que deve ser feito. — riu.

— De nos dizer, senhorita. — disse Mu, afastando carinhosamente uma mecha de cabelo do rosto da moça.

O coração de Skamar batia rápido. Estaria Mu sentindo o mesmo que ela? Percebia nuances no tibetano, como seu último dizer, que às vezes lhe davam a sensação de ser correspondida em seu sentimento. Mas provavelmente poderia ser só uma impressão. Possivelmente, na melhor das hipóteses, apenas um sentimento de bem querer somados a uma dose generosa de gentileza. Também não tinha certeza exatamente do que sentia e sabia que era prudente manter seu coração sob controle. Não tinha certeza de mais nada, já não sabia o que pensar ou o que sentir.

Andava pelas ruas de pedra forradas por tapetes de flores coloridas, que caíam das copas das árvores à beira da passagem. Seguiam de um posto de segurança a outro, seguiam por todos os lugares que tinham contato com turistas e alpinistas, em busca de qualquer tipo de informação que pudesse dar algum indício sobre a origem da menina.

— Encontrou algo? — indagou Skamar, após Mu conversar em tibetano com os habitantes locais.

— Skamar, a parada em Lhasa é obrigatória para qualquer turista. É necessário se abastecer ou descansar antes de peregrinar por lugares tão perigosos, como os Himalaias. Mas todos informaram que não houveram turistas nas últimas semanas, tampouco algum registro de ocorrência de pessoa desaparecida. — olhou preocupado para a moça — Neste momento, eu não vejo o que pode ter acontecido. Mas vamos repensar em como podemos buscar as informações necessárias. Tudo bem?

— Uhum. — respondeu pensativa, secretamente em um turbilhão de sensações, que não sabia dizer se estava preocupada pela falta de informações ou feliz por não se separar imediatamente do lemuriano. E, no meio de tudo isso, ainda havia a preocupação de não ser uma presença desejável, de ser um incômodo à vida do rapaz.

Seguiram andando pela cidade, sem nada dizer. Foi ele quem quebrou o silêncio.

— Como soaria a você se eu lhe dissesse que uma parte de mim ficou feliz em saber que teremos mais um tempo juntos? — disse, olhando de rabo de olho para a menina, com uma expressão marota.

Skamar sentiu um grande alívio invadir sua alma.

— Aaah, eu também, Mu!! — respondeu, o abraçando de supetão.

Mu, surpreso com o abraço inesperado, ficou alguns segundos sem reagir. Não lhe era comum receber atitudes tão calorosas. Mas logo decidiu se entregar ao gesto de carinho da menina, devolvendo o abraço.

E os dois seguiram, felizes, como se não houvesse nem passado nem futuro, ambos fingindo que existia apenas aquele momento, como um presente enviado dos céus.