Avesso
21 Capítulo 21 - Casa de Sagitário
A subida pelas escadas da Casa de Sagitário foi feita quase em silêncio.
Skamar já havia visto Mu usar a armadura de ouro muitas vezes. E, ainda assim, ele parecia diferente.
Mais alto.
Mais distante.
Imponente.
Havia algo quase contraditório naquela visão. O mesmo homem que podia passar horas sentado tranquilamente diante de uma xícara de chá agora atravessava as escadarias do Santuário envolto em uma armadura de guerra.
Era fácil esquecer, às vezes, que Mu não era apenas o homem que cuidava dela.
Era um dos doze Cavaleiros de Ouro.
Um dos homens mais poderosos daquele lugar.
Skamar diminuiu um pouco o passo, observando-o.
Mu percebeu.
— O que foi?
— Nada.
— Você está me olhando.
Ela sorriu.
— É que você parece diferente.
Mu ergueu uma sobrancelha.
— Diferente como?
Skamar pensou por alguns segundos.
— Grande.
Ele soltou uma pequena risada.
— Tenho quase certeza de que continuo com a mesma altura.
— Não estou falando disso.
Ela apontou discretamente para a armadura.
— É isso.
Mu olhou para si mesmo.
— Ah.
— Quando você está assim, parece...
Ela procurou a palavra.
— Intocável.
O sorriso dele desapareceu por um instante. Talvez porque soubesse exatamente o que ela queria dizer.
— É só a armadura.
Skamar balançou a cabeça.
— Não para mim.
Ela voltou a caminhar.
— Talvez porque eu conheça o homem que está dentro dela.
Mu a olhou de lado.
Skamar sorriu.
— E ainda assim, quando você veste isso, eu lembro que esse homem é capaz de coisas que eu nem consigo imaginar.
Mu não respondeu.
Apenas continuou andando.
Ao chegarem à Casa de Sagitário, ele parou.
A capa repousou atrás dele, espalhando-se parcialmente sobre as pedras.
Skamar ficou alguns passos atrás.
Mu virou-se.
— Venha.
Então a conduziu para dentro da Casa.
— Há coisas que preciso lhe contar
A Casa de Sagitário não guardava apenas o silêncio; guardava uma espera.
Skamar percebeu isso no instante em que cruzou o umbral. O ar ali tinha uma densidade diferente, quase tátil, impregnado por uma poeira dourada que flutuava em suspensão mágica sob os feixes de luz solar cruzados, rasgados pelas fendas do teto alto. Até isso parecia remeter à Aioros, o Cavaleiro de Sagitário era flecha de luz que guia na escuridão. Não era a ausência de som acolhedora e viva da Casa de Áries. Ali, o mármore sob seus pés guardava um calor residual incômodo, como se a memória e o cosmo do Cavaleiro ausente ainda pulsassem, cravados na própria estrutura da pedra.
Ela caminhava um passo atrás de Mu, consciente de cada movimento. A Armadura de Áries reluzia mesmo na penumbra, refletindo a luz em tons dourados e magnéticos. O som do metal articulado ressoava a cada passo firme de Um, um farfalhar metálico e grave que lembrava a Skamar que aquele homem ao seu lado não era apenas um amigo, mas um dos doze protetores máximos da Terra.
Havia uma gravidade de mausoléu naquele lugar. As colunas pareciam testemunhas mudas de algo grande e tragicamente interrompido.
Ela caminhou alguns passos atrás de Mu, observando os corredores imponentes até erguer os olhos para a enorme estátua de Sagitário. A luz refletia na pedra polida, projetando sombras longas e contornos que pareciam se mover conforme a brisa invisível cortava o ambiente.
— Por que me trouxe aqui?
Mu demorou a responder. Ele deu mais dois passos, a capa branca arrastava suavemente pelo chão de pedra, varrendo a poeira com uma elegância quase soberana.. Quando parou, estendeu a mão e tocou a superfície de uma coluna, não por descanso, mas como quem lê as vibrações e a memória do lugar. Mu, o Cavaleiro de Ouro telecinético e reparador de armaduras... Ele não apenas falava; ele sentia as reverberações de matéria e cosmo.
— Porque há coisas que você precisa saber.
Skamar ergueu os olhos para ele. O semblante do Cavaleiro de Áries parecia recortado por sombras suaves.
— Sobre o Santuário?
— Sobre o Santuário. Sobre nós. Sobre o que aconteceu antes de você chegar.
Ele voltou a andar, seus passos ecoando com uma ressonância quase sagrada.
— Você já conhece os cavaleiros. Já conversou com alguns deles, já comeu conosco, viu nossas casas, nossas brigas, nossas... peculiaridades.
Skamar sorriu de leve, sentindo o calor do lugar quebrar um pouco do gelo em seu peito.
— Peculiaridades?
Mu lançou a ela um olhar divertido, com as feições suavemente iluminadas pela luz que atravessava o salão.
— Estou tentando ser diplomático.
Ela riu baixinho, e o som de sua risada pareceu flutuar pela nave do templo, morrendo lentamente contra as paredes milenares.
Mu também sorriu, mas a curva de seus lábios se desfez em seguida. Ele parou diante de uma parede onde antigas fissuras haviam sido cobertas por uma fina camada de poeira dourada.
— Eu não estou te trazendo aqui para assustá-la. Nem para fazer você tomar partido de ninguém.
Skamar ficou séria. A atmosfera ao redor parecia ter esfriado alguns graus.
— Então por quê?
Mu respirou fundo, e o movimento pareceu fazer o próprio ar da casa estremecer de leve.
— Porque você chegou ao Santuário em um momento muito delicado. E, se vai permanecer aqui... quero que entenda a profundidade das coisas.
Ela assentiu.
Mu caminhou até uma alta janela em arco, cravada na parede de pedra. Skamar o observou em silêncio. Visto ali, recortado contra a luz da janela, Mu parecia uma estátua de ouro e marfim. Havia nele uma aura de poder puro, um cosmo adormecido mas colossal, que fazia o ar ao redor dele vibrar. Era fácil esquecer essa imponência quando ele sorria, mas ali, no silêncio de Sagitário, ele transparecia toda a força inabalável de um Cavaleiro de Ouro. Da janela, a vista se estendia sobre os telhados e colunas do Santuário, cascateando pela montanha sob o céu azul e o mar, no horizonte.
— Há treze... talvez quatorze anos, Shion, o Grande Mestre, leu as estrelas.
Skamar permaneceu imóvel.
— Ele viu que Atena estava próxima de nós.
A expressão dela mudou.
— Atena?
— Sim.
Mu apoiou uma das mãos no parapeito de pedra.
— Meu mestre acreditava profundamente naquilo que via no firmamento. Seguiu as instruções que recebeu e encontrou uma bebê em Rodório. Uma criança órfã.
Skamar franziu o cenho, tentando assimilar a imagem.
— Uma bebê?
— Uma bebê.
Mu sorriu de forma quase imperceptível, um lampejo de ternura em meio à solenidade.
— Trouxe-a para o Santuário para que fosse criada aqui.
Ele fez uma pausa. O vento que vinha de fora soprou mais forte, fazendo as mechas dos cabelos de Mu balançarem devagar.
— E poucos dias depois... escolheu Aioros como seu sucessor.
Ao som daquele nome, o ar ao redor pareceu vibrar. Não foi um som, mas uma alteração na pressão do ambiente — como se o nome de Aioros ainda invocasse uma centelha de cosmo adormecida nas paredes. Skamar conhecia Aioros apenas como um eco mencionado com um respeito solene e distante.
— Aioros... era o irmão de Aioria.
— Era.
Mu desviou o olhar para o horizonte.
— E era um homem extraordinário.
Skamar percebeu a mudança no tom de sua voz. Não era apenas veneração técnica; era o peso esmagador de uma saudade antiga.
— Aioros tinha um coração inigualável — continuou Mu, a voz suave ressoando com uma nota aveludada e triste. — Era bondoso. Piedoso. Forte. Talvez um dos homens mais íntegros que já conheci. Era difícil não confiar nele.
Skamar encarou o perfil do Cavaleiro de Áries, vendo o reflexo da luz em seus olhos fixos no vazio.
— Então o que aconteceu?
Mu demorou a responder. A poeira dourada dançava entre os dois.
— Tudo começou a ruir.
Ele se afastou da janela, adentrando novamente a penumbra da casa.
— Um dia, Saga anunciou que Shion havia lhe comunicado algo terrível. Disse que a bebê não era Atena.
Skamar arregalou os olhos.
— O quê?
— Que Shion havia errado na leitura das estrelas.
Mu baixou o tom de voz, e as sombras da Casa de Sagitário pareceram se fechar ao redor deles.
— Segundo ele, aquela criança era uma impostora. E pior... dizia que ela traria destruição ao Santuário.
Skamar ficou imóvel.
— Eles acreditaram nisso?
— Não tínhamos como saber no que acreditar.
Mu olhou para o chão de mármore por alguns instantes, onde a própria sombra parecia pesada.
— Éramos jovens. Alguns de nós ainda eram crianças quando tudo começou. E, de repente, o homem que governava o Santuário dizia uma coisa, Saga dizia outra... e havia uma bebê no centro de um turbilhão. E tudo aconteceu muito rápido.
Ele fechou os olhos brevemente.
Skamar deu um passo à frente, aproximando-se.
— E Aioros?
Mu respondeu sem hesitar, a voz firme cortando o silêncio denso:
— Aioros não acreditou.
A declaração pareceu acender algo na penumbra.
— Disse que aquilo era uma conspiração contra Atena.
Skamar sentiu um arrepio gélido subir por sua espinha.
— E então fugiu com a criança.
Mu assentiu devagar.
— Saga o acusou de ser o líder de uma conspiração que destruiria o santuário. E foi atrás dele.
Uma pausa longa. O som do vento lá fora parecia o uivo distante de uma tempestade.
— Shura também.
Skamar conhecia Shura. A imagem do Cavaleiro de Capricórnio — rígido, silencioso, com olhos que pareciam guardar uma lâmina afiada — veio à sua mente.
— Shura era amigo de Aioros — disse Mu, e a menção trouxe um tom amargo. — O melhor amigo dele.
Ele olhou diretamente para Skamar.
— E foi ele quem o matou.
O silêncio que se seguiu não foi apenas a falta de barulho. Foi um vácuo estático, pesado e gélido que pareceu paralisar até a poeira suspensa no ar. O templo parecia conter a respiração diante daquela memória terrível.
Skamar levou a mão à boca, sentindo um nó doloroso se formar em sua garganta.
— Não...
— Os dois o encontraram enquanto ele fugia para proteger a criança — disse Mu, a voz falhando imperceptivelmente. — Aioros estava de costas.
Skamar fechou os olhos, incapaz de encarar a dor estampada na postura de Mu.
— O corpo foi encontrado depois.
— E a criança?
— Nunca foi encontrada.
— Nunca?
— Nunca.
Mu caminhou lentamente até o centro da casa, parando sob a projeção da estátua do Centauro.
— E foi aí que tudo mudou de verdade.
Sua expressão tornou-se distante, quase irreal sob a luz dourada.
— Shion nunca mais foi o mesmo.
Skamar percebeu a inflexão. Não havia raiva. Havia uma ferida aberta e nunca cicatrizada.
— Ele era meu mestre — sussurrou Mu. — Mas também era quase um pai para mim.
Skamar baixou os olhos, sentindo o peso do luto que ele carregava há mais de uma década.
— Eu me lembro de quando me tornei cavaleiro. Mesmo depois da minha consagração, às vezes ele descia até a Casa de Áries.
Um pequeno sorriso, frágil e nostálgico, surgiu nos lábios de Mu.
— Ele tirava a máscara.
— A máscara do Grande Mestre?
— Sim.
Mu parecia enxergar outra época, gravada naquelas paredes medievais.
— Eu preparava um chá. Ele se sentava comigo e nós conversávamos.
— Sobre o quê?
— Sobre tudo.
O sorriso dele ganhou um contorno de calor.
— Sobre o Santuário. Sobre os cavaleiros. Sobre minhas responsabilidades. Às vezes sobre coisas completamente banais.
— Como o quê?
— Certa vez passamos quase uma hora discutindo se Kiki deveria aprender a cozinhar.
Skamar deixou escapar uma risada curta em meio à gravidade do momento.
— E qual foi a conclusão?
— Que era melhor não arriscar a vida de ninguém.
Ela riu outra vez, e a tensão do salão pareceu ceder por um milissegundo.
Mas o semblante de Mu logo voltou à melancolia serena.
— Depois da morte de Aioros, ele nunca mais fez aquilo. Ao contrário. Parece me evitar toda vez que tem essa oportunidade. – os olhos de Mu disfarçavam uma tristeza profunda.
O peito de Skamar apertou.
— Nunca mais tirou a máscara?
— Nunca.
Mu olhou para seu próprio reflexo distorcido em uma das colunas polidas.
— A máscara representa a imparcialidade. O Grande Mestre precisa estar acima das pessoas. Acima de amizades, afetos, preferências. Discípulos.
Sua voz suavizou até virar quase um murmúrio.
— Mas quando ele a tirava... não era o Grande Mestre. Era apenas o mestre Shion.
Skamar ficou em silêncio.
— E eu sinto falta dele. Muita.
A frase caiu como uma pedra num lago calmo. A simplicidade e a vulnerabilidade daquelas palavras doíam mais do que qualquer grande discurso.
Mu respirou fundo, recompondo-se.
— Depois disso, todo o Santuário mudou. Os cavaleiros se tornaram arredios uns com os outros. A confiança ruiu. As pessoas começaram a escolher lados em silêncio.
— E Shura?
Mu fitou o chão.
— Shura carrega isso todos os dias.
Skamar lembrou do homem austero e distante que cruzara pelos corredores do Santuário.
— Ele se arrepende?
— Eu não sei se ele consegue viver sem se arrepender.
Mu olhou para o alto, onde o arco esticado do Centauro apontava para o céu.
— Ele era considerado um dos cavaleiros mais fiéis a Atena. E acabou cravando a espada da própria lealdade nas costas daquele que era praticamente seu irmão.
Um nó cravou-se na garganta de Skamar.
— E Aioria...
— Aioria sofreu muito — assentiu Mu antes que ela concluísse. — Perdeu o irmão. E teve de suportar os olhares, os comentários, o veneno daqueles que acreditavam que Aioros era um traidor.
A expressão do Cavaleiro de Áries suavizou.
— Ele cresceu com uma tempestade presa no peito.
— É por isso que ele desafia o sistema?
— Entre outras coisas. Aioria nunca aceitou que o irmão fosse condenado sem que sua versão fosse ouvida. Ele acredita na integridade de Aioros até hoje.
Skamar pensou em Aioria. No temperamento impulsivo, nos olhos faiscantes de indignação, na recusa em se curvar. De repente, o comportamento do Cavaleiro de Leão não parecia apenas rebeldia; parecia um escudo contra a injustiça.
— E Saga?
Mu não respondeu imediatamente. O silêncio que se instalou foi diferente dos outros: era um silêncio carregado de dúvida e apreensão.
— Saga foi o que mais mudou — falou, por fim. — Hoje, quase não permanece na Casa de Gêmeos. E nós não sabemos exatamente o porquê.
— Mas o Grande Mestre permite?
— Permite. Saga é poderoso. Extraordinariamente poderoso. E já foi um homem bom.
— Já foi?
Mu pareceu notar o peso de suas próprias palavras.
— Eu não sei o que aconteceu com ele.
Olhou novamente para a estátua de Sagitário, onde a iluminação suave parecia desenhar uma figura protetora.
— Talvez seja culpa. Talvez seja algo relacionado à morte de Aioros. Ou talvez seja outra coisa... algo mais sombrio.
Skamar permaneceu quieta, absorvendo cada detalhe.
Mu passou a mão pelo rosto, desfazendo por um momento a postura impecável de cavaleiro.
— Há algo que nunca consegui ignorar. Pouco antes de a bebê chegar ao Santuário... Shion anunciou Aioros como seu sucessor.
Os olhos de Skamar se arregalaram levemente.
— E Saga parece ter começado a mudar depois disso.
Ela não disse nada. A revelação pairou no ar, densa e cheia de ramificações que ela sequer conseguia mensurar.
Mu caminhou em sua direção.
— Mas não quero que você tire conclusões precipitadas.
— Você não sabe o que realmente aconteceu naquela noite.
— Não.
— Então por que me contou tudo isso?
Mu sorriu. Era um sorriso cansado, desgastado pelos anos, mas profundamente verdadeiro.
— Porque você está aqui.
Ele deu mais um passo e tocou o ombro dela de leve. Quando a manopla da armadura roçou o ombro de Skamar, ela sentiu o contraste imediato: a proteção gélida e inquebrável do metal dourado, imediatamente seguida pela firmeza acolhedora dos dedos dele buscando o calor da pele dela. Era a união da força de um protetor com a gentileza do homem por trás da armadura. A sensação era acolhedora, uma âncora em meio à tempestade de histórias trágicas.
— E eu não quero que você olhe para essas pessoas apenas pelo que elas mostram na superfície. Cada um deles carrega uma cicatriz que você ainda não conhece.
Ele olhou para as alturas do templo uma última vez.
— Assim como você.
O coração de Skamar apertou no peito. Por um instante, o vento lá fora pareceu parar.
— Você acha que Aioros realmente era um traidor? — perguntou ela, a voz quase sumindo na imensidão do salão.
— Não — a resposta de Mu veio instantânea, pura e sem sombra de dúvida. — Nunca achei.
— Mesmo depois de tudo o que disseram?
Mu respirou fundo, fitando a estátua iluminada pela última luz da tarde.
— Principalmente depois de tudo. Porque eu conheci Aioros. E algumas pessoas simplesmente não conseguem esconder quem realmente são. O coração dele era grande demais para abrigar uma traição.
Skamar deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles, e segurou delicadamente a mão de Mu. Skamar segurou a mão dele, sentindo os contornos rígidos da armadura de ouro sob seus dedos. O metal era frio ao toque, mas a palma de Mu retribuiu o aperto com um calor profundo e humano, rompendo a distância entre a lenda e o homem. O toque era quente contra a frieza do templo.
Ele olhou para os dedos dela entre os seus e apertou-os suavemente.
— Obrigada por me contar — disse ela.
— Eu precisava que você soubesse.
Skamar voltou a olhar para a estátua de Sagitário. A atmosfera do lugar já não parecia fria ou assustadora. O silêncio da casa não era feito de ausência; era feito de memória, de uma presença implícita que recusava virar poeira. Pela primeira vez, ela percebeu que aqueles homens lendários, vestidos em armaduras reluzentes, eram apenas pessoas profundamente feridas tentando sobreviver ao peso das próprias escolhas.
Mu começou a caminhar em direção ao grande portal de saída. Após alguns passos, percebeu que Skamar não o seguia e virou-se.
Ela ainda contemplava o arco de pedra e a estátua iluminada.
— Skamar?
Ela virou o rosto, oferecendo-lhe um sorriso melancólico.
— Acho que agora entendo um pouco melhor todos vocês. E acho que entendo por que você queria me trazer aqui.
Mu sorriu, visivelmente aliviado.
— Ainda bem.
Skamar finalmente se aproximou, alcançando-o na saída.
— Mas tem uma coisa que eu realmente não consigo entender.
— O quê?
Ela o encarou com uma expressão perfeitamente séria, embora houvesse um brilho curioso em seus olhos.
— Por que ninguém nessa história simplesmente sentou para conversar?
Mu parou no meio do passo. Piscou uma, duas vezes.
— Como assim?
— Você, Shion, Aioros, Saga, Shura... — ela foi enumerando nos dedos, um a um. — Todo mundo parece ter passado catorze anos sofrendo, remoendo traumas e tomando decisões drásticas em absoluto silêncio.
Mu abriu a boca para responder, mas a lógica da pergunta o atingiu. Fechou-a. Pensou por um segundo inteiro, desviando o olhar para o teto do templo.
— É...
Skamar inclinou a cabeça, arqueando uma sobrancelha.
— Vocês são guerreiros lendários, capazes de rasgar os céus, mas têm uma dificuldade impressionante para sentar e ter uma conversa honesta.
Mu soltou uma risada curta, espontânea, que ressoou de forma leve pelas colunas seculares.
— Você acabou de resumir séculos de tradição e drama do Santuário em uma única frase.
— Então estou me adaptando rápido.
Mu riu novamente, e por alguns segundos o ar pesado da Casa de Sagitário dissipou-se completamente, dando lugar a algo mais humano. Porque, no fundo, talvez fosse exatamente isso que Aioros teria querido para aquele lugar: que sob o peso da história e das armaduras, ainda houvesse espaço para o riso.
Antes de cruzar o portal para o exterior, Skamar estancou os passos. Movida por um impulso que não soube explicar — um chamado sutil que parecia ressoar no fundo do seu próprio peito —, ela se virou lentamente de volta para a penumbra do templo. A luz dourada do entardecer cortava o ar em feixes verticais, fazendo a poeira flutuar como poeira de estrelas. Fitou o alto da estátua do Centauro, a figura imponente imortalizada na pedra, e deixou sua voz fluir, macia e solene, quase como uma prece:
— Aioros? — Ela fez uma breve pausa, sentindo o ar esfriar e esquentar ao mesmo tempo. — Se você ainda está aqui... saiba que o seu sacrifício não foi esquecido. Ninguém mais vai caminhar por essas sombras sozinho.
O silêncio que se seguiu não foi de ausência, mas de resposta. Sem que houvesse vento algum vindo de fora, uma brisa tépida e invisível soprou do fundo do santuário, envolvendo os cabelos de Skamar em um carinho suave. O mármore sob seus pés vibrou levemente, soltando uma única nota harmônica que ressoou pelas colunas como o murmúrio de uma corda de arco esticada. A poeira dourada ao redor da estátua brilhou com uma intensidade quase viva, e por um fração de segundo, Skamar pôde jurar que sentiu um calor nobre e acolhedor pousar sobre seus ombros — a presença de uma luz antiga que, mesmo na morte, permanecia de pé para proteger aqueles que buscavam a verdade.
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