Avesso
18 Capítulo 18 - Santuário
O sol já se erguia no horizonte quando Mu e Skamar chegaram aos portões do Santuário de Atena. O ar grego era diferente do ar rarefeito de Jamiel: mais doce, mais quente, e havia algo de antigo e solene na atmosfera que deixou Skamar boquiaberta assim que os pés tocaram o mármore branco.
— Bem-vinda ao Santuário — disse Mu com sua voz serena, os olhos verdes translúcidos, iluminados pela luz da manhã.
Skamar observava os portões monumentais e a sucessão de escadarias que pareciam tocar o céu. Ela deu um sorriso nervoso.
— E você sobe isso tudo andando? — perguntou, meio incrédula.
Mu soltou um sorriso discreto, quase imperceptível.
— Depende do dia.
— E hoje é dia de…?
— Andar. — respondeu com uma piscadela sutil.
Subiram a primeira escadaria em silêncio, até que Skamar, ainda tímida, soltou:
— Espero que você tenha um bom plano para explicar quem eu sou.
— Tenho. — Mu sorriu de canto. — Você é minha nova serva.
— Ah. — Ela piscou algumas vezes. — Eu sou o quê?
Mu apenas continuou a subir calmamente.
— É só um título. Ninguém vai exigir nada além de discrição.
Quando chegaram à Primeira Casa, Aldebaran já os esperava sentado em um degrau, mascando algo que parecia tapioca com manteiga.
— Olha só! Ele a trouxe! — sorriu, levantando-se com aquele jeito desengonçado e amistoso. — E aí, Skamar? Pronta pra conhecer esse bando de estranhos?
— Oi, Aldebaran! — Ela acenou sorridente, o nervosismo dando lugar ao bom humor.
— Não me diga que vocês subiram a pé mesmo. — disse o Touro, já seguindo com eles. — Mu, eu sei que você pode teletransportar. Você gosta de sofrer, é isso?
— Tradição, Debas. — respondeu Mu.
Aldebaran, sem grandes ocupações naquele momento, os seguiu na caminhada. Logo chegaram à Casa de Gêmeos. As portas estavam fechadas, a escadaria deserta e o ar gelado. Skamar sentiu um arrepio.
— Aqui é...?
— A Casa de Gêmeos — disse Mu, a voz mais baixa, quase um sussurro. — O guardião segue seus próprios caminhos.
Passaram sem incidentes, e Skamar notou que tanto Mu como Aldebaran ficaram mais sérios nesse trecho.
Algumas casas estavam vazias: Gêmeos, Câncer, Libra, Sagitário e Capricórnio não tinham seus cavaleiros presentes naquele dia. Skamar achava curioso o contraste entre a imponência dos templos e o silêncio, como se cada casa guardasse segredos milenares.
- Nem todos os cavaleiros precisam estar de guarda sempre — explicou Mu, notando seu olhar curioso. — Em tempos de paz, as escalas são rotativas.
Na Casa seguinte, Câncer, ela sentiu um calafrio real.
— Tem alguma coisa errada aqui — disse, abraçando os próprios braços.
— Só energia residual — murmurou Mu, sem parar de andar. — Vamos passar rápido.
— Residual do quê? — ela perguntou, sem obter resposta.
Chegaram à Casa de Leão. A visão de Aiolia treinando sozinho, com uma sequência de golpes que pareciam fazer o ar vibrar, foi impressionante. O cavaleiro virou-se para eles, tirando seu elmo. Seus cabelos dourados, despenteados com charme rebelde, os olhos felinos, faziam dele a personificação da força, do orgulho e da fúria contida.
— Mu! Aldebaran! — saudou, acenando com a cabeça. Seus olhos pousaram em Skamar e ele arqueou uma sobrancelha. — E quem é ela?
— Skamar. Minha nova serva.
- Muito prazer! — disse Aioria, apertando a mão dela com gentileza, embora seu olhar firme parecia atravessá-la.
Após observá-la, Aiolia franziu o cenho, depois sorriu de lado.
— Serva? — piscou para Skamar — Se quiser fugir, pisque duas vezes.
— Aioria — disse Mu, com a calma habitual.
— Tá, tá. Brincadeira. — riu Aiolia, limpando o suor da testa. — Bem-vinda.
Skamar sorriu, sem saber se ria ou fugia.
A Casa de Virgem os recebeu com incensos e perfume de lótus. Shaka, de olhos fechados, meditava em posição de lótus, em levitação, no centro do templo. Seus cabelos dourados formavam uma cascata sedosa e, o reflexo da luz em seus cabelos lhe davam uma iluminação profundamente angelical. Sua expressão era de absoluta paz.
De olhos fechados, ao sentir a presença deles, falou sem se mover:
— A alma que vos acompanha carrega ecos de outras eras.
Skamar arregalou os olhos. Shaka abriu os seus lentamente, dois lagos de serenidade.
— Bem-vinda, criança do mundo. — disse. — Cuide bem dela, Mu. A teia da existência é mais frágil do que imaginamos.
Mu assentiu, solene. Aldebaran deu um risinho de canto.
— Profundo como sempre, hein, Shaka?
— Alguns precisam de palavras. Outros, de silêncio. — replicou o virginiano.
Skamar riu baixinho, sem entender metade, mas achando graça mesmo assim.
A Casa seguinte foi um contraste completo.
— Ora, ora, o que temos aqui? — a voz de Milo soou musical e debochada. Recostado em uma coluna e exibindo um sorriso malicioso, o homem de cabelos rebeldes pretos azulados e com olhos azuis que brilhavam com traquinagem, exalava um charme rebelde e perigoso.
— Eu não sabia que você escondia uma flor tão bonita nas montanhas, Mu. Sou Milo. Cavaleiro de Escorpião. Um prazer — disse, pegando a mão de Skamar e beijando-a com uma gentileza sensual.
Skamar corou. Mu suspirou.
— Ela é minha convidada, Milo, não uma de suas conquistas — disse Mu com um suspiro paciente.
— Por enquanto! — Milo piscou, rindo, e deixou-os passar.
Na Casa de Aquário, o ar ficou mais frio. Camus surgiu com a elegância gélida de um nobre, os cabelos loiros azulados-pálidos alinhados e os gestos contidos.
— Mu. Mademoiselle — disse com um leve aceno de cabeça. Seu sotaque francês tornava cada palavra quase musical.
— Prazer — disse Skamar, encantada com a polidez.
Camus ofereceu apenas um leve sorriso antes de deixá-los seguir, glacial e educado.
Na Casa de Peixes, Afrodite os esperava. Era um homem de beleza incomum, seus traços eram perfeitos como se fosse esculpido por um artista refinadamente habilidoso. Seus cabelos azul-esverdeados ondulados, pele branca rosada, lábios carnudos e olhos longos e azuis. Era impossível localizar um único defeito estético nele. O aroma de rosas era quase sufocante.
— Hm! Que surpresa adorável! — disse, pousando a mão no peito com graça afetada. — E quem é essa criatura encantadora?
— Skamar. — Mu disse, calmo.
Afrodite lançou um olhar de cima a baixo, sorrindo com vaidade.
— Mu, querido, se não quiser, pode deixar ela comigo, viu? — piscou, rindo de seu próprio comentário.
— Passaremos, Afrodite. Obrigado — disse Mu com serenidade.
Finalmente, chegaram aos portões da câmara do Grande Mestre.
Mu virou-se para ela.
— Daqui em diante, o que eu disser será lei. Apenas me acompanhe e confie.
Ela assentiu, o coração disparado. As portas se abriram.
O ambiente era silencioso, imponente. O Grande Mestre, envolto em vestes escuras e máscara dourada que escondia sua identidade, os aguardava. A atmosfera mudou, pesada, misteriosa. Mu se ajoelhou. Skamar imitou o gesto, hesitante. Olhar para ele era como olhar para um juiz eterno, imparcial e inalcançável.
— Mestre — disse Mu — esta é Skamar. Ela estará sob minha proteção e servirá em minha casa. Solicito permissão para trazê-la ao Santuário.
O Grande Mestre permaneceu imóvel por longos segundos. A voz que ecoou era calma, grave, desumana.
— Sua vontade será respeitada, Mu de Áries. Mas olhos atentos vigiarão. A paz exige vigilância.
Skamar sentiu um peso invisível, uma força que não conseguia nomear. Baixou os olhos sem saber porquê.
Mu assentiu. Ao se erguerem, Mu sentiu um calafrio estranho , algo que seu coração intuiu, mas não compreendeu. O "sim" do Grande Mestre fora simples demais. Rápido demais. Algo não estava certo. Mas abafou o pensamento.
Guiou Skamar para fora.
Quando saíram da câmara, ela soltou o ar preso nos pulmões.
— Eu disse que era estranho — comentou Aldebaran, sacudindo a cabeça.
— Achei que o cara de chifres era assustador, mas... aquele lá me deu mais medo. — murmurou Skamar.
Aldebaran soltou uma gargalhada enquanto Mu sorria, cúmplice.
- E agora? — perguntou ela.
Mu sorriu.
- Agora vc faz parte do Santuário. Bem-vinda, Skamar. — disse Mu, estendendo-lhe a mão. — Sua nova casa.
Ela a segurou, sorrindo de volta. O caminho estava só começando.
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