Avesso

14 Capítulo 14 - Hamal


Já em casa, acordou logo no final da madrugada. Uma brisa gelada entrava por entre as frestas da janela rústica de madeira. O sol se levantava preguiçoso, afastando aos poucos o frio característico das montanhas altas. Saiu de seu quarto e podia ouvir a respiração pesada de Kiki no quarto ao lado, que dormia profundamente. Um pouco hesitante, olhou pela porta entreaberta do quarto que acreditava ser de Mu, chamando-o, mas não havia ninguém.

Desceu as escadas rumo a cozinha e a outro cômodo que parecia ser uma sala e também não o encontrou. Saiu para fora da casa. A neblina suave da manhã ainda pairava sobre o chão, o que dava ao lugar um aspecto ainda mais mítico. Andou descalça sobre a grama, apreciando a maciez úmida sob os pés. Não demorou a ver o rebanho solto poucos metros adiante. Entendeu então que Mu, como pastor, levantara logo nas primeiras horas da manhã, para cuidar dos animais e guiar-los até às águas. Resolveu então voltar à morada e preparar um agrado ao bom homem. Em poucos minutos voltou ao campo com um bule de chá de manteiga, pães frescos e um cobertor quentinho feito de lã de carneiro.

Andou por boa parte do gramado ao derredor sem o encontrá-lo, então decidiu afastar-se um pouco mais à sua procura.

Prosseguiu caminhando por entre a relva molhada, procurando com os olhos por todas as direções mal iluminadas pelos primeiros e frágeis raios de sol.

Era certo que o lugar lhe dava um pouco de apreensão. No ambiente, apenas o som do rebanho ao longe e de poucos grilos e insetos do mato. A natureza a noite se fazia um tanto misteriosa. Por sorte, contava com a ajuda de alguns vagalumes que sobrevoavam o lugar, para iluminar seu caminho. Atentava-se para não se distanciar do som dos balidos do rebanho, se afastando a uma distância segura.

Então o viu, sentado frente a um precipício. Estava em posição de lótus, mãos unidas à frente. O sol nascia bem diante dele, raios de sol emanando próximo ao lemuriano, lhe davam um aspecto quase divino de um anjo. Seus cabelos, presos ao meio do comprimento por uma fita rubra, dançavam suavemente com a brisa da manhã. A neblina que rodeava o ambiente lhe dava a impressão daquela bela imagem não pertencer a esse mundo. Ficou imóvel diante da visão. Mu claramente estava em meditação e a moça não quis atrapalhar. Sentou-se em silêncio na grama, nutrindo-se da paz que a imagem lhe proporcionava. Permaneceu assim por alguns momentos, decidindo voltar à casa, para lhe conceder aquele momento de solitude. Não chegou a ter tempo de expressar nenhum movimento, quando Mu, de repente, disse:

— Não vá embora, senhorita. Por favor, fique mais um pouco. — pediu, com uma suavidade que seria impossível negar qualquer pedido que fosse vindo dele.

Skamar arregalou os olhos, assustada. Como percebera sua presença, se não havia feito nenhum barulho, se o rapaz estava de costas para ela? Como sabia que pensava em ir embora?

Mu virou-se suavemente para ela.

— Venha, sente-se comigo. — sorriu.

Olhou para o penhasco. A visão das cordilheiras lhe tirava o fôlego, cada montanha salpicada de neve no topo, outras totalmente rochosas e outras várias com vegetação densa, acolhiam harmoniosamente corredeiras de rios em suas entranhas, tudo ornado pelo nascer do sol, era a visão mais bela que tinha visto até aquele momento.

— É lindo! — disse, olhando.

Ainda encantada com o que via, hesitou em dar alguns passos a frente por receio de sentir vertigem.

Ao perceber, Mu riu carinhosamente.

— Peço perdão Skamar, foi um pedido insensível da minha parte. Venha, vamos para debaixo daquela árvore.

Mu vestia um longo e pesado casaco de pele de animais, típico da região. Trazia em sua mão um cajado de pastoreio e calçava botas feitas de couro animal. Não tinha mais dúvidas, Mu realmente era um pastor de ovelhas e carneiros. Mas ainda havia algo... Algo que não sabia explicar... Tinha a constante sensação de que haviam mais coisas do que imaginava que não sabia sobre ele.

Sentaram-se aos pés de um cedro do Himalaia. Skamar o entregou a manta que trouxera, mas não havia percebido uma pequena falha:

— Senhorita, agradeço o cuidado. Mas estou muito acostumado com o frio matinal das montanhas, por favor, peço que a use.

— Não Mu, a use comigo! Não me importo. — disse, constrangida por ter pego apenas uma coberta.

Mu hesitou diante do convite.

— Por favor, não faça essa desfeita!

Chantagem emocional.

— Tudo bem, mas por favor, me avise se sentir desconfortável.

Uniram-se sob a mesma coberta e se serviram do chá. Mu tinha se esquecido de como era ser cuidado, de como era ter alguém a fazer-lhe uma gentileza, algo que se importasse com ele. Havia crescido sob uma educação dura e um treinamento rígido. Shion, apesar de ter sido, na concepção de Mu, o melhor mestre que alguém poderia ter e o melhor ser humano que conheceu, não era dado a mimos. O que era de se esperar, se tratando de um treinamento de um guerreiro dourado.

Era bom estar com Skamar. Não soube dizer quanto tempo passaram ali, mas fora o suficiente para conversar mais abertamente sobre a visão de mundo de cada um. Mu se encantava com a leveza e bom humor que Skamar enxergava a vida. Skamar se apaixonava pela sabedoria, serenidade e elevação do ariano. Passavam por conversas leves e divertidas, acompanhadas de muitos risos, até diálogos profundos e filosóficos capazes de revelar um pouco mais a alma de cada um. E em cada palavra que liberavam ou ouviam, tinham cada vez mais a certeza de que se completavam minuciosamente, como estrelas de uma mesma constelação, brilhando em uma harmonia infinita.

— Veja só, acabamos com o chá! — disse Mu, chacoalhando a garrafa, tentando retirar as últimas gotas — Você acertou a receita. — riu.

— Obrigado por tudo que está fazendo, Mu. Não tem o menor dever em fazer nada do que tem feito.

— Não há do quê agradecer, Skamar. Eu é quem devo agradecer por tão doce companhia. — sussurrou Mu, sem tirar os olhos da garota.

Foi então que a menina percebeu. Estava completamente, enlouquecidamente apaixonada pelo ariano. Senti-lo tão próximo, olha-lo tão de perto, encostados um ao outro para se aquecer debaixo do mesmo tecido... Notar o belo rapaz a fitando, os olhos verdes amendoados, a pele clara como uma porcelana, o rosto angelical e forte que se unia ao olhar bondoso sobre ela... Talvez tivesse deixado se levar pela paixão que sentia, que fez o momento lhe parecer oportuno... Mas procurou não pensar muito, apenas seguiu seus instintos... Fechou os olhos, oferecendo delicadamente os lábios para Mu. Não sentia os lábios de Mu se aproximarem em resposta, mas também não o sentia se afastar, era possível sentir sua respiração.

Talvez os tibetanos fossem mais tímidos. Talvez pela cultura da região fosse até um ultraje, sendo mulher, tomar a iniciativa. Talvez fossem estes os motivos da demora... Ou talvez não a achava atraente o suficiente. Talvez seu coração pertencia a outra mulher. Talvez...

...Foi então que, de repente, sentiu algo úmido tocar-lhe o pescoço, de cima a baixo. Um tanto surpresa, abriu os olhos. Foi então que o viu: um rosto enorme bem em frente ao seu, dois olhos redondinhos e um nariz enorme e molhado à sua frente.

— AAAAAAAAAAAAAHHHHH!!!!! — gritou, apavorada.

— MÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉÉ!!!!!!!!

Mu gargalhava deliciosamente, enquanto puxava o carneiro pelas patinhas traseiras.

— Hamal!!! Você não pode fazer isso com as visitas!!!! — ria enquanto falava, tentando se conter — Não foi essa educação que eu te dei!

Virou-se para a menina:

— Desculpe, Skamar. Esse é Hamal, veio lhe farejar para lhe reconhecer. É uma forma um tanto peculiar de fazer amizade. Mas tenha certeza que foi bem intencionado. — dizia, enquanto o provocava brincando com seus chifres.

Caminhavam pelo campo comendo os pães, felizes, apreciando a companhia um do outro. Mu não conseguia se recordar há quanto tempo não se sentia tão bem, como estava naquele momento.

Se permitiu esquecer por um breve tempo sua realidade, suas responsabilidades, sua missão. Por aquele dia, seria apenas um pastor de ovelhas a desfrutar o dia ao lado de sua nova hóspede. Secretamente, a vida simples de uma pessoa comum lhe parecia muito agradável.