Aves de inverno cantam Segredos
2 Sins e nãos
Notas iniciais
O primeiro dia de trabalho era sempre uma lista de sins e nãos. Não faça isso, faça aquilo. Absolutamente não incomode fulano, sempre consulte beltrano mesmo para as atividades mais simples. Não vá ali, permaneça lá, circule pelo ambiente, mas não pareça sem obrigações. Amelia estava acostumada com a dinâmica de primeiros dias de empregos, pois trabalhava desde muito nova em locais diferentes até se estabelecer por anos no seu último. Não seria diferente agora.
Mas, mesmo ouvindo sins e nãos, o primeiro dia não foi o que ela imaginava.
Sim, existiam outros funcionários: Alfonso, o jardineiro de meia idade, e o sobrinho, que lhe ajudava; Maria, a cozinheira, e Agnes, a lavadeira, que ausentara-se para ficar com a família por alguns meses. Não eram muitos, mas Lenora comentou que nem a poeira se dava o trabalho de subir a colina, de modo que a manutenção do casarão era simples. Sim, o lugar era maior do que pensou — e mais longe da vila mais próxima do que Amelia acreditava. Tinha andado tudo aquilo sozinha mesmo? E não, apesar das facilidades do encanamento e eletricidade, eles não tinham telefones, nem carro.
Foi um dia para conhecer o lugar, e Amelia carregava a incômoda impressão de que recebia o tratamento de uma hóspede. Ao mesmo tempo que se sentia ingrata pela desconfiança, a sensação enervante era inevitável: havia algo dentro de si esperando que a boa recepção se tornasse uma cobrança severa. Tentou não assumir coisas, mas manteve-se um tanto reticente. E, enquanto Lenora conduzia-a casarão adentro, os olhos de Amelia prosseguiam com uma minuciosa varredura.
Móveis de madeira eram maioria: mesas, estantes, aparadores, armários. Alguns tinham entalhes, outros reluziam com detalhes folheados em ouro. Felizmente, os estofados e tecidos agregavam mais cor aos ambientes, enquanto as janelas traziam mais luz. O que chamava a atenção da jovem de maneira especial eram os quadros antigos, quase todos de cenários da natureza e pássaros. Alguns eram de pessoas, retratos que mais pareciam heranças distantes devido ao transcorrer dos anos. Em um deles, havia uma mulher parecida com Lenora acompanhada de um homem. Talvez fossem os avós dela.
Ao fim, chegaram a um cômodo de tamanho médio com janelas ao fundo, tampadas por grossas cortinas magenta. Antes que os olhos de Amelia se acostumassem com a escuridão, Lenora adiantou-se para puxar os tecidos. O lugar cheirava a passado e um pouco de abandono.
— Aqui é onde irá gastar parte do dia, senhorita Morin. O escritório. Vai notar que… esse local estava fechado há um tempo. Mexi apenas recentemente.
Amelia assentiu. Supôs que Lenora fosse viúva e, no seu íntimo, considerava a possibilidade plausível: uma jovem senhora rica que precisava de ajuda para mexer nos pertences do falecido.
— Em resumo, desejo que organize esses documentos e livros. Eles precisam de uma ordem clara.
— Oh, sim.
— E, enquanto organizar esses papéis, preciso que encontre partituras. Uma composição em especial, para ser honesta. Não tem título, nem compositor. Mas você vai saber quando achá-la. Imagino que serão várias folhas. Depois disso… — Ela completou, mais para si do que para sua nova funcionária. — Poderei preparar tudo para tudo para partir no verão.
A jovem estreitou os olhos, sem discutir. Era um pedido curioso, mas sempre existiam pedidos curiosos feitos por patrões. Esse era o mais inócuo que Amelia já tinha ouvido. Ela passeou um pouco pelo escritório, vendo o misto de bagunça e do desgaste do tempo. Quis entender o que tinha se passado ali. Quem levantou perguntas, no entanto, foi Lenora.
— O que você era antes, Amelia?
A questão pegou-a desprevenida.
— Uma contadora. Secretária. — Ninguém. — Fui assistente de alguns empresários pequenos, mas meu último emprego foi como secretária de uma associação de advogados. Mas, como eu disse na carta, eu também me voluntariava na biblioteca municipal, então tenho noções de catalogação. Serão habilidades úteis.
Lembrou da biblioteca com saudades e amargura. O dia em que a senhora Clemonte, a bibliotecária, obrigou-a ler a vaga no jornal — sob a ameaça de uma bengalada — parecia já um dia muito distante. Mas, sendo sincera consigo mesma, a partir do momento em que teve seu coração partido e foi demitida, os dias pareciam todos iguais. Acordava de manhã, economizava café, evitava conhecidos na rua por vergonha. Não sabia se alguma fofoca havia chegado no proprietário do apartamento e temia o despejo. Chorava até o rosto ficar vermelho entre os livros empoeirados da biblioteca.
— E é o que você gostaria de ser?
— É o melhor que pretendo ou posso ser. Veja, eu… — Ela relaxou de ombros, com honestidade. — Eu não nasci com posses. Algo estável para mim deve ser o suficiente.
— E o que você deseja?
Um coração inteiro. Mas isso não era possível e ela não disse isso.
— Eu gosto de escrever. Não que eu seja muito boa ou que seja uma ocupação muito séria, mas… — Ela impediu sua língua de falar muito de si própria. Da última vez, os resultados foram desastrosos. — E a senhora? Digo, Lenora.
— Eu trabalhava com música. Mas isso foi há muito tempo. Também tive que me bastar com o que foi possível.
Amelia concordou sem entusiasmo, entendendo o tom resoluto da outra. Não era a única que evitava falar sobre os próprios problemas. Acompanhou o olhar de Lenora perdido no horizonte lá fora, entre as árvores e entre o vento que ainda parecia debochar da solidão daquela casa imensa.
Às vezes, Amelia achava que tinha algo de errado nos seus próprios olhos. Sentia que imaginava coisas, via detalhes que talvez não existissem. Quem sabe por isso ela tenha acreditado no amor sincero de quem pisou em seus sentimentos, quem sabe por isso existia essa impressão de compreender Lenora mesmo sem saber muito sobre ela, mesmo sendo tão diferentes uma da outra. A cor dos olhos dela eram iguais as cinzas da lareira lá do salão principal — um dia, isso é certo, estiveram muito acesos e vivazes. Hoje, não mais. Nas pausas de suas falas e explicações, Lenora se perdia e mexia na mão esquerda com os dedos, tentando tatear uma aliança que não existia mais em seu indicador.
De súbito, a patroa voltou ao momento presente.
— O seu pagamento será quinzenal, tudo bem? — Ela contornou a mesa, aproximando-se da porta. Sem dizer nada, convidava Amelia a acompanhá-la. — Também precisamos conversar de outros detalhes. Precisará de dias livres e tem restrições alimentares? Maria é judia e eu não como carne.
Amelia respondeu, completando aquele dia de sins e nãos. Sim, havia algo de errado com seus olhos e ouvidos. Enxergava minúcias inexistentes ou irrelevantes, atribuía significados ao escutar o vento. E não, ela não deveria insistir nos próprios erros. Isso lhe custou a paz antes. Portanto, Amelia reuniu todas essas observações que fizera de Lenora — essa sensação de familiaridade que podia ou não existir — e guardou-a em uma seção separada de seus pensamentos, para que não ocorresse o perigo de contaminar seu coração.
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