Aves de inverno cantam Segredos
1 Onde estão…?
Notas iniciais
Amelia Morin trazia consigo uma mala de mão, na qual pesava seu desespero e cabiam todos os seus pertences.
Chegar à frente daquela imensa porta de madeira não havia sido fácil: além da viagem de trem, o motorista contratado se recusou a prosseguir depois de determinado ponto, de modo que a jovem se viu obrigada a continuar o caminho sozinha. E se a noite já não estava escura o suficiente para mal se enxergar coisa alguma, a névoa então embaçava o luar — uma das únicas fontes de luz no ambiente. Amelia, no entanto, não desistiu. Subiu, subiu e subiu morro acima, orientando-se pelo caminho de pedra escorregadio e pelo fraco lume adiante, onde ela esperava que estivesse seu destino.
Não encontrou ninguém durante esse duro trajeto, só a vegetação que resistia ao frio. Tal fato impregnou-a de dúvidas. Era bom ou ruim não se deparar com desconhecidos em um lugar tão ermo? O questionamento, porém, não durou muito na sua cabeça abrigada por um chapéu inadequado para o frio. Melhor não pensar nisso e se convencer de que os únicos sons que chegavam aos seus tímpanos eram apenas barulhos de animais nos arbustos e galhos.
Com certa coragem, Amelia também afirmava para si mesma que enfrentaria tudo, tudo, para não ter que voltar. Não agora. Talvez nunca ou só em circunstâncias muito diferentes. Não podia se acovardar, afinal, tinha sido por isso que poupara tanto seu escasso salário para pagar o transporte.
— Olá? — Bateu de novo com a aldrava, seus dedos sentindo os detalhes do metal. Esperou um minuto e bateu mais forte, ainda que tímida, motivada pelo receio de não ter sido ouvida. Era tarde, ventava muito e a propriedade parecia grande. Talvez os empregados não tivessem ouvido. — Perdão pela hora, mas eu vim pelo anúncio. Eu… Eu tenho-o aqui comigo. Olá?
Amelia hesitou. Será que a vaga tinha sido preenchida? Não parecia difícil encontrar secretárias nos últimos tempos, muito menos quando as condições oferecidas eram tão atraentes. Mas a resposta da carta era positiva! Ela ficaria por pelo menos três meses, embora ela esperasse por mais.
O que havia fisgado Amelia no anúncio era a distância, embora a peculiaridade do cenário não fosse menos cativante. Trabalhar em um casarão no campo? Amelia nem havia conseguido juntar tempo, dinheiro ou oportunidade para viajar para o ponto turístico mais próximo de sua cidade. Ser paga para trabalhar e morar em um lugar que, imaginava ela, seria lindo na primavera parecia um sonho. Os proprietários deveriam ser muito ricos e ocupados, talvez esnobes, mas isso era o de menos para a jovem.
Já tinha sido obrigada a lidar com pessoas menos ricas, desocupadas e, ainda assim, esnobes.
Ela preparou a garganta para falar mais alto, feliz por ter lembrado-se de pegar um cachecol, quando o vento calou até seus devaneios. Soprou forte, o ar encanando entre as árvores, as paredes e vãos; abaixando ainda mais a temperatura com um uivo. Ventos assim era incomuns onde morava, tanto que ela se viu tomada por encantamento e terror. Seria o anúncio de uma nevasca? Soprou mais e mais. Amelia fechou os olhos e gritou por instinto, soltando a mala para segurar o chapéu. Nem um milhão de anos imaginaria que seus ouvidos pudessem captar os sons de flocos de neve colidindo — parecia até uma gargalhada, uma explosão de deboche infantil.
E então, tudo parou.
Quando Amelia enfim abriu as pálpebras, viu que a porta de madeira estava aberta. Ela endireitou o corpo, ajeitou os cabelos e acertou o chapéu. Não havia neve ao seu redor. Iria chamar de novo alguém, até que viu uma silhueta parada dentro do casarão.
Uma mulher da sua altura, talvez só um pouco mais velha. Ou quem sabe ela causasse essa impressão devido suas roupas antiquadas e o castiçal aceso na mão esquerda. Ela levou um segundo a mais para esboçar qualquer expressão, abrindo um sorriso calculado.
— Você deve ser a senhorita Morin, certo? Lamento por ter ficado no frio. — A jovem não reagiu imediatamente, ainda absorvendo a voz limpa da outra. — Por favor, entre.
Amelia fez menção de pegar a mala no chão, mas a mulher pegou-a com a mão livre primeiro e passou-a carregá-la com facilidade. Restou-lhe apenas a escolha de olhar para trás uma última vez, incerta se sentiria saudades do que deixou, e finalmente seguir adiante.
A grossa porta de madeira escura fechou-se sozinha.
Exceto os passos das duas no piso frio, fazia muito silêncio. Amelia seguia a outra sem questionar, talvez pelo alívio de não segurar mais nada e enfim ser recebida por uma temperatura morna, mas não deixava de lançar seus olhos para o ambiente amplo ao seu redor. A escuridão era entrecortada pela luz de velas e pelo luar difuso do lado de fora, que insistia entrar pelo vidro. Ao menos ela conseguia enxergar um pouco mais do que a simples silhueta dos móveis, podendo julgar que a pessoa responsável pela decoração tinha muito bom gosto. Era ultrapassado, mas de beleza inegável — o que podia ser dito também sobre a anfitriã.
— Notei que reparou nas velas, senhorita Morin. — A voz dela cortou as observações de Amelia enquanto subiam as escadas. — Estamos longe da cidade e por vezes falta eletricidade, ainda mais no inverno. Mas isso não é motivo para preocupação: temos lenha, velas e gás. E lamparinas a óleo também.
— Ah, sim. Por favor, você sabe me dizer se conhecerei os proprietários em breve? Não esta noite, é claro. Mas…
Estavam ao fim de um corredor, seguindo por um tapete macio e da cor de cerejas. A última porta adiante era escura, mas os entalhes saltaram aos olhos quando a mulher parou na frente, ainda segurando o castiçal. Ela colocou a mala no chão para pegar uma chave grossa e antiga; depois que abriu a tranca, entregou-a para Amelia.
— É verdade, esqueci de me apresentar. Perdoe a indiscrição, não recebo muitas visitas. Eu sou Lenora. E não faço questão que me chame por senhora ou pelo sobrenome, ele é muito desgastado e já nem o ouço mais.
O frio lá fora soprou no estômago de Amelia. Estava encarando a rica proprietária do casarão.
— Prazer em conhecê-la, Lenora.
Queria fazer mil perguntas. Não existiam outros criados? Teria ela se ofendido com a sua última pergunta? Afinal, Amelia jamais tinha conhecido patroa alguma que gostasse de ser confundida com uma funcionária. E por que esse vestuário fin de siècle como quem tinha testemunhado a inauguração da Torre Eiffel?
Não disse nada. Só acompanhou-a quarto adentro, tentando se sentir à vontade ao ver uma cama imensa com um dossel acima e móveis de puro mogno. Já havia velas acesas lá dentro.
— Deve estar cansada. — Lenora depositou a mala acima do baú de madeira à frente da cama. Ao ver o contraste do material de sua bagagem com a qualidade de tudo o que existia no casarão, Amelia sentiu-se pequena e ciente demais de suas próprias condições. — Felizmente, ainda há água quente. Você pode tomar um banho aqui na sua suíte e descansar. Amanhã, trataremos dos detalhes.
Amelia assentiu, empurrando seus sentimentos de lado. Buscava um trabalho, uma escapatória. Tinha conseguido ambos. Era suficiente. Não podia se contorcer pela própria inferioridade quando era, de fato, inferior.
— Certo, Lenora. Obrigada.
A expressão da outra tornou-se mais afável e só essa pequena alteração a fez estremecer. Teria ela enxergado Amelia através de seus cacos? Teria visto como ela era pobre, patética e desejosa em agradar? Mas a postura de Lenora não exigiu mesuras: ela apenas se despediu, desejando um bom descanso.
— Boa noite.
Foi sua última frase antes de desaparecer pelo corredor com o castiçal em mãos. Amelia, por sua vez, seguiu a sugestão e tomou um banho quente. Não quis pensar muito no cheiro bom do sabonete ou a textura macia do roupão; nem levantou questionamentos quando viu uma bandeja com chá quente e bolachas acima da penteadeira, para um pequeno lanche antes de dormir.
Mas Amelia passou muito tempo encarando os desenhos no dossel azul escuro, com diminutos bordados em branco. Pensou se eram estrelas, se eram flores ou se eram pequenos flocos de neve. Por fim, em algum momento da noite, ela fechou as pálpebras e esqueceu-se de tudo, da mala de mão que carregou por tanto tempo e de todo o amargo peso que trouxera consigo. Adormeceu enquanto o vento gargalhava lá fora.
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