Aventureira Solitária
4 Droga de Sentimentos
— Welcome to my sweet home, baby! – Falo alegre abrindo a porta de minha casa para Rony e jogando minha mochila no canto da sala. Rony faz o mesmo, rindo.
— Vamos pro seu quarto? Ver séries?
— Antes que tal um almoço? – Sugiro, morrendo de fome.
— Pipoca com brigadeiro? – Ele adivinha sorrindo.
Mordendo o lábio inferior eu sorrio e concordo com a cabeça.
— Pipoca com brigadeiro.
— Assim que eu gosto. Eu vou pegar o leite condensado no armário.
Ele vai para a cozinha e pega duas latas de leite condensado no armário de cima, eu pego a panela de brigadeiro e do lado um pacote de pipoca de microondas. E eu as coloco em seus respectivos lugares. A pipoca no micro-ondas; a panela no fogão.
Vou para o outro armário do lado do fogão onde pego o achocolatado em pó e uma colher na gaveta ao lado. Enquanto eu coloco o achocolatado desastradamente na panela, Rony coloca instantaneamente o leite condensado. Ligo o fogão e mexo o brigadeiro. Rony se senta na mesa que fica no meio da cozinha.
— Então, você não tinha nada para me contar, não? – Ele volta a tocar naquele assunto.
Mas porque fui abrir minha boca? Eu tinha que decidir falar o que sinto, sendo que nem eu sei o que sinto? Mas eu poderia escapar dessa situação... Não poderia? Que seja pular da janela e correr para o ponto de ônibus mais próximo! Eu poderia expulsá-lo de casa, alegando TPM. Eu poderia...
— Tinha? Não me lembro... – Desvio o olhar para a parede.
— Para de enrolar Mel!
— Talvez eu não queira mais te falar o que queria te falar.
— Isso é ilógico!
— Na verdade, é totalmente lógico, pessoas mudam de opinião.
— Não quero saber se mudou de opinião ou não. Quero saber o que tanto queria me contar.
— Me deixe terminar o brigadeiro, lá no quarto eu te conto. – Prometo.
Agora estou encurralada, sou um cervo inocente e trêmulo, e sua pressão para que lhe conte avança sobre mim sem dó, como um leão feroz e faminto. Eu estou nervosa, e se eu lhe contar, e ele virar as costas? E se ele falar que sou fria demais para seu gosto? “Seu gosto”? Mel! Você acha o que? Que você tem de se adequar às vontades dele? Nada disso! Ou ele te aceita do jeito que te conhece há sete anos, ou pode esquecer amizade! Calma Melody, ele também pode gostar do que você falar... Vocês podem ter um relacionamento perfeito com todas aquelas brigas, discussões sem sentido...
Ah, o brigadeiro já está pronto. Quanto tempo eu demorei em meus devaneios? Às vezes me perco... É até engraçado como eu perco a noção de tempo tão rápido e fácil.
— Comer na panela mesmo? – Pergunto e ele assente terminando de colocar a pipoca num pote. – Vamos deixar esfriar enquanto a pipoca não acaba.
Deixo a panela no fogão com o fogo apagado e ando até meu quarto com Rony atrás de mim comendo pipoca. Abro a porta e analiso cada centímetro de meu quarto, para ter certeza de que tudo está no seu devido lugar.
— Mel, o que está fazendo parada ai?
— Nada. – Minto e pulo na cama.
Ele me olha rindo e eu o convido a sentar ao meu lado, que é o que ele faz. Como pipoca aos montes e ligo a TV.
— Ah não! Eu esqueci... – Lamento e deito dramaticamente na cama.
— O que?
— Pegar o DVD e o controle da TV.
— Não vou levantar daqui não.
— Por favor.
— Não. – Ele deita de lado, o pote de pipoca entre nós. – Não até você me falar aquilo que você queria me falar.
— Esquece essa história, está bem?
— Não. Mel, porque tanto medo de me contar?
— Eu não tenho medo. – retruco franzindo as sobrancelhas. – Eu só desisti de contar.
— Você nunca desiste de nada. Anda Mel! Juro que nada vai mudar entre nós, vamos continuar os mesmos.
É isso que não quero. Algo tem que mudar entre nós. Mas discutir com ele às vezes é impossível, me levanto, sento na cama em cima das minhas pernas e ponho as mãos nos joelhos. Ele também se senta assim e põe a pipoca no chão.
— Você sabe que sempre fomos muito amigos, desde os dez anos... Realmente é muito tempo. E você sabe que nunca fui um gênio, que eu comecei a estudar todos os dias disponíveis até virar a melhor aluna do colégio, até ficar muito inteligente e... – Estou enrolando, de novo, ele não sabe onde quero chegar. – O que estou querendo dizer é: Você me ajudou, sempre, e acreditou que eu poderia ser perfeita. E então, nós começamos essa amizade... Com benefícios, e, mesmo quando estávamos com outras pessoas, nunca abandonamos esse nosso “caso”... E... Bem, não sei como é o amor, nem como é me apaixonar, mas o que eu sinto por você nesse momento provavelmente deve estar perto do que as pessoas chamam de se apaixonar. Eu comecei a sentir ciúmes de você com outras, quero você só comigo... Não me olhe assim, não estou brincando!
Eu lhe bato no braço, Rony estava rindo de mim.
— Desculpe, é que é muito engraçado, ver você tão aflita em dizer que gosta de mim.
— Você não está entendendo Rony, é mais do que... – Ele me beija. Ótimo jeito de me fazer calar a boca. Eu retribuo o beijo.
— Eu entendo perfeitamente. – Ele fala baixinho e continua me beijando.
Ele segura minha cintura me puxando para si, caímos na cama, damos risadas, mas não nos soltamos. Ele é tão idiota... Eu começo a tirar a blusa dele, e ele, a minha. Sinto o gosto salgado de seus lábios, sua pele morna, seu perfume... Ele cheira a livros antigos, e como adoro isso.
— Não sou obrigado a ver isso. – Eu grito com todas as forças, empurro Rony para o lado e ele também grita.
Tem um homem estranho no meu quarto, de frente para nós. Estou assustada demais para reagir, olho para Rony, só com sua calça, igualmente assustado.
— Por isso não devia dar camas de casal para jovens. – Ele comenta.
Seu cabelo é muito curto e moreno, ele usa uma roupa social e os braços estão cruzados.
— Não vão falar nada? Ficaram mudos? – Ele cobra respostas? MAS O QUE ESTÁ HAVENDO AQUI?
— Quem... Quem é você? – Empurro as palavras para fora. Estou muito assustada para qualquer coisa.
— Eu sou do futuro. E é só isso que vocês precisam saber.
Eu não me mexo, estou paralisada, meus olhos não piscam, minha respiração está acelerada, meu cérebro busca respostas que não tem, estou tremendo, estou com medo. Minha cabeça dói, não controlo meu corpo.
— Q-Quem... – As palavras lutam para sair de minha boca.
— Para de ser uma humana boba e comum! Já perguntou quem eu sou, e eu disse que sou do futuro, me chame de Max III, e vocês só podem saber isso. Mais nada. Agora, por favor, se vistam!
Olho de um lado pro outro procurando minha blusa, acho-a jogada no chão e a visto com pressa. Viro-me para Rony, que repete meus movimentos e levanta da cama. Também me levanto, encostando-me na parede.
O tal Max III olha pro meu teto e sorri.
— Estive em todos esses planetas e mais alguns!
Balanço a cabeça negativamente, rindo de nervoso.
— Impossível.
— Você, mais do que ninguém, deveria saber que o impossível é bem possível.
— O que você quer... Dizer com isso? – Ainda estou trêmula, com medo.
— Mel... Chama a polícia. É só um louco. – Sugere Rony, em voz baixa.
— Não sou louco, não chame a polícia, e eu te conheço Melody, sei toda a sua história.
— Que história?
— Mel! Pare de dar ouvidos a ele e chame a polícia! – Insistiu Rony, elevando a voz.
— Melody, eu sei que você nem sempre foi inteligente, que passou a estudar todos os dias, sem descanso, nos finais de semana e nas férias, assim, se adiantou muito na escola, e virou uma espécie de gênio. Sei que às vezes se arrepende disso, afinal, não conseguiu ser uma adolescente comum, e já não sabe como sê-la. Você é só uma maldita nerd.
Olho pro teto, fito Saturno enquanto prendo algumas lágrimas que queriam sair.
— Você não sabe nada sobre mim, agora saia da minha casa! – Eu grito ao final da frase, já não tremia de medo, mas de raiva.
— Você tem que vir comigo! – Ele pede.
Mas nunca que iria com um estranho!
— Saia daqui! – Agora eu avanço em sua direção, com ambos os punhos cerrados.
Empurro-o contra a parede, começo a socá-lo até Rony me segurar pela cintura e me puxar para longe daquele cara.
— Sai! Vai embora! – Grito com todas as minhas forças.
Ele me olha sério, sem esboçar nenhuma reação enquanto ainda tento pular nele e rasgar sua mandíbula. O homem louco apenas tira de seu bolso da calça um pedaço retangular de vidro e o deixa em minha escrivaninha e vai embora. Rony me abraça, mas eu não paro de fitar a porta que ele deixara entreaberta. Será que ele foi realmente embora? Corro pelo corredor à fora, até a sala, onde a porta que dá pra rua estava também entreaberta, passo por ela e paro em frente ao portão da casa, também entreaberto, vou para a rua, olho para um lado, ninguém, para o outro, ninguém também. Ele sumiu! Isso é impossível!
Rony aparece ofegante. Ele segura meus braços, creio que para me impedir de sair correndo novamente.
— Ele sumiu! Aquele louco sumiu! – Eu falo derrotada.
— Não importa... Vamos ligar pra polícia, está bem?
— E o que eles vão fazer? Aquele louco não roubou nada, não fez nada.
— Então... Vamos apenas entrar. Trancar a porta e o portão.
Ele me conduz para dentro, trancamos a casa. Deito na minha cama, cansada e sem vontade de fazer mais nada. Assisto Rony levar a pipoca pra cozinha e ligar o ventilador para arejar o quarto. Ele liga a televisão e põe numa série de ficção científica, senta na minha cama ao meu lado e eu deito minha cabeça em sua perna. Rony começa a me fazer um cafuné.
Esse foi o dia mais louco que eu já tive na minha vida. Minha mente ainda não conseguiu raciocinar direito. Sinto-me tão acabada... Cansada... Estou quase fechando os olhos, e o Rony me cutuca, chamando-me para conversar. Isso lá é hora?
— Você é a garota mais bonita e inteligente que eu já conheci. Nunca se esqueça disso.
— Por que está falando isso, justo agora? – Eu viro minha cabeça pra olhar em seus olhos enquanto conversamos.
— Porque eu sei que, por mais estranho que tenha sido aquela situação, o tal Max falou uma verdade, às vezes você se arrepende de ter se tornado tão inteligente. Mas eu a admiro por ter persistido tanto para ser quem é hoje. Algumas pessoas nascem com um tipo de dom, uma facilidade para aprender, você não teve isso e foi atrás. Aproveitou todas as chances que teve de estudar cada vez mais, construiu a mulher inteligente que você é. Nunca se arrependa disso. – Ele termina de falar e me dá um beijo na testa.
Sorrio para ele, e viro-me novamente para a televisão. Levemente adormeço, como se afundasse numa rede, tudo ao meu redor ia se afastando e escurecendo.
Fale com o autor