Aventuras cotidianas de uma livraria
1 CAPÍTULO I: Jane Petruchio e a Hora da Estrela
Notas iniciais
• Seu Moreira é o único personagem fixo de Aventuras cotidianas de uma livraria. A personagem Jane Petruchio e outros personagens futuros, podem aparecer mais de uma vez, em outra situação.
• Os capítulos podem variar de tamanho.
Em um cenário bucólico, digno de uma representação neoclássica, estava a Livraria Atena; com sua fachada já sofrendo as mudanças do tempo. Além da vitrine com algumas novidades literárias — e algumas publicações passadas; somente um letreiro indicava a presença do estabelecimento em meio outras construções ainda em moldes coloniais.
No interior da construção, um senhor que beirava os sessenta anos de idade espanava a discreta camada de poeira no tampo do balcão do caixa. Fazia aquilo todos os dias sem o menor problema, afinal, uma loja tem de ser bem cuidada para melhor atender sua clientela. Momentos depois, estava de vassoura em punhos e observava os discretos raios de sol iluminarem o chão de madeira.
Sempre preferiu cumprir as tarefas de limpeza cedo da manhã, deixando o resto do dia para receber as pessoas e resolver outras pendências. Assim era sua rotina de Gustavo Moreira por mais de vinte e cinco anos, totalmente dedicada aos livros e seus clientes.
Poucos eram os habitantes de Arcanjo Gabriel que conheciam seu primeiro nome, o pequeno empresário era conhecido pelo mítico apelido de “Livreiro das Laranjeiras” — por causa da localização de sua livraria, que ficava no bairro mais antigo da cidade. Mas nas relações pessoais, bastava alguém chamar “Seu Moreira”, que logo o homem vem abrindo seu costumeiro sorriso.
— Bom dia, Seu Moreira! — o homem levantou a cabeça e viu uma moça parada na porta da loja carregando um cesto de palha coberto por um pano de prato.
— Bom dia, Jane! — devolveu o cumprimento. — Como vai nesta manhã?
— Ainda com sono, mas sabe como pai é sagrado com os horários. — o livreiro riu baixo da reclamação. — Vim trazer os pães pro senhor, são da primeira fornada!
Jane Petruchio tinha 20 anos de idade, era a filha do meio de Venâncio, o único padeiro da cidade. Era uma das mais ávidas leitoras que Moreira já tinha conhecido, ela não tinha uma preferência de gênero literário; apesar de que se pudesse, leria todos os livros que tivesse chance.
Todos os dias a moça entregava pães para o livreiro à mando do pai, que mantinha amizade com Moreira há muitos anos. A filha do amigo desde pequena era frequentadora da livraria, muitas vezes, ia sozinha ou acompanhada por sua falecida mãe.
— Muito obrigado, doce Jane! — a moça sorriu. — Você poderia fazer o favor de subir e deixar os pães em cima da mesa da cozinha? Não posso interromper o trabalho agora.
— Claro! — a moça entrou cuidadosamente na livraria, indo na direção das escadas ao fundo do estabelecimento, enquanto isso o livreiro voltou a varrer o chão. — Prontinho! Deixei tudo em cima da mesa. — exclamou a jovem descendo os degraus.
— Oh céus, lembro-me de quando eu tinha meus vinte anos e podia ainda ser veloz. — Jane riu da lamentação cômica do livreiro.
— Seu Moreira, o senhor por qual nunca contratou ninguém para lhe ajudar a cuidar da livraria? — a moça questionou observando uma prateleira.
— Ora, apenas observe o tamanho desse espaço! Consigo cuidar perfeitamente da velha Atena e de suas histórias. Além disso, mesmo se eu quisesse, o lucro dá somente para pagar as contas e fazer alguns reparos.
— Mas o senhor já está ficando… — a mulher hesitou em continuar a falar, despertando uma expressão de curiosidade no outro.
— Velho? Os avanços do tempo são inevitáveis, Jane. O que temos de fazer é simplesmente nos cuidar para que esses avanços não sejam severos. — Jane respondeu com um sorriso envergonhado. — Vai levar algum livro, querida?
— Eu achei esse aqui… A Hora da Estrela, é sobre o que?
— É uma belíssima obra de Clarice Lispector, o enredo do livro é sobre uma moça alagoana chamada Macabéa que se muda para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. — o livreiro se aproximou da moça. — Vai querer levar?
— Me interessei pela história, entretanto, não tenho dinheiro aqui comigo.
— Aceite como um empréstimo, sei que vai cuidar direitinho dele. — os olhos de Jane brilharam com a resposta.
— Posso mesmo, Seu Moreira?! — a moça indagou surpresa. — O senhor pode contar comigo para cuidar direito do livro, prometo ler o mais rápido possível.
— Não tenha pressa, leia tudo com calma. — o senhor pegou o livro. — Fique aí, vou colocá-lo em um bonito papel de embrulho.
O livreiro escolheu uma embalagem especial de presente, era um papel colorido com estrelas, assim como título da obra literária. Embrulhou o livro cuidadosamente e ainda colocou um belo laço azul-marinho. Moreira talvez era o único dono de livraria no Brasil ou no mundo que também desempenhava o papel de bibliotecário.
Para um pequeno empresário desse ramo, cada lucro conta, mas não para Moreira. O mais importante para o homem era espalhar a leitura para todos aqueles que demonstrarem interesse. O amor pelos livros não deveria ter um valor estipulado, deveria ser espalhado, assim como a brisa.
— Muito obrigada! — Jane gratificou o mais velho ao receber o embrulho. — O senhor sempre me surpreende, sabia? — ele riu.
— É apenas um favor, você é uma pessoa amável, Jane. Posso confiar essa livraria nas suas mãos até de olhos fechados, entendeu? — a moça sorriu. — Mais tarde vou até a padaria para falar com seu pai e quitar o preço dos pães de hoje.
— Pode deixar que vou avisá-lo, agora preciso voltar, senão irei receber um sermão sobre atraso. — ambos riram. — Adeus, seu Moreira!
— Adeus, Jane!
Logo que a moça foi embora, Moreira guardou a vassoura na despensa. Dirigiu-se até a área de serviço, encheu um balde com água, colocou sabão líquido e pegou uma esponja. Foi limpar os vitrais da loja, voltando sua mente para se concentrar na limpeza.
Fale com o autor