Aventuras cotidianas de uma livraria
2 CAPÍTULO II: Marcelo, sua moto e Arcanjo Gabriel.
Notas iniciais
Marcelo estava “desbravando” o interior do país com a moto que havia ganhado do pai ao fazer 18 anos. Insistiu, insistiu e até arrumou um emprego de mecânico para juntar dinheiro suficiente para comprar o veículo, mas sem ele saber, o pai fez um acordo com o dono de um ferro-velho e comprou uma motocicleta seminova. Assim deu a brecha do filho fazer a manutenção necessária que o deixasse satisfeito.
O jovem ainda passou mais três semanas trabalhando na moto. Os amigos se perguntavam como uma coisa muito menor que um carro poderia tomar tanto tempo de Marcelo. Os pais já se encontravam preocupados. O filho passava a maior parte do tempo na garagem da casa, mal comia e mal bebia, dormia junto da graxa e das ferramentas. Tudo para deixar o presente igual ao seu desejo utópico.
Certa noite, Marcelo encontrou-se finalmente satisfeito com o trabalho feito em seu bem mais precioso e no dia seguinte, já de mochila pronta, anunciou que iria viajar e não sabia quando voltava. A mãe desmaiou na mesma hora — pobre coitada. Ia ter seu menino precioso somente por cartões-postais e telefonemas, porém, não deu tempo de reagir. No mesmo instante escutou o ronco do motor ficar cada vez mais longe de sua casa.
A mochila continha apenas o que era básico… na concepção do viajante em questão: algumas mudas de roupa, todo o dinheiro que já tinha economizado na vida, um leitor de cassetes portátil velho que milagrosamente estava funcionando, fitas cassetes de suas bandas favoritas, um caderno velho, uma caneta bic 4 cores, um lápis com a borracha na ponta, isqueiro e canivete. Agradeceu por ter feito a mãe desistir de doar a mochila de viagem que seu avô tinha lhe dado aos 15 anos.
Marcelo estabeleceu que iria ficar entre uma semana e um mês no mesmo lugar. Tempo suficiente para conhecer, relatar e arranjar um bico rápido pra manter sempre o “cofrinho cheio” e não ficar desprevenido, mesmo sendo controlador com seus gastos. A quantia que tinha levado era reservada para três coisas: gasolina, comida e dormida; porém com um pouco de simpatia e charme, os dois últimos quase sempre saíam de graça.
Depois de 2 meses de viagem, Arcanjo Gabriel havia entrado na rota do rapaz. Estranhou logo que sua moto era o único veículo passando pelas ruas de bloquetes de concreto, reparou que todos os estabelecimentos estavam fechados, olhou para o enorme relógio na praça central e viu que faltava dez para às três da tarde. ''Será que eles pararam pro almoço?'' — ele pensou.
— Olá! Tá perdido? — escutou alguém falar e virou na direção do som. Viu um mendigo maltrapilho segurando uma garrafa vazia dentro do coreto. — É forasteiro?
— Sim! — retirou o capacete — Tô viajando por alguns meses. Soube dessa cidade e resolvi visitar. Sabe de algum lugar onde posso pedir informação?
— Tem a livraria Atena, o dono de lá pode te ajudar. — respondeu desconfiado — Dizem que ele sabe de tudo no mundo.
— E onde que fica?
— Vira na rua à direita e vai reto por uns quatro quarteirões, vai chegar numa rua cheia de árvores. — o homem direcionou com os braços o caminho. — Deu… pra entender?
— 'Brigado' moço! — Marcelo recolocou o capacete e foi seguindo a orientação do mendigo, rapidamente encontrou a rua cheia de árvores. O viajante resolveu seguir a pé e estacionou sua moto em frente a uma casa fechada, por sorte, logo achou a vitrine de livros. — Nossa que rápido.
O jovem passou um tempo olhando os livros expostos, enquanto isso, do outro lado, Moreira estava listando os novos livros que haviam chegado naquela manhã. Marcelo encarou a interessante figura parada atrás do balcão e sentiu timidez, ele não queria interromper o serviço do proprietário que aparentava estar tão focado.
Quis desistir de vez e ir embora da cidade, entretanto, em um ímpeto corajoso o rapaz entrou na loja, determinado a falar com aquela pessoa tão curiosa.
— Achei que você ia ficar só olhando a vitrine! — exclamou o livreiro. — Quase 5 minutos parado, estava para te chamar lá fora.
— O senhor… me viu… aquele tempo todo? Supus que não tivesse reparado. — Marcelo respondeu constrangido a reação de Moreira. — Parecia que olhava diretamente pros papéis.
— Esse trabalho me deu o “dom” de conseguir prestar atenção à mais coisa de cada vez, filho. — o mais velho sorriu. — Diga-me, vens de onde? Conheço todos nessa cidade e você é estranho para mim.
— Ah, perdão! Meu nome é Marcelo Sousa, sou um viajante de passagem pelo interior do Brasil. — Marcelo meneou a cabeça para cumprimentar o livreiro. — O mendigo que mora na praça disse que eu poderia vir lhe pedir informação, alegou até que o senhor “sabe de tudo no mundo”.
— Bafo de bode é uma graça mesmo. — Moreira riu. — Mas diga, no que posso lhe ajudar?
— Sabe se aqui tem uma pensão para que eu possa me hospedar? Pretendo passar uns dias na cidade.
— Tem a pensão da Dona Aurora, mas não sei se será de seu agrado. — o homem hesitou, deixando o jovem curioso.
— Acho que não o compreendi.
— Durante o dia funciona como uma hospedagem qualquer, no turno da noite funciona como uma espécie de casa noturna, se é que me entende. — a mente de Marcelo não era mais tão infantil desde os 14 anos, conseguiu compreender o que Moreira havia dito.
— Não me importo. — ele riu discreto. — Agradeço pela indicação.
— Não foi incômodo nenhum, meu jovem! Imagino que esteja cansado de tanto pilotar. Tenho certeza que Aurora irá lhe receber como um filho.
— Obrigado mais uma vez pela recomendação, o senhor me ajudou demais. — Marcelo sorriu. — Enquanto eu estiver na cidade, pode contar comigo no que for.
— Ora rapaz! — o livreiro exclamou — Tens de aproveitar sua estadia para conhecer as redondezas de Arcanjo Gabriel e não ficar entocado em uma velha livraria.
— Então, para compensar, posso pagar por um livro?
— Já sei até qual irei lhe recomendar. — o mais velho saiu de trás do balcão indo até uma prateleira menor e mais escondida das outras. Demorou alguns minutos até achar o título que procurava. — Perdão a demora, este estava mais escondido. — desculpou-se com Marcelo ao lhe entregar o livro em questão.
— On The Road de Jack Kerouac? Não conheço esse escritor. — falou o rapaz enquanto folheava as páginas, já começando a ficar amareladas por efeito do tempo.
— Esse livro é sobre uma viagem do autor com seu amigo pela rota 66, nos Estados Unidos. Ajudou a encorajar uma geração a largar a barra da saia da mãe e botar o pé na estrada no final dos anos 50. É o grande representante dos beatniks.
— Nossa… tudo isso? — os olhos do mais novo brilhavam de curiosidade. — O senhor já leu?
— Há muito tempo. Garanto que não irá se arrepender, acho que até vai se identificar com escritor.
— E quanto custa?
— Apenas dez reais. O que acha?
— É um preço justo, senhor. Muito mais que justo para um livro especial. — Marcelo retirou a sua mochila das costas, abriu um dos bolsos laterais, pegou sua carteira, tirou duas notas de cinco e as entregou para o livreiro. — Agora preciso ir, deixei minha motocicleta sozinha faz muito tempo.
— Tenho certeza que sua moto está bem, o máximo que pode acontecer é o vento levar poeira pros retrovisores e só. — o livreiro acalmou o mais moço enquanto guardava o dinheiro no caixa. — Ah! Antes que vá, aceita uma sacola ou pretende guardar sua compra na mochila?
— Coloco na mochila mesmo, já dei trabalho demais prum dia só.
— Trabalho nenhum, garoto! E apareça aqui na livraria antes de ir embora. Gostei muito de conversar com você. — Marcelo abriu o bolso maior da mochila, conseguiu o livro junto com suas roupas de um jeito que pudesse ficar amortecido, fechou o zíper e pendurou a mochila nas costas.
— Também gostei muito de conversar com o senhor. Sabe que o mendigo tinha razão? O senhor pode até não saber de tudo no mundo, mas muita coisa tenho certeza que conhece. — os dois ali presentes riram. — Foi um prazer lhe conhecer, seu Moreira. Ai! Já ia esquecendo de pedir o endereço da hospedaria.
— É claro! Volte um quarteirão, vire à esquerda, e ande dois quarteirões. Quando enxergar o casarão dos portões verdes, vai saber que chegou ao seu destino. Muito complicado?
— Claro que não! Mais uma vez tenho de agradecer por ter salvo a minha pele. Nos vemos depois, seu Moreira?
— Volte quando terminar o livro! Assim podemos conversar sobre o assunto. Combinado?
— Combinado! — Marcelo respondeu empolgado, assim, se despediu do livreiro que logo voltou a sua tarefa de contabilidade da semana.
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