Observo Steve, ele lutava sozinho contra uma horda de robôs. Lanço uma lança de gelo, matando um robô que estava prestes a atacá-lo.

O céu sobre Sokovia tremia, como se a própria atmosfera estivesse prestes a ruir. As nuvens, carregadas de fumaça e relâmpagos, lançavam sombras que pareciam engolir a cidade em fragmentos. Eu corria ao lado do Capitão América por uma avenida dilacerada por explosões, as fachadas dos prédios desfiguradas pelo calor e pela violência. A cidade suspensa rangia sob nossos pés, e cada passo parecia ser o último.

— Aloy, direita! — a voz de Steve cortou o estrondo ao redor.

Girei o corpo instintivamente, criando uma lança de gelo com um gesto fluido. Lancei-a com força contra o robô que emergia das chamas de um carro em chamas — o projétil atravessou sua cabeça metálica com precisão, estilhaçando-a como vidro. Um segundo depois, o escudo de vibranium passou por cima do meu ombro e ricocheteou contra dois autômatos atrás de mim.

Steve recuperou o escudo com um giro ágil, os músculos tensos, o olhar determinado.

— Eles estão tentando nos cercar! — gritei, ofegante.

— Então vamos dar um jeito nisso — ele respondeu, e correu em direção ao próximo grupo, como se cada passo dele contivesse a força de toda uma nação.

Corri logo atrás.

Os robôs vieram em massa — braços estendidos, garras faiscantes, olhos vermelhos e ocos. Uma centena de peças sem alma, guiadas pela programação de um monstro.

Steve saltou sobre um deles e cravou o escudo em seu peito com um grito, derrubando-o no chão. O impacto reverberou no concreto, abrindo fissuras. Outro tentou agarrá-lo pelas costas, mas antes que o fizesse, concentrei meu poder. Uma geada azulada envolveu meus braços e, com um movimento largo, invoquei uma onda de gelo que congelou o robô instantaneamente, transformando-o numa estátua trêmula.

Steve a chutou com o calcanhar. A carcaça rachou e caiu em pedaços como um espelho quebrado.

— Belos reflexos — ele comentou com um meio sorriso.

— Apenas tentando acompanhar você.

A luta continuava. Movíamos-nos em sincronia — ele com sua força, precisão e disciplina, eu com meu controle cada vez mais feroz e instintivo sobre o gelo. Onde ele abria caminho com o escudo, eu fechava com muralhas cristalinas, criando rotas seguras para os civis ainda tentando fugir. Os robôs tentavam flanquear, mas não contavam com a união entre fogo e gelo, estratégia e caos.

Um dos drones maiores voou baixo, liberando uma saraivada de tiros. Steve ergueu o escudo e se posicionou na frente de uma família presa atrás de um carro virado. As balas ricochetearam contra o vibranium, mas eu senti o perigo. Concentrei a energia em minha coluna, senti o frio subir até a nuca, e então projetei uma tempestade vertical. Os flocos dançaram no ar e, num segundo, o robô voador despencou, coberto de gelo e incapaz de manter o voo. Ele caiu como um cometa metálico diante de nós.

Respirávamos pesadamente. A batalha não dava trégua. Os sons dos outros Vingadores lutando ecoavam pelos quarteirões — Wanda gritando ao longe, os relâmpagos de Thor riscando o céu. Era uma guerra de deuses e monstros, e eu estava bem no meio dela.

Olhei para Steve. Havia arranhões em seu rosto, suor misturado com fuligem. Ainda assim, seus olhos estavam calmos, firmes.

— Ainda temos tempo — ele disse, ajustando o escudo no braço. — Vamos destruir esse plano peça por peça.

Assenti, os punhos cerrados, o frio se acumulando novamente à minha volta.

— Que venha o próximo enxame.

E voltamos à luta. Porque falhar não era uma opção.

A cada passo, a cada movimento em que evocava o poder que vibrava sob minha pele, sentia que algo dentro de mim escorregava, como gelo que começa a trincar sob o próprio peso. A rua diante de nós estava coberta por neve fina — neve que eu não lembrava de ter chamado. Os flocos caíam do céu negro, mas não vinham das nuvens. Eles nasciam de mim.

— Aloy, precisamos recuar! — Steve gritou, puxando uma criança pelo braço enquanto um prédio cedia atrás de nós.

Assenti, mas minhas mãos não obedeceram. Ainda erguidas, tremiam, azuis até os ossos, cercadas por uma aura gélida que crepitava como vidro se partindo. Uma rajada de gelo escapou de mim, sem que eu ordenasse. Ela atingiu um robô… e um poste de energia, que explodiu com um estalo agudo. Faíscas choveram sobre os destroços. Steve lançou um olhar rápido para mim. Não disse nada. Mas eu vi nos olhos dele: preocupação.

Não pelo inimigo. Por mim.

— Há civis presos no mercado — ele anunciou. — Vou atrás deles. Você consegue segurar aqui?

Tentei sorrir. Não consegui. Apenas acenei.

Assim que ele se afastou, os robôs vieram novamente. Uma dúzia deles, as garras faiscando, os olhos vermelhos como feridas abertas. Meus pés cravaram-se no chão. O frio dentro de mim deixou de ser controle — era fome, puro instinto. Ergui os braços e, como uma onda do Ártico, liberei uma muralha de estalactites que se ergueram do solo, perfurando os autômatos como lanças.

Mas não parei. Não consegui parar.

Girei o corpo e lancei outra rajada — o chão rachou. Congelei uma vitrine sem querer. Os vidros explodiram para fora, atingindo um carro com um casal abrigado. Eles gritaram.

Eu gritei também, tentando conter, puxar de volta o poder... mas ele não me ouvia mais.

Meus pensamentos estavam borrados. Os sons da batalha se distorciam, abafados como se eu estivesse sob a superfície de um lago congelado. O mundo se tornava uma paisagem pálida e silenciosa, onde cada passo que eu dava deixava uma trilha de neve que não derretia.

Mais robôs. Mais destruição.

Girei e os enfrentei, punhos envoltos por camadas de gelo puro. Uma explosão atrás de mim. Escombros caindo. Um robô tentou me agarrar e eu congelei seu braço, depois arranquei-o com um puxão desesperado. Meus olhos se refletiam na carcaça metálica partida: não eram mais meus olhos. Eram fendas azuis brilhantes, como se a Joia do Espaço tivesse me tocado por dentro.

“Você é feita disso”, Thor dissera.

Mas e se eu não fosse feita para conter?

E se tudo isso... fosse só prelúdio para a minha ruína?

Steve reapareceu do beco, com sangue no rosto e dois civis nos braços. Ele os depositou atrás de um carro e correu até mim. O ar ao meu redor estava tão frio que o vapor saía da boca dele com cada respiração.

— Aloy, você precisa parar!

— Eles continuam vindo! — minha voz soou mais aguda do que eu gostaria. — Eu... não posso parar! Eu não consigo!

Ele se aproximou, firme, ignorando o frio que queimava a pele.

— Lembre-se de quem você é! Lembre-se por que está lutando!

Fechei os olhos. Tentei puxar ar. Tentei lembrar do que me ancorava.

Natasha. Katherina. Tony. Thor. Steve.

Minha própria humanidade.

Soltei o ar em um único gesto e deixei o gelo recuar. Não sem dor. Como se rasgasse minha carne de dentro para fora. Caí de joelhos. O frio recuou. Mas o medo não.

— Eu sou um perigo — murmurei. — Não só pra eles… pra todos nós.

Steve ajoelhou ao meu lado.

— Não. Você é o que está mantendo essa cidade de pé. Continue lutando, Aloy. Mas não contra eles… contra isso aqui dentro. — ele pousou a mão no meu ombro. — E lembre-se: você não está sozinha.

Respirei fundo. A neve parou. Mas lá no fundo, o inverno ainda me observava.

Esperando.

E eu sabia… ainda não havia acabado.

— Aloy, honestamente… — ouvi Stark pelo comunicador — Precisamos de pessoas perigosas agora.

Contenho o sorriso e acompanho Steve até um local seguro, no qual guiávamos os civis da região.

— Liberamos uma área, mas a próxima onda virá logo — Steve falou para mim e para o comunicador — Pensou em algo, Stark?

— Nada de bom — ele respondeu — Talvez uma forma de explodir a cidade. Impedirá o choque com o solo, se conseguirem sair…

— Pedi uma solução e não um plano de fuga — comentou Rogers, se afastando de mim.

— O raio de impacto aumenta a cada segundo — Stark respondeu, podia ouvir a conversa dos dois pelo comunicador em minha orelha — Teremos que fazer uma escolha.

— Essas pessoas não vão a lugar nenhum — comentei, vasculhando o prédio.

As pessoas estavam sujas, machucadas e aterrorizadas. Por mais que tivéssemos tentando evacuar a cidade antes do confronto, ainda havia muitos cidadãos.

— Se Stark achar um jeito de explodir a cidade…

— Ele não explodirá até que todos estejam a salvo — Rogers me corta e eu olho para fora do prédio, ele parecia olhar o horizonte.

— Todos aqui em cima contra todos lá em baixo? — Natasha questiona pelo comunicador — A conta é fácil!

— Não sairei daque enquanto houver civis — Rogers respondeu rispidamente.

— Eu não disse que deveríamos sair — Natasha retrucou — Há formas piores de morrer…

— Que bom que todos estão gostando da vista… Vai ficar melhor ainda — Falou uma voz conhecida pelo comunicador.

Saio do prédio e me aproximo de Steve. Um barulho de motor preenche o ar, era uma grande espaçonave de carga da SHIELD.

— Legal, né? Tirei ela de um depósito com ajuda de alguns amigos… Ela está empoierada, mas servirá! — era Nick Fury pelo comunicador.

Não consigo conter o sorriso.

— Fury, seu filho da mãe — Steve comentou.

— oh… Você beija a sua mãe com essa boca? — Fury brinca

A espaçonave-mãe libera pequenas naves de carga, perfeitas para encaixar os civis.

— Isso é a SHIELD? — escuto Pietro perguntar, se aproximando de mim.

— É o que ela deveria ser — comento, contendo a alegria em meu peito, havia ainda muito trabalho pela frente.

— Vamos carregá-los — Steve ordenou quando as naves de evacuação de civis se aproximou da beira da cidade flutuante.

Corremos para ajudar na evacuação. O ar vibrava com o som das hélices das naves da S.H.I.E.L.D., misturado ao rugido dos robôs que ainda persistiam como pragas de aço. As passarelas metálicas se estendiam pelas bordas da cidade suspensa, e as primeiras famílias começaram a embarcar — crianças carregadas às pressas por mães de olhos arregalados, velhos apoiando-se em estranhos, soldados tentando manter a ordem em meio ao caos.

O frio em mim ainda não havia desaparecido. Sentia-o latente, como uma fera domada apenas por cansaço. Mas mantinha o controle, porque precisava. Porque agora não era mais sobre lutar com força, mas com propósito. Ajudei uma mulher a subir na rampa, seu braço sangrando, os olhos perdidos. Ela apertou minha mão como se eu fosse a última âncora entre ela e o fim do mundo.

— Vai ficar tudo bem — disse, sem saber se acreditava nisso. Mas naquele momento, ela acreditou.

Steve estava em todos os lugares ao mesmo tempo, coordenando, gritando ordens, protegendo cada canto como se fosse seu lar. Vi-o erguer o escudo para interceptar uma rajada de tiros que teria atingido um grupo de crianças. Elas correram, e ele tombou para o lado, um corte fresco no ombro. Antes que pudesse ir até ele, Stark desceu do céu, envolto em luz dourada, disparando feixes de energia contra os robôs remanescentes.

— A festa ainda não acabou — Tony comentou, pairando no ar como uma estrela de guerra.

Thor aterrissou com o trovão, abrindo uma cratera no concreto. Relâmpagos riscaram o céu ao seu comando, eletrocutando uma leva de inimigos que avançava pelas laterais. Wanda apareceu em seguida, os olhos rubros como brasas, e varreu uma fileira de robôs com uma onda telecinética que retorceu metal como papel.

— Está funcionando — murmurou Steve. — Estamos vencendo.

Mas eu sabia. Ainda não havíamos vencido. Porque no centro de tudo, lá no alto da cidade suspensa, estava Ultron.

— Ele não vai parar — disse. — Enquanto houver energia na cidade, enquanto a queda ainda for possível… ele vai tentar.

— Então subimos — respondeu Steve. — Chegou a hora de terminar isso.

Olhei em volta. As naves estavam partindo uma a uma. Civis em segurança. Ainda restava parte da cidade a ser limpa, mas agora, o confronto final era inevitável.

— Você está comigo? — ele perguntou.

Assenti. O frio retornava aos meus dedos, mas agora era meu. Meu aliado. Minha arma.

— Sempre.

Subimos pelas ruínas, passando por destroços e silhuetas de robôs despedaçados. O vento açoitando nossos rostos como lâminas. Em cada passo, sentia a vibração do solo, como se a cidade sussurrasse seu último lamento. Ao longe, vi Ultron. Solitário. Majestoso. Frio como aço forjado em ódio.

E enquanto a última nave partia, deixando rastros de fumaça e esperança no céu, eu soube: aquela seria a luta derradeira. Não apenas entre heróis e vilões.

Mas entre o que somos e no que podemos nos tornar.

A guerra ainda não havia acabado. Mas nós também não.

Notas finais
Espero que tenham gostado!