Avec mortem

2 Um Corpo na Piata Unirii


23 de janeiro. Arredores da Piața Unirii, Timișoara, Romênia. Madrugada.

Outra noite comum. Outra pessoa morta. O Detetive de Homicídios suspirou.

Ao contrário da grande maioria de seus colegas de profissão na pouco pacata cidade de Timișoara, Radu Ionescu gostava do que fazia. ''Sangrento, violento e de embrulhar o estômago na maioria das vezes, mas também tem seu lado poético'', respondia a qualquer um que lhe perguntasse sobre o trabalho, discussões morais e filosóficas à parte. E o que dizia não deixava de ser verdade.

A vida na famosa Mica Vienă — pequena Viena — romena sempre teve seu charme, mesmo nos tempos mais difíceis da história do país. Com muita influência austríaca, tanto na arquitetura quanto nos costumes, a cidade era conhecida por muitos por sua gastronomia, boa música e vinho maravilhoso.

Mas nem tudo eram flores, mesmo no paraíso. Timișoara também era uma cidade universitária — o que, para um detetive, significava muitas vítimas jovens, atropelamentos por embriaguês ao volante, overdoses e egos adolescentes tornando tudo mais estranho. E, claro, o fato do resto do mundo só se lembrar da Romênia quando alguns assuntos em particular vinham à tona: ginástica, castelos e vampiros.

Depois de estacionar seu Logan — de cor prata e um pouco antigo, fabricado pela Dacia e provavelmente o carro que mais circulava nas ruas no momento — em uma das vias secundárias mais afastadas da cena do crime, o detetive Ionescu apagou o cigarro que fumava, tendo em mente a intenção de fazer uma pausa rápida para pegar um café, numa tentativa de amenizar o frio de janeiro, que parecia correr pelas ruas da cidade como um vampiro fugindo de uma cruz. Radu sorriu levemente para si mesmo com a comparação, enquanto adentrava uma cafeteria próxima.

Um dos maiores charmes da também chamada ''Cidade das Flores'' era a Piața Unirii, a famosa Praça da União. Uma das muitas praças renomeadas para comemorar a queda do regime socialista, era um monumento padrão em quase todas as cidades romenas de grande porte.

Situada no centro da parte velha da cidade, entre enormes vias de pedestre, prédios históricos e cafeterias, a Piața era um destino certo para turistas. A catedral de São Jorge, estabelecida ali perto, era uma das construções de maior valor de estilo barroco de todo o Banat, e mesmo no meio de um inverno mais rigoroso do que o normal, não era tão incomum encontrar pessoas falando inglês ou alemão ali por perto.

Porém, naquele momento, a praça encontrava-se isolada por fitas listradas, amarelas e negras, assim como a calçada de pedra pálida que, quase sempre tomada por movimento, estava vazia, salvo por ocasionais flocos de neve que ainda caíam leves sobre a cidade.

Radu verificou seu relógio de pulso prateado: 2:06 da madrugada, cerca de meia hora depois da ligação anônima anunciando a presença de um corpo bem no meio da Piața Unirii, próximo ao chafariz.

Seguindo em passos lentos, mas firmes, o detetive se aproximou da cena com o maior cuidado, concentrado em limpar sua mente de qualquer preocupação ou distração que pudesse tirar seu tino, focando apenas na bebida quente em sua mão, e mais nada.

Aquele era um exercício necessário. Brincadeiras e floreios à parte, o rapaz sabia da importância e das consequências de seu trabalho, tanto para a cidade como para a família de cada uma das infelizes vítimas que acabavam como objeto de investigação, e mesmo com a pouca idade — faltavam poucos meses para que chegasse aos 30 — , tratava tudo com excepcional importância. Mas nada poderia mudar o fato de que as coisas eram como eram.

Mais uma noite comum. Mais uma pessoa morta.

A praça se iluminava com a luz dos faroletes dos carros policiais, adicionando tons vermelhos e azuis à fantasmagórica luz do luar. Nada parecia muito diferente dos crimes ocasionais da cidade, ao menos, não da distância em que Radu se encontrava; porém, nenhuma cena de crime era igual a outra.

Do cheiro ao som, da pele corada até a lividez total, cada corpo tornado objeto de investigação contava uma história; fosse ela um conto de terror e horror, regado a sangue, lágrimas e injustiça, que deixava sempre um gosto amargo na boca e um leve desespero no peito, ou uma história suave e melancólica, contada quase que ao pé do ouvido, com divagações sobre o tempo e o verter de toda a tristeza que a interrupção de uma vida carrega.

Pronto para começar, o detetive então aproximou-se, notando que alguns colegas de trabalho já se encontravam na cena. Cumprimentou-os com um boa noite curto, ainda sorvendo o líquido quente do copo em sua mão, não recebendo nenhuma palavra em retorno. Todos os olhares dos presentes fixavam-se no corpo semi coberto e iluminado que jazia sob eles, e nada mais.

Posicionando seu café em uma mureta a uma distância segura do corpo, Radu calçou as luvas e levantou um pouco mais o pano que cobria a vítima, concluindo imediatamente que se tratava de uma mulher de meia idade.

As roupas, quase intactas, exceto por alguma umidade, não pareciam ser sofisticadas. Seus sapatos já tinham visto dias melhores, além de serem impróprios para a temperatura que fazia. A pele, empalidecida pela morte, demonstrava cuidado, assim como os longos cabelos dourados, brancos na raiz.

A senhora dava a impressão de simplicidade, porém, existia certo esmero em sua aparência; o tipo de capricho que se aprende por necessidade, mais do que por zelo. As unhas, provavelmente pintadas para esconder o amarelado do cigarro que os dentes já portavam, eram de uma cor púrpura profunda, tão profunda quanto as duas pequenas perfurações que se evidenciavam na pele pálida do antebraço. Nem mesmo uma simples gotícula de sangue se encontrava no ferimento que parecia ser a causa da morte. Anéis, brincos e pulseiras continuavam intactos, inclusive um anel com pedras azuladas que o detetive sabia, apenas de olhar, que tinha sido um item caro. Resquícios de uma vida anterior, talvez? Seria essa mais uma história de amargura que termina em tragédia?

Radu percebeu que existia também, sob a vítima, uma pequena bolsa, com uma carteira e um telefone celular, de um modelo simples, além de chaves, um crachá de um restaurante das redondezas e algumas contas vencidas. Do fundo da carteira, uma moça de não mais de 30 anos sorria, em uma foto 3X4 velha, presa a uma Carte de identitate expirada e que continha o nome que, provavelmente, estaria na próxima edição do Timisoara Times: Daria Marianna Eliade. Pelas contas do detetive, uma mulher de 57 anos.

A impressão era de que a vítima não tinha oferecido resistência, dado as circunstâncias: não havia sinal de luta; não existiam hematomas que poderiam ter se formado logo antes da morte, nem mesmo parecia ter tecido por debaixo das unhas: algo oposto ao que era de se esperar, visto a proximidade necessária para que as perfurações fossem efetuadas e a aparente drenagem se completasse. Não bastasse tudo isso, havia algo que, de cara, passou a incomodar Radu.

Não mais do que sessenta centímetros distante do corpo jazia, destravada, uma pistola modelo FN Baby Browning, gasta pelo tempo — ou pelo uso — que não parecia se encaixar na cena do crime.

O detetive voltou a verificar a bolsa. Haviam resquícios de ferrugem na parte interna do tecido, o que também, após reexaminar, igualmente parecia se encontrar em uma das mãos da vítima. Verificou o pente da arma; duas balas faltavam. Talvez alguns disparos tivessem sido efetuados. Mas olhando ao seu redor, Radu não identificou, mesmo com as luzes acesas, nenhum tipo de marca de sangue ou trilha deixada por um possível assassino ferido; além disso, seria uma tarefa hercúlea procurar por uma bala no meio de toda a neve, e só um exame residual completo poderia comprovar a existência de pólvora. Teria ela atirado ao nada quando foi atacada? Quais são as chances de ela ter acertado? Céus, quais são as chances de ela ter atirado? pensou o detetive.

As histórias contadas pelos corpos nem sempre eram óbvias, muito pelo contrário. Às vezes, eram quebra-cabeças meticulosos, mas possíveis de solução; em algumas outras, enigmas incompletos e relapsos. Mas sempre existiam parâmetros que normalmente eram preenchidos após um certo tempo, como cheiro, rigidez ou uma aparência peculiar.

Não nesse caso.

Não existia cheiro de morte, ou um leve perfume, nem mesmo cheiro de suor; o frio tinha agido como um freezer enorme, preservando o corpo em condições pristinas. Daria parecia estar dormindo.

O detetive levantou-se, sentindo a cabeça latejar, e voltou a cobrir o corpo. Sua intuição, nobre amiga de todas as horas e todos os desesperos, dizia que algo estava muito errado. Nenhum assassino deveria chegar na contagem de três vítimas; muito menos quatro.

O rapaz distanciou-se com o café novamente posicionado em sua mão, mesmo que a vontade de bebê-lo fosse inexistente, e encarou ,a distância, outra vez o corpo morto. Por certo, não haveria nenhuma pista real, nem mesmo DNA, como nos outros casos. Só o mesmo modus operandi, e nada mais que fizesse sentido. Quer dizer... existia uma resposta que fazia sentido, mas era fantasiosa demais, mesmo para alguém mente aberta como Radu. Afinal de contas, a vida real não era um livro de Bram Stoker.

Lamento, Sra. Eliade. Ainda não sei como descobrir quem lhe matou.