Avec mortem

18 Ponto de Impacto


Os policiais assistiram, atônitos e de mãos atadas, todos os seus esforços para esconder da mídia as informações do caso irem por água abaixo. Nas últimas semanas, o corpo policial fez todo o possível para evitar que o caso chegasse nos veículos de informação. Algumas informações falsas, alguns subornos e alguns sustos aplicados cirurgicamente nas pessoas certas foram necessários para que tudo se mantivesse em segredo, de maneira a facilitar as investigações.

Mas, aparentemente, a calmaria tinha chegado ao fim.

Quando a pequena — mas nauseante — chamada terminou de ser transmitida, a TV de imagem esverdeada voltou a sua programação normal, ao contrário do Distrito Policial, que se tornou-se um verdadeiro caos. Os telefones começaram a tocar, quase todos os presentes começaram a (tentar) conversar e, lá fora, alguns poucos repórteres já começavam a se aglomerar, esperando alguma informação nova, ou algo útil para suas respectivas reportagens.

Radu estalou os dedos, em seguida os punhos, e então o pescoço, tentando aliviar um pouco da tensão que sentia. Não bastasse o fato de que durante toda a investigação até então quase nada fazia sentido, e os investigadores pareciam estar sempre um passo atrás, agora haveria mais um grande obstáculo no caminho: a pressão de Timisoara inteira, fungando em seus respectivos pescoços. E é claro, o pânico: Pânico dos habitantes da cidade, que temiam por suas vidas; pânico dos policiais, que nunca haviam atuado em um caso com tanta brutalidade antes, e a imprensa, que tentaria cada vez mais se meter onde não era chamada, instaurando mais pânico na população.....

E o pânico, normalmente, vinha acompanhado de barulho. Estrondoso, alto, repetitivo — e neste momento, a área comum tinha se tornado um campo de guerra. Até mesmo Nikolaj, sempre recomposto e calmo, estava discutindo com um dos oficiais mais velhos, segurando sua bengala em um ângulo perigosamente alto em relação ao queixo do homem em questão. ~

Ionescu Nicolescu apenas abaixou a cabeça e seguiu em direção ao pequeno vão entre as portas da sala comum e o hall de entrada da delegacia, e também, onde se localizavam as escadarias do andar de cima.

O rapaz nunca foi particularmente bom em manter o foco em ambientes barulhentos. Desde criança, uma das primeiras coisas que fazia ao chegar em uma escola nova, ou algum local que passaria mais tempo, como a casa dos avós em outra província, era procurar por um local quieto e seguro para se esconder. Seja o armário de materiais de educação física da última escola onde estudou, ou o entressolho da sala de seus avós (qual ficava a uma certa distância do chão e tinha sido a causa de Radu ganhar o apelido de șoricel — ratinho — de seu avô ), Nicolescu sempre achava uma maneira de sair de vista e não ser incomodado. No trabalho, não era diferente.

Havia, atrás de uma das escadas do pequeno ambiente entre a sala comum e o hall de entrada, um espaço relativamente apertado, de cerca de dois metros quadrados, no qual Radu gostava de se refugiar. Era um pequeno abrigo despercebido, que apenas quem estivesse subindo ou descendo as escadas e inclinasse a cabeça em um certo ângulo notaria, e os policiais e demais ocupantes do dDistrito pPolicial de Timisoara tinham se acostumado a descer os degraus com pressa demais para notar alguém escondido por debaixo dela.

O pequeno refúgio semi-silencioso, no entanto, tinha uma vista privilegiada do hall de entrada da delegacia, cujas portas pesadas de madeira, com os vidros meio sujos, parecia ser a última defesa contra o mar de repórteres que tinha alagado a fachada do distrito.

Alguns minutos depois de Radu se instalar em seu esconderijo, dois agentes irritados entraram, aos tropeços, inundando o cômodo com o ar gelado que soprava do lado de fora. A pequena multidão tinha tentado chamar a atenção da dupla, sem sucesso — mas a comoção foi suficiente para que nenhum dos dois notasse a presença do detetive, que achou melhor continuar escondido, e observar de longe o que acontecia.

Kowalczyk parecia estar mais irritado do que Nyvieska. O rosto avermelhado, não só pelo frio mas também pela raiva, era um complemento digno do constante movimento de abrir e fechar os punhos que o polonês executava. Sonja falava ao telefone, aparentemente com algum tipo de superior, pois suas únicas respostas, sempre em inglês, eram variações de "sim, senhor" ou "não, senhor", com uma expressão nula em suas feições. Não fosse seu pé esquerdo, ritmicamente indo contra o chão, poder-se-ia pensar que a agente estava calma.

Radu não pode deixar de imaginar qual seria o motivo da ligação e, quem, exatamente, era o chefe dos agentes. Seria algum tipo de super agente secreto a lá James Bond? Ou seria um cretino empresarial cobrando resultados?

Sonja, Aassim que percebeu a situação nervosa de seu parceiro, estendeu a mão livre e tocou-lhe o ombro, o que fez com que o polonês, momentaneamente, parasse o movimento contínuo com as mãos e a encarasse, com uma expressão de dúvida em seu rosto.

A finlandesa respondeu com apenas um aceno negativo da cabeça, ainda falando ao telefone e, de imediato, Kowalczyk suspirou e enfiou as mãos nos bolsos das calças, tentando se acalmar, mudando o foco de sua atenção para sua parceira, provavelmente tentando ouvir o conteúdo da conversa telefônica.

Peculiar, pensou Radu. Muito peculiar. Em meio a suas indagações silenciosas, o detetive pode, de repente, entender o porquê dos boatos que especulavam a natureza da relação dos dois agentes correrem soltos, assim como uma série embaraçosa de apostas: Os dois, realmente, tinham algum tipo de comunicação não verbal muito peculiar, do tipo que se leva anos para desenvolver e, obviamente, um bando de policiais desocupados e romanticamente frustrados veriam algo alí.

Neste momento, duas outras figuras emergiram do mar de repórteres. Veronika, a detetive grega, entrou depressa, quase que arrastando uma segunda figura, que mancava: Um rapaz alto, de cabelo comprido e barba cheia, enrolado em uma quantidade absurda de casacos, com cara de quem não dormia há séculos e que não parecia estar bem de saúde. Enquanto a detetive fechava a porta, o homem procurou a parede mais próxima para se apoiar, sendo prontamente amparado por Veronika, que nem mesmo cumprimentou os dois agentes que já ocupavam o local.

Mas não tardou para que Kacper e Sonja percebessem que tinham companhia, e a primeira reação de ambos foi espanto — O que durou apenas alguns momentos. Pois em questão de segundos, Kowo se posicionou em frente a sua parceira, criando uma barreira entre o estranho e Sonja. Veronika fez o mesmo, colocando o homem cabeludo — que parecia se encolher à medida que o tempo passava — entre si e Kowo.

Os dois trocaram algumas palavras baixas e ríspidas, que Radu não conseguiu entender bem. Com alguns resmungos — e um tapa no braço administrado por uma Nyvieska muito braba — o polonês cedeu, voltando ao seu lugar, ao lado de sua parceira. Enquanto isso, Vyka conversava silenciosamente com o rapaz, que tinha se encaramujado em um dos cantos mais afastados da pequena sala.

A cena não poderia ser mais estranha.

Ou era o que Radu pensava, até perceber que o estranho, que tinha descoberto seu esconderijo de um canto que o detetive tinha quase certeza ser impossível ter algum ângulo de visão, o encarava, com olhos de cor púrpura, alertando todos os outros presentes da sua presença.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.