Avec l'amour, Lívia.
1 Oublie
Notas iniciais
Arabella sentou-se em sua cama. Ombros curvados, expressão cansada. Seus cabelos desgrenhados e sua roupa amarrotada eram o certificado de sua total impaciência para com a vida. Um dia aqui, outro ali, e nada poderia ser mais tedioso do que estava sendo. Ela deixou-se cair sobre o colchão, fechando os olhos.
"Que quando eu os abrir, tudo possa estar diferente. Eu possa ser uma pessoa nova, em um lugar novo, com uma vida nova", pensou. Prendeu a respiração, ouvindo o silêncio gritante que jazia em seu quarto. Perdeu-se em pensamentos, em desejos, em ilusões. Por alguns segundos, sentiu que tudo poderia mudar.
Mas então seus olhos se abriram e tudo estava exatamente como antes: cheio de infelicidade e medo. E o silêncio que antes preenchia o cômodo fora finalizado com o toque estridente de seu celular, notificando uma chamada de seu namorado. Bella olhou com desgosto para o aparelho telefônico, que estava jogado ao seu lado, e simplesmente deixou-o tocar.
O que menos queria agora era suportar o drama e ciúmes de Rafael, que insistia em tê-la por perto vinte e quatro horas. Não entendia porque ainda não tinha dado um fim naquele namoro, que já durava alguns anos, mas provavelmente envolvia o medo de ficar presa em uma solidão particular. Mais uma vez.
Suspirou profunda e lentamente, tentando conter as costumeiras lágrimas que queriam vazar de seus olhos.
Estava tão acostumada com a fragilidade de seu espírito que simplesmente se deixava levar pelo sentimento de derrota que sempre estava a espreita. Ela queria algo novo, sim, mas tinha medo de que tudo pudesse dar errado.
Era como atirar de olhos fechados tentando acertar um alvo que fosse do tamanho de uma noz. Preferiria não arriscar o pouco que tinha por um futuro incerto. Não, isso não. Não de novo.
Depois de três tentativas, o celular silenciou. Bella levantou-se, não antes de fechar os dedos em torno do telefone puxá-lo para si, e foi até o banheiro. Lá ela começou a despir-se, sem muita pressa. Depois de nua, pôs para tocar mais uma de suas playlists melancólicas. A música lenta e calma inundou seus ouvidos, lhe dando certa sensação de alívio.
Entrou debaixo do chuveiro e fechou a porta do box. Deixou que a água morna lavasse sua sujeira, suas lágrimas, sua alma. E, naquele momento, antigos desejos tomavam conta de sua mente. Desejos que ela jurou deixar para trás há algum tempo, mas que voltavam sempre que ela baixava a guarda, deixando a garota totalmente desestabilizada.
Desejos profundos em seu coração.
Logo fora transportada para um local diferente, onde o sol parecia brilhar com maior intensidade e o sorriso era mais comum no rosto dos transeuntes que andavam ao seu redor. Lá, na mesa de sempre, estava sentada a morena de belos olhos claros. Bella sentiu-se agitar por dentro, como se estivesse esperando aquele encontro a milhares de anos. Ia se aproximando, implorando o contato.
Mas tudo ao seu redor mudou, como se ela não merecesse rever aquela cena. Dessa vez estavam no mesmo quarto em que a garota se encontrava antes de entrar para o banho, mas ele agora era um lugar mais feliz. Ao invés do silêncio mórbido, eram as risadas preenchiam cada espaço disponível ali.
–Para com isso, Lívia! — tentou falar sério com a morena, mas era impossível conter o sorriso que insistia em aparecer. — Não tem graça nenhuma, idiota.
– Bella, me poupe. Eu não fiz nada demais. — começou Lívia, dando de ombros. — Não é como se eu fosse a culpada de você ter cócegas nos pés e eu adorar sua risada. Por favor, né! — defendeu-se e, por um momento, Arabella se deixou ser levada por aquelas palavras e sentiu seu coração perder um compasso. Adorar sua risada.
Sacudiu a cabeça rapidamente. Não poderia deixar-se levar mais uma vez por ilusões adolescentes.
– Claro, claro. Esqueci que não é você quem controla os seus dedos. — rebateu a garota, agitando as mãos para indicar do que estava falando. Lívia revirou os olhos, levantando-se do chão e se jogando na cama. Apontou para o espaço ao seu lado, indicando para que Arabella também fosse se deitar lá.
As duas se acomodaram, colocaram as mãos por de trás da nuca e ficaram olhando para o teto. Um passatempo que elas adquiriram pela falta do que fazer.
– Como vai o Rafael? — perguntou Lívia, limpando a garganta logo depois da pergunta. Bella suspirou, tentando esconder o desgosto pelo rumo que o assunto tomara. O que menos queria era falar do seu novo namorado-possessivo-ciumento.
– Um saco, para variar. Não sei como o meu telefone ainda não tocou com maaaaais uma chamada dele. — respondeu com a voz mesclada em tédio. Deitou-se lateralmente, apoiando a cabeça na mão direita, enquanto olhava diretamente para o rosto fino de Lívia. — Mas não quero falar dele, Liv.
A outra tentou esconder um sorriso e virou-se para ficar na mesma posição que Arabella. As duas se fitaram por um momento longo demais e Liv abriu um sorriso malicioso.
Mesmo assim, Bella notou alguma coisa no olhar da garota que não correspondia a ação de seus lábios.
– O que? Ele não é bom de cama? — ela zombou enquanto uma risada ecoava pelo quarto. Arabella olhou para o alto, como se não acreditasse no que estavam conversando. Deu um soco breve no ombro da amiga.
– Ai meu Deus, Liv. Você sabe muito bem a minha posição em relação ao sexo. Só depois do casamento! — disse a última parte com firmeza, como se quisesse deixar bem nítido o seu pensamento. Mas, além disso, também havia o fato de ela simplesmente repudiar fazer qualquer coisa do tipo com Rafael agora. Ela sequer o beijava! — E você, já resolveu se declarar para sua paixão que eu ainda não sei quem é?
– Ei, ei! Calma aí, mocinha. Estamos falando de seu relacionamento, não do meu! — Lívia reclamou. Ergueu as sobrancelhas e continuou a falar como se Arabella não tivesse perguntando nada. — Aposto que é porque o Rafael não tem a pegada. Cer-te–za!
– Liv... — Bella soltou um suspiro, exasperada. Pôs a mão livre da frente dos olhos, sacudindo a cabeça me negativa. — Você nem deve saber o que é uma pegada de verdade, querida! — A garota rebateu, implicando. Se era sobre isso que ela queria falar, que aceitasse as consequências. A boca de Lívia se abriu em um "o" enquanto ela olhava chocada para a amiga.
– Isso é pura calúnia, dona Arabella Martins! Nem sabe dos meus atributos. — Liv manteve as sobrancelhas erguidas enquanto tentava rebater a ofensa de Bella, que tentava conter as risadas. — Para de rir, caralho. Você nunca me beijou para dar opinião.
– Uuuuuui. Será que alguém ficou estressadinha? — provocou, em voz baixa. — Aposto que nunca sequer beijou ninguém! — Bella se aproximou da amiga, olhando-a divertida. — Será que a famosa Lívia Tavares nunca ficou com nenhum garoto? Tantandaaaaaan! Polêmica! — Por um momento Liv abriu a boca para responder, mas fechou-a novamente. Passaram-se segundos, minutos, quem sabe horas? Logo fitou Arabella por um instante e, no seguinte, seus lábios já se colavam ao dela. A mão esquerda moldando sua bochecha, puxando o rosto da outra para mais perto.
Bella afastou-se, assustada. Olhava para a amiga, sem compreender.
– Me desculpe, por favor. Me desculpe. — a voz de Lívia saiu em um murmúrio. — Eu... é melhor eu ir. — Mas a não foi isso que aconteceu. Dessa vez foi a vez da morena ser puxada enquanto as bocas das duas se encontravam novamente. O que Arabella estava fazendo? Isso era errado. Totalmente errado. Mas por que ela estava se sentindo bem e completa?
– E Rafael? — Liv perguntou, afastando-se alguns centímetros. Mas a cabeça de ambas estavam perturbadas demais para pensar num "terceiro". Bella pôs o dedo por debaixo do queixo da morena, inclinando-se para ir de encontro à sua boca mais uma vez. Um beijo rápido, suave.
– Ele não precisa saber disso. — foi a sua resposta. Houve um momento de silêncio e lá estavam as duas novamente. Corpos colados, lábios vorazes. Elas se beijavam avidamente, como se estivessem esperado aquele momento durante muito tempo. E não havia dúvida de que esperaram.
Arabella infiltrou sua língua sem pudores na boca de Lívia, explorando todo o espaço que havia. Queria sentir cada gosto presente, cada sensação que aquele beijo poderia proporcionar. Uma dança sensual se iniciava, uma batalha maliciosa por espaço. Liv deixava suas mãos percorrerem a cintura da garota por debaixo da blusa, causando-lhe arrepios incessantes.
E então Arabella sentiu as gotas de água caírem sobre seu corpo nu e se lembrou de onde estava. As lágrimas caíam sem qualquer bloqueio pelo seu rosto enquanto os dedos direitos brincavam em seu sexo, provocando-lhe espasmos de prazer. Ela gemia alto, gemia o nome de Lívia, gemia toda a dor que sentia, gemia toda a saudade.
Jogou a cabeça para trás e passou a movimentar seus dedos com maior velocidade dentro de si, em movimentos de entrada e saída, querendo simplesmente se deixar levar por aquela sensação e nunca mais voltar ao que era real.
Um grito longo e arranhado. Um líquido quente escorrendo pelas suas coxas. Apoiou as costas na parede enquanto sua caixa torácica subia e descia, arfante. Naquele momento conseguia sentir Lívia ao seu lado, como se nada tivesse mudado. Como se a morena não lhe tivesse deixado.
"Tudo vai ficar bem", foi o que a garota de belos olhos claros dissera.
– Mas por que tudo só piora a cada dia? — Bella perguntou, sua voz arrastada, ainda marcada pelo orgasmo que acabara de ter. A imagem de Lívia percorria sua mente repetidas e repetidas vezes, causando-lhe cada vez mais dor. Entregou-se ao choro profundo, sofredor.
Gradativamente ela se deixou escorrer pela parede do banheiro até sentar-se no chão molhado. Abraçou as próprias pernas, sendo banhada pela tristeza que a puxava cada vez mais para o nada. Sua mente percorreu todas as memórias e escolheu a menos propícia para o momento.
O bilhete.
O papel amassado continha a letra inclinada de Lívia. Cada palavra era uma nova pontada no coração de Arabella, cada parágrafo o seu assassinato. Ali estava escrito um adeus, breve e calmo, como se nada houvesse acontecido entre as duas.
Como se ainda fossem apenas conhecidas.
"Estou indo embora. Foi bom o que vivemos, intenso, mas já me sinto no dever de partir. Espero que você fique bem. Tudo vai ficar bem.
Com amor, Lívia."
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