Avatar - O Legado da Paz

2 Capítulo I - As primeiras decisões


Notas iniciais
Boa leitura a todos. Que possam curtir cada momento dessa história!

No voo para cidade república a bordo de Oogie, o bisão de Jinora, Hava e ela puderam vislumbrar a evolução dos pequenos povoados que viraram cidades, no entanto, era notável que a tecnologia não havia chegado a determinados lugares como o grande deserto que com o passar dos anos foi se tornando um pedaço de terra cada vez mais hostil. Ali haviam cidades, porém o desenvolvimento era precário. As cidadelas eram atendidas por uma malha férrea que fora construída, em parte por Kurvira, e depois a família Beifong de Zaofu expandiu para garantir o acesso a suprimentos básicos. No entanto, o lugar começou a ser abandonado devido a falta de segurança, saqueadores profissionais, que utilizavam das melhores técnicas e armamentos acabaram por isolar aqueles povos. Guerras civis fugiram do controle da coroa. Sim, apesar das pressões atuais, Rei Wu voltou atrás e não transformou a constituição monarca em uma república. Algumas cidades como Omashu, Zaofu e as Ilhas Kyoshi conseguiram autonomia e se emanciparam. Com isso, se desenvolveram e viraram polos exemplares para os moradores.

Ao longo da viagem, ambos notaram que o clima de tensão que pairava sobre o mundo não era originado por algum inimigo específico. Contudo, o conceito de quatro nações vivendo em equilíbrio aos poucos perdeu seu valor. Os governantes se apoiavam em discursos populistas e inflamados sobre a importância de seus limites territoriais. Suas conquistas, glórias e tudo se tornou uma grande competição. O papel do Avatar ganhou mais importância no âmbito social e também na influência para debates sobre a situação do mundo.

—- Eu tenho um pressentimento muito ruim sobre os novos tempos — começou Jinora, ambos não tinham trocado uma palavra desde a saída do Templo do Leste. Hava cochilou boa parte da viagem, em outros momentos meditava carregando seu rosário. — Talvez Korra tenha que intervir energicamente sobre algumas decisões — a voz da garota soava triste.

Para não preocupar mais a mestra, Hava então decidiu que não revelaria o teor das acusações. “O Templo vai resolver quando eu voltar” pensou.

—- A Avatar sempre gostou de combate, talvez o cenário esteja propicio — Hava falou ironicamente, Jinora virou os olhos.

—- Você não entende que estamos vivendo uma época muito delicada? As consequências podem ser terríveis… — Ela mantinha a calma mesmo com o suposto desdem de seu colega.

—- Talvez você esteja certa, ou então essa cabecinha devia sair dos livros e se ocupar com outras coisas — Hava riu. Jinora olhou de canto e suspirou.

No fundo o jovem monge sabia dos problemas que o futuro reservava, e também tinha conhecimento que decisões erradas nos tempos atuais, resultariam em conflitos pesados que podem colocar as quatro nações em um tabuleiro de pai sho, jogando duramente, e desfazer o equilíbrio que Korra vinha administrando desde a convergência harmônica.

Cidade República

A bacia de Yue não tinha o mesmo brilho sob a lua, que foi o cartão postal durante anos. Estava tomado por trafego intenso de barcos. Hava se perguntava se os espíritos que viviam no mar concordavam com aquele tipo de progresso. A paisagem não era mais romântica, porém não causavam problemas que exigissem maiores desafios do presidente. Antigamente, quando o monge era um aprendiz, e vinha até a Ilha do Templo do Ar, dava para se ver as montanhas que serviam de plano de fundo entre os grandes prédios. Atualmente, picos de concreto e aço esconderam os cumes que esbranquiçavam no inverno e ficavam verdes no verão.

Chegaram pelo anoitecer, e o pouso do bisão era aguardado por Tenzin e sua família. O filho mais novo de Aang estava velho, mas mantinha uma postura ereta. A alimentação e os exercícios conservaram o mentor de Korra. A Avatar inclusive estava ao seu lado, usava um sobretudo azul, botas escuras e tinha o cabelo curto. Parecia estar animada ao lado de Asami, que Hava sempre achou uma mulher muito bonita, ainda mais agora, mais madura sem aqueles trajes esportivos. A engenheira usava um blazer, fechado, vinho. Parecia ter saído do serviço e se dirigiu para a ilha para aguardar Jinora e o monge do leste — outro apelido que Hava Andhi não entendia o sentido.

—- Hava Andhi, do Templo do Ar do Leste, muito obrigado por aceitar o nosso convite — Falou Tenzin, a voz estava mais áspera que antes.

—- Não foi bem convite, Jinora praticamente me sequestrou. Ai não resisti aos seus olhares ameaçadores e vim — respondeu Hava antes de abraçar o velho mestre.

Jinora corou. Kai estava presente ao lado de Ikki, e Hava notou que os dois não se cumprimentaram. Eram namorados, pelo que sabia. O monge fez uma reverência para Peema, e a filha e logo percebeu que Meelo não estava presente.

—- Avatar Korra, senhora Sato, boa noite — Hava fez uma reverência. Ambas riram.

—- O senhor é famoso, Tenzin sempre ouvimos que é meio excêntrico… — Korra foi interrompida por Tenzin que quis desconversar.

—- Ficará por quanto tempo? — falou o pai de Jinora.

—- Para reunião e depois vou embora — respondeu prontamente.

—- Mas, essas conversas podem se estender por semanas — interveio Korra.

—- Vou ficar no máximo, dois dias — finalizou o monge. Recordou-se da promessa pessoal de ajudar os outros acólitos a continuarem com as missões.

O grupo se encaminhava para dentro da casa, quando uma revoada de lêmures voadores voava sincronizadamente na direção de Hava. Com um movimento rápido de mãos, uma lufada de ar separou os inúmeros animais.

—- MEELO, SEU PIRRALHO! — gritou Hava. O mais novo de Tenzin tinha agora 19 anos, e parecia não ter crescido mentalmente. Eles eram desafetos desde a época de acólitos. Por duas vezes, a ala de meditação teve que ser reformada por causa de brigas entre os dois.

Uma lufada de ar dominada por Meelo foi lançada em resposta, mas dessa vez acertaria Jinora. Mais rápido, Hava a cobriu com parte da túnica. Com os pés firmes no chão, não foi arrastado pela força do vento. Korra decidiu acabar com a brincadeira ao derrubar Meelo com uma dobra de terra. Tenzin estava enraivecido. Jinora estava num misto de raiva e vergonha por ter sido protegida.

—- Não precisa me defender senhor Andhi — ela disse saindo em passos rápidos.

—- Meelo, você tem problema? — indagou Hava.

Ele ria, mas parou ao receber um olhar recriminador de seu pai.

Todos riram depois. Menos Hava e conservava um olhar sério para Meelo.

A casa de Tenzin era mantida tradicionalmente fiel aos costumes dos antigos monges. Claro que contava com umas tecnologias recentes, iluminação, climatizadores. Mas, na essência, as mesinhas de jantar baixas, almofadas bordadas, vasos ornados com plantas decorativas. O ambiente era de paz e aconchego.

Com a mesa posta, o monge visitante decidiu piorar o clima entre Jinora e Kai, e escolheu sentar entre o casal. Ikki deu uma piscadela aprovando o plano. Meelo, no entanto, olhava para Kai tentando cobrar uma atitude mais firme. Todos ali eram adultos, menos Rohan, que estava na adolescência e se mantinha distante de assuntos de família.

—- Qual é a origem do seu nome? — Ikki perguntou para Hava.

—- Vem de uma linguagem antiga dos Monges, significa tempestade de vento. — respondeu o visitante.

—- Parece nome de mulher — Meelo respondeu fazendo Asami e Korra rir disfarçadamente. Kai aprovou a piada.

—- Por favor Meelo, respeite, é um nome que descende das inscrições de antes mesmo do Guru Laghima — Tenzin era apegado ao tradicionalismo.

—- A Jinora ama ler sobre as inscrições antigas, não é? — Ikki estava adorando aquele clima.

Jinora fuzilou a irmã com o olhar. Hava piscou para Ikki. Eles não haviam ensaiado, no entanto, tinham um entrosamento perfeito quando se tratava de deixar a mais velha em saias justas.

—- Então senhor Andhi, é assim mesmo que se fala? O que falará na reunião? — Asami perguntou encabulada por causa do nome diferente, ela era a responsável por resolver alguns assuntos diplomáticos no lugar de Korra, essa parecia a ocasião.

—- Primeiro, chega de senhor, não sou o Tenzin — o anfitrião engasgou com a fala de Hava — Segundo, eu quero alertar o presidente que temos percebido criações de grupos organizados armados, juntamente bloqueadores de chi, que estão sendo formados. Nós cuidamos de algumas cidades mais abastadas no Reino da Terra e testemunhamos um certo receio por parte da população. — Ignorou a pronúncia errada de seu nome, estava acostumado.

—- O mais preocupante é que temos recebido os mesmos avisos dos outros templos, no Sul, uma cidade da Nação do Fogo foi completamente tomada por alguns “rebeldes”, nomeamos assim, e o exercito de Iroh não conseguiu contê-los. No Norte e no Oeste também se tem noticias desse tipo — completou Jinora.

Kai e Meelo se entreolharam irritados com a fala sincronizada.

Hava se questionou sobre os casos relatados entre as cidades do Leste e a da Nação do Fogo tinham alguma relação.

—- Temos que descobrir os motivos que estão levando essas disputas? Não sabemos se é por recursos… — começou Hava

—- Ou se planejam algo maior, tendo em vista que Kurvira deixou um sentimento de poder muito forte com aquela questão da união dos povos. — completou Jinora, novamente.

Ikki tinham os olhos brilhando com aquela sintonia.

—- Mas não faz sentido uma cidade da Nação do Fogo estar sofrendo com os mesmos tipos de rebeldia — afirmou Korra, que olhava para Tenzin esperando que entendesse seu raciocínio.

—- O que acontece é que há suspeitas de diversos motivos, por exemplo, um sentimento contrário aos descendentes de outros lugares. O Templo do Sul ouviu dizer que parte dessa mistura é culpa dos monges que peregrinam pelas cidades daquela região — Jinora falou primeiro.

—- No Leste tivemos algumas cidades que proibiram a nossa entrada — comentou Hava.

—- Isso é muito confuso — Korra e Asami disseram juntas.

Peema interrompeu a discussão para servir a sobremesa. Hava não se serviu de mais nada, preferiu tomar o chá verde, que estava feito com primor. A reputação da anfitriã era conhecida entre os Templos, pois foi responsável por ensinar as receitas para os primeiros novos moradores.

—- Vou aproveitar essa discussão e perguntar, o que exatamente falaremos com o presidente? — disse Hava. — O que Cidade República tem haver com esses acontecimentos? — ele direcionou o olhar para Tenzin.

Todos pareceram tão dúbios como Hava. O modelo de cultura, pensado para esta cidade, não era difundido em outros lugares mais antigos. Exemplo disso é a capital da Nação do Fogo que tem um controle minucioso sobre as imigrações. Para habitantes de outros lugares, era necessário uma permissão para que se permaneça sob os domínios do Parlamento do Fogo, modelo adotado por Iroh substituindo o império.

—- Nós vamos tentar difundir essa ideia para os outros lugares, nós somos os mantenedores da paz e do equilíbrio entre as nações junto com o Avatar — respondeu Tenzin, otimista.

Hava não achou a resposta convincente. Não quis discutir, terminou seu copo de chá e pediu licença para se retirar. Os outros então fizeram o mesmo e começaram a se dirigir aos dormitórios. De praxe, após a última refeição do dia, o monge foi até a ala de meditação para aproveitar o breu noturno e se concentrar.

Com o rosário em mãos, ele sentou na posição de lótus e começou a fazer as respirações necessárias. A técnica foi interrompida por um ruído, distante. Pareciam conversas, agitadas. Não ligou, continuou ali, passando as contas entre os dedos. Até que ouviu seu nome gritado, era Jinora:

—- Segunda vez que atrapalha minha meditação — Hava não abriu os olhos e continuou sentado.

—- O Templo do Leste sofreu um atentado! — ela ofegava.

Aquelas palavras fizeram Hava Andhi engolir seco.