Notas iniciais
Livro I - Água & Terra

Livro Um – Água & Terra

Capítulo I – Massacre

– VÓ! VEM RÁPIDO! – gritou. – AAAH! VAI NASCER!!!

Inari gemia de dor no quartinho do fundo, a dor lancinante a fazia trincar os dentes e esgarçar as cobertas da catre com as mãos.

Sua avó chegou de imediato, abaixou-se perto da cama e, da bacia no chão, conjurou um pouco de água num movimento lento e sinuoso. A jovem continuava gritando e suando frio, as veias saltando ao pescoço e têmporas.

– Filha, você precisa se acalmar – disse calmamente, dominando a água sobre a barriga de Inari. – Isso vai aliviar um pouco a dor. Respire fundo... – A água começou a brilhar.

A dor diminuiu o suficiente para Inari respirar.

– Isso, isso... Continue assim – incentivou a avó.

Outra mulher entrou aos gritos no quartinho, com panos sobre os ombros e uma bolsa de couro nas mãos.

– Jana! Jan... – interrompeu-se a ver a situação de Inari.

Ela se abaixou e falou ao ouvido da velha, que não apresentou qualquer reação.

– Vá buscar mais ervas – disse Jana.

A mulher saiu. Sabia o que aquilo queria dizer. Começou a apagar as velas na cabana, depois fechou todas as cortinas e bloqueou quaisquer entradas com o que conseguia encontrar. Foi nessa hora que a moça ouviu os primeiros gritos, de parto e de morte.

Na praia já estava atracado um grande navio negro a vapor, uma grande serpente em espiral estampada nos costados e na bandeira no mastro mais alto.

– Atenção, Tribo da Água, rendam-se agora! – anunciou um homem de vestes cinzentas ao primeiro aglomerado de cabanas que encontrou.

– Chefe, acho que eles já estão rendidos – riu-se um dos seus homens. – Isso aqui está totalmente destruído.

– Eu só queria deixar tudo mais dramático, Javier – explicou. – Homens, terminem o serviço! Matem todos e depois vamos afundar mais alguns navios que estão indo para o norte.

Dezenas de homens começaram a festejar e avançar em direção às casas.

– Quem são vocês? O que querem de nós? – Veio a voz de um homem ao longe.

Os invasores pararam, pois começaram a aparecer outros homens, jovens e velhos, da Tribo, armados com espadas, porretes e lanças.

– Ah! As baratas resolveram aparecer... – desdenhou o chefe do outro grupo. – O que vocês estão esperando!? Matem! – ordenou, e seus homens voltaram a avançar.

Os guerreiros da Água também avançaram. Dois dominadores saltaram à frente, giraram no ar, e pisaram com firmeza no chão fazendo espinhos gelados brotarem e abaterem os primeiros inimigos. Outro dominador ondulou os braços ergueu-se em uma coluna girante, mas foi, em seguida abatido por uma rocha.

Os guerreiros da Água se surpreenderam e hesitaram. Em seguida um dos inimigos expeliu uma rajada de fogo sobre os primeiros dominadores.

– Vocês não são os únicos dominadores aqui! – disse o chefe entre gargalhadas.

– AAAAAH! AAAAARG!! – gritou Inari em agonia.

– Empurre, filha! Força! Só mais um pouco. – disse ela. – Ora, mas se não são dois! São dois, minha filha, agora ajuda eles a sair!

Inari fez uma cara entre a alegria e sofrimento.

Os barulhos da luta já eram ouvidos da casa. A mulher espiou por uma das frestas na janela, o luar intenso deixando tudo bem claro. Ela viu rajadas e fogo ao longe e silhuetas negras arrombando as casas mais próximas uma a uma. Só então percebeu que os bebês recém-nascidos já choravam. A mulher foi em direção ao quarto e espiou lá dentro. Viu um bebê envolto em panos e o segundo tendo seu cordão cortado.

Quando ela virou-se para a porta outra vez, foi surpreendida por uma grande explosão, que a jogou para dentro do quarto. A força da explosão apagou a iluminação no lugar, a fumaça negra tomando conta de tudo.

Jana virou-se para a entrada e viu que havia uma figura com as mãos iluminadas por chamas. Os bebês gritavam intensamente. A figura entrou no quarto e as chamas cintilaram ainda mais. Era um homem com um sorriso macabro no rosto.

– Que lindos bebês vocês têm aqui... – disse em tom frio.

– P-Por favor, não fa.. Não faça nada c-com eles! – gemeu Inari.

– Sinto muito, mas o mundo não quer que o Avatar apareça de novo... – sussurrou, e posicionou-se para atirar mais chamas, mas seu corpo travou.

Jana dobrou o sangue do assassino. Movimentando os braços e dedos, controlou cada músculo de seu corpo.

– O... que você... está... fazendo – gemeu, mal conseguindo mover os lábios.

– Quem é você? O que a Nação do Fogo faz aqui? Já não destruíram o suficiente!?

Com o movimento de um dedo, Jana liberou a fala dele.

– Velha idiota, não somos a Nação do Fogo! Somos a Cobra!

– Entendo... Mercenários. O Avatar renascerá na Água desta vez, e vocês almejam repetir o massacre dos Nômades do Ar.

– Sem o Avatar no caminho, não teremos mais que...

– Morra.

Jana girou a mão e a cabeça do homem girou sobre o pescoço.

Inari olhava perplexa para a avó. Outros homens começaram a se aproximar da casa devido ao choro dos bebês.

A velha girou os braços e uma porção de água congelou-se na porta, trancando-as no quarto. Ela se aproximou da mulher no chão, verificando seus sinais vitais. Nada.

– Inari, seus filhos precisam viver – sussurrou, iniciando uma sessão de cura na neta.

A jovem ainda estava sem palavras. Tudo girava em sua cabeça. Mercenários invadindo a Tribo, seus filhos em perigo, nenhuma saída mesmo daquele quartinho. Como seus filhos poderiam sobreviver? Os gritos de fora ficavam cada vez mais intensos, mulheres, crianças, velhos, ninguém era poupado.

As paredes de gelo da casa começaram a virar água e se derramar rapidamente. Jana se ergueu e tentou reverter o processo, mas já era tarde, não havia mais casa. Não esperava por dobradores de água na Cobra. Ela só teve tempo de ver todo o pequeno vilarejo incendiado e sombras ao redor do que fora seu lar a vida toda. A lua cheia no alto deveria lhe dar mais poder, mas uma velha seria sempre uma velha.

Seu peito foi atravessado de repente por uma flecha. Seus olhos saltaram nas órbitas e ela tombou sobre si mesma.

– NÃO! – Inari gritou, lançando-se da cama sobre a avó morta.

– Mata logo – veio uma voz.

– Ei! O que é aquilo!? – espantou-se outra pessoa. – É ele, o Avatar!

Os filhos de Inari emanavam um intenso brilho, mas todos só viam o segundo filho, que não estava envolto em lençóis.

– Rápido! Se o matarmos no Estado Avatar, o ciclo será quebrado! – disse a primeira voz.

Ao mesmo tempo, foi Inari que começou a brilhar. Seu corpo foi envolto em uma aura dourada que crescia cada vez mais. O halo cresceu e ela levitava dentro dele.

– Fujam! É um espírito! – gritou um dos homens mais atrás, e vários começaram a fugir.

O espírito dourado que tinha Inari dentro de si começou a rugir e cuspir chamas sobre os mercenários. Era disforme, mas se distinguiam pés, garras e uma boca, medindo ele cerca de cinco metros Eles tentavam enfrentar o gigante, mas não tinham chance contra suas labaredas.

Após todos fugirem, o espírito começou a ficar menor, até ter o tamanho natural de Inari. A partir daí só seus olhos brilhavam. O espírito a fez andar na direção dos bebês, mas algo estava errado, pois, embora ela não sentisse qualquer dor, deixava um rastro de sangue pelo caminho. O espírito pegou o bebê que estava envolto em panos. O outro havia sumido. Houve um brilho muito intenso e eles sumiram no ar.

Notas finais
Se gostou, comente por favor!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.