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2 Conto II - Bao Fu

Conto II
Bao Fu
“Amanhã ao mesmo horário, oficial?”
Bao Fu consentiu com a cabeça e despachou as duas moças seminuas com um abanar da mão. Fizeram uma reverência rápida ao homem de meia-idade, partindo logo em seguida, fechando seus roupões com risos frouxos pelo ordenado que ganharam. Ele então se voltou à vidraça do quarto que dava para o Grande Salão na Praça do Povo e esticou-se na poltrona até encontrar novamente o chão com os calcanhares. Depositou na tacinha com chá verde mais uma dose de licor – sua combinação preferida – e admirou por um bom tempo o Parlamento, envolvido pelo foxtrot do fonógrafo e pelos bafejos de um charuto tragado pela metade. “Já tinha me esquecido como ele é fascinante!”, lhe ocorreu enquanto bebericava o álcool diluído. Cada peça daquele prédio trazia em Bao Fu o deleite por ser parte atuante na ribalta desses novos tempos; de ter em suas mãos o poder e o prestígio que os magnatas da política conseguem pelos solavancos de suas astúcias. Entregue a esses pensamentos súbitos, e até convenientes para uma noite de luxúria – que como convém lembrar aos afortunados (ou esclarecer aos ingênuos), são regidas pelo prazer e dominação –, consumia com seus olhos a grandeza das pilastras, alinhadas e coroadas pelos capitéis; as ondulações das cornijas, com as mísulas em forma de toupeiras-texugo; as luzes a gás que se lançavam à fachada de baixo para cima, afundando ainda mais as janelas nos nichos das paredes; as bandeiras verdes flamulando com a brisa noturna e, lá no alto, a cúpula do Auditório Comum, vigilante a tudo o que se passava na esplanada. Tal como era o Estado. Tal como eram as leis. Tal como era ele.
Contudo, o que lhe despertava maior prazer, com serena certeza, era aquela escultura sobre o espelho d’água diante do edifício. Evocava com sua imponência os esforços d’A Grande Marcha dos Contrarrevolucionários (os “Contras”, na linguagem do dia-a-dia) em resistência às tropas do Império. Na escultura, pode-se ver à frente a Mãe-Pátria personificada em uma ninfa do campo e talhada em pedra-sabão. Conduz com seu sabre os trabalhadores, as mães, jovens e crianças para a dita modernidade da autodeterminação; todos admirados com suas pupilas de seixo, olhando para o alto, no horizonte do futuro e apontando para as estrelas que pintavam com respingos de luz o breu da noite. Foi construída sem a manipulação por dobras para que se reforçasse a ideia de que a Contrarrevolução Republicana, segundo o discurso oficial, “veio esforçadamente pelas mãos do grande povo da Nação da Terra”. Declaração que, convém-nos dizer, já é clichê desses governos pós-revolucionários, loucos em perfumar de simbolismo suas posturas, tratando de logo erguer um obelisco aqui, ou trocar o nome de uma via ali, num misto de populismo e loucura, chegando neste caso, oh que tolice, a cair na irrealidade de negar o papel que as mãos possuem no manejo da dominação dos elementos e o esforço que é para se levantar rumas de pedras sem o auxílio que as maravilhas da mecânica nos ofertam. A obra passava bem a mensagem que o partido dirigente queria que fosse internalizada, a ideia de um projeto de nação, a noção de que todos os esforços devem confluir para a construção de um novo país regido pelo elemento da força e resistência. Aquela escultura fazia Bao Fu lembrar dos altiplanos grassados pela Guerra Civil; das levas de homens, vivos e mortos que viu pelo caminho; dos blindados, dirigíveis e capacetes reduzidos em estruturas metálicas retorcidas, e das poças vermelhas de dor líquida que manchavam as paragens. Lembrava-se daquela criancinha nua correndo pela Praça Yi Ming, chorando seu choro agudo que empapava um rosto franzino consumido pelas escoriações e queimaduras, marcas que as máquinas imperiais deixavam nas pessoas por meio de suas investidas.
– Maldita criança! – murmurou ele, apertando com as mãos os olhos ressecados pela fumaça do charuto.
Se por essa descrição rasa chegou a acometer o leitor, ainda que por breve instante, a impressão de que as memórias desse homem trazem na bagagem a compaixão ou o ressentimento por aqueles atingidos pelo revés político, é já meu dever aqui alertá-lo que longe estão disso. O personagem que vemos sentado junto a uma cômoda bombê à meia luz de uma luminária vitralizada é o espetáculo ambulante da ruína moral em prol do poder. Bao Fu via aquelas pobres criaturas afligidas pelos combates como sacrifícios necessários no projeto de Revolução, afinal, como é próprio das convulsões sociais, haverá de ter sempre, a serviço da injustiça, aqueles que perecerão em nome da mudança e os que desfrutarão da modernidade em razão de suas lutas. Quando esteve à frente de um dos batalhões que rumavam para a retomada de Ba Sing Se, naquela que é sua mais saudosa lembrança de outono, ele conviveu com realidades totalmente esgarçadas, contemplando a profundidade e o vazio das almas mais castigadas. Viu toda a capacidade destrutiva do poder humano – à luz das conquistas tecnológicas que nos jogam para frente, mas que nos fazem tropeçar nos próprios cadarços –; toda a maneira de matar, estripar, dar fim a algo fora experimentado nos descampados que serviram de palco para as batalhas contra o Império; mas mesmo assim, manteve-se impassível, com a frieza colossal de uma geleira à deriva, ou de uma tundra polar dos Reinos da Água. Essa não era sua guerra.
Bao Fu era para os prudentes, um homem pragmático que mantinha na mente apenas resultados e não se inclinava aos dilemas morais para atingi-los. Era para os aventureiros, o próprio Asmodeus, devorando aqueles em seu entorno com a gula incansável de sua ganância, pois havia sobre ele certa força demoníaca que atraía corpos menores à gravidade do seu poder, prendendo esses insetinhos nas teias viscosas que criava para formar sua base de alianças torpe e irresponsável. Mas, ainda que fosse a mais miserável das criaturas, um desgraçado egoísta como tantos outros que estavam à frente do governo, ele não conseguia ficar indiferente quando se lembrava da garotinha da Praça Yi Ming; aquela cena lhe trazia uma sensação que ainda não conseguia decifrar, um pensamento que sibilava em sua cabeça, causando desconforto, uma voz que lhe falava algo, mas que sua mente não escutava ou achava inteligível. Procurou livrar os pensamentos daquela memória virando o que ainda restava de licor na tacinha de cristal e afundando-se ainda mais na poltrona do quarto de hotel. Os embalos da vitrola novamente o envolveram e ele passou a desenhar com os dedos passos imaginários no ar ao ritmo frenético do quickstep. Observou por um tempo os papéis debaixo do mata-borrão, os sinetes verdes rompidos sobre as correspondências abertas, as centelhas rodopiando com os estalidos da lareira acessa e a aquarela presa à parede – uma representação em tinta e água das belas prostitutas de um bordel da Cidade República. Logo lembrou-se do porquê de estar até um instante atrás entregue aos prazeres de uma orgia com duas putinhas tenras. Comemorava por que sabia que na manhã seguinte estaria prestes a conquistar algo grande, algo pelo qual vinha costurando acordos há tempos e que logo à frente lhe renderia frutos tão saborosos quanto o amor pago daquelas duas moças.
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