Avatar: A Lenda de Zara - Livro 1: Água

4 Capítulo 3: Dobra D'Água - Parte 1


Notas iniciais
Atualizado em 09/01/2019

— Zara. – Chamava a voz intensa de Tuí. A menina abriu os olhos devagar, piscou algumas vezes e então estava sonhando mais uma vez, o Oásis estava brilhante e aceso como estava acostumada.

— Eu cheguei... – Falou um pouco sonolenta. – Mas se é só pra falar comigo em sonhos, porquê eu vim pessoalmente? – Perguntou realmente confusa.

— Já lhe explicamos que essa forma espiritual que vê é apenas uma sombra do que somos. – A doce voz de La se fez ouvir. – Nossas formas físicas podem te sentir, menina. E podem ser sentidas por você. Vamos ensinar a você a dobra d'água real. – Explicava.

"A dobra d'água é muito mais do que a dobre medicinal que você aprendeu. É muito além do que a maioria dos melhores dobradores sabe. Você ainda está limitada a curar cortes, mas nós, com uma pequena ajuda, faremos de você a maior dobradora de água de todos."

Zara olhava para o peixe branco, pensativa. Sabia que a dobra além da medicinal era proibida para meninas, mas ao mesmo tempo queria muito ser capaz de dobrar grandes volumes.

— Tudo bem. – Aceitou a menina, sem sequer saber que não tinha escolha.

— Antes de saber da água, você vai aprender sobre a dobra. – Ecoou a voz sábia do espírito da lua. – A dobra, de qualquer que seja o elemento, é alimentada pela sua alma, pelo seu chi. A sua energia vital que corre por seus chakras. Sei que você sente essa energia, você a sente quando anoitece, sua dobra d'água fica mais forte durante a noite porque eu estou aqui. – As últimas palavras reverberaram na clareira.

"Você sentiu o nosso chi quando entrou no Oásis, sentiu o peso da nossa energia no ar. Você sabe a história de Tuí e La, os espíritos da Lua e do Mar. Nós representamos muito mais do que isso, e você precisa explorar a sua mente para aprender. Está pronta?"

A menina finalmente começava a perceber a seriedade. Até agora, havia achado tudo emocionante, havia se sentido especial por ser chamada, mas não havia percebido que aquilo tudo envolvia uma responsabilidade real. Ponderou por longos segundos, para então franzir o cenho numa expressão concentrada.

— Mesmo a dobra para batalha sendo proibida para meninas? – Perguntou para se certificar de que os espíritos estavam cientes desta regra. A ingenuidade da garota fez a risada doce e melodiosa de La ecoar dentro do Oásis, e após o silencio se reestabelecer alguns segundos foram deixados passar.

— Não é proibida para você, Zara. – Disse a voz sábia do espírito da lua. – Toda a esperança está em você. – Concluiu.

— Como assim? – Não entendia.

— Menina Zara, você sabe que há uma guerra lá fora. – Disse La com paciência.

— Sim, mas minha mãe diz pra ficar longe de brigas. – Defendeu-se a menina.

— Você tem o dever de acabar com todas as brigas e trazer a paz. – Disse Tuí.

— Mas este é o dever do... – Pensava alto a menina.

— Exato. – Confirmou La. – Este é o seu dever, menina Zara. – Revelou o espírito da lua, deixando mais uma vez o silêncio se estabelecer enquanto a menina processava aquela informação.

— Então eu sou o... – Tentava assimilar, desconcertada.

— Sim, menina. Você é a Avatar Zara. – Falou Tuí. – E você deve aprender a dominar água, deve ser a melhor dobradora de água existente. Então aprenderá a dobrar o fogo, a terra e o ar. – Concluiu, permitindo que a menina superasse a surpresa por si só.

Depois de muito pensar, a menina olhava para as próprias mãos, estupefata. Não se sentia diferente, não imaginava ter nada diferente de ninguém, apenas dobrava a água. Seu corpo sentia-se o mesmo, mas sua mente borbulhava em pensamentos sobre impotência e responsabilidade. Apenas ouvira histórias sobre os Avatares, desde que nasceu nenhum esteve vivo. Nenhum esteve vivo... Pensou.

— Como vão me ensinar? – Perguntou enfim.

— Vamos ensinar a teoria da dobra d'água, e tudo o que pudermos sobre você mesma. – Respondeu a voz feminina. – A prática você aprenderá com Yokusen, Yara colocará você em contato com ele. Mas o mais importante agora é que sente, concentre-se e aprenda. Vamos falar sobre você, Avatar. – Declarou. A menina sentou-se confortavelmente e fixou os olhos nos peixes. Seu nado em círculos a acalmava e ajudava a concentrar-se.

— O Avatar é um espírito muito antigo, que reencarna vez após outra para ajudar toda a humanidade. – Começou Tuí, sendo claro e falando devagar. – A capacidade que você tem de nos visitar no mundo espiritual, isto que você ainda chama de sonho, é uma habilidade muito básica para o Avatar, é como respirar. Você deve aprimorar esta habilidade até poder exercê-la sem esforço algum.

"Algumas pessoas tem uma conexão mais forte com o mundo espiritual, mas não você. Você é a conexão. Apenas você tem aptidão nata a se comunicar com espíritos, como fez conosco através do sono. Se você se concentrar, mesmo sem dormir será capaz de visitar-nos, enquanto estiver próxima de nós. Em outros lugares, o mundo espiritual também se transporta. Quanto mais perto de um espírito forte, como nós dois, mais atraída para eles você será, e será capaz de senti-lo desde o mundo físico."

"Alguns espíritos, como nós, escolhem sua forma mortal para poder serem seres físicos. Nós o fizemos permanentemente em prol do bem de toda a Tribo da Água, mas cada espírito tem suas próprias características. Logo você perceberá que o seu mundo físico e o espiritual são duas partes de um todo."

As horas se passaram enquanto Zara aprendia mais sobre sua conexão com o mundo espiritual, sobre as reencarnações dos avatares e sobre o ciclo destas. Água, terra, fogo e ar, era o ciclo natural do Avatar, e visto que Zara havia nascido na Tribo da Água, deveria aprender a dobra de fogo em seguida.

Os espíritos deram-lhe um descanso, e quando a menina voltou ao mundo físico a lua estava alta no céu, já era tarde demais para aceitar o convite de Yara para uma ceia. Voltando pela caverna de pedra, Zara encontrou um Yuhã adormecido numa cadeira, esteve esperando por ela. A menina o encarou com um sorriso compreensivo, feliz por ter conquistado seu apreço, sentia que era um presente que a sua mãe biológica havia deixado.

— Yuhã. – Chamou num doce sussurro, mas sem sucesso. Balançou o ombro dele delicadamente, mesmo assim de nada adiantava.

Ele estava encostado com a cabeça baixa, os cabelos lisos fugindo da trança e cobrindo parte do seu rosto. – Yuhã! – Chamou de novo conforme o balançava um pouco mais forte.

O homem despertou lentamente, com um bocejo demorado.

— Olá, Zara. – Disse com um sorriso cansado. – Está com fome? – Perguntou.

A menina riu, estava realmente com fome. Assentiu para ele que logo se levantou e ambos rumaram à cozinha.

— Não tem frio com essa roupa? – Ele perguntou, finalmente tomando coragem para satisfazer sua curiosidade. Zara deu de ombros.

— Não. – Falou simplesmente, vendo a expressão interessada do homem ao assentir.

Foram à cozinha e comeram alguns lanches enquanto o homem lhe contava mais um pouco sobre sua infância no palácio, mesmo histórias que não envolviam Kayun. Ele não sabia do que se tratava a presença da garota no palácio, mas gostava de sua companhia.

Yara, por outro lado, tinha suas próprias suspeitas sobre o assunto.

Após se alimentar Zara voltou para o quarto onde havia dormido antes. Estava exausta, queria muito uma boa noite de sono, mas parou subitamente ao encarar o quarto.

Uma pequena e incômoda dor no peito lhe atingiu, seus olhos marejavam, e sua mente não saía do lugar: casa.

Fazia dois dias que não via seus pais, quando nunca havia passado mais de algumas horas sem eles. E agora teria que dormir numa cama desconhecida, num quarto que não era seu. Apesar de deitar-se numa cama confortável, cansada e alimentada, não havia jeito de a garota conseguir dormir.

Sua cabeça se enchia de imagens de seus pais e de seu irmão, até que as lágrimas começaram a escorrer. Fazia cerca de duas horas que tentava dormir mas de nada adiantava, um desespero misturado com a saudade e a solidão tomaram conta da menina. Eram muitos sentimentos grandes para um coração ainda tão pequenino, e ela chorava. Soluçava até, chamava por seus pais na calada da noite, mesmo sabendo que nenhum deles viria. Ninguém viria.

Quando o sol começou a nascer, a exaustão tomou conta do corpo da pequena. Já havia chorado muito, e o sono que lhe bateu após tanto choro foi implacável, provendo um sono sem sonhos ou interrupções.

Acordou por volta das duas da tarde, já sabia um pouco como andar pelo palácio, e procurou Yara. A mulher tinha muitas ocupações, mas conseguiu tempo para acompanhar Zara durante o almoço. A menina não sabia se contaria sobre ser Avatar, e pela dúvida achou melhor continuar um segredo. Mas uma coisa poderia falar.

— Yara, você sabe algo sobre Yokusen? – Perguntou. A mulher, que comia com classe e esperava que a menor falasse algo, sorriu para a mesma.

— Sim, ele estará chegando amanhã por volta do final da tarde. – Disse a Chefe, num tom compreensivo e contente. Suas suspeitas pareciam apontar para a verdade, e adorava quando acertava nos seus palpites. – Você quer que eu a coloque na turma dele? – Ofereceu, prevenindo Zara de ter que pedir, e a menor aceitou.

Assim, estava tudo resolvido. Após o almoço Zara voltou para o Oásis mais uma vez acompanhada por Yuhã. O homem preocupava-se com seu bem estar e com sua alimentação, o que fazia a menina se lembrar de sua mãe.

Logo que foi deixada à sós com os espíritos encarnados, Zara tentou fazer o que havia sido ensinada: entrar no mundo espiritual através da meditação, e não do sono. Sentou-se diante da pequena poça e fechou os olhos, tentando esvaziar a mente.

Após cerca de dez minutos, finalmente a pequena conseguiu, e seus tutores reconheciam sua conquista.

— Aos poucos este processo será mais rápido. – Garantiu La. – Conforme você se acostuma. – A menina assentiu, confiava nos espíritos com todo o seu coração.

— Hoje vamos falar sobre a dobra d'água. – Anunciou a voz feminina. – Sinta-se honrada, pequena. Aprenderá a dobra d'água com o primeiro dobrador. – Disse de bom humor, num tom orgulhoso e animado.

Zara sorriu e voltou seu olhar para o peixe negro.

— Zara, durante a noite, você observa a Lua? – Perguntou Tuí. A menina confirmou rapidamente. – O que a Lua faz? – Perguntou.

— Ela é responsável por empurrar e puxar as marés, e por iluminar a noite.- Respondeu a menina.

— A lua ensinou a dobra d’água. Os primeiros dobradores, quando observavam a lua empurrar e puxar o mar, puderam assimilar e, com movimentos equilibrados e suaves, puderam aprender a dominar o elemento da água. – Explicou Tuí. – A água é o elemento da purificação, suavidade e harmonia. Movimentos lentos, leves e fluídos. Em dobra d’água você aprenderá a dobra nos três estados da água. Líquido, sólido e gasoso. Quando estivem num local onde a água é escassa, lembre-se de que tudo que tem vida tem água.

Mal percebia-se e Zara passara dois dias seguidos “meditando” diante do lago, aprendendo lições teóricas sobre dobra d’água. Aprendera sobre situações onde a dobra d’água pode ser mascarada, e situações onde deve ser mascarada. Aprendera lições sobre o som da água, sobre a água que fere e a que cura. Na teoria, entendia sobre o fluxo da água, tanto o físico quanto o fluxo que corre pelos chakras do dobrador, o chi.


Quando finalmente voltou ao mundo físico, levantou-se com certa dificuldade graças aos músculos rijos e à fome que imediatamente sentiu. Mais uma vez as lições sobre o mundo espiritual lhe abateram.

Ao sair do Oásis Espiritual, tudo começou a martelar a sua mente. Yara teve suas suspeitas confirmadas e ordenou que contatassem Yokusen para as aulas, e os pais de Zara para lhes trazer ao palácio. Foi imposto que a identidade do novo Avatar fosse mantida em segredo.

O mundo sabia que o novo avatar nasceria entre os dobradores de água, mas graças a distancia entre as tribos do norte e do sul, seria mais fácil esconder Zara.

A semana que se passou após os dois dias de lições com Tuí e La foi uma semana de descanso e de revisões. Durante a noite, Zara aprendeu a controlar a meditação e as idas ao mundo espiritual. Conseguia ir sozinha, passeava pelo palácio no mundo espiritual, uma enorme fortaleza de um gelo translúcido e brilhante, como cristal. Alguns espíritos animalescos inofensivos passavam por perto, nada de ruim a atingiria ali no território dos grandes espíritos do Mar e da Lua.

“O Avatar é a conexão entre o mundo físico e o mundo espiritual”

Lembrava-se das palavras de Tuí.

Quando Yokusen chegou de viajem, trouxe consigo alunos que resgatou pelo mundo quando viajara. Eram ao todo cinco. Quatro meninos e uma menina. Todos dobradores de água. Nenhum sabia sobre a identidade de Zara, nem Yokusen, mas ela participaria das aulas com eles.

Enfileirados diante de Zara e Yara, os seis aventureiros prontos para a primeira aula cumprimentaram as duas. Os olhos de Yokusen brilhavam. Ele era um senhor alto e forte, com o rosto livre de barba e cabelos totalmente grisalhos. Tinha olhos azuis e se vestia com roupas bem simples, sempre com um recipiente cheio d’água preso ao cinto.

Os outros cinco alunos não usavam roupas da Tribo da Água. A menina usava um traje da nação do fogo, assim como um dos rapazes, dois dos meninos usavam roupas do reino da terra, e um menino usava roupa dos nômades do ar.

Zara nunca havia visto estrangeiros.

— Yokusen, permitirei que prossiga com sua aula. – Disse Yara calma e doce. – Tome conta de minha pequena Zara. – Disse afagando a cabeça da menina e sorrindo-lhe.

Yokusen fez uma breve reverencia à Yara, assim como seus alunos. Estavam no meio do jardim de gelo, e assim que a Chefe se retirou, Zara pregou os olhos em seu novo professor.

As lições de Tuí e La haviam lhe ensinado sobre as pessoas. Dobradores de água, assim como o próprio elemento, poderiam ser puros ou impuros, poderiam ser ajudantes ou traiçoeiros. Mesmo sendo indicado pelos próprios espíritos, Zara não sabia se poderia confiar em Yokusen.

— Zara, estes são Gumo, Rin, Koi, Vesto e Dara. – Disse rapidamente o professor apontando seus alunos. Gumo era o que usava roupas dos nômades do ar. Rin e Koi usavam vestes do Reino da Terra e os últimos, Dara e Vesto, usavam trajes da nação do fogo.

— Alunos, esta é Zara, a companheira nova de vocês. Quem são e de onde vieram não importa, todos querem aprender a dobra d’água. – Falou seriamente o professor.

Zara tomou lugar na formação, ao lado de Dara, e Yokusen pôs-se diante de todos.

— Sentem-se. – Mandou-lhes. Todos sentaram-se no chão, cada um a sua maneira. Gumo cruzava as pernas e pousava as mãos nos joelhos, Rin e Koi estavam ajoelhados rigidamente, enquanto Vesto e Dara ajoelhavam-se mais elegantemente. Zara apenas sentou-se, mais parecida com Gumo. Sempre que fosse meditar para chegar mais próxima ao mundo espiritual deveria sentar-se em posição de meditação e fazê-lo, portanto estava praticando se familiarizar com aquela posição.

De acordo com Tuí e La, quanto mais conectado com o mundo espiritual o avatar estivesse, melhores seriam as suas dobras.

— A água é o elemento da vida. – Começou o professor. – É o elemento que flui. Para dobrar a água, devemos fluir como um riacho descendo a colina. Toda água corre para o mar, é fácil encontrar a água. – Disse o professor pomposo de seus conhecimentos. Zara levantou a mão.

— Diga, Zara. – Permitiu o professor.

— Sei que aqui no polo norte, praticamente respiramos água, mas e se eu estiver no meio da Grande Divisão, onde encontrarei água? – Perguntou Zara.

— Em seu cantil, em qualquer planta ou animal. Possivelmente nas nuvens, e se você for experiente o suficiente, no fundo do solo. – Respondeu depois de algum tempo.

A menina assentiu. Nunca mataria um animal para poder dobrar a água, mas tinha consciência de que era uma possibilidade.

— Tudo bem. O principio da dobra d’água prática é vencer o rápido através do lento, Vencer o duro através do suave e vencer o movimento através da quietude. – Disse o professor, finalmente despertando o interesse de Zara. – Se observarem as outras dobras, encontraram movimentos rápidos. Como na dobra do ar, onde um espectador nada entenderia dos movimentos do dobrador.

“O Dobrador de água é aquele que tudo faz sem uma gota de suor. Os movimentos são lentos e fluídos, muito suaves. Um dobrador excepcional é um dobrador calmo e confiante de seus movimentos.”

Disse o professor. Para demonstrar o quê quis dizer, Yokusen dobrou a água num breve movimento simples, com uma só mão, levantando uma gota de água diante dos olhos de cada um. Zara abriu um simples sorriso.

O professor pegou em sua bolsa um pergaminho de dobra d’água e abriu-o para que seus alunos o explorassem.

— O universo da dobra d’água é o mais amplo dos quatro elementos. Temos a água em forma de vapor, água líquida e a água sólida, que é o gelo. Todos os três podem ser dobrados, basta que aprendam. – Explicou. – Neste pergaminho temos um movimento simples que resulta numa dobra simples. Começaremos dobrando a água líquida em movimentos de empurra e puxa. Por que? – Perguntou o professor, testando os seus alunos.

Ninguém respondeu.

— Zara? – Perguntou o professor. A menina encarou-o por algum tempo.

— Porque empurrar e puxar é o princípio básico de dobra d’água. Os primeiros dobradores aprenderam a empurrar e puxar a água do mar observando a Lua. – Disse Zara. Yokusen fitava-a curioso e orgulhoso. A menina não procurava se gabar, apenas respondia o que lhe era perguntado.

— Muito bem, e na prática, alguém sabe como é empurrar e puxar? – Ninguém respondeu. – Olhem para o pergaminho. – Disse. –

Alguém sabe ler um pergaminho de dobra? – Perguntou. Mais uma vez havia silencio.

— Tudo bem, vamos, todos de pé. – Disse se levantando e batendo palma uma vez.

Todos se levantaram meio incertos e prepararam-se para dar início à aula prática.

Yokusen demonstrou uma vez o movimento de empurrar e puxar a água. Conforme ele empurrava e puxava, a água do lago do jardim de gelo movimentava-se, acompanhando o movimento do corpo do professor.

Zara observava com cautela cada movimento. A posição do pé, do quadril, dos dedos, e por último o movimento superficial dos braços, empurrar e puxar.

O professor organizou os alunos de frente para o pequeno lago, um ao lado do outro. Zara numa ponta, seguida por Dara, Gumo, Koi, Vesto e Rin. Yokusen caminhava por trás dos alunos, observando o movimento de cada um. Zara não se movia. Em pouco tempo Dara e Gumo já faziam ondas sincronizadas e belas, mas Zara não se movia, e os outros alunos tentavam com pouco sucesso mover as águas do lago.

A jovem avatar olhava para a água. Sabia mover a água, aprendera nas lições de cura. Mas sempre moveu pequenas quantidades de água.

— Alguém sabe porque alguns são dobradores e outros não? – Perguntou o Mestre Yokusen.

— Alguns conseguem canalizar seu Chi em um certo elemento, para controla-lo através de movimentos do seu corpo. – Respondeu Dara confiante de sua resposta.

— E se alguém canaliza seu Chi em todos os elementos? – Perguntou o professor, enquanto os outros ainda trabalhavam na lição de empurrar e puxar.

— Então esse alguém é o avatar. – Disse Gumo, pela primeira vez falando algo.

— E por que o avatar pode manipular todos os elementos? – Perguntou mais uma vez, calando todos.

— Porque o avatar é a conexão entre o mundo espiritual e o mundo físico. – Respondeu Zara. – Através do avatar corre muito mais chi, e seus pontos de chakra são muito mais fortes do que o de um dobrador comum, e ainda mais que os de um não-dobrador. – Complementou. Os outros a olharam de canto, interessados, com exceção de Dara que não deixaria o orgulho por curiosidade.

— O que significa que...? – Incentivou o professor.

— Significa que o Chi de um avatar é o equivalente ao Chi de cinco ou mais dobradores excepcionais. – Respondeu a menina, deixando seus colegas de turma boquiabertos, nunca haviam pensado por aquele ponto de vista. Gumo demorava o olhar na menina, para ele, ela parecia ser muito inteligente, tinha as respostas rápidas sobre dobra que ele gostaria de ter.

Depois de alguns minutos de silencio, o professor parou na ponta contrária a Zara, ao lado de Rin.

— Zara, não vai tentar? – Perguntou. A menina olhou para seu Mestre, assustada com a observação repentina. Em seguida olhou novamente para a água e muito lentamente posicionou-se na primeira parte do pergaminho.

As pernas afastadas, uma na frente da outra, com o pé da frente virado para a frente, e o pé de trás perpendicular, como uma base. Com o quadril virado para frente e as mãos próximas ao mesmo, Zara levantou as duas mãos com as palmas para frente e fechou os olhos.

Ainda podia ver a água. Estava parada, estática. Os outros alunos apreciam ter parado de dobrar a água. Muito lentamente, Zara fez movimentos onde, empurrava e puxava, usando a energia vinda de seus quadris, passando pelos braços até as palmas de suas mãos. Ao empurrar, as palmas tornadas para frente, ao puxar, virava as palmas para si e flexionava os braços ao lado do corpo.

Eram movimentos leves e fluídos, mas muito poucos. A água moveu-se graciosamente, pouco, mas quase perfeitamente. Conseguiu empurrar e puxar cinco vezes antes de se distrair e errar um movimento, fazendo com que as ondas ficassem maiores e assim abrisse os olhos. As ondas ficavam altas demais para um lago tão pequeno. Perto de Zara a água vinha, subia até um ponto muito alto, descia e ia para o outro lado do lago, repetindo o processo.

Em algum momento, errou ainda mais o movimento, e a água veio em direção de si mesma. Com medo, a menina saiu completamente da posição fazendo a água cair do chão e voltar para o lago por conta própria. Ainda assustada, olhou para os outros alunos e para o professor. Dara tinha o olhar fuzilante na menina, e o professor ainda olhava um pouco assustado para ela.

— Zara, já dominou água antes? – Perguntou o mestre para “quebrar o gelo”.

— Sim, senhor. Mas apenas pequenas quantidades. – Disse se sentindo repreendida.

— Tudo bem. Dara, Gumo e Zara estão dispensados, sentem-se ali. – Disse o professor apontando para um espaço liso de gelo pouco atrás dos outros três alunos que ainda não haviam dominado a técnica.

Zara acabara sentada no meio dos outros dois. Gumo a olhava de vez em quando, desviando o olhar sempre que a menina encontrava a vista com a dele. Ele parecia não muito confiante, mas muito inteligente. A menina mais velha, Dara, por outro lado, apenas encarava os outros três incomodada com a demora deles em aprender algo tão simples.

Não demorou muito para que Vesto, Rin e Koi terminassem de dominar. Logo juntaram-se aos outros três.

— Acho que puderam entender a natureza da dobra d’água. – Comentou o professor sentando-se de frente para seus alunos. – Zara, vou precisar falar com Yara depois. – Falou um pouco mais baixo, diretamente para a menina que assentiu.

— Mestre, quando vamos aprender os golpes de verdade? – Perguntou Dara dando um soco na própria mão e sorrindo maliciosamente.

Dara tinha os cabelos muito curtos e pretos, a pele meio bronzeada e os olhos azuis. Era grande e tinha o corpo bem moldado, parecia ter uns 14 anos.

— Não vamos aprender a lutar, Dara. – Disse Zara olhando torto para a maior. – Vamos aprender a dobrar água. A dobra d’água é baseada em uma defesa impecável e um contra-ataque poderoso. – Disse a menina.

— Se quer atacar, aprenda a dobrar fogo. – Completou Vesto com um sorriso maldoso.

— Se eu pudesse escolher... – Comentou Dara chateada.

— Mas é isso mesmo. Em dobra de água, defendemos para contra atacar. Antes que possamos aprender com a água em si, precisamos sentir água e ser água. Qual a característica física mais poderosa da água? – Perguntou o professor.

— Ela flui. – Disse Gumo. – Quando liquida ela flui e nenhum obstáculo é capaz de pará-la por completo. Quando sólida ela pode bloquear quase qualquer material. Quando vapor ela pode estar em qualquer lugar. – Disse o menino um tanto hesitante. O professor sorriu para o aluno enquanto Zara observava interessada, aquela era uma característica que os seus espíritos tutores haviam frizado, e que a Avatar não achava que pudesse pensar tão fácil, o que a fez admirar a inteligencia do menino.

— Esta é, sem dúvida, uma característica muito importante da água. Mas a mais poderosa, qual seria? – Perguntou mais uma vez. –

Quero que pensem nisso durante a noite e digam-me amanhã. Agora todos de pé.

Com todos em pé novamente, o mestre deixou que seus pupilos experimentassem da dobra d’água. Para alguns, era a primeira vez que estavam num lugar com tanta água. Zara apenas ficava em pé diante do lago. Observando a água.

— Por que não faz nada, menina? – Perguntou Vesto para ela, em pé ao seu lado.

— Eu estou. – Disse.

— Está o quê? – Perguntou desentendido.

— Estou fazendo algo. – Disse sem olhar para o garoto. Ele parecia muito com Dara. Tinha cabelos pretos, pele bronzeada de olhos azuis. Mas era um pouco menor, e um pouco mais simpático.

— O quê? – Perguntou.

— “O quê” o quê? – Falou Zara desentendida.

— O que está fazendo? – Perguntou impaciente.

— Estou aprendendo. – Disse finalmente olhando para o rapaz com um sorriso meio aéreo no rosto. Estava ficando boa naquilo de se concentrar, aquilo que Tuí tanto pegava no seu pé.

— Como assim? – Ainda não entendia o menino.

— O óbvio, estou aprendendo dobra d’água com a água. –Respondeu a menina. Aquele óbvio pareceu despertar uma certa curiosidade em Vesto. Em pouco tempo Gumo também juntou-se a eles. Aos poucos, o menino começou a despertar interesse pela forma diferente de Zara de fazer as coisas, desde aprender, à treinar em si.

Olhavam para a água. Vesto não sabia o que via, mas sabia que estava vendo alguma coisa.

Gumo olhava para a água e via o efeito que o vento fazia nela. As ondas pequenas e tremeluzentes, imaginava se um dia teria a delicadeza para fazer um efeito como aquele.

Zara via o Chi da água. Via como tudo e qualquer coisa podia entrar e sair dela, e ela nunca seria danificada. Quando fechava os olhos, sentia a água, era como se visse as partículas fluidamente separadas no líquido, e firmemente próximas no gelo, assim como soltas e desconectadas no próprio ar.

Os outros alunos, curiosos foram ver o que os três faziam sentados diante do lago, ao invés de treinar. Exceto Dara, que era orgulhosa demais para ceder.

O professor via a cena um tanto curioso e orgulhoso. Não sabia que Zara era o Avatar. Tudo o que Yara havia lhe contado era que Tuí e La a escolheram para ser a melhor dobradora de água da Tribo. Melhor até mesmo que o próprio Yokusen.

A menina resolveu praticar após observar mais um pouco a água, rendendo mais do treino e compartilhando conhecimentos e curiosidades com os colegas.

Depois de dispersos, os alunos foram para suas instalações no palácio. Exceto por Zara. Yokusen sentou-se diante dela, ainda de frente para o lago.

— Zara, Yara quer que você tenha aulas extras, e que venha tendo aulas até que eu ou você estejamos exaustos. – Disse-lhe o professor, fazendo a menina lembrar dos dois dias seguidos tendo aulas teóricas com os espíritos do mar e da lua.

— Tudo bem. – Disse a menina. Ela tinha o olhar vago e a postura suave, mas ele via que ela era forte e que estava ciente do que falava.

— Ótimo. Me mostre o que pode fazer. – Disse o professor.