Avatar: A Lenda de Zara - Livro 1: Água
11 Cap 10: Confiança

Com o passar da noite, os momentos tensos das perguntas sobre a dobra de fogo passaram. Logo cada um falava abertamente sobre seu estilo de dobra.
“É um pouco difícil porque nem em todo lugar tem fogo. Aqui, por exemplo, não tem.” Explicava Airon. “Mas eu ouvi falar que se você se dedica muito mesmo a dobra de fogo, a filosofia da dobra, o dobrador pode se tornar capaz de criar fogo.” Os olhos dele brilhavam ao falar de sua dobra.
Nunca tinha tido contato com nada da Nação do Fogo, para Zara aquela conversa estava sendo bastante produtiva, e além de que já não se sentia conversando com um inimigo. Assim como Airon nunca havia procurado entender a dobra d’água. Para ele a ideia dos movimentos lentos era impossível, e a sensação de dobrar a água, a qual Zara mal conseguia descrever, parecia para ele ser fenomenal, quase tão bom quanto a própria dobra de fogo.
Chegou à um ponto em que ambos estavam próximos das barras de gelo maciço que o prendia, para poderem conversar melhor.
– Uma vez eu estava no campo treinando uma técnica de jato de fogo cm chute. – Começou a contar já rindo um pouco. – Aí a minha tia apareceu e gritou “Que é isso menino?!” – Disse imitando a voz da tal tia dele, fazendo Zara rir um pouco. – Aí eu disse: Ah Tia, eu estava fazendo uma fogueira para Ozai! – Disse para depois cair em prantos de tanto rir.
Zara ria do próprio garoto sorrindo tanto.
Depois de conseguirem parar de rir, um certo silencio confortável pairou. Zara já sabia o nome, a idade e diversas outras coisas sobre Airon, mas tinha algo que estava lhe incomodando.
– Airon... Para quem você ia levar Tuí? – Perguntou receosa. O garoto ficou sério novamente, para em seguida suspirar. Não queria se afastar da menina só por causa desta pergunta.
– Eu não sei o nome dele... – Começou a falar baixo. – Só sei que ele iria atrás do outro peixe também. – Disse por fim. Zara ainda não entendia.
– Você sabe o que são esses dois peixes? – Perguntou a menina. Ele demorou um pouco em silencio, mas negou com a cabeça, um tanto envergonhado. – Eles são as encarnações dos espíritos do Mar e da Lua. Eles são os responsáveis por manter o equilíbrio entre o céu e a terra. Se algo acontecer a um deles, é o fim do equilíbrio. – Disse Zara.
Airon parecia um pouco cético, mas ainda sim muito surpreso. Percebendo a descrença do rapaz, Zara suspirou.
– La, o Espirito da Lua, foi quem nos ensinou a dobra d’água. – Disse por fim. Quem sabe assim ele não acreditasse finalmente que não era uma lenda local.
Ele pareceu meio surpreso e meio animado.
– Assim como os dragões nos ensinaram a dobrar o fogo. – Falou o rapaz. Zara não sabia nada sobre dragões, mas se a Lua podia ensinar a dobrar a água, então dragões ensinariam a dobrar fogo sem problemas. – Aquele que eu estava levando era... – Quis saber, um tanto cabisbaixo pela vergonha de ter quase cometido tal atrocidade.
– Era Tuí, o espirito do Mar. – Informou Zara.
Passaram algum tempo em silencio antes que alguém pudesse dizer algo.
– Obrigado. – Ele disse virando o rosto para não encará-la. – Por ter me prendido. – Concluiu. Zara sorriu com aquele pedido. É só um garoto problemático sem um objetivo. Pensava.
Já estava quase amanhecendo, quando Zara teve uma ideia perigosa.
– Airon, você jura que nunca mais vai servir de mercenário? – Perguntou mais séria do que nunca, até assustando um pouco o rapaz por ter quebrado o clima amigável de poucos minutos atrás.
– C-como assim? – Disse nervoso.
– Eu posso te levar para uma aventura, mas preciso confiar totalmente que você não vai se virar contra mim. – Falou Zara. – Nem contra Gumo. – Completou. Airon ficou um pouco emburrado com “não poder se virar contra Gumo”. Não gostava dele, o achava espertinho demais.
– O que quer dizer? – Perguntou ainda em olhar no rosto dela, emburrado.
– Quero dizer que, se me provar que posso confiar em você, e que não vai mais seguir a vida com coisas ruins, eu te darei a oportunidade. – Disse. – Você teria que jurar pela sua vida. Conheço pessoas que ficariam felizes em poder te matar, e te prender não é problema. – Ameaçou assustando-o por um instante. – Se acha que não consegue deixar seu serviço mercenário, apenas não jure, não vai te acontecer nada. – Explicou.
Airon tinha três alternativas.
Deixar a vida mercenária e seguir o que Zara lhe dissesse.
Ficar na cadeia e tentar a sorte pela bondade do povo da água.
Fingir que deixaria a vida mercenária e fugir depois.
Se sentia mal em pensar daquela forma. Mas a última alternativa lhe parecia mais simples e prática.
– Tudo bem, eu faço o que você quiser. – Disse Airon. Zara sorriu sinceramente e num movimento lento e ágil do corpo, levantou-se e abaixou as barras de gelo, para erguê-las novamente quando ele saiu de lá, para ficar ao seu lado.
– Se Gumo topar, tudo certo. – Disse brincando e fazendo Airon bufar novamente.
Em silencio e escondidos, aproveitaram que ainda estava a noite e seguiram por dentro do palácio, para o jardim de gelo. Zara escondeu Airon atrás de algumas esculturas de gelo enquanto esperavam Gumo. Ele sempre se encontrava com ela antes dos treinos com Yokusen, ainda mais agora que teriam que viajar.
Não demorou muito para aquela figura magra de esguia aparecer, olhando para os lados.
Zara preparou-se para ir ao seu encontro, lançando um olhar mortal para o dobrador de fogo antes de ir. Airon sabia que se saísse dali poderia ser morto por outros dobradores, então preferiu ficar sob a segurança da menina.
– Gumo. – Ela cumprimentou se aproximando dele. O menino a olhou gentilmente.
– Zara, Yue disse que temos que partir imediatamente. – Informou o menino. Zara olhou-o com um sorriso travesso. – Ai meu Deus, sinto que essa cara não é coisa boa... – Resmungou. Zara mordeu a língua, demonstrando que achou graça, e então virou-se para trás, olhando para Airon. Este logo saiu do esconderijo, vindo na direção da menina.
Ao ver o rapaz, Gumo ficou numa posição de expectativa, pronto para dobrar a água.
– Gumo... Ele vem com a gente. – Disse Zara casualmente.
Os dois estavam confusos.
– É o que? – Disse Gumo quase gritando.
– “Vem” pra onde? – perguntou o dobrador de fogo.
– Ai ai... – Disse e suspirou a menina. – Eu disse que ele vem conosco. E você não tem que perguntar nada. – Completou olhando para Airon.
– Você vai levar o cara que tentou sequestrar Tuí para a sua jornada? – Perguntou Gumo, revoltado. Zara fechou o rosto numa expressão assustadora. Até mesmo Airon se afastou um pouco, mas Gumo estava no calor do momento. Quando ele se estressava era complicado a razão tomar conta de suas palavras. – Vou avisar a Yue que você está louca! Você soltou ele da cadeia? – Perguntava e argumentava, exaltado.
Gumo simplesmente ignorou a presença de Airon. Incomodado, este cruzou os braços esperando o drama acabar. Já Zara encarava o colega friamente.
A Exaltação de Gumo chegou ao ponto de ele se aproximar da menina para segurar seus olhos e balança-la. Mal colocou a mão nela, Airon entrou no meio dos dois, de costas para Gumo, dando-lhe uma cotovelada no peito e olhando para Zara.
A menina surpreendeu-se com aquilo, mas Gumo não gostou muito. Antes que pudesse continuar soltando o seu veneno, Airon voltou-se para ele e cruzou os braços.
– Olha aqui, pirralho. – Disse. – Eu não estou gostando dessa história de ir pra um lugar que nem conheço com dois dobradores de água. Mas eu não estou me exaltando por causa disso.
– Ah claro, você está escapando da cadeia, não é? – Disse Gumo sarcástico. – Quantas vezes isso aconteceu? Você ir pra cadeia e ser salvo por uma menininha tola? – Perguntou.
– Chega. – Disse Zara. – Gumo, Yue confia em você para ir comigo, e pediu que eu também confiasse. Mas vejo que quando abre a boca pra falar, sai tudo o que você pensa e isso para mim não é bom. – Falou friamente. – Airon vem conosco, ou então eu vou sozinha. – Disse por fim.
O dobrador de fogo olhou-a estupefato. Gumo parecia estar a beira de um ataque. Para ele, ela estava pisando em areia movediça. Sabia o nome do rapaz, e deveria saber muito mais. Na cabeça de Gumo, Zara se envolvera sentimentalmente com o intruso.
Bufou de raiva e lançou um olhar mortal à Airon, que apenas permanecia de braços cruzados esperando a confusão acabar.
Menos de duas horas depois da confusão, Yue despediu-se de Gumo e Zara, dando-lhes a canoa que usariam para chegar ao Templo do Ar.
Zara já havia escondido Airon dentro da canoa há mais de meia hora, e logo estavam no meio do mar, a caminho do Templo do Ar do Norte. Airon tremia até a alma, de frio. Nunca estivera num ambiente tão desfavorável.
Zara e Gumo dobravam água para fazer a canoa se mover, fazendo turnos.
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