Avatar: A Lenda de Yan
6 O Início da Redenção
Notas iniciais
O bipe do hospital é com ritmo. Ele segue um padrão único, copiando meus batimentos cardíacos, monitorados agora, depois do meu “choque emocional”, como disseram os médicos. O que é cômico. A morte dos meus pais é um simples choque emocional. A destruição parcial de minha cidade é um simples “choque emocional”. Minha fraqueza é um ridículo “choque emocional”. Por isso que eu estava ali, deitado naquele lugar insuportavelmente calmo, branco, com lençóis macios demais, perfeitamente lisos. Ninguém viera me ver. Mas eu sabia que toda aquela calmaria, estava sendo mantida com grandes custos. Eu sabia que meu quarto estava em um dos últimos andares, para que eu não pudesse ouvir os gritos e a balbúrdia que a impressa está fazendo lá embaixo. As primeiras páginas dos jornais de amanhã estarão estampadas com meu rosto: “O Avatar Caiu!”.
Meu mestre Saofu estava gritando em meu quarto, hoje, mais cedo. Gritava alto demais, com o ministro da informação. Ministros são aqueles em quem a rainha confia determinados cargos públicos. E o da informação estava responsável pela impressa e, segundo meu mestre, ele prometera antes, que toda a impressa se controlaria ao divulgar minha imagem, por meios seguros de comunicação. Mas tudo saiu do controle. Todos divulgaram. Minha foto saiu descontroladamente pelo mundo todo e em questão de minutos, todos detinham a face do novo Avatar impressa em seus cérebros. E eu estava famoso. E essa fama me prendera à aquela cama de hospital, onde eu estava imerso naquele mar branco, sem graça. Sem ninguém.
Papai uma vez me dissera, que eu deveria fazer mais amigos, que talvez eu fosse precisar deles, quando eu mais estivesse sensível. E eu precisava de alguém. Meu mestre, toda vez que vinha me ver e percebia que eu estava acordado, só me olhava através do vidro na porta, vasculhando, talvez pensando que eu fosse fugir de novo. E eu nunca o chamava. Se ele quisesse me ver, ele iria ficar para falar algo comigo.
As enfermeiras vinham em silêncio, e quase nunca estão certas do que faziam. Sim, elas eram fantásticas, mas talvez por eu ser o Avatar, isso fazia com que elas temessem atingir algum nervo e eu explodir o prédio inteiro. Ou que meu sangue fosse queimar a pele delas. Isso era o poder do nome: um dia, eu era ordinariamente Yan. Desprezível aos olhos de todos, até do mais poderoso dobrador de água. Mas agora, o nome Avatar era necessário. Avatar Yan é importante. E alvo do pior e mais temido dobrador de água do norte. Um simples nome.
A enfermeira, talvez a chefe das outras, manda que suas auxiliares se retirassem, com certa rispidez na voz. Olho atenciosamente para ela, curioso e ao mesmo tempo alerta. Ela sorri gentilmente para mim, revelando uma cicatriz no lábio superior, que não agride sua beleza. Os cabelos negros, com alguns poucos fios grisalhos, estão presos num coque alto. Ela move a mão e algumas agulhas se movem no ar.
─ Não ligue para as outras, querido. ─ fala a enfermeira, enquanto as agulhas pairam na sua frente. ─ Elas têm medo de você. Você é poderoso, criança.
Eu assinto com a cabeça.
Ela me toca firme no braço. Sua pele é firme como a terra e quente como o fogo.
─ Não se preocupe, viu? As agulhas não vão te ferir. Apenas vão liberar alguns pontos do seu corpo, para que a tensão se dissipe. Eu entendo o que você está passando...
─ Entende? ─ pergunto, curioso. Talvez seja ruim, entrar na vida dela. Mas ela comentou.
─ Meus pais foram mortos por ladrões... Mas essa é uma história para outra hora. Relaxe..., fique calmo. ─ ela sorri novamente. Gosto dela.
Faço como ela pediu. Mas não fecho os olhos. Gosto de vê-la dobrando o metal. Primeiro ela estende os braços e as agulhas obedecem, distribuindo-se acima de meu corpo, cada qual no ponto de pressão no qual serão aplicadas. A enfermeira desce as mãos e as agulhas seguem seus movimentos e descem lentamente. E elas penetram minha pele, com uma picada suave, que nem chega incomodar.
Fecho os olhos, ouvindo os bipes constantes das máquinas ligadas ao meu corpo. A enfermeira pede que eu informe, caso sinta alguma dor ou incômodo, mas nenhuma dessas sensações se passa pelo meu corpo. Mantenho-me em silêncio, enquanto ela permite que outras agulhas entrem pela minha pele, acima dos pontos vitais. E relaxo.
Quando torno a abrir meus olhos, consigo ver a tempo as agulhas saírem de meu corpo, em silêncio. A enfermeira as coloca em uma bandeija pequena de metal e empurra o pequeno carrinho para longe da cama. Ela se senta e toca minha perna, com um toque gentil, mas ao mesmo tempo encorajador. Seus castanhos olhos brilham confiança e determinação. Ela parece querer transmitir algum sentimento, mas a porta para sentimentos está fechada. Olho para ela, não escondendo minha tristeza.
Ela sorri, um pouco triste, e se levanta. Ela arruma meu braço, move a mão novamente e uma única agulha penetra minha veia, seguida por um tubo, que retira o sangue. Por fim, ela se despede e sai. Fico triste por ela. Não quero que ela se sinta culpada pelo meu fracasso em ser bom em alguma coisa.
Olho pela janela e vejo o mesmo céu azul que vi naquela manhã que meus pais morreram.
A rainha Loma mandou o ministro de relações públicas vir me visitar. O homem com seu bigode fino e seu jeito rude de ser não me rendeu um bom humor. Ele falou algo a respeito de minha cooperação com o governo, de uma maneira tão mesquinha, que eu quase o expulsei de meu quarto. Ele foi salvo pela enfermeira legal, que o retirou com uma gentileza forçada. Do lado de fora do meu quarto, ela gritou em bom tom que eu não era simplesmente uma arma, e sim um garoto. Senti-me grato por aquele gesto.
Os dias se tornaram semanas. Senti-me prisioneiro naquele quarto de hospital, salvo pela presença da enfermeira. Meu mestre só veio me visitar, talvez na segunda semana de internação. Ele não estava sorrindo, estava pálido demais, magro demais. O cabelo estava amarrado numa trança, como sempre fazia. Parecia doente, triste, sem motivação e aquilo fez meu coração doer. Eu o fito, da minha cama. Ele está parado na porta, com ela ainda aberta, parecendo estar ponderando se deveria ficar ou não. Eu poderia muito bem implorar para que ele ficasse, mas ele não parece estar bem em estar ali. As roupas estão amassadas, indicando que ele não vem dormindo bem. Meu mestre está triste. E eu estou aqui, com fios ligados ao meu corpo, monitorando minha saúde mental, física e tudo o mais. Devo parecer estar doente.
Olho para os olhos dele. Ele solta a respiração e fecha a porta devagar. Arrasta a cadeira mais próxima, para perto da cama e se senta, com receio. Ele teme que qualquer movimento brusco, possa fazer minha bomba emocional explodir. Eu sei disso, pois conheço aquele homem como conheço a palma de minha mão dominadora. E ele também sabe disso, por isso tenta transpassar o mínimo de informação, com vergonha do que eu possa sentir. Ele é a minha única salvação.
─ Desculpe não ter vindo antes, Yan. ─ disse ele, a voz embargada.
─ Sifu, você não tem que se desculpar. Eu não sou uma obrigação sua, eu só sou-
─ Claro que você é a minha obrigação, Yan! ─ interrompe ele, bruscamente alarmado com minha afirmação. Ele retira alguns fios soltos de cabelo da frente do rosto. ─ Você é muito mais que meu aluno. Você é meu diamante polido.
Sorrio suavemente, pois sei que meus lábios não se movem muito. Meu mestre nunca foi de se expressar daquela maneira, não dizia abertamente a respeito de seus sentimentos. Ele, nas palavras dele, era uma rocha dura e rígida, o interior protegido o suficiente. Nada saía, nada entrava. E ouvir aquilo da própria boca dele, era algo extremamente valoroso. Não respondi.
─ Yan, você vai receber alta hoje. E você não irá mais para Ba Sing Se. Apenas percorerrá metade do caminho e encontrará o Rei da Terra na Cidade da República. Eu queria muito poder ir com você, mas eu preciso ficar mais do que nunca. ─ ele fala incerto. Com receio. ─ Ficarei na cidade. A rainha acha que sou necessário aqui.
─ E farei o que na Cidade da República? Falhar mais uma vez? Sujar a imagem de uma sucessão de Avatares brilhantes, com meus fracassos repetitivos? ─ eu estava gritando. Ele não merecia aquilo, mas eu estava gritando. ─ Eu não queria ser o Avatar, ok?
─ Agora você é! ─ gritou ele de volta, erguendo-se. Abriu os braços, como se me desafiasse. ─ Você pode fazer algo a respeito disso? Não, não pode! Viva com os fatos, Avatar Yan! Você é aquele quem restaurará o equilíbrio. Contente-se! Não é só pelo fato de você ter perdido uma luta, que você sempre perderá. Você só é mestre em um elemento! Terra! E não foi só com a água que a Korra venceu a Lótus Vermelha, Zaheer ou Amon! Não foi só com o Ar que o Aang parou a Guerrra dos Cem Anos e derrotou o Senhor do Fogo Ozai! Não foi só com a terra que a Kyoshi restaurou o equilíbrio, deu um lar aos seus amados e derrotou Chin! Acorde, Avatar Yan!
─ Pare de me chamar assim. ─ peço, sussurrando com a voz embargada.
─ Não, eu não paro! Ou prefere que eu lhe chame como Cabeça-dura Yan? Parar de lhe chamar de Avatar, é o mesmo que renegar o seu nome! Ou prefere ainda: Avatar Cabeça de Repolho!? ─ Saofu fecha a mão no ar, contendo-se. ─ Preste atenção: o mundo precisa ser restaurado. Omashu, Oma Ga, a Península da Terra. Todos esses lugares precisam ser consertados através de você...
─ E COMO VOCÊ QUER QUE EU CONSERTE TUDO ISSO, SE POR DENTRO EU ESTOU DESTRUÍDO!? ─ berro, sentindo a respiração se alterar. A tela que monitora meus batimentos cardíacos se altera e os bipes se tornam intensos e altos.
Meu mestre desvia o olhar para a tela.
Ele suspira e fecha os olhos.
─ Você vai se restaurar, Yan. Precisa se restaurar. O mundo precisa de você. Eu sinto muito, por você ter sido o escolhido, mas as coisas não acontecem sem um propósito. Talvez você detenha um destino, que simplesmente esbarrou no Ciclo Avatar. Talvez você possa ser o melhor...
─ É engraçado você dizer isso, mestre. Sou um dobrador de terra de araque. Não dobro metal, não dobro lava, não dobro nada além da terra... Quando a casa dos meus pais pegava fogo, tudo o que consegui foi entrar no Estado Avatar e dobrar mais fogo. Dobrar ar! Dobrar MAIS TERRA. Não fui capaz de dobrar uma gota sequer de água para salvar minha história, minha infância... ─ estou chorando agora. ─ Meus pais morreram, por eu ser um Avatar incopetente! E o que você e o mundo querem de mim? Me jogar na primeira página dos jornais, como um enorme fracasso? ─ soluço forte. ─ Como a vergonha do Reino da Terra?
As lágrimas rolam pelo rosto causando cócegas incomodas. Coço a superfície da pele, sem nenhum receio de me ferir com as unhas. Meu mestre se senta ao meu lado e me abraça. Enterro minha cabeça no peito dele, arrancando alguns fios do meu braço. O que monitora meu coração foi um deles e o bipe contínuo inunda a sala, enquanto meu soluço ecoa em minha mente. A dor em meio peito, como se meu coração estivesse fazendo força a mais, por estar comprimido, me faz querer fugir. Eu tremo, mas meu mestre me abraça mais forte, para que os tremores me deixem. E ele sussurra continuamente que tudo vai ficar bem, que eu sou o melhor, mas eu não acredito. Eu queria mudar tudo, queria mudar a realidade.
Choro durante minutos, que parecem eternidade. As lágrimas não caem mais e a garganta dói. Afasto meu rosto, com vergonha de olhar meu mestre. Ele sai, de repente e não tarda a voltar, segurando um jornal com a mão. Ele me olha de longe, dessa vez, talvez não querendo desmoronar, como eu estava fazendo nesse instante. Meu mestre, agora, ao meu ver, era uma pilha de rochas precariamente empilhadas. E eu era o vento que soprava, tentando derrubá-lo. Mas é óbvio que o vento não tem culpa: ele só realiza sua natureza.
Ele joga o jornal nas minhas pernas.
─ Leia a primeira página. Eu te amo, Yan.
Saofu dá as costas e toca a maçaneta e fica imóvel. Olha mais uma vez para mim, e sai do quarto, fechando a porta entre nós, criando essa barreira entre nós.
O silêncio é atordoante. Viro o jornal e fito o nome no alto da folha “Jornal Expresso de Omashu”. Enxergo uma imagem minha. Na foto, flutuo com o fogo em meus pés, enquanto Jaya domina a água ao redor dele. O ângulo da foto, faz com que Jaya fique de costas para a imagem e o brilho de meus olhos, intenso, é o enfoque. Algum fotógrafo muito doido conseguira aquela imagem impecável da luta na rua de minha casa. Na primeira capa está escrito. Em letras garrafais:
“Avatar Yan: o herói da invasão!”
O Centro de Viagens de Omashu é pequeno ainda, em comparação com os outros do Reino da Terra. Existem duas pistas de decolagem e aterrissagem, iluminadas com as típicas luzes verdes. Ao lado estão estacionado as naves. Aviões, balões, dirigíveis, todos ostentando o nosso valioso selo, que diz a que lugar pertencem àquelas naves. O selo da terra parece incrustado na lataria, adornado ainda com vinhas de uvas, já que somos os maiores cultivadores da fruta de todo o Reino. Atrás da insígnia da terra, havia um grande gorila-cabra, um animal de pelagem bege, chifres e focinho que se assemelhava a um porco. Todos diziam que o animal estava estampado em nossos simbolos, para mostrar nossa força como unidade do Reino, mas é claro que aquilo não passava de mais uma homenagem ao nosso Antigo Rei Bumi, o louco, que sozinho foi capaz de reduzir diversos segmentos do exército da Nação do Fogo a míseros fugitivos. Bumi, nosso rei, era poderoso e sábio. Eu sempre quis ser como ele. Certamente que na questão da sabedoria.
Disseram para mim, que o ataque contra Omashu foi contido nos anéis mais externos e que aqui, no centro, onde ficam o Centro de Viagens, o Palácio Real, o Ministério, e os principais prédios públicos e econômicos, a coisa foi diferente. Tudo estava intocado, ligeiramente comum ao dia anterior, quando não sonhávamos com o tal ataque das forças de Jaya. Mas eu creio, que para ele, não importava o quão destruída nossa cidade ficava. Jaya queria deixar apenas uma marca em mim, coisa que ele conseguiu. Meus pais estão mortos.
O Centro é um prédio enorme, onde eles distribuíram diversas cadeiras em salas de espera e embarque, conectados a corredores que nos embarcas nas espaçonaves. Ainda existem diversas salas de controle, com aparelhos que eu sei, que são muito modernos e que são usados através da dobra de metal, com componentes eletrônicos sofisticados e que nos possibilita a troca mútua de informação da nave e do Centro. Hoje em dia, graças a esses aparelhos também, as malas são analisadas por uma espécie de máquina, que enxerga além das superfícies das coisas. Enxergam dentro das coisas. E com toda a nossa tecnlogia, os crimes caíram drasticamente e os acidentes passaram a ser zero. Mas dizem, que em Ba Sing Se e nas cidades do noroeste, as coisas são mais sofisticadas. Dizem, que aqui, nós somos caipiras, mesmo com tanta tecnologia, sons de bipes aqui e ali, ainda mais com a voz aveludada de uma mulher, saindo da caixa de som anexa ao teto de isopor.
Estou sentado numa das cadeiras na sala de espera. O fluxo contínuo por aqui são de funcionários do Centro de Viagens, que vão e vem. Um faxineiro passa o esfregão pelo piso, enquanto a sugere sucumbe ao esforço dele. Constantemente estou sendo vigiado pelos Mestres da Terra. Hoje, a túnica negra deles me faz sentir receio. Temo um novo ataque, temo novas pessoas sendo vítimas da minha incompetência. Por isso, mantenho meus olhos atentos.
Desde que saí do hospital, carrego uma pequena pedra comigo. Sinto-me mais seguro com ela, fazendo volume no meu bolso, do que sem nada para dobrar. Não é a melhor arma que tenho, mas ela pode se tornar eficiente, se eu for motivado pela coisa certa. E eu quero proteger tudo ao meu redor.
Levanto-me e dirijo-me às portas que dão para as pistas e o estacionamento. São de vidro puro, limpo demais, que reflete minha imagem. Visto as mesmas vestes de sempre: uma camiseta preta por debaixo do meu casaco verde, revestido de amarelo com o zíper torto de propósito. A calça preta e o calçado cinza me fazem parecer mais alto do que sou. E eu gosto disso demais. Quando olho meu rosto, noto meus olhos totalmente inchados. Eu venho chorado demais nos últimos dias e dormido pouco. A ausência da voz de minha mãe e a presença de meu pai, fazem com que eu me sinta perdido. Mas existe algo que me reconforta. E está em minha cabeça.
Meu cabelo é diferente dos demais. Ele parece ser curto, arrepiado, mas uma trança pende atrás da cabeça. Papai quem deixou eu cortar assim, quando eu disse que queria parecer um agente do Dai Li. E papai, certamente gostou da ideia, de um filho dele trabalhando para o governo do Reino, poderoso mestre de terra. Mas talvez esse sonho tenha morrido, quando ele descobriu meses atrás, que eu era o Avatar.
Meus olhos verdes estão brilhando no reflexo, quando aliso meu cabelo lentamente. Yatros, general do Reino da Terra, meu pai, morreu. Ming, mulher forte do Reino da Terra, minha mãe, morreu. E pensar na morte deles, só me trouxe algo em mente: A morte não é o fim da vida. O fim da vida é quando o que você deixa para trás, simplesmente deixa de existir. Eu sou a herança viva dos meus pais no mundo. Eles me ensinaram coisas, sabedorias. Deixaram para mim, detalhes sutis, como um corte de cabelo ou uma marca de nascença igual a da minha mãe. Eles podem ter partido fisicamente, ma enquanto meu coração pulsar, e minha memória não falhar, eu terei eles comigo, sempre próximo e em cada passo que eu der.
Puxo minha trança e a aliso, quando ouço uma voz me chamar.
─ Avatar Yan, o seu voo está pronto. Podemos partir. ─ diz a mulher de óculos redondos e de vestes elegante. Ela ordena meu caminho. ─ Por aqui, senhor Avatar.
Sigo por onde ela pede. Não tenho nenhuma bagagem comigo, nenhuma lembrança, apenas pensamentos felizes. Lembro de uma colher de pão, enquanto viro no corredor de embarque. O corredor é revestido de piso no chão e as paredes e o teto são macios, revestidos de um tecido macio verde claro. Caminho, enquanto lembro do sorriso de minha mãe. Lembro do toque do meu pai. Da primeira vez que vi ele lutando, e em como ele era firme como a terra. Como ele e a terra eram um só e ao mesmo tempo como ele conseguia se diferenciar, quando o assunto era eu: o homem duro, se tornava amoroso e terno. Papai e mamãe.
Olho o interior do avião. Esse daqui é um modelo novo. Único na cidade. Existem dezesseis poltronadas, divididas igualmente. O interior é revestido de veludo de alto preço, noto quando passo os dedos. A mesa está servida com comida o suficiente para alimentar uma família inteira, mas eu sei que é exclusivamente para mim. As janelas são minúsculas, mas isso não impede que o interior seja iluminado pelos pequenos lustres de cristais (transparentes). Cada poltrona é equipada com aparelhos eletrônicos o suficiente para eu me distrair durante o voo, mas eu não quero ser obrigado a ligar a televisão com a mão. Queria poder mexer nela através da dobra de metal que eu não tenho. Ignoro as poltronas e me dirijo à mesa.
─ Alguém mais viajará comigo? ─ pergunto para a mulher.
Ela ajeita os óculos e confere o aparelho na mão, o qual ela acessa com os dedos finos. Ela alisa a tela e consigo notar o que ela lê, refletido nas lentes de seus óculos.
─ Ninguém mais, Avatar. Apenas o senhor. ─ a voz dela é firme, ponderada.
─ Que desperidício de comida. ─ sussurro, virando o rosto.
─ Perdão, senhor?
─ Não é nada! Muito obrigado, errr... ─ tento ler o nome dela, num crachá de metal anexado no peito. ─ senhora Ty.
Ty diz que foi uma honra me servir e dá as costas. Volto a me mexer, quando não consigo ouvir o barulho dos passos dela e olho o interior do avião. Haviam pequenas mesas entre algumas poltronas, onde jaziam flores laranjas e que naquele mar tecnológico, parecia perdida. Servi-me de um pão e um corpo de água e sentei-me na janela, que eu sabia que ficaria voltada para o oeste. Eu queria poder assistir o pôr-do-sol, como eu gostava de fazer, quando papai me levava para os Montes Appa, ao redor da cidade, quando ele secretamente avaliava meus redimentos na dobra de terra. Antigamente, papai duvidava de Saofu como um dos melhores, por isso me testava sempre que possível. Nunca contei isso ao meu mestre.
Houve um chiado de algo não físico. Olhei para cima e vi uma caixa de som acoplada ao teto.
─ Senhor Avatar Yan, iniciaremos o voo dentro de um minuto. ─ fala o piloto. Seguro o pão entre os dentes e começo a arrumar meu cinto. ─ Peço que por gentileza, coloque os cintos. O voo durará aproximadamente quarenta e cinco minutos, numa viagem direta de Omashu para Cidade da República. Obrigado e faça uma ótima viagem... Centro de Viagens de Omashu.
Pelo menos a viagem não durará muito. O avião manobra pela pista e sai no fim dela. A frente está voltada para o início. Ele começa a andar e a correr e eu sei que logo a ponta estará apontada para o céu, que é quando ele começa a voar. Eu já havia viajado uma vez antes... Acho que foi quando fui para Ba Sing Se. Ou não. Não me lembro. Só sei que dessa vez, tudo é mais rápido. O zumbido suave dos motores não incomoda, mediante ao espetáculo no céu. Eu poderia muito bem me lamentar, ficar olhando para Omashu, que pouco a pouco está se tornando um pequeno aglomerado de minhocas que são as ruas, formigas minúsculas que são os carros e pequenos blocos que são os prédios. Poderia me permitir a apenas fitar o palácio real, que de cima é uma chocante visão estonteante, mas não. O sol está no horizonte, me abençoando com sua luz quente, mergulhado num céu com nuvens brancas e fofas, jogando uma nuance de cores indescritíveis. Do laranja e dourado, até o azul e roxo. E aquele show não me permite pensar em mais nada.
A Cidade da República se ergue. Não existem mais casas de madeiras ou as quitandas de antes, com lonas e madeira. Os prédios predominam de concreto, de vidro, até mesmo alguns de metal aqui e acolá. Posso ver os carros, tão aerodinâmicos, movendo-se livremente nas pontes e nas ruas, tão mais largas, que eles podem ir velozes e voltar mais velozes ainda. As luzes dos prédios e dos postes são um show para a visão, por mais que eu esteja sendo recebido por um mar de flashs contínuos e vozes abafadas. Aqui no aerocentro, todos estão me esperando. Estou saindo do avião. As outras naves estão ao nosso redor, e por mais que elas se ergam belas e imponentes, aerodinâmicas, bonitas, a atenção está voltada para mim. Ali embaixo, ergue-se o mar de pessoas. Os conselheiros e ministros, até o próprio presidente. Dobradores de água, dobradores de fogo... Todos querem me ver. Todos querem um pedaço de mim.
A primeira pessoa que me recebe é o presidente. Meelo. Ele é totalmente diferente do Tenzin, que eu tenho em mente desde que o vi nos livros de História Mundial, no capítulo de Resgate de Culturas. Ele é velho. Careca. A seta que demonstra que ele é mestre em dobra de ar, é exibida com orgulho no alto da testa, o que me faz lembrar do avô dele, Aang. Seus olhos cinzas, em companhia ao sorriso maroto nos lábios, me faz temer o que ele está pensando. Ele parece analisar meu corpo, como se estivesse criando naquele instante, um modo de zombar da minha cara. Recuo e sorrio incerto. O vento frio da cidade, vindo do mar, me faz arrepiar. Ergo meus olhos e fito Meelo.
─ Então você é a reencarnação do vovô e da Korra. ─ ele me analisa, parecendo crítico. ─ Nada mal... Relaxa! Eu estou brincando com você!
Ele me estende a mão. O toque é quente. A mão é macia. Ele me dá as boas vindas e me conduz para a frente dos fotógrafos. Os flashs são intensos demais, enquanto as vozes se erguem. Atrás dos repórteres, estão os moradores da cidade, todos me esperando. Aquela cena é doida. Alguns dias antes, eu simplesmente estava me preocupando com uma graduação tola de dobra de terra e hoje, o mundo me conhecia e sabia que eu era o Avatar.
Meelo me conduz com as mãos nas minhas costas, apresentando os conselheiros da cidade, um a um. Era evidente, que ali, existiam dois conselheiros de cada nação. E um me chama atenção.
As sobrancelhas eram naturalmente arqueadas e a pele cor de caramelo era o ponto forte. Ele exibe um rosto severo, ao mesmo tempo que trajava as roupas típicas de um dominador de água. Não existem aqueles casacos pesados, feito de peles de animais. Ele traja um sobretudo preto, por cima das vestes azuis e brancas. O cabelo está amarrado num rabo de cavalo curto, onde as laterais e a parte de trás da cabeça estão raspadas. Seus olhos, num tom azul, encontram os meus. E ele me fita com intensidade, como se vasculhasse dentro de mim por algo que ele perdeu.
─ Avatar Yan, esse é Kyle ─ junto minha mão direita fechada em punho na palma da esquerda, num típico sinal de respeito, fazendo de novo, o que eu vinha fazendo com os outros conselheiros. ─ Ele é filho da Avatar Korra.
Levanto bruscamente e fito os olhos de Kyle. Aquelas sobrancelhas arqueadas, obviamente, ele havia puxado do pai dele, e aqueles olhos, me vasculhando, vinha da mãe dele. Nos encaramos em um minuto muito longo, no qual eu me esqueço completamente de onde estou ou do que deverei fazer. Kyle sorri de canto, com escárnio, me analisando lentamente, com seus olhos devoradores.
─ Avatar... Seja bem vindo. ─ a voz sai suavemente, aveludada.
Repito o sinal de respeito, olhando para Kyle, interessado. Consigo juntar um mais um, para saber que ele é meu filho. Certamente que na minha vida passada. E aquela conexão é extremamente estranha. Em meu íntimo estou rindo.
Meelo me conduz lentamente para um púpito com diversos microfones. Cada um com um desenho diferente, números diferentes. Existem gravadores, fios soltos por ai, serpenteando como cobras, e diversos jornalistas ávidos por respostas. Meelo ergue as mãos suaves no ar e tudo se silencia. Os flashs acontecem, mas o silêncio é imenso, que chega a pesar. Os olhos cinzas do presidente procuram as melhores expressões no público. Ele sorri.
─ Cidade da República ─ grita ele. ─ Apresento a vocês, o Avatar.
Ele sai da minha frente e uma onda de aplausos percorre todo o aerocentro. As pessoas me ovacionam com ferocidade, erguendo faixas toscamente pintadas com meu nome, com o símbolo da terra, ou caricaturas minhas, que me faz sorrir. Olho para Meelo, sem saber o que fazer. Ele gesticula, apontando o microfone. Olho para trás, e percebo o olhar feroz de Kyle em mim, como se ele estivesse arrancando um pedaço das minhas costas. Eu sou o Avatar e eles estão aqui por mim. Estão aguentando o vento frio oceânico, apenas para ter um vislumbre meu, ou saber mesmo como é o tom de minha voz.
Vejo a túnica laranja de Meelo e ele está ao meu lado, com a mão gentilmente tocando meu ombro. Dando-me força.
─ Povo da Cidade da República: eu sou Yan, seu Avatar. Quero que saibam de uma coisa. O Avatar está mais vivo do que nunca e eu vou trazer uma era de paz. Não falharei e nem mancharei o nome de meus antecessores. Korra ─ apontei para Kyle sem notar. ─ com seu estilo gentil de ser, acabou com a tirania de muitos déspotas! Aang com sua sabedoria... ─ sorri para Meelo. ─ Trouxe a paz de um jeito único e fundou este lugar. Eu, Yan, de Omashu, não irei falhar com vocês! A paz é nosso tesouro e eu honrarei o legado que me foi dado.
A ovação cresceu e o som das vozes pareceu me enterrar. Os flash foram tantos, que eu pensei que fosse dia, por um instante. As pessoas aplaudiram, quando do céu, choveu papel lâminado dourado ao redor de todos. As crianças correram atrás dos papéis e começaram a juntá-los em montes. E tornavam a lançá-los para cima. O coro de vozes berrava um nome: o meu nome. As vozes potentes, me saudando, me ovacionando, me dando forças.
Uma jovem menininha vem correndo, depois de se esgueirar pela linha de segurança, formada pela Lôtus Branca. Ela me entrega uma flor qualquer e sai saltitando, como se aquela infiltração dela, fosse a coisa mais inocente. Meelo sorri para mim. E eu sorrio de volta.
Eu acho que está na hora de parar de agir como um tolo. Eu tenho um legado a proteger. Korra, Aang, Roku, Kyoshi, Kuruk, Yangchen. Eles lutaram pelo mundo, no modo deles e construíram tudo isso. Eu não quero passar minha vida me lamentando, por eu ser o escolhido, o novo Avatar. Está mais do que na hora de aceitar meu destino e fazer o certo por todos, sem ver a quem. Eu sou o Avatar Yan.
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