Avatar: A Lenda de Rong

2 Livro I. Capítulo 2: Mestres


Acordei meio tonto na mesma sala. Não se deram o trabalho de me carregarem para algum lugar. Levantei-me com a mão na testa. Na mesa, o bloco de gelo estava fragmentado, uma mancha de queimado de alguns centímetros e pedaços de carvão, não havia mais tornado. Ergui os olhos para os homens, eles faziam uma reverência.

—Avatar Rong, é uma honra estar na sua presença — Disse o nômade do ar — Estou contente em ser seu novo instrutor espiritual. Trabalhei com a Avatar Korra e tenho que você se tornará uma ótima ponte entre os mundos . — Ao finalizar a frase, ele levantou.

—Avatar Rong, a Lotus Branco ficará contente em te treinar e viajar contigo até você concluir seu treinamento. Nossos centros de treinamento já estão te esperando. — Disse o dobrador de água, que levantou.

O policial não falou nada.

Eu não conseguia entender, não falava, muito menos balbuciava. Somente olhava para o além, tentando entender o que acontecia.

Sabe, essa parada de Avatar dos elementos, espíritos etc. tals e tals é legal, mas não é minha praia precisar salvar o mundo de dobradores de sangue que tiram dobras, anarquistas asfixiadores, unificadoras com raios espirituais e essas coisas.

Acho que os homens perceberam que eu não compreendi.

—Você é a reencarnação de Korra e o corpo de Raava. Você é a ponte entre o mundo mundano e espiritual. Dobrador dos quatro elementos. Zelador da paz na Terra. — O nômade explicava.

—Sua mãe será notificada, você terá contato com ela. Nosso centro de treinamento de terra fica nos arredores de Ba Sing Se. Ao concluir esse elemento, você será transferido para a Nação do Fogo, depois irá para um dos Templos do Ar e por fim, Tribo da Água do Norte. Seus mestres serão os melhores e...

—RONG! — Um grito feminino interrompeu o membro da Lotus Branco e a porta atrás de mim abriu-se, quem apareceu? Ela, Jin — Fiquei sabendo que você é o no... — Tinha medo (ou seria vergonha?) de chamá-la de amiga naquele momento. Ela vira os outros homens e começava a andar de marcha ré, sem graça, e saiu da sala, fechando a porta.

Olhei para os homens e consegui falar.

—C...Certo. Mas e minha amiga? Ela é meio lelé das ideias, talvez ela tentaria me raptar ou algo do gênero...

O dobrador de água sorriu.

—Ela poderá ir com você para te ajudar nos treinamentos. Mas somente ela — advertiu.

—É tão fácil assim ser o Avatar?

—Se você garantir que não irá se rebelar e fugir igual a Avatar Korra, eu garanto que será fácil — Ele riu.

—Eu não preciso pagar nada?

—Nada.

—E onde entra a parte de salvar o Mundo?

—Já é outra história. Você precisa aprender as dobras o mais rápido possível, uma ameaça pode aparecer a qualquer hora. Também precisamos que você desenvolva o Estado Avatar, pois essa é a arma principal dos Avatares contra os maiores inimigos e é quando você está no ápice de seu poder espiritual e elementar.

—E quando as pessoas saberão que eu sou o Avatar?

—Será divulgado que o Avatar foi encontrado e que ele já está sendo cuidado pela Lótus Branco, mas não diremos que é você enquanto não tiver desenvolvido duas dobras. É para o seu bem. — Ele explicava de forma serena — Está pronto para ir? Não precisará levar nada, a menos que queira uma lembrança...

Lembrei da cena no beco, " Eu quero é esquecer esse fim de mundo " pensava.

—Acho que podemos ir, só quero que notifiquem minha mãe — Sorri.

—Ótimo! — O Nômade pulava de alegria.

Saíamos da sala e encontramos Jin. Ela sorriu para mim.

—Meu pai já deixou eu ir com você para o treinamento! — Ela fez um tom de voz mais grossa — "Não tente gracinhas" — E rimos, até os meus novos mestres riram.

—Nós vamos de avião. — Disse o dobrador de água — Um dos nossos membros é muito rico, por isso a Lótus Branco é bem financiada. — Dizia sorrindo, ele devia ser uma pessoa bem animada.

Saíamos da delegacia e fomos até o Anel Superior de trem, onde havia um aeroporto particular desse membro da organização. O avião já estava nos esperando, só tinha três locais para sentarmos, tudo bem, era bem pequeno.

O nômade do ar tirou um cajado de madeira de seu suporte nas costas. Era um equipamento muito bem ornamentado. Asas se desdobravam do cabo e exibiam desenhos e símbolos que eu não compreendia. O velho levantou voo num piscar de olhos, a idade não era um problema.

—Te vemos lá, Meelo! — Dizia o dobrador de água enquanto o nômade saia voando para Oeste.

"Meelo" o nome ecoava em minha mente, eu sabia que alguém importante teve esse nome. Era esse homem? Não sei se era ele. O que o tal de Meelo fez? Não me recordo.

Eu nunca havia andado de avião, muito menos voado. A vista de cima era muito bonita, estar perto das nuvens não parecia mais um sonho. As muralhas, os prédios, carros, pessoas... Era uma vista perfeita, eu poderia passar dias olhando-a sem parar.

Quando começamos a descer, vi uma mansão tradicional do Reino da Terra. Não estávamos mais dentro da cidade, mas no contorno do terreno havia uma muralha de uns sete metros de altura vigiada por guardas em trajes azuis e brancos.

O avião pousou no quintal da mansão, onde havia um enorme campo de treinamento com bonecos, discos de barro, rochas gigantes. Acho que chamar aquilo de quintal era um xingamento, pois a área devia ocupar uns vinte hectares de solo. Havia cultivos com variados tipos de plantas, uma fazenda, um moinho, uma pista de pouso e decolagem, uma garagem com vários carros e a mansão era gigantesca. Não havíamos entrado ainda, mas eu já imaginava na vida que teria lá dentro. Olhava admirado para tudo.

—Temos um campo de treinamento, quartos, uma academia, uma pista de corrida, um refeitório, uma biblioteca, uma fazenda, plantações com diversos tipos de plantas, um templo, uma piscina, uma sauna, um spa, um salão de jogos e uma sala de estar! — Anunciou o dobrador de água — Acho que devo me apresentar, sou Igaluk Seqinek, da Tribo da Água do Norte, seu futuro mestre de dobra de água. Agora precisa os nos encontrar com os outros mestres. Você terá um professor para cada elemento, além de aulas de luta corporal e armas, também terá Meelo, que será seu Guia Espiritual. Durante o tempo que passar aqui, desenvolverá sua dobra de terra, manuseamento de armas brancas e Sato Gun, conexão espiritual, golpes de luta e tentaremos descobrir se você é capaz de trabalhar com as novas dobras. No fim de cada elemento, você passará por um teste. — Concluiu.

Concordei com a cabeça e fomos em direção à varanda do térreo dos cinco andares da mansão. O piso era uns vinte centímetros elevado, e tinha uma escadinha para subir. A cena seguinte foi estranha.

À minha frente, em cadeiras de balanço, eu podia ver outros dois homens e uma mulher desconhecidos além de Meelo. Parecia que estavam de férias. Estavam totalmente relaxados tomando algo gelado e jogando Pai Sho.

—Ora, ora. Parece que finalmente encontramos o Avatar. — Disse o homem mais novo, em seus quarenta anos, pele branca e cabelos pretos-acizentados eram curtos e elegantemente penteados para o lado, seus olhos eram...Que cores belas! Sua íris era salpicada com várias cores diferentes, de verde a dourado. Embaixo daquela roupa da organização, parecia ter músculos fortes. — Eu já estava ficando impaciente!

—Deixe de ser explosivo, Hirohito — Disse a mulher. Também era Nômade do Ar, a parte superior de sua cabeça era raspada para exibir a seta, mas tinha as laterais do cabelo cinzento presas, formavam uma trança. Era um pouco mais velha que Meelo e seu rosto mostrava rugas de expressão, mas um sorriso simples estampava sua face. Ela riu, enquanto o homem dos olhos coloridos ficava emburrado — Eu não quis ser literal, você entendeu!

O terceiro homem era baixinho, talvez 1,65 de altura. Tinha uma pele morena escura. Sua cara estava debaixo de um monte de barba, bigode, sobrancelha e cabelo. Era um emaranhado cinza, seus olhos eram castanhos e tinha um nariz de batata. Ele só soltou uns grunhidos em resposta.

—Vocês são tão mal-educados. Mesmo diante da reencarnação de minha amiga Korra, vocês não fazem uma única reverência! — A nômade levantou-se e se curvou em minha direção — Avatar Rong , será uma honra ser sua mestra de dobra de ar. Sou Ikki, irmã de Meelo. — E logo erguia o corpo.

O homem dos olhos legais e o anão de jardim fizeram o mesmo.

—Eu sou Hirohito Hanai, serei seu mestre de dobra de fogo. — Disse o mais alto.

—Meu nome é Ya Tai, e começarei a dar aulas de dobra de terra para você a partir de amanhã. — Dessa vez foi o meio metro.

Eu não sabia como agradecer.

—Eu, éh... Eu sou o Avatar Rong e serei aluno de vocês — Dei um sorriso torto. Eles não responderam.

—Maravilhoso! — Igaluk bateu uma palma, sorrindo — O jantar é daqui uma hora, Rong. Você será levado para seu quarto e estaremos te esperando no refeitório! — Dois guardas surgiram e levaram-me, junto com Jin para dois quartos.

No caminho, conseguia ver vários quadros e esculturas. A maior das pinturas era a de um homem com cabelos bem escuros, um bigode soberbo e óculos finos, usava um terno elegante e em seu peito, um broche com o símbolo da Lótus Branco. Tapetes de várias cores, equipamentos de chá, armas, armaduras, diversos minérios e exemplares de produtos eletrônicos de primeira linha também estavam na casa. A mansão era uma mistura de arquitetura e decoração típicas do Reino da Terra com toques high-techs.

Nossos quartos ficavam no último andar, um do lado do outro. Acomodei-me no aposento, que era razoavelmente grande para uma pessoa só. Tinha uma penteadeira, um banheiro com banheira, um guarda-roupa com roupas de todos os tipos do meu tamanho, uma... SatoVision! Tinha uma SatoVision! Aquilo devia custar uma fortuna. Aquela caixa com uma tela que passava imagens igual um cinema! Que coisa linda! Certo, voltando ao assunto, também tinha uma cama de casal com cortinas. A parede atrás da cama era de vidro, e podia-se ver todo o terreno, era tão belo quanto a vista do avião.

Resolvi tomar um banho e depois explorar a mansão. O banheiro tinha uma porção de sais de banho, cremes e outras coisas que eu não sabia para que serviam. Joguei algo com cheiro exótico na banheira e liguei a água quente. Ao se misturar com aquele pó, a água tornou-se verde e começou a fazer bolhas, era a cara da riqueza. Entrei na banheira e passei um tempinho colocando pensamentos no lugar. Ao sair, coloquei uma camiseta verde, com uma calça branca e um par de tênis pretos.

Saía do quarto e batia na porta ao lado, de Jin. Ela saiu usando uma regata vermelha e uma saia curta branca, o cabelo preso no coque.

—Vamos passear — Convidei e ela concordou.

Descemos para o andar de baixo, o quinto, lá havia uma academia com álteres e outros equipamentos de musculação. No salão ao lado havia uma academia com todo o tipo de equipamento para treinar a dobra de qualquer elemento e várias armas. No quarto andar era uma biblioteca colossal. Todos os livros eram bem conservados e funcionários da casa os catalogavam e colocavam tudo em seus devidos lugares. O terceiro andar era os dormitórios dos funcionários. No segundo, o salão de jogos. Era praticamente um parque de diversões compactado, havia tanta coisa que é difícil descrever. No térreo, a sala de estar e o refeitório. Descobrimos que havia um subsolo com sauna e spa.

Fomos até o refeitório. Lá, além da mesa central, havia outras mesas de madeira para os funcionários da mansão. Os mestres, Meelo e um garoto de mais ou menos quinze anos nos aguardavam. Ao sentar, a comida foi servida. As conversas eram tão variadas que eu me sentia numa roda de amigos.

—Eu sou Syaoran — Disse o menino, que estava ao meu lado. Ele tinha o cabelo no mesmo estilo que o meu, porém, negro. Era magro e alto, sua pele era branca como neve. Seu rosto era marcado por uma cicatriz que ia da testa até o lábio, passando por onde seria o olho esquerdo, sendo cego desse olho — Serei seu professor de manuseamento de armas e luta.

—Professor? — Jin se intrometeu — Duvido, é muito jovem! E como alguém com ponto cego pode lutar?

—Eu sou um dos principais belicistas, estrategistas, espadachins, atiradores e lutadores da Lótus Branco. Quer lutar contra mim para descobrir minha capacidade de batalha? — Ele sorriu sadicamente e Jin balançou a cabeça negativamente — Foi o que eu pensei...

—Como você ganhou essa cicatriz? — Perguntei.

—É uma longa história, assim como todas as outras quatorze cicatrizes que eu possuo.

—Como tão jovem já está na organização?

—Digamos que meu pai tem poder...

Assenti com a cabeça, pensando no assunto.

—Amanhã já iniciamos seu treinamento, Avatar — Informou-me meu mestre de dobra de água.

—Duvido que esse pirralho consiga manipular mais de vinte quilos de pedra enquanto foge de dois ursos-ornitorrinco nas montanhas do norte! — Grunhiu o dobrador de terra.

—Certo! — Concordei, ignorando Ya Tai

—No mesmo dia, precisaremos avaliar sua capacidade de luta — Disse Igaluk — Então precisamos que descanse.

Assentia, quando uma dúvida me veio a mente.

—Há alguma instabilidade no mundo agora? 'Tipo', algo para o Avatar resolver? — Questionei aos mestres. A sala ficou tensa.

Ikki olhava para os outros, esperando uma resposta e resolveu tomar a palavra.

—Nada que a Lótus Branco e as Nações não possam resolver sozinhas — Ela disse e sorriu. Eu fiz cara de entendido.

Ao fim da janta, retirei-me do recinto. Fui ao quarto andar para tirar umas dúvidas. Passando as mãos pelos livros, encontrei um conjunto de livros chamados Tudo o Que Você Precisa Saber Sobre os Avatares e Raava.

—Mas que coincidência... — Logo peguei o primeiro exemplar. Passei os olhos nas primeiras palavras: "Nossa história de avatares e dobras começa há muito tempo atrás, quando as tartarugas-leões possuíam o poder dos elementos e o cediam para os humanos." Fechei o livro rapidamente — Não. — Voltei a passar pelas prateleiras e fui até a letra N, até achar o livro Nômades de Ar: Uma história.

Sentava-me no chão para ler, pulando para um capítulo chamado Extinção. Lá explicava os anos de de terror enfrentados pelos Nômades, quando a Nação do Fogo os caçou. Li sobre os cem anos do Avatar Aang congelado. Achei o que precisava, o capítulo "Tenzin". Descobri quem fora Meelo e Ikki, ambos netos de Aang, formavam a nova geração de dobradores de ar. Meelo fora um dos principais humanos a trabalharem com a Monja Jinora no Mundo Espiritual e resolvendo problemas sobrenaturais. Ikki é uma ex-monja e membra da Lotus Branco, ela reescreveu e restaurou todas as obras da cultura nômade que se perderam no tempo. Entre as obras restauradas, encontrou uma escritura para uma dobra perdida, que consiste em tornar o corpo em ar, tornando-se intangível e opcionalmente, invisível. Nesse momento, empolguei-me. Minha mestra podia estar do meu lado a qualquer momento sem eu perceber! Não sabia se achava aquilo demais ou tenebroso.

Já devia estar bem tarde, então resolvia que era hora de ir dormir. Na porta do quarto, estava Jin sentada com os olhos quase fechando.

—Fiquei te esperando só pra te dizer uma coisa! — Ela levantava — Esses caras estão escondendo alguma coisa de você! Eles querem te desenvolver rápido pois tem alguma coisa acontecendo. Lembre-se de minhas palavras — Ela bocejou — Boa noite.

Franzi o cenho e a vi ir para o quarto. "Ela é louca" pensava "Mas talvez tenha razão". Entrei no quarto e me joguei na cama.

Não tive sonhos naquela noite.