Notas iniciais
Gente, essa segunda parte eu resolvi não dividir porque ela tem que ser lida desse jeito. Ontem eu dividi o capítulo e tentei até postar, mas deu uns rolos aqui em casa e acabei não conseguindo postar... Como eu estava na dúvida de dividia ou não, o que aconteceu ontem foi, para mim, um sinal de que eu não deveria dividir. Mesmo porque estava difícil decidir onde que eu ia cortar a história... Cada vez que eu decidia dividi-la, cortava num lugar diferente... Demorei para postar porque eu ainda não tinha finalizado a fanfic pelo meu computador... Fui acabá-la esses dias, por isso a demora. Boa leitura.

Me remexi na cama. Eu não estava com vontade de trabalhar hoje... Eu não queria mais viver. Queria ter Milo de volta e então quando eu ia pegar o caderno dele parei no meio.

“Se você ler uma palavra eu mato você, Kamye.” Era a voz dele. Era a voz do Milo.

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You’re never gonna be alone from this moment on

Você nunca vai estar sozinho de agora em diante

If you ever feel like letting go

Mesmo que você pense em desistir

I won’t let you fall

Não vou deixar você cair

You’re never gonna be alone I’ll hold you ‘till the hurt is gone

Você nunca vai estar sozinho vou te abraçar até a dor passar

Era a voz de Milo. Mas como podia ser possível se ele tinha morrido. Estava me virando devagar, para o outro lado da cama. Do lado da cama em que Milo dormia.

‘Como... Como isso era possível?’ Eu estava de olhos fechado. Não sei em qual momento eu os fechei, apenas sei que os fechei e quando abri lentamente Milo estava lá, com os olhos abertos, o corpo vivo.

“AHHHHH!!!” Gritou Kamus, pulando para fora da cama, sendo acompanhado pelo grito de Milo.

“Eu... Eu estava apenas brincando!” Tentou falar o escorpiano, olhando completamente assustado para Kamus.

“Você... Você...” Balançou a cabeça confuso. “Você... Você está aqui!”

“Sim, eu estou aqui e você me assustou.” Levantou-se da cama indo na direção do ruivo.

Kamus se afastava de Milo a medida em que o namorado se aproximava. “Eu... Eu... Eu...”

“Você...” Milo estava tentando uma aproximação.

“Eu...” Kamus estava indo para trás instintivamente e parou quando encostou as costas na parede.

“Você...” Milo estava se aproximando do namorado. Percebia que ele estava ficando pálido, acuado. “Kâ... Eu vou me aproximar de você, está bem?” E vendo que o ruivo ainda estava assustado, chegou perto dele devagar e falou com cuidado as próximas palavras. “Agora, Kâ, eu vou abraçar você.”

O loiro abraçou Kamus, que no começo estava tenso, mas logo relaxou e abraçou Milo apertado.

“Sabe Kamye... Eu vou sentir sua falta, sabia?”

“Eu também vou sentir sua falta Milo. Muito mesmo. Espero que saiba disso.” Estava falando desesperadamente.

“Eu sei.” Disse olhando para Kamus um pouco assustado.

“É muito importante que você acredite nisso.” O tom do ruivo continuava desesperado.

“Eu acredito Kâ, eu acredito. E odeio que tenha que passar por isso. Então, por que dessa vez, nós não vamos à Grécia?” perguntou animado.

“Milo...” O ruivo se afastou do namorado muito confuso.

Mas o que está acontecendo? Eu não estou entendendo. Como ele pode estar vivo?

“Eu não... Eu não...” Kamus ainda estava desesperado, confuso.

“Claro, claro. O trabalho, a reunião...” Disse se afastando de Kamus e ligando o chuveiro.

‘Droga! O celular não despertou.’ Pensei enquanto esperava o chuveiro esquentar. Olhei para Kamus e o vi andando de um lado para o outro, preocupado.

“Kamye! Não se preocupe, meu amor. Você está mais que preparado para a reunião e tudo dará certo.” Gritei para ele enquanto tomava um banho rápido.

A reunião. A reunião.

Milo vai estragar a reunião.

“A reunião é hoje e o Milo... o Milo...” Eu não conseguia dizer aquelas palavras.

Deus, eu não estou entendendo nada.

Ouvi quando Milo desligou o chuveiro, para depois, ele se dirigir para trás do biombo.

“Milo, para onde você vai?” Perguntei um pouco apressado demais. Ele me olhou estranho e depois sorriu.

“Kâ... eu tenho uma surpresa para você.” Ele pediu que eu sentasse e assim o fiz.

“O presente!” Gritei mais para mim do que para ele, como se chegasse a uma conclusão lógica.

“Sim... É um presente.” Disse saindo atrás do biombo com a jaqueta de couro.

“O que achou Kamye?” Disse dando uma volta, feliz. “É do Mercado de Pulgas de Clignancourt. Quero me despedir apropriadamente. E vem com um brinde...” Abriu sensualmente a jaqueta, ficando nu.

A mesma jaqueta de antes. A mesma posição de antes.

“Meu Deus!!! Não é possível.” Falei assustado e acho que Milo pensou que estivesse me referindo de seu corpo, já que ele ficou sem graça e recolocou a jaqueta.

“Tudo bem, não era essa a reação que eu esperava.” Disse decepcionado.

“Me desculpe, mas eu... Eu tive um pesadelo e não consigo... Não consigo esquecer. E eu... E você...” Estava alterado. Como ia explicar para Milo o meu pesadelo?

“Nós?” continuou ele incerto.

“Nós. Nós...” Não sabia como continuar. Eu estava confuso.

“Nós devemos nos aprontar. Você não acha?” Perguntou cautelosamente depois de um tempo, olhando-me sem entender nada.

“Isso!” Concordei com ele. Não queria ter que explicar, reviver aquela história.

Kamus foi tomar um banho rápido. Prendeu o cabelo com um elástico e entrou debaixo do chuveiro. Estava observando Milo arrumar o cabelo.

Ele estava em frente ao espelho penteando o cabelo e eu o estava observando. Quando ele pegou aquele aparelho de alisar o cabelo, eu tinha me lembrado de que no meu sonho ou num outro tempo, sei lá, ele tinha queimado a mão.

“Milo... Tome cuidado para não se queimar.” Eu gritei de dentro do boxe e ele olhou para mim assustado, meneando leve e positivamente a cabeça, voltando a mirar o espelho de forma estranha.

“Kâ...” Chamei-o devagar logo depois que ele saiu do banho. Estava sentado em cima da cama, colocando meu tênis.

Ele estava com as costas molhadas. Passei a língua pelos lábios... Como ele é gostoso!

“Diga.” Respondeu ele indo para o armário pegar um terno.

“Kamye... Você sabe que tem um terno separado especialmente para essa reunião no cabideiro, não sabe?” Perguntei estranhando o gesto dele. Ele tinha escolhido a dedo qual seria o terno usado no dia D.

“Eu resolvi mudar, Milo.” Ele respondeu apenas. O banho aparentemente deixara-o mais calmo.

“Tudo bem. Você fica lindo em qualquer roupa mesmo.” Fui até perto dele e o abracei por trás, mordendo sua orelha. “Vou fazer o nosso café da manhã, tudo bem?” Sussurrei e senti-o estremecer. Olhei o meu ruivo pelo espelho e ele apenas acenou que sim com a cabeça e me deu um sorriso singelo.

Depois que Milo saiu do quarto, percebi que estava me preocupando à toa. Não sei o que aconteceu, mas Milo está vivo e vou fazer de tudo para que ele fique vivo.

Ele estava cantando, enquanto fazia panquecas.

Eu adoro ouvi-lo cantar.

Dei um nó na minha gravata e fui até a cozinha, mas parei no meio do caminho, observando-o cozinhar. A luz do sol iluminava a face dele e a pele brilhava. Ele reparou que eu o estava olhando e sorriu me chamando com as mãos.

Cheguei perto dele e o abracei.

“Você canta bem, Mi. Devia mostrar isso.” Disse baixinho. Não havia necessidade de falar alto.

Ele me olhou um pouco assustado e depois sorriu carinhosamente selando os meus lábios com os dele.

“Kâ, assim você me deixa sem graça.” Ele disse se virando para a frigideira com as bochechas vermelhinhas.

O Kamus estava diferente hoje. Não sei bem o que estava acontecendo, mas eu estava gostando do jeito dele, apesar de estar um pouco preocupado também.

“Faz um favor para mim, Kamye? Pegue as xícaras e os pratos, a comida está pronta.” Falei um tanto sem graça. Não estava acostumado a ouvir elogios de Kamus e quando isso acontecia eu ficava sem graça e eu não gostava de ficar sem graça, sem reação.

Estava pensando nisso quando peguei o bule de metal, que estava fervendo o leite. O bule estava extremamente quente causando-me uma leve queimadura. Soltei um grito e corri para pia da cozinha “esfriar” o machucado.

Kamus, que estava com as xícaras na mão, soltou-as e consequentemente quebrou-as. Foi até mim com um gelo na mão.

“Você queimou a sua mão!” Disse um pouco assustado demais e eu o olhei inconformado. Sério que eu me queimei?

“Que grande poder de observação, senhor ruivinho.” Disse tentando não ser muito irônico. Mas parece que ele não notou, porque ele estava olhando um ponto fixo da minha mão, passando o gelo de forma distraída.

And now as long as I can

E agora, enquanto eu puder

I’m holding on with both hands

Estarei te segurando com ambas mãos

‘Cause forever I believe that there’s nothing I could need but you

Pois sempre acreditei que não há nada que eu precise a não ser você

Eu estava esperando Milo na porta e quando eu o vi com aquele cabelo desajeitado, depois de tanta atenção e o jeito de moleque despreocupado, sorri.

Eu me apaixonara por ele daquele jeito, com seu jeito descontraído de ser e se vestir, mas ele ficava extremamente sexy assim.

“Você está muito bonito hoje.” Disse sinceramente e segurei as mãos dele, saindo de casa.

“Obrigado.” Ele replicou com estranheza, sorrindo um pouco confuso também.

O dia estava claro, apesar da tempestade que fizera ontem a noite e isso era um bom sinal. Significava que Kamus iria ser bem sucedido na reunião.

Nós estávamos andando na rua, ele me contava coisas sobre o projeto dele, mas não estava prestando muito atenção. Não que eu não me interessasse pelas coisas que ele fazia, mas eu já tinha o visto discursar tantas e tantas vezes que eu sabia de cor a fala e o projeto dele.

O sinal estava verde para atravessarmos, mas ele não atravessou e eu olhei para ele confuso.

“Sempre vamos por ai.” Ele disse simplesmente.

“E você sabe por quê?” Perguntei um pouco paciente demais, como se estivesse explicando para uma criança o porquê que tinha que ser feito desse jeito e não de outro.

“Por quê?” Ele me perguntou e eu quase não acreditei. Mas era tão óbvio.

“Porque esse é o caminho que te leva ao trabalho e que me leva à escola.” Expliquei calmamente.

“Tentaremos um caminho diferente.” ele pegou a minha mão e foi para o lado oposto do caminho. “Vamos lá, Milo. Será divertido. Conhecer lugares novos.” Ele propôs descontraído e eu tive de rir, o que gerou um olhar confuso da parte dele. “Do que está rindo?”

“Conhecer lugares novos? Qual é Kâ? Você nasceu aqui e mora nesse bairro há... Não sei quanto anos. Não deve ter nada de novo para você.” Eu disse sorrindo e ele foi obrigado a sorrir também.

“Milo... Eu não sou parisiense, por mais que eu me considere um. Eu não nasci em Paris.” Eu disse a ele e ele me olhou confuso.

“Não?”

“Não.” Respondi enquanto caminhava por ‘novos caminhos’.

“E onde você nasceu então?” Ele indagou meio curioso.

“Eu nasci numa cidade próxima de Beauchamp. Para ser mais exato, eu nasci em Bessancourt!”

“Ah.” Ele soltou, um pouco surpreso.

Continuamos andando calados, observando a paisagem, mas um barulhinho de bicicleta me chamou a atenção. Aquele homem vinha numa velocidade alta, com um copo na mão. Olhei para o lado e vi uma lata de lixo do lado de Milo.

Naquela hora eu não pensei. Puxei Milo pelo braço encostando-o na parede de uma loja. E a bicicleta passou atrás de mim instantes depois. Olhei para Milo que parecia a princípio meio assustado e depois olhou para mim.

“Pode me explicar o que houve?”

“Eu... Eu achei que você estava um pouco rápido.” Atestei, afastando-se dele ouvindo as pessoas cochicharem.

Kamus me falou um pouco da infância dele. Tudo bem que não foi A história, mas pelo menos ele me falou onde nasceu e isso me deixou feliz e um pouco surpreso, também. Talvez ele não tenha percebido isso, ou talvez ele tenha e não se importou em falar. Não estava conseguindo entende-lo hoje.

São coisas que normalmente ele não falaria e depois ele me jogou na parede agindo de maneira impensada. Ele que sempre age ponderando o que é certo e errado de acordo com os pensamentos dos outros. E sinceramente, dois homens se ‘agarrando do nada’ na parede de uma loja não é considerado normal, ‘certo’.

Está certo que eu queria que ele deixasse de agir assim. Mas também não precisava dessa demonstração em público tão impulsivamente. Eu sei que a sociedade é preconceituosa e Kamus também sabe, por isso tomamos cuidado na hora de sair. O que deu naquele ruivo?

Sai da parede um pouco atônito. Ainda estava tentando me recuperar do susto, quando uma moça esbarra em mim derrubando parte do café na minha roupa.

“Oh meu Deus! Me desculpe!” Disse a moça num tom de falsa sinceridade. O olhar dela era maligno e eu tive a certeza de que ela queria mesmo derrubar café em mim.

“Não tem problemas.” Disse respirando fundo e tentando me secar.

Kamus se virou para mim assustado.

“Não foi um sonho!” Ele gritou de repente, desesperado.

Sonho? Mas do que ele está falando?

“O quê?” Perguntei confuso e um pouco bravo. Droga, o que está acontecendo, afinal?

“Tudo isso já aconteceu. E eu sabia que aconteceria!” Ele alegou chegando perto de mim.

“Como assim? Do que você está falando?” Perguntei confuso.

“A jaqueta de couro. A queimadura. O café na sua roupa... Eu já vi isso, com alguma diferença, mas...” A medida que Kamus foi explicando, ele estava ficando mais desesperado. Eu precisava acalmá-lo.

“Kâ...” Segurei o braço dele carinhosamente, pouco me importando o que as pessoas iam ou não pensar. Kamus já tinha feito o estrago, porque ficar se escondendo agora? “Calma, tudo bem? Escute... De vez em quando todos nós temos déjà vu.”

Mas que porra que Milo está falando. Déjà vu... Será que ele não entendia?

“Não é um déjà vu!” Respondi um pouco bravo. “No déjà vu você sente o que que algo já te aconteceu e não o que acontecerá, como se eu estivesse prevendo o futuro.”

“Kamus, o que aconteceu com você, hein? O que você sonhou que te deixou inquieto?” Ele perguntou muito preocupado.

“Foi terrível. Eu...” Não estava encontrando palavras para falar que ele tinha morrido. “Eu... Eu... Foi terrível.” Disse por fim, cansado.

“Ok.” Disse Milo tentando me acalmar. “Vamos ser racionais, Kâ. E nessa área você é bem melhor que eu.” Sorri um pouco e ele ficou menos tenso. “Nesse seu sonho, ou visão, ou sei lá... O que acontece agora?”

Fiquei pensando um pouco, tentando me lembrar.

“Você irá para casa trocar de roupa e, depois, aparecerá na minha reunião.”

“Bem, isso é... terrível?” ele disse e percebi que ele tentava esconder a ironia.

“E... Meu relógio. Ele vai quebrar no caminho para a reunião!” Disse rápido.

Kamus estava sério demais. Eu não podia simplesmente desacreditá-lo, mesmo porque ele nunca foi de acreditar nessas coisas e de repente ele se encontra desesperado com esses pequenos sinais que podem ocorrer ocasionalmente.

“Bem, vamos juntos para o escritório, então. Se o relógio se quebrar saberemos o que vai acontecer e lidaremos com isso. Juntos.” Ele apenas concordou com a cabeça e eu sorri, apesar de estar muito confuso.

Conversamos sobre amenidades e discutimos algumas coisas bobas pelo caminho. Planejamos nosso futuro para daqui a uns 50 anos e fiquei surpreso como ele participou. Normalmente ele só escuta.

Ele disse que sonha em ter filhos, mas não agora. Disse que nosso noivado seria no ano que vem e que daqui a 50 anos vamos estar morando num chalé perto do rio e com nossos netos visitando-nos. Igual ele fazia quando era criança e visitava o avô.

Senti vontade de chorar nessa hora. Já era a segunda vez que ele falava sobre a infância dele... Sonhar que quer ter filhos... Não imaginava que Kamus quisesse essas coisas. Achava que ele queria apenas ficar muito rico e envelhecer, talvez junto comigo.

Chegamos mais rápido do que queria no escritório dele, e ter que me despedir dele me fez ficar triste.

“Ok Kâ. Chegamos.” Disse sorrindo, largando dos braços dele. “Só que vir aqui com você atrasou um pouco meus planos. Você pode me informar que horas são?”

Kamus me olhou um pouco tenso e eu apertei a sua mão com força.

Ele levantou a manga do casaco e o vidrinho do relógio estava intacto. Ele respirou mais aliviado.

“Está inteiro.” Disse ele constatando o óbvio.

“Viu Kamye. Você só está nervoso.” Passei a mão carinhosamente pelo rosto dele.

“Você tem razão Mi... A mais completa razão.” Disse tentando acreditar naquilo, mas algo dentro de mim dizia que tudo aquilo estava errado.

“Então, boa sorte meu ruivinho. Não que precise você já tem todos na sua mão e se recusarem encante-os assim como você fez comigo. Eles não terão como negar!” Ele me beijou e me virei para o complexo de prédios onde eu trabalhava.

“Kâ...” Ele me chamou e me virei para encarar aqueles belos olhos verdes. “Eu te vejo na apresentação.”

“Que apresentação?” E ele me olhou um pouco confuso, decepcionado. “Eu estava brincando. Apenas brincando” Disse, ele sorriu um pouco.

“Tchau meu ruivinho gostoso.” Sussurrou na minha orelha e eu sorri, dando um discreto beliscão naquela bunda deliciosa.

“Tchau grego, até a noite.”

Entrei no prédio e suspirei. Dei bom dia a todos e meu assistente veio atrás de mim.

“Bom dia Kamus.”

“Bom dia Shura.” Disse indo para a minha sala enquanto ele me seguia pelo extenso corredor. “Preciso que mude a reserva no Le Bristol para às 22 horas e também que compre alguma coisa para o Milo. Ele...”

“Formará sua primeira classe, como professor efetivo? Sim, eu sei e o lembrei disso umas 4 vezes” Disse interrompendo a minha fala.

“Sim. Eu não sei se eu esqueci ou não esqueci. Eu esqueci ontem, mas hoje eu não esqueci!” E vendo a cara confusa do meu assistente disse apenas para esquecer, o que foi prontamente aceito com um menear de cabeça.

“Shura, você estava usando essa roupa ontem?” Perguntei sem me preocupar com a boa educação e percebi que ele ficou sem graça.

“Possivelmente Kamus. Com o salário que eu ganho não posso ficar me dando ao luxo de comprar roupas novas.”

“Posso te perguntar uma coisa?”

“Já perguntou... Mas eu te dou o direito a outra pergunta.”

“Você já sonhou e no dia seguinte tudo lhe parece familiar? Como no sonho?”

“Como? Desculpe eu não entendi.” Ele fez uma cara confusa e eu apenas desisti de tentar explicar.

“Esqueça!”

“Só espero que você não esqueça de ir para a reunião ou será demitido e eu irei junto com você!”

.♥.

Milo tinha voltado para casa para trocar de roupa.

Passara todo o caminho pensando no que tinha acontecido com Kamus para que ele estivesse agindo dessa maneira. O namorado estava assustando-o.

Chegou em casa e tirou a jaqueta suja de café. Deixou a mochila perto do sofá. Estava sem camisa quando encontrou a pasta de couro preta em cima do recamier.

“Kamus precisa dessa pasta.” Milo colocou o mais rápido que pode uma blusa qualquer que pegara no guarda roupa. Pegou a pasta de couro e correu até a sala onde pegou o telefone e discou para Afrodite.

“Alô...” O loiro ouviu a voz arrastada e sonolenta do amigo.

“Dite!” Gritou ao telefone.

“Milo...”

“Dite eu preciso de um favor seu.”

“Fala Milo.”

“O Kamus esqueceu a pasta dele aqui em casa e ele precisa dessa pasta para a reunião. Você pode passar aqui em casa e me levar para a reunião?” Pediu desesperado.

“Posso... Eu só...”

“Ótimo! Eu estou te esperando em frente a minha casa. Venha rápido, por favor, Dite.” Interrompeu o amigo, desligando o telefone e ligando para Kamus.

“Deixe o seu recado após o sinal.” Milo escutou a voz metálica da secretária de voz.

“Kâ... Eu achei a sua pasta preta. Não se preocupe, estou levando ela agora. Beijos, Milo.” Deixou o recado na secretária eletrônica e saiu para esperar Afrodite que depois de alguns minutos estava na porta de sua casa.

O loiro percebeu que o amigo realmente viera correndo. Estava com os cabelos desarrumados e com cara de sono ainda.

Milo tamborilava os dedos na pasta fazendo um barulhinho irritante, no ver do sueco.

“Milo, para com esse barulho, por favor.” Disse nervoso e baixo.

“Desculpe-me”

O carro mal estacionara, Milo abriu a porta do carro e saiu correndo. Entrou intempestivamente. Até esperara pelo elevador, mas ele estava demorando muito então resolveu ir de escada.

Olhou no relógio. Quase meio-dia. A reunião começaria em instantes.

Subiu o mais rápido que pode. Começou degrau por degrau, depois foram dois degraus de uma vez e chegou ao andar da reunião subindo três degraus de uma só vez. Respirou fundo e entrou na antessala. A porta de vidro permitia ao loiro ver Kamus de costas, com os braços para trás, segurando a pasta preta.

Milo sorriu, deu meia volta e foi embora.

Kamus estava tenso desde que a reunião começara. Estava esperando o abrir da porta a qualquer momento e quando isso ocorreu, fechou bem forte os olhos e abriu lentamente.

Viu o copeiro deixar a bandeja com cafés numa mesa à parte e se retirar logo em seguida. Seguiu os movimentos dele com os olhos até a porta e não encontrando Milo, respirou fundo e seguiu com a ideia do projeto mais confiante.

.♥.

A reunião acabou e o ruivo seguiu um pub francês perto do prédio onde trabalhava.

“E aí Kamus, conseguiu o dinheiro?” Perguntou Shura animado.

“Consegui.” Disse empolgado pedindo uma cerveja, comemorando com os amigos. “E o estranho é que da outra vez em que Milo entrou na reunião achei que ele bagunçou tudo.”

“Milo?” Perguntou Kanon estranhando.

“Oh... Não contei do sonho que eu tive?” Parou para pensar no que tinha falado. “Mas é claro que não, porque foi esta noite.” Disse mais para si do que para os outros.

Os outros se olharam sem entender.

“Ele está assim desde hoje de manhã.” Avisou Shura.

“Ok então... Conte-nos qual foi o seu sonho?” Disse Aiolia.

“É mais que um déjà vu.”

“Déjà vu... É usualmente pensado como uma impressão de já ter visto ou experimentado algo antes, que aparentemente está a ser experimentado pela primeira vez.” Disse Kanon pegando o taco mirando na bola de maior valor. “Droga. Errei!”

“Não, não, não... Não é disso que eu estou falando.” Disse Kamus indo para a mesa de sinuca. “Há certas coisas que eu sei que acontecerão.”

Aiolia que estava olhando uma garçonete desde que chegara no pub, assim que a moça se aproximou ele chamou sua atenção.

“Com licença... Já conheço você.”

“Não, acho que não.” Disse ela indo embora.

“Conheço sim. Dos meus sonhos.”

“Cai fora!” A garçonete saiu pisando duro, deixando o moreno com a cara no chão.

“Viram? Era disso que eu estava falando. Eu sabia que isso iria acontecer.” Disse Kamus empolgado, como se estivesse mostrando uma prova dificílima de ser provada.

“Kamus, todos nós sabíamos que isso iria acontecer.” Disse Shura o que provocou risadas de todo mundo e Aiolia de cara emburrada.

“Qual é leãozinho, não queria que ela caísse com essa sua cantada de merda, né?” Continuou Kanon que passou o taco para Shura.

“Kamus, você sabe quais são os números da loteria?” Aiolia perguntou e os outros dois o olharam curioso.

“Não, lamento... Só que é tudo a mesma coisa, mas numa nova sequência.”

O moreno passou o giz no taco de sinuca e mirou na bola que Kanon não conseguiu encaçapar. A bola voou pelo mau jeito do moreno e foi na direção do copo de Kamus, que estava em cima do balcão, mas o francês foi mais rápido e pegou a bola no ar.

Numa nova sequência... Numa nova sequência!!! Talvez seja isso.

Eu precisava ir embora, eu tinha que ver o Milo.

“Eu tenho que ir.” Disse talvez um pouco rápido demais e devolvi a bola para Shura.

Sai do pub e entrei no táxi que consegui pegar depois de algum sacrifício.

“Rue Raymond Marcheron, por favor.”

“Sim senhor.” O motorista do táxi disse e aquela voz... Eu conhecia aquela voz.

Ele olhou pelo espelho retrovisor e eu pude ver aqueles olhos. Os mesmos olhos intimidadores de antes...

“Não, eu não acredito.” Disse um pouco nervoso.

“Desculpe senhor.”

“Você é o mesmo motorista de ontem!”

“Possivelmente.”

“Ontem você sabia algo sobre mim...”

“Sobre a vida amorosa?”

“Sim...”

“Taxistas são como ‘barmen’, conhecemos esses problemas.”

“Você disse exatamente isso...”

Meu Deus não. Não podia ser verdade! Meu peito começou a doer, mas eu precisava ter certeza.

“É idêntico. Se esse táxi é o mesmo então, hoje tudo será idêntico. No final da noite, meu namorado vai pegar esse táxi, o semáforo fechará e haverá um acidente, e ele...” Eu não conseguia falar que ele ia morrer, eu não ia deixa-lo morrer. “É isso o que acontecerá, não é?”

Aqueles olhos estavam brilhando, deixando-o mais intimidadores ainda e por um momento senti medo. Medo do que ele poderia me falar. Medo de que tudo aquilo de que eu estava tentando fugir desde hoje de manhã fosse em vão. Mas ele não falava nada e o desespero estava se apoderando de mim.

“E se ele não pegar o táxi? E se nós sairmos de Paris? Talvez, se ficarmos em casa...” E aqueles olhos pareciam rir de mim. “Deve ter algo que eu possa fazer!” Estava nervoso. Por que ele não falava nada?

“Só há uma coisa. Estime-o e a tudo o que possui.” A voz era imperativa apesar do tom calmo. “E acima de tudo... Ame-o.” Dito isso ele apenas olhou para frente e parou em frente da minha casa.

Tirei a carteira do meu bolso e estava contando o dinheiro. “Não precisa senhor.”

“Por que não?”

“Você pagou ontem.” E voltou a olhar para mim. “Melhor se apressar, não tem muito tempo.”

Era uma corrida contra o tempo. Sai do táxi e entrei em casa gritando por Milo, mas a casa estava em pleno silêncio.

Onde... Onde que aquele grego poderia estar?

Olhei as partituras em cima da mesa. A escola!!!

Sai correndo para a escola que ficava a algumas quadras de casa e me parecia que quanto mais eu corria menos eu saia do lugar. ‘Vamos perna, me ajude!’ Pensei comigo mesmo enquanto virava a esquina da escola.

‘Oh meu Deus... Quanta gente.’

Tive que entrar no meio das crianças que estavam iniciando as aulas no período da tarde. Entrei na primeira sala que encontrei na minha frente.

“Milo Stratis, onde ele está?” Perguntei para o professor da sala.

“Eu não sei. Você está bem?” O professor perguntou preocupado.

Sai daquela sala e comecei a procurar pelo Thomas. Mas parece que todas as famílias que tiveram filhos homens quiseram dar nome de Thomas. Estava procurando de sala em sala por Milo, mas eu não o encontrava... Onde será que aquele grego desgraçado estava?

Liguei para ele, mas o celular só dava caixa postal. Fui até a última sala e não o encontrei.

‘Ele deve ter ido para a casa’ Pensei e voltei correndo para casa.

Não aguentava mais correr, mas era preciso. Cheguei em casa e continuava tudo a mesma coisa. Resolvi mexer nas coisas dele. Peguei a agenda dele e comecei a revirar.

‘Afrodite’ Isso, ele me falou que estava com Afrodite.

Fui até o apartamento do sueco e comecei a bater na porta, a tocar a campainha, mas ninguém atendia. Comecei a procurar a chave, até que a porta... aquela maravilhosa porta se abriu e apareceu um homem musculoso.

“O que você quer?” Perguntou ele, um pouco bravo, com um sotaque italiano.

“Afrodite... Onde está ele?” Perguntei depressa.

“O que você quer com ele?” O moreno perguntou um pouco áspero e eu engoli em seco. Não tinha tempo para brigas.

“Eu... Eu... Estou procurando o meu namorado. O Milo. Você o conhece?”

“Sim... Tive oportunidade de conhecê-lo. Um cara gente boa...” Disse um pouco menos desconfiado.

“Sim, eu preciso encontra-lo.”

“Estão na Galerie du Pont Neuf.”

“Obrigado.” Disse e sai correndo atrás da tal galeria.

Estava ajudando Dite a desempacotar os quadros quando Kamus chegou todo suado e me abraçou.

“Milo, graças a Deus eu te encontrei.” Disse me puxando para fora da galeria.

“Kamus? O que faz aqui?” Perguntei um pouco surpreso.

“Afrodite, desculpe, mas tenho que tirar ele daqui.”

“O que está acontecendo Kamus? Você está estranho desde hoje de manhã.” Perguntei impaciente, segurando-o dentro da galeria.

“Milo, por favor, você tem que confiar em mim.” Ele pediu desesperado. “Algo está acontecendo desde ontem, tudo misturado, mas de alguma forma estão acontecendo.”

Isso de novo.

“Kâ... Nós já conversamos sobre isso.” Disse com a mínima paciência que eu conseguia reunir.

“Eu sei Milo, pode apenas ser estresse, mas tudo o que eu sei é que nós temos que sair de Paris. Imediatamente!”

“Eu prometi para o Dite que eu iria ajuda-lo.”

“Pode deixar, querido. Vá com seu amado. Já me ajudou bastante.” Dite disse tentando arrumar o quadro na parede.

Kamus me puxou para fora da galeria e estava me levando para um lugar que eu desconhecia.

“Kamus, espera! Eu tenho a formatura dos meus alunos hoje. Lembra?” Disse tentando ser racional.

“Eu o trago de volta a tempo. Eu prometo.” Disse me puxando para a estação de trem, coisa que eu fiquei sabendo depois de alguns minutos correndo pela cidade.

Kamus estava no centro da estação de trem de Paris esperando por Milo que chegou minutos depois com duas passagens.

“Vamos Kamye?” Chegou atrás do ruivo o abraçando por trás.

“Qual é o destino?” Perguntou um pouco curioso.

“Você disse que eu podia escolher... Então é uma surpresa. Aprecie sem saber o que acontecerá.” Guiou até a plataforma correta.

Numa cadeira um pouco afastada da grande circulação, Milo estava tentando acalmar Kamus e quando o trem chegou, embarcaram.

Pegou uma cabine simples e ficaram namorando enquanto observavam a paisagem e quando o trem começou a se afastar do grande centro urbano que era Paris e começou a fazer curvas, Kamus, que estava fazendo carinho na mão de Milo o olhou desconfiado.

“Milo...”

“Kamus...” Esperou alguma reação do amante e como não veio continuou. “Você disse que eu poderia escolher o destino que eu quisesse e Kâ... se você não quiser, podemos parar por aqui e...”

“Como sabe que foi...”

“Você me disse hoje de manhã, lembra?”

Kamus estava tentando lembrar. Quando foi que falara aquilo?

“Quando você quis fazer um caminho diferente hoje de manhã. E eu lhe disse que você era parisiense e você disse que...” Continuou Milo.

“Lembrei.”

“Kamye... Eu nunca conheci a sua família.” Kamus fez uma careta e resolveu mudar de assunto, mas foi prontamente interrompido pelo loiro, antes mesmo de dizer qualquer palavra. “Quero saber de onde você veio. Quero ver onde você cresceu. Quero ver a escola que frequentou. Quero saber mais de você Kâ. Quero saber um pouco mais sobre a vida do meu amor.” Explicou.

O ruivo ficou sem fala. As lágrimas ameaçavam a cair e então ele fechou os olhos bem forte e beijou Milo. Um beijo rápido, mas que transpassou todo o amor que ele sentia por aquele loiro. Milo o abraçou e ficaram trocando carícias até o destino chegar.

Estava começando a chover e Kamus tinha mostrado para o namorado tudo que fizera parte de sua vida. Estavam subindo uma colina que ficava perto da antiga casa do francês.

“Kamye... Para onde você está me levando? Estou ficando cansado.” Disse manhoso.

“Milo, pare de reclamar. Não era você que queria conhecer a minha infância a fundo?”

“Hm...”

“Essa colina fez parte da minha vida. Ela é muito importante para mim e era mais íngreme quando eu era criança. Eu ia para o topo dessa colina pensar quando eu estava triste. É longe de tudo. Sentia-me seguro lá!”

Uma estria de luz cortou e céu e logo depois um barulho muito alto. A chuva que estava fina começou a engrossar e em questões de minutos uma tempestade estava caindo do céu.

Os dois amantes correram para uma cabana abandonada.

Depois que entramos na cabana a chuva piorou se isso parecia possível.

A cabana era feita de pedra e ninguém morava lá dentro, mas eu acho que já serviu de abrigo para os transeuntes como nós... Milo e eu.

Lá dentro era simples. Uma armação de cama com um colchão muito, muito gasto, uma lareira e alguns pedaços de madeira. A casa estava toda empoeirada, mas para se proteger da chuva estava mais que perfeita.

“Não me admira não ter me trazido para conhecer a sua família. Moram numa casa super pequena.” Milo disse sorrindo travesso e me tirou um sorriso também.

Peguei os pedaços de madeira que estavam num canto da casa e coloquei na lareira para poder nos aquecer.

“Por que nunca me contou sobre a sua família? Estou sempre contando sobre a minha família e meu amigos e você nunca fala dos seus.” Disse tirando a jaqueta molhada e jogando em cima da cama.

“Mi, vamos esquecer tudo isso. Sabe, eu só quero ficar aqui. Com você.” Disse enquanto pegava uma caixa de fósforos que estava em cima da lareira. Agachei-me e estava riscando a cabeça do fósforo na caixa, mas acho que empreguei muita força e meu pulso acabou batendo numa das paredes da lareira. Ouvi um barulho característico de vidro quebrando.

Naquela hora meu coração parou. Estava com medo de ver o meu relógio, mas era preciso. Respirei fundo e levantei a manga da minha blusa devagar.

O vidro estava quebrado e no relógio marcava doze horas. Devia ter acabado a bateria e não percebi, mas ele estava com o vidro quebrado e naquele momento... Foi exatamente naquele momento que eu soube que eu estava fugindo de uma coisa que era inevitável. As lágrimas quiseram sair, mas eu não deixei. Respirei fundo e olhei para Milo.

Ele estava acendendo as velas que estavam em cima da mesa de madeira disposta em frente a cama.

‘Deus, como ele é lindo.’ Pensei com dor no peito e fiquei admirando-o e a beleza dele também.

Ele me olhou e sorriu... Os dentes brancos e bem distribuídos.

Apesar de toda a dor que eu estava sentido no peito, retribui aquele sorriso perfeito. Ia fazer daquelas horas, as melhores.

Fui até a janela e fiquei vendo a chuva cair. Discretamente tirei o meu relógio e o deixei lá, no murinho da janela.

“Não quer mesmo falar do passado, né Kamye?” Ele perguntou quebrando aquele silêncio e me abraçando por trás.

Engoli o caroço de tristeza que estava em minha garganta e tentei fazer a minha voz o mais natural possível.

“O passado não importa, Mi... O passado não importa. Tudo o que importa é o agora. Só o agora...”

“Você está muito estranho hoje, Kâ...” Disse sussurrando no meu ouvido. “Mantenha isso, ok?”

Tirei os braços de Milo da minha cintura e dei meia volta, ficando de costas para ele.

“Mi, posso te fazer uma pergunta?” Perguntei com as lágrimas quase caindo dos meus olhos. Fazer essa pergunta seria o mesmo que admitir que eu iria perde-lo para sempre.

“Claro Kâ...”

“Se por alguma razão soubesse que não lhe resta muito tempo...”

“Quer dizer hoje?” Milo me interrompeu. Afobado como sempre. Era possível notar o quão confuso estava.

“Não, Mi. Eu quero dizer de vida. Se só te restasse um dia, o que faria?” Perguntei secando as lágrimas que teimavam em cair dos meus olhos e engolindo de novo o bolo de tristeza preso na minha garganta. Virei-me para ele e o encarei.

“Que pergunta esquisita Kamye...”

“Eu só quero saber...”

“Deixe-me ver... Meu último dia na Terra? Bem, eu acho que eu comeria umas dez taças de sorvetes com calda de chocolate. Compraria um iate e tentaria conhecer a Megan Fox.”

Poderia providenciar as 10 taças de sorvete, mas o iate e a Megan Fox, não. Fiquei pensativo e então Milo limpou a garganta me chamando a atenção.

“Kamye, é uma resposta fácil e ridícula. Eu passaria com você.” Ele disse sério, se aproximando de mim.

“Mesmo?” Eu perguntei baixo. Não havia necessidade de falar alto.

O loiro abraçou a cintura de Kamus, trazendo-o mais para perto de si.

“Lógico que sim, Kâ. Ficaríamos juntos como agora... Sem fazer nada.” Falou perto da boca de Kamus, o hálito dele batendo contra a pele do ruivo.

“Só isso? Tipo... Nada mais?”

“Proximidade... Uma intensa proximidade. Nós dois compartilhando coisas. Bobagens, dificuldades. É o que eu sempre quis para nós. E se conseguirmos ter isso, nada poderá nos machucar.”

Os olhos azuis de Kamus encaravam os verdes de Milo.

“Eu te amo, Mi...”

O grego beijou Kamus carinhosamente e foi prontamente correspondido.

O ruivo pegou Milo no colo e levou-o para cama. O loiro sentou nas pernas de Kamus e ficou encarando-o. O francês passou a mão pela perna grossa e bem trabalhada do namorado e tirou o tênis dele, tirando o seu logo em seguida, com os próprios pés.

Pegou a barra da camiseta que Milo vestia e tirou lentamente deixando cair a peça no chão. Os botões da camisa que Kamus estava usando foram sendo abertos um por um pacientemente pelo loiro e quando já estava sem a camisa passou delicadamente a mão pelas costas fortes do francês.

Kamus puxou-o mais para si dando-lhe um beijo demorado e começou a traçar um caminho até a orelha do namorado, que foi sugada com fome. A língua de Kamus dançava entre as dobrinhas da orelha de Milo e este abria a calça do namorado, segurando o membro semi desperto dentro da cueca.

Sentiu a mão do amante em seu sexo e uma corrente elétrica correu por seu corpo. Gemeu baixo e puxou Milo mais para si. Desabotoou o botão da calça de Milo e apertou a bunda dele.

Milo saiu de cima de Kamus e tirou o restante da roupa fazendo com que o outro fizesse a mesma coisa. O loiro foi o primeiro a se aproximar depois de ficarem se examinando com os olhos.

Deitou e fez Kamus deitar em cima de si. Com as pernas enlaçou a cintura do namorado e o puxou fazendo os sexos se roçarem. Soltou um gemido. Kamus estava passando levemente os lábios pelo pescoço de Milo ora abocanhando ora beijando e demorou-se nessa região sabendo que era um dos pontos sensíveis dele.

Milo estremecia e gemia a cada mordida que Kamus deixava em seu pescoço, deixando o ruivo excitado, duro. Sentiu a boca de Kamus ir descendo para seus ombros, beijando-os e depois ir para o peitoral bem definido, que subia e descia em um ritmo mais acelerado devido a respiração ofegante. Deu-lhe uma leve mordida nos mamilos e continuou a descer. Deslizou seus lábios até a lateral da cintura de Milo, causando-lhe leves cócegas. Passou a mão de leve pelo membro do outro, depois beijou a cabeça peniana e chupou toda a extensão de leve. Mordeu a coxa interna do namorado que sabia ser outro ponto fraco dele. Milo se contorceu com a mordida de Kamus e arfou de leve.

O ruivo o olhou. A face levemente rubra e os olhos dilatados o fizeram ficar mais excitado.

“Fica de quatro para mim!” O francês pediu.

Milo se levantou e ficou de quatro. Kamus se posicionou e o puxou para si, fazendo com que ficasse de joelhos. O loiro ficou com as costas completamente encostada no peito do namorado.

O escorpiano sentia a excitação do outro na sua bunda e rebolou um pouco o que tirou um gemido do aquariano. Kamus explorava o peito de Milo e desceu até seu membro, o apertando e depois masturbando-o lentamente arrancando gemidos do mais novo.

O ruivo abaixou-se sobre Milo, fazendo-o se inclinar. Abriu um pouco mais as pernas do namorado e deixou que a ponta do seu pênis roçasse lentamente na pequena entrada. Ambos gemeram ao sentirem o toque. Milo retribuiu, rebolando lentamente, arfando e gemendo de tesão. Kamus penetrou-o.

O grego gemeu e ofegou. O ruivo foi entrando em ritmo lento e não demorou muito para estar completamente dentro do escorpiano.

“Mi... você é muito gostoso!” Deitou-se mais nas costa soprando as palavras em seu ouvido. Aumentou o ritmo aos poucos.

“Mais... rápido!” suplicou o loiro se abaixando mais, empinando mais a bunda.

Kamus obedeceu, aumentando a velocidade gradativamente.

“Assim?” Perguntou ofegante.

“Hm...” Disse languidamente entre gemidos. “Não para... não para... Goza dentro de mim... Eu quero sentir...” Falava entre gemidos.

“Me avisa quando você...” Não conseguiu terminar a frase. Puxava o ar entre os dentes e gemia.

Milo estava quase gozando.

“Eu vou...”

Kamus aumentou um pouco o ritmo e o loiro o sentiu pulsar dentro si, logo em seguida, gozou nas mãos hábeis do namorado.

O francês saiu de dentro do outro e ainda respirando com dificuldade, deitou do lado de Milo e o puxou mais para si, abraçando-o.

O loiro retribuiu o abraço, soprando de leve no rosto suado de Kamus, tirando os fios de cabelos grudados no rosto dele e ficou olhando-o.

Os olhos de Kamus estavam fechando lentamente e começava a cantarolar com a garganta o início de uma música.

It’s hard for me to say the things

É difícil para mim dizer as coisas

I want to say sometimes…

Que às vezes quero dizer

A voz rouca do aquariano quebrava o silêncio.

O loiro o olhou com atenção. Nunca ouvira o namorado cantar...

There’s no one here but you and me

Não há ninguém aqui, a não ser você e eu

And broken old street light

E aquela velha lâmpada de poste quebrada

Lock the doors

Tranque as portas

Leave the world outside

Vamos deixar o mundo lá fora

All I’ve got to give you

Tudo o que tenho para te dar

Are these five words and I

São estas cinco palavras esta noite

Milo passou a mão de leve pelo rosto de Kamus, sentindo cada traço, cada músculo.

O ruivo abriu os olhos e o mirou.

Thank you for loving me

Obrigado por me amar

For being my eyes

Por ser meus olhos

When I couldn’t see

Quando não pude ver

For parting my lips

Por abrir meus lábios

When I couldn’t breathe

Quando não pude respirar

Thank you for loving me

Obrigado por me amar

As lágrimas saiam dos olhos azuis do aquariano e Milo as secava com os dedos.

O escorpiano selou sua boca na dele e continuou a cantar a música que foi iniciada por Kamus.

I never knew I had a dream

Eu nunca soube que tinha um sonho

Until that dream was you

Até que esse sonho era você

When I look into your eyes

Quando olho dentro de seus olhos

The sky’s a different blue

O céu tem um tom diferente de azul

Cross my heart

Cruza o meu coração

I wear no disguise

Eu não usarei disfarce

If I tried, you’d make believe

Se eu tentasse, você faria de conta

That you believed my lies

Que acreditou em minhas mentiras

Thank you for loving me

Obrigado por me amar

For being my eyes

Por ser meus olhos

When I couldn’t see

Quando não podia enxergar

For parting my lips

Por abrir meus lábios

When I couldn’t breathe

Quando não pude respirar

Thank you for loving me

Obrigado por me amar

Kamus ficou observando Milo cantar. Ele parecia tão feliz!

O aquariano sentiu uma dor no peito e a garganta começou a doer também. Não queria mais chorar, mas não estava conseguindo segurar as lágrimas.

Com a voz embargada continuou a música junto com Milo.

You pick me up when I fall down

Você me levanta quando estou caído

You ring the bell before they count me out

Você soa o alarme antes que eu fique de fora

If I was downing you would part the sea

Se eu estivesse me afogando você separaria o mar

And risk your own life to rescue me

E arriscaria sua própria vida para me resgatar

Lock the doors

Tranque as portas

Leave the world outside

Vamos deixar o mundo lá fora

All I’ve got to give to you

Tudo que tenho para te dar

Are these five words and I

São cinco palavras esta noite

“Eu te amo Milo.” Disse beijando os lábios do namorado que foram prontamente correspondidos. “Muito e nunca duvide disso. É a coisa mais pura que eu tenho dentro de mim.” Segurou a cabeça do loiro com as duas mãos e deu um beijo na testa dele.

“Não duvido, Kâ.”

“Thank you... For loving me...” Falou num sussurro, parecendo exausto.

“Dorme um pouco meu ruivinho.” Disse em voz baixa, acariciando os cabelos dele.

Kamus se deixou levar pelo carinho e dormiu um pouco e Milo ficou zelando seu sono.

.♥.

A tarde estava caindo. Já se podiam ver as primeiras estrelas no céu.

“Kâ...” Chamou baixinho, sacudindo-o levemente. Fazendo-o acordar. “Kâ, já parou de chover. Você ainda quer ir ao topo da colina?”

O ruivo negou com a cabeça levemente. “Quero te levar a um outro lugar.”

“Outro lugar?” Milo olhou-o curioso. “Mas Kamye, não teremos que escalar, né?”

Kamus balançou a cabeça negativamente e se espreguiçou na cama. Como queria ficar com Milo ali só por hoje. Mas tinha que se levantar. Toda aquela escalada e depois o sexo deixara-o faminto.

Pegou as roupas espalhadas pelo chão e vestiu-as lentamente sendo observado por Milo que já tinha se vestido. Chegou perto do namorado e fez um carinho singelo no seu rosto e segurou a mão dele, saindo finalmente da cabana.

O vento forte e frio fez com que os dois se encolhessem mais nas roupas úmidas e procurassem um bar para comerem e tomarem um café au lait. Durante todo o percurso eles foram conversando sobre coisas bobas.

Entraram no primeiro bar que encontram. Um bar simples, mas limpo e bem arrumadinho.

Uma senhorinha saiu de trás do balcão e foi atendê-los. Ela conversou com eles sobre os pratos que eram gostosos e nesse clima ameno eles pediram a comida.

Kamus estava olhando por fora da janela.

Imagens da sua infância preenchiam a sua mente. Era hora de contar para o grego quem foi a sua família.

“Eu já vim aqui quando era pequeno.” Disse de repente chamando a atenção de Milo que tomava o café com leite e esperava uns croissants saírem do forno.

“O que disse?”

“Eu já vim aqui quando era pequeno.” Repetiu. O olhar estava perdido em algum canto fixo do gramado que a janela mostrava. “Já vim aqui várias vezes. Eu frequentava esse lugar.”

Milo ficou quieto esperando Kamus continuar a falar.

“Toda vez que eu voltava da colina passava aqui e comia um croissant e tomava um café au lait.” Ficou em silêncio por um momento e depois continuou. “Antes, quando eu era criança, não vinha para cá. Mas depois que eu virei adolescente eu ia direto para a colina. Tinha vezes que eu saia da aula e ia para lá e só voltava de noite para casa.”

A velha senhorinha depositou na mesa os pratos com os croissants e saiu.

“Aquela colina era o meu refúgio Milo. Toda vez que eu queria pensar, estudar, ler... Fugir... Eu ia para lá. Ela sempre me deu fé quando estava desesperançado, me deu forças quando eu estava fraco, me acalmou quando estava desesperado... Naquele lugar, naquele silêncio... Com aquela paisagem eu podia pensar melhor nas coisas. Eu me sentia feliz e dono do mundo.”

Kamus mordeu seu croissant e ficou quieto por mais um instante.

“Eu nunca tive uma infância feliz Milo. O meu pai só teve duas paixões: a minha mãe e o trabalho. A minha mãe... Bem, eu não me recordo direito da minha mãe. Ela foi embora quando eu ainda era muito pequeno para entender as coisas.

A única coisa que eu lembro dela foi quando ela e o meu pai estavam brigando. Naquela época eu não entendia o porquê de todo aquele barulho no meio da madrugada. Eu iria ter aula no dia seguinte e com todo aquele barulho eu não estava conseguindo dormir.

Ele estava gritando sobre ter dormido com o filho do vizinho e a acusava de ser puta. E eu não estava entendendo porque meu pai estava bravo. Qual era o mal da minha mãe estar dormindo com o filho do vizinho? Ela queria apenas fazê-lo dormir, igual fazia comigo.”

Milo o olhou assustado e percebendo o que ele estava pensando continuou.

“Calma Milo, minha mãe não foi nenhuma pedófila. Eu tinha dois vizinhos... Um era da minha idade e nós íamos juntos para a escola e o outro era um rapaz com quase 19 anos. Pense Milo, nenhum rapaz de 19 anos quer brincar com uma criança de 5 anos. Eu nem sabia que ele existia.

Atrapalhei a briga perguntando por que eles estavam conversando tão alto que não estava me deixando dormir. Eles pararam de brigar e meu pai me pegou no colo, deitando-me na cama e falando para dormir que eles não iriam conversar tão alto assim. E realmente, depois que meu pai me colocou na cama eu não ouvi mais nada.

Quando acordei no dia seguinte, não encontrei a minha mãe na mesa do café da manhã e perguntei para o meu pai onde que ela estava. Parando para pensar, naquele dia o meu pai estava com os olhos inchados, acho que de tanto chorar, mas naquela hora eu não tinha percebido. Eu só queria saber da minha mãe, mas ele disse que ela ainda estava dormindo e que era para deixa-la em paz.

Eu fui para a escola e voltei e a minha mãe ainda não tinha aparecido. E perguntei para o meu pai onde que estava a minha mãe. Ele me disse que ela havia saído para fazer compras e que logo estava de volta. Ele me deu almoço e saiu para trabalhar.

Só que a noite chegou e a minha mãe não tinha voltado e meu pai tinha voltado cedo do trabalho. Ele me deu a janta e conversou comigo que a minha mãe não iria mais voltar porque ela tinha ido para a casa da minha avó em razão daquela briga que eles tiveram no dia anterior. Mas eu pensava que era coisa passageira e que logo ela estaria em casa.

Perguntei para o meu pai a respeito da minha mãe durante os próximos meses que se seguiram e sempre ele vinha com a desculpa da briga. Teve uma hora que eu cansei de perguntar e entendi que ela tinha me abandonado. Mas eu pensava piamente que a causa era realmente a briga.

Só que os anos vão passando Milo e a gente começa a entender coisas que a gente não entendia quando era criança. Eu tinha realmente esquecido o motivo da briga, apenas sabia que a minha mãe tinha nos abandonado por causa de uma briga seja ela qual tinha sido. Até que na escola eu resolvi arranjar briga e sem querer coloquei a mãe do menino no meio. A gente sempre acaba colocando as mães no meio das nossas brigas. Ele me disse que eu não tinha direito nenhum de falar da mãe dele e de nenhuma outra, uma vez que a minha era uma puta que tinha fugido com o filho do vizinho.

Saber a verdade da minha daquela forma me causou um mal estar tão grande. E então eu lembrei das palavras exatas que meu pai disse a minha mãe naquela noite quando eu era criança. E isso foi o ápice... Vomitei no chão da escola mesmo e a minha pressão baixou.

Como que a minha mãe pôde fazer aquilo?

Só que o fato de eu ter conhecimento sobre o verdadeiro motivo de a minha mãe ter me abandonado se espalhou tão rápido pela cidade. A cidade é pequena e cada um tomava conta um do outro, tanto bem, quanto mal... Então não era como se ninguém soubesse do que tinha acontecido, mesmo porque não é comum a mãe de uma criança fugir com o amante que mal era um homem. Mas o que era uma espécie de segredo virou público e todos começaram a apontar e cochichar para mim e meu pai. Em qualquer lugar que nós fôssemos erámos alvos de cochichos.

Acredito que antes também éramos alvo de cochichos, mas depois que o filho inocente ficou sabendo não havia o porquê de esconder uma história que atingiu toda a cidade.

Nessa época aquela colina virou o meu refúgio e a bebida o refúgio do meu pai.

Só que meu pai ainda trabalhava e era responsável por mim. E acho que foi isso que não fez com que ele virasse alcoólatra naquela época. Meu pai era o meu herói. Ele era a única família que eu tinha... Era tão forte, tão orgulhoso, tão...”

E de repente falar ficou difícil.

Milo apertou a mão de Kamus dando forças para que ele continuasse... Ele respirou fundo e continuou.

“Ele era o melhor Milo. E foi assim até os meus quinze anos.

Nessa época, a empresa onde o meu pai trabalhava mudou de dono e demitiu vários empregados. Meu pai era um dos que virou desempregado. Ele nunca mais conseguiu trabalhar novamente. Então ele entrou de vez no refúgio dele...

Um bar perto de casa era o segundo lar dele...” Kamus olhou para baixo.

“Kamye...” Milo chamou-o carinhosamente.

“Deixa eu terminar Milo... Estou quase no fim.” Disse interrompendo e buscando forças para continuar. O loiro apenas acenou positivamente. “Depois que meu pai se refugiou totalmente na bebida, Milo, eu não consegui mais salvá-lo. Quando eu já tinha os meus 16 anos já não tinha mais esperança de vê-lo mais sóbrio.

Não demorou muito para o meu pai se definhar Milo. O estado clínico dele era péssimo.

Alcoólatra, depressivo e com cirrose... Meu pai pediu para morrer muito cedo. Aos 17 eu o enterrei e me mudei para Paris!”

“Kamye...” O loiro sussurrou.

“Sabe, Milo. Eu só queria ter podido ajudar.”

“Kamye, você era apenas uma criança.”

“Eu sei... Mas ver seu pai, o seu herói, se dissolver diante dos seus olhos...” As lágrimas caiam e Milo as secou gentilmente.

“Você ama mesmo o seu pai, né?”

“Sim... Espero que ele saiba que o quanto.”

“Onde quer que ele esteja, aposto que ele sabe.” Kamus pareceu meio cético e o loiro puxou a cadeira para mais perto dele, apertando as duas mãos do namorado. “Kamye, a morte não coloca fim ao amor.”

“Você acha?” Perguntou com lágrimas nos olhos e que escorreram por toda a face alva do namorado. Milo secou e beijou os olhos de Kamus com carinho.

“Eu tenho certeza.” E puxou ele para um abraço forte e carinhoso. “Porque nunca me contou isso Kâ?”

“Eu não sei... Talvez... Talvez eu não queria ter que relembrar nada disso.” Ele deitou a cabeça no ombro de Milo enquanto o outro lhe afagava o cabelo. “Eu fico tão feliz que eu tenho você aqui.”

“Eu também.”

.♥.

“Ah... Como eu queria não ter que voltar.” Disse o loiro andando pela cidade natal de Kamus.

“Para onde?” Perguntou distraidamente enquanto olhava as vitrines das lojas.

“Voltar para Paris... Os meus alunos vão se formar.”

Kamus parou de fazer o que estava fazendo e olhou para o loiro seriamente.

“Não vamos voltar! Vamos pegar um trem e sairmos por aí...”

“Bem Kâ... Vejamos... Eu me preparei para esta formatura há um tempo. Ensinei todos esses alunos tudo o que eu sabia. Sou o professor responsável por eles. Então, eu acho que vamos voltar para casa!”

O grego estava se dirigindo para a estação de trem.

Kamus estava parado, no mesmo lugar, vendo Milo ir embora.

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“Você não vem?” Perguntou olhando para trás e levantou a mão para que o ruivo segurasse.

“Sim.” Kamus segurou a mão de Milo e seguiu para a estação de trem.

Chegaram de noite em Paris. O barulho dos carros e a movimentação intensa na cidade não deixavam eles terem dúvidas.

A noite estava quase no fim. Agora era apenas uma questão de horas.

Olhei o relógio que ficava na igreja central. Marcavam 19 horas.

Milo me puxou correndo para irmos para casa. Ele teria que estar mais cedo porque, como professor responsável, ajudaria a arrumar e acalmar os alunos.

Chegamos em casa suados e cansados, mas a noite seria longa. Ele me puxou para tomar banho com ele e terminamos rápidos. Enquanto ele se vestia eu procurava uma roupa mais informal e coloquei a jaqueta que ele tinha me dado.

“Como você está lindo.” Disse ele do banheiro me olhando pelo espelho. Estava tentando colocar a gravata.

Eu sorri e fui até ele.

“E como você está arrumado.” Ele mostrou a língua. “Deixa que eu ajeito a gravata para você.” Disse pegando a gravata da mão. Dei um nó e puxei-o pela gravata dando um beijo rápido.

“Obrigado.”

“De nada.” Fui até o quarto e peguei em cima da mesa de cabeceira a minha chave. Ele me olhou.

“Onde você vai?”

“Vou ao escritório.”

“Agora?” Ele perguntou. Estava claro que ele estava chateado.

“Milo, por favor, entenda que eu não fui hoje à tarde. A minha mesa deve estar lotada de papelada e eu vou assinar as mais importantes. Prometo que eu chego a tempo para a apresentação dos seus alunos!”

Milo não disse mais nada. Virou-se e deu uma atenção mais que dedicada ao cabelo.

Aproveitei o momento de distração dele e peguei as partituras que estavam no meio do caderno, jogado em cima da cama.

Sai de casa sem dizer mais nada.

Disquei para o Afrodite.

“Kamus.” Ele atendeu do outro lado da linha.

“Afrodite, tudo bem?”

“Tudo. Conte-me, vocês aproveitaram a tarde de hoje?”

“Aproveitamos, mas isso não vem ao caso. Eu preciso de um favor seu.”

“Um favor?” Perguntou meio incerto.

“Sim, um favor. Pode me ajudar?”

“Dependendo do favor...”

Contei para ele qual seria o meu plano.

Ele disse que iria ser trabalhoso, mas que iria tentar.

Fui até a lojinha onde eu sempre tiro cópias. Peguei as partituras.

“Preciso de umas 30 cópias!” Disse para a mocinha que estava me atendendo. “Volto num instante.”

Eu sai da lojinha e fui para uma joalheria. Precisava comprar um presente para o meu loirinho. Foi difícil escolher uma joia que pudesse contar nosso relacionamento, mas finalmente eu achei.

Peguei as cópias e segui para a escola. Dite estava me esperando entrada do colégio.

Corri e acenei. Ele veio até mim.

“Eu consegui convencer a diretora a deixar o ato dos alunos de Milo por último. Foi difícil.” Ele disse depois de eu o olhar curiosamente suplicando por uma resposta.

“Então aqui estão as partituras.” Dei as partituras para o sueco. “Entregue para os alunos. É essa música que eles terão que tocar. Avise-os.”

“Sim...”

“Não deixe que Milo perceba.”

“Está duvidando da minha capacidade Kamus?” Perguntou um tanto desconfiado.

“Ao contrário Afrodite. Estou lhe confiando uma missão importantíssima.” Comentei sério e fui embora deixando aquele loiro fazer o que tinha que fazer. Entrei no teatro principal e fiquei esperando na cadeira a apresentação.

Afrodite saiu da entrada da escola e foi para os bastidores colocando as partituras dadas por Kamus no final da caderneta de partituras. Conversou com alguns alunos sobre o plano e pediu para que eles informassem os outros e pediu sigilo, pois seria uma surpresa.

Milo estava andando de um lado para o outro esperando ver Kamus entrar pelos portões da escola.

“Mi... Meu querido. Kamus falou que vinha, então eu acho que você deve confiar nele.” Disse Afrodite perto dele.

“Você acha Di?” Perguntou incerto. “Ele passou a tarde toda tentando me convencer de não vir para a apresentação dos meus alunos.”

“Repito o que disse Milo. Você devia confiar mais nele. Se ele falou que viria, então vem. Por mais que essa não seja a vontade dele.”

O grego o olhou sério e depois acenou com a cabeça positivamente.

“Vamos Milo. Seus meninos precisavam de você. Eles querem ouvir umas palavras sua!” Disse puxando o loiro para longe da janela.

.♥.

O show havia começado tinha um tempo.

Milo estava na coxia acompanhando toda a programação.

Kamus realmente tinha vindo, conforme prometera. O loiro demonstrava uma felicidade genuína. Passar o dia com Kamus de um jeito que ele nunca imaginou e ter sabido um pouco mais do passado dele o deixava feliz.

Era com um dia assim que sonhava passar e tudo valera a pena.

Estava observando com orgulho os meus formandos como um pai orgulhoso. A minha primeira turma SÓ minha estava se formando.

A apresentação acabara. Eu fui para o palco prestigiar os meus alunos e receber as salvas de palmas junto com eles.

“Senhores, essa era para ser a última apresentação da noite, mas houve uma mudança em cima da hora na programação. Peço, por favor, que todos voltem a se sentar.” A voz da diretora estava preenchendo o teatro principal.

Os pais voltaram a se sentar e Kamus se levantou da poltrona.

Onde que ele iria? Será que já não queria mais ver a apresentação? Afinal ele sempre seguiu as riscas o que era planejado. Ele não gostava de coisas inesperadas.

Ele estava subindo para o palco.

O que ele iria fazer?

Observei ele subir em cima do palco e a diretora cochichar alguma coisa no ouvido dele. Pegou o microfone da mão dela e se dirigiu para o centro do palco. Ele observou os pais e convidados e cumprimentou-os.

“Boa noite a todos!” Ele disse formalmente. “Como a própria diretora nos esclareceu, tivemos uma pequena mudança de programação de última hora. Este ato será apresentado pelo professor Milo Stratis, um grego que saiu da terra natal dele para se formar no melhor conservatório de Paris e depois de formado resolveu dar aulas. Ensinar tudo o que sabia para futuros aspirantes à musicista. Devo confessar que ele é um ótimo professor, não?” Perguntou ele olhando para os meus alunos e eles acenaram positivamente.

Mas que diabos ele está fazendo? Aproximadamente uns cem pares de olhos estavam voltados para mim e eu fiquei sem graça.

Kamus continuou o discurso.

“Mas isso não é novidade para vocês. Todos sabemos que Milo é sim um ótimo musicista e também um ótimo professor. O que vocês não sabem é que o mesmo professor que leciona com tanta vontade, o mesmo musicista que coloca sua alma nas músicas, ele também é um grande compositor e cantor. E eu quero dividir isso com vocês... Por isso lhes apresento: Milo Stratis!” Disse apontando para a minha pessoa.

Não! Não! Kamus estava doido.

Fui até aquele ruivo filho da puta. O que ele estava fazendo comigo?

Peguei o microfone e o lembrei do quanto ele estava encrencado. Ele apenas sorriu e depois disso deixou o palco, ficando na coxia.

As primeiras notas encheram o ar. Quebrou o silencio e tensão que estavam no ar.

Segurou forte o microfone, mas a voz lhe faltava.

Ele estava desistindo quando olhou para Kamus, para os alunos, para os professores... Estavam todos ansiosos. Não iria mais desistir.

Respirou fundo.

As notas começaram de novo. Fechou os olhos e começou a primeira linha da música.

Looking at the pages of my life

Olhando para as páginas da minha vida

Faded memories of me and you

Tenho lembranças de você e eu

Mistakes you know I’ve made a few

Alguns erros que você sabe que cometi

I took some shots and fell from time to time

Arrisquei algumas coisas, caí de tempos em tempos...

Olhou a sua volta.

Estava tão inseguro... Como na primeira vez em que beijou Kamus sem saber direito dos sentimentos dele, como na primeira vez em que fez uma apresentação solo, como na sua formatura...

Fechou os olhos e se sentiu levar pela música.

Baby, you were there to pull me through

Querido, você estava lá para me ajudar a superar

We’ve been around the block a time or two

Já estivemos por aqui algumas vezes

I’m gonna lay it on the line

Vou deixar tudo bem claro

Ask me how we’ve come this far

Me pergunto como chegamos tão longe

The answer’s written in my eyes

A resposta está escrita em meus olhos

‘Kamye... como eu te amo!’ Pensou enquanto cantava a música.

Era a música deles e ele estava fazendo uma declaração de amor em público.

Estava mais confiante. Iria mostrar para todos o quanto o amava e como o amor deles era bonito, como todos os outros tipos de amor existentes.

Sabia que havia pessoas que tinham preconceito por ser gay, mas ele é um ser humano e tinha o direito de amar e de ter sentimentos iguais a todos os outros seres humanos.

Every time I look at you, I see something new

Toda vez que olho para você vejo algo novo

That takes me higher than before and makes me want you more

Que me deixa mais animado do que antes e me faz te querer mais

I don’t wanna sleep tonight, dreamin’s just a waste of time

Não quero dormir esta noite, sonhar é uma perda de tempo

When I look at what my life’s been comin’ to

Quando olho o que a vida vem se tornando

I’m all about lovin’ you

Tudo se resume a amar você

‘Você vê o quanto eu te amo, Kâ? Você sente o quanto eu te amo?’

Os olhos de Milo estavam mostrando o quanto amor tinha para com Kamus e como nem a morte podia separá-los.

A plateia estava em total silêncio, totalmente absorta pela música de Milo.

I’ve lived, I’ve loved, I’ve lost, I’ve paid some dues, baby

Já vivi, já amei, já perdi, já paguei dívidas querido

We’ve been to hell and back again

Já estive no inferno e voltei

Through it all you’re always my best friend

E dentre tudo isso você sempre foi o meu melhor amigo

For all the words I didn’t say and all the things I didn’t do

Por todas as palavras que eu não disse e todas as coisas que eu não fiz

Tonight I’m gonna find a way

Hoje eu vou encontrar um jeito

Os olhos verdes se encontraram com os olhos azuis.

Naquele momento não havia palavras a serem ditas. Naquele momento não existia mais plateia, não existia mais musicistas, não existia mais diretora e nem professores. Naquele momento existia apenas eles dois e o mundo. Um mundo feito para eles.

Aquele olhar significava tudo.

Every time I look at you, baby, I see something new

Toda vez que olho para você vejo algo novo

That takes me higher than before and makes me want you more

Que me deixa mais animado do que antes e me faz te querer mais

I don’t wanna sleep tonight, dreamin’s just waste of time

Não quero dormir esta noite, sonhar é uma perda de tempo

When I look at what my life’s been comin’ to

Quando olho o que a vida vem se tornando

I’m all about lovin’ you

Tudo se resume a amar você

O ruivo olhava Milo e ele parecia tão feliz, tão livre...

E talvez fosse isso mesmo que o loiro sentisse. Como se nada mais importasse. Como se apenas amar fosse o necessário para viver décadas e décadas.

You can take this world away

Você pode acabar com o mundo

You’re everything I am

Você é tudo que eu sou

Just read upon my face

Somente olhe para a minha cara

I’m all about lovin’ you

Tudo se resume a amar você

“Eu te amo.” Kamus sussurrou para Milo. “Eu sempre te amei!”

O loiro sorriu.

A última parte foi acompanhada por professores e a plateia.

Every time I look at you, baby, I see something new

Toda vez que olho para você, vejo algo novo

That takes me higher than before and makes me want you more

Que me deixa mais animado do que antes e me faz querer mais

I don’t wanna sleep tonight, dreamin’s just waste of time

Não quero dormir essa noite, sonhar é uma perda de tempo

When I look at what my life’s been comin’ to

Quando olho o que a vida vem se tornando

I’m all about lovin’ you

Tudo se resume a amar você

Milo puxou Kamus para ficar junto dele, no palco.

“All about lovin’ you! (Tudo se resume a amar você!)” Falou olhando para o namorado. Estava com os olhos úmidos e o abraçou.

As pessoas se levantaram e aplaudiram.

“Eu te amo, meu grego!” Disse no ouvido do loiro e se voltaram para frente recebendo as palmas.

.♥.

Estava noite e apesar das nuvens carregadas ainda não estava chovendo.

Kamus estava andando com Milo pelas ruas a esmo.

“Você tem ideia do quanto aquilo foi assustador, Kamye?” Disse batendo de leve no ombro do amigo.

“Você foi ótimo!”

“Não sabia o que fazer. Estava tão nervoso. Mas depois uma calma foi se apoderando de mim. Quase como se tivesse me possuindo. Kamye, o palco não era mais estranho para mim e entramos numa sintonia perfeito... Foi assombroso!” Estava animado.

“Como eu te disse, você foi maravilhoso.”

“Kamye, você é suspeito.”

“Culpado seria a melhor palavra.”

Milo o olhou confuso.

“Não sou suspeito. Sou culpado!” E o loiro sorriu.

“Kamye, eu estou morto de fome. Onde que nós vamos comer?”

“Onde você quiser...”

“Ok. Deixe-me pensar...”

“Hm...” Acenou positivamente com a cabeça.

O restaurante escolhido ficava escondido da agitada cidade de Paris. A atmosfera tinha um que de retrô, com fotos branco e preto nas paredes. Os pratos eram verdadeiras obras de arte. Cada um tinha sua cor, textura e o sabor tinham seu lugar e sua razão de ser.

Assim que entraram foram pronta e educadamente atendidos e servidos.

Tiveram um jantar calmo. Apreciaram cada mordida da comida e cada gota de vinho. Ficaram em um silêncio, trocando olhares românticos e sorrisos.

“Bela escolha.” Disse o ruivo depois de um tempo.

“Gostou mesmo do lugar?” Perguntou um pouco surpreso.

“Hm...” Acenou positivamente.

“Pensei que não fosse gostar. Digo, ele não é sofisticado e não tem todas aquelas pessoas chiques andando para lá e para cá discutindo negócios ou comemorando alguma promoção... Ele é tão mais familiar, aconchegante...”

“Faz completamente o meu estilo.”

O loiro riu e Kamus sorriu também.

“Kâ, você estava muito bonito hoje na sua reunião. Forte. Valente.”

O que Milo estava dizendo?

Por que ele estava mencionando a reunião?

E então eu senti uma dor no peito.

“O que você disse?” Perguntei um tanto receoso. Ele não podia falar da pasta.

“Você, na sua reunião. Estava forte como um touro.”

“Do que está falando, Mi? Você não foi lá... Pelo menos eu não o vi.” Meu Deus, eu não quero ouvir a resposta. Fala que isso é um sonho.

“Sim, eu sei... Fui levar a sua pasta preta, mas quando cheguei lá vi que já estava com ela então, saí de fininho.”

Ele falou tudo o que eu menos queria ouvir. A maldita pasta. A minha maldita reunião... Eu já estava começando a ficar com raiva desses pequenos sinais que pareciam o dia em que ele...

“Estava muito bonito mesmo Kamye. Quase que eu entro só para te agarrar.” Comentou sorrindo.

“Mi... feche os olhos.” Eu disse tentando mudar de assunto. Não queria ouvir mais nada.

Era um pedido muito estranho de Kamus.

Fechar os meus olhos? Mas o que ele iria fazer?

Fechei meus olhos um pouco desconfiado e apurei os ouvidos. Ouvi um barulhinho de metal se chocando e logo depois a respiração de Kamus perto do meu pescoço.

“Não abra os olhos.” Disse imperativamente depois de uma tentativa em vão de abrir os olhos.

“Ok...” Respondi e logo senti o toque gelado do metal sendo colocado no meu pescoço.

Abri os olhos e com as mãos puxei um pouco do objeto para que eu pudesse ver exatamente o que era, apesar de ser lógico.

Era uma corrente prata e unia as duas pontas com um cadeado também na cor prata e apesar do significado ser um tanto pesado, ao menos para mim é pesado. Afinal não pode dar coisa boa uma corrente e um cadeado. A joia é delicada e um tanto masculina.

Contraditório, eu sei, mas por ser contraditória ela é uma peça rara.

“Parabéns. Por seus alunos!”

Eu o olhei com lágrimas nos olhos.

“Se você reparar bem tem um coração gravado no cadeado. Está misturado com algumas outras figuras, mas o que me chamou mais a atenção foi realmente o coração.”

Eu peguei a peça novamente e olhei com um pouco mais de precisão e tinha realmente um coração gravado no meio do cadeado.

“Essa é uma peça que combina com a gente. Cada aro dessa corrente conta os dias desde que você me conheceu até hoje. Você uniu cada um desses aros de modo intercalados de maneira a formar uma corrente e se fecha com um cadeado... O meu coração.

Você possui o meu coração. Você me conquistou Milo, e foi me prendendo mais e mais a você até que roubou o meu coração. Agora ele pertence a você. Ele está preso a você.

Cada cadeado possui uma chave própria, uma única chave dentre tantas as existentes. Igual o amor Milo. O meu amor por você é único, é ímpar. É único dentre todos os amores existentes no mundo...”

As lágrimas saiam dos meus olhos, sem que eu conseguisse segurar e ele as secou com carinho.

“Obrigado Kâ. Obrigado pelo dia de hoje, pelo presente, por me amar... Obrigado!” Disse com a voz embargada e ele apenas sorriu.

.♥.

Já estava chovendo quando eles decidiram ir embora do restaurante.

Milo pegou o casaco e vestiu, o ruivo colocou a jaqueta.

“Você tem certeza de que não quer mesmo ir andando?” Perguntou o ruivo do lado de fora do restaurante e um pouco alto pelo barulho da chuva.

“Kamus está chovendo muito forte.” Disse um pouco indignado se preparando para correr. “Vamos logo antes que piore.” E puxou o ruivo para uma corrida. “Aqui não passa táxi, então teremos que ir até uma avenida.” Avisou quando estava correndo virando numa rua, ficando em frente ao Le Bristol.

O loiro estava olhando para a avenida a espera de um táxi. Kamus olhou para cima e soltou o ar pela boca, numa baforada. Olhou para trás e viu o nome do Le Bristol na parede sendo iluminados por duas lâmpadas. Seguiu o olhar para onde aconteceria o acidente.

“O que foi Kâ?” Perguntou olhando para o ruivo depois de dar uma olhada no cruzamento.

Ele se virou e encarou o rapaz de cabelos loiros.

“Eu te amo.” Disse firme.

“Eu também te amo.” o loiro estava passando a mão pelo corpo, como se esse gesto pudesse aquecê-lo e olhou de novo para a avenida que não tinha nenhum táxi disponível.

“Quero dizer o porquê eu te amo.”

O loiro se virou abruptamente para trás olhando para Kamus.

“Está chovendo, sabia disso Kamus?” Olhando de novo para a avenida.

“Milo, eu preciso dizer e você tem que me escutar.” Disse virando o corpo do grego para si, tendo aqueles olhos verdes preso em si. “Eu o amo desde o dia em que o conheci, mas não me permitir sentir isso até hoje. Talvez porque eu não queria que acontecesse comigo o que aconteceu com o meu pai. Eu não sei... Estava sempre um passo a frente, prevendo tudo para que nada fugisse do meu controle. Tomando decisões para nos livrar do que tememos...”

O loiro estava prestando muita atenção no que ele estava dizendo.

“Pelo que aprendi com você hoje... Cada escolha foi diferente e a minha vida mudou completamente. Aprendi que quando se faz isso, vive-se inteiramente. Não importa se tem cinco minutos ou cinquenta anos. Milo, se não fosse por hoje ou por você nunca conheceria o amor! Então muito obrigado por ser a pessoa que me ensinou a amar e ser amado.”

Milo abraçou Kamus com as lágrimas escorrendo pelos olhos.

“Kamye, eu não sei o que dizer.” Sussurrou no ouvido do mais velho.

“Não diga nada Milo. Não diga nada.” Disse e beijou os lábios do mais novo. Um beijo rápido, mas que demonstrava todo o seu afeto por ele. “Só queria que soubesse disso.”

“Obrigado.” Disse e um táxi parou em frente a eles. Milo o olhou e depois a Kamus. “É hora de ir para casa.”

Abriu a porta e se ajeitou em no banco traseiro.

“Você não vem?” Gritou para Kamus que ainda estava parado do lado de fora.

“Lógico.” Disse e entrou no carro fechando a porta.

“Rue Raymond Marcheron, por favor.” O loiro disse.

“Sim senhor.”

Aquela voz... A mesma voz de ontem, a mesma voz de hoje... Não podia ser verdade.

Olhei para o espelho retrovisor e vi aqueles mesmos olhos intimidadores.

Nada ia mudar, nada!

Estávamos chegando no cruzamento. Eu estava tenso.

Não me importei com que o motorista do táxi ia achar ou não, eu beijei Milo, apaixonadamente, sofregamente, desesperadamente.

Nossas línguas se encontraram e eu senti um choque percorrer por todo o meu corpo. Queria sentir o gosto dele mais uma vez, queria visitar os locais escondidos daquela boca que eu não pude visitar antes. Queria demonstrar para ele todo o amor que eu sentia por ele através desse único gesto e quando nos separamos ele sorriu e encostou a cabeça no meu ombro.

O táxi parou e o relógio do táxi bipou.

Era meia noite. Exatamente doze horas.

A minha respiração estava alterada, mas Milo não percebia. Eu estava fazendo um grande esforço para que ele não percebesse.

O farol abriu. O carro começou a andar, estávamos no meio do cruzamento.

Minha respiração estava falhando, eu não estava conseguindo mais respirar direito.

Uma lágrima escapou por meu olho e tudo aconteceu depressa demais.

Vi uma luz muito forte bater contra o meu rosto e me joguei em cima de Milo para protegê-lo.

Ainda ouvi um barulho de lataria sendo amassada e sinais tocando.

Senti o corpo de Milo contra o meu e o coração dele bater.

‘Ele está vivo’ Pensei com um pouco mais aliviado e pude me permitir dormir para não sentir essas dores insuportáveis.

Abri os olhos quando estava no hospital, mais precisamente na sala cirúrgica. A minha visão estava embaçada e os sons... Eu não podia distingui-los. Não sentia nada do meu corpo, nem dor eu sentia mais.

Tudo aquilo passou muito rápido pela minha cabeça e quando dei por mim respirar estava sendo difícil e...

“Por favor, fique com a gente.” O médico estava gritando enquanto pegava o desfibrilador e aplicava próximo ao coração do ruivo.

A tela mostrava a linha reta contínua combinada junto com um barulho contínuo de morte. Ele tentou de novo e a linha não moveu e tentou mais uma vez e não houve alteração nenhuma.

Não havia mais nada a ser feito.

“Perdemos ele.” Afirmou o médio responsável, derrotado, pegando uma prancheta e anotando a hora da morte.

Aconteceu tão rápido.

O beijo apaixonado de Kamus, a luz contra a nossa direção, um barulho alto e muita confusão depois, a escuridão.

Quando acordei estava num quarto de hospital.

Os fios no meu peito estavam me atrapalhando e a minha cabeça doía muito.

Levantei da cama e senti uma pontada na minha cabeça. Fiquei levemente tonto. Fiquei parado por um momento com os olhos fechados e quando a sensação de tontura passou abri os olhos e procurei por Kamus.

Ele não estava no mesmo quarto que eu.

Dite estava lá e quando viu que eu me levantei, levantou-se da poltrona e se aproximou de mim.

“Cadê o Kamus?” Perguntei baixo. A minha voz não estava querendo sair e a minha garganta estava seca.

“Mi.” Ele estava tremendo. Os olhos cheios de lágrimas.

“Dite...”

“Milo, entenda, ele recebeu todo o impacto e...”

Não podia ser verdade. Kamus não podia me abandonar. Não desse jeito, não assim.

“Sinto muito meu amigo.”

“Não acredito que ele morreu. Por que Dite? Por que estou aqui e ele não? Porque eu estou vivo e ele está... ele está...?” Eu não queria completar aquela frase, porque completa-la me faz ter certeza de uma coisa que eu não estava acreditando, que eu não queria acreditar.

“Milo...” Ele disse se aproximando de mim, tirando a minha franja do meu rosto, acarinhando a minha face. “Não podemos ter o controle de tudo, meu querido.”

Eu afastei a mão de Dite do meu rosto.

Não queria os carinhos dele, não queria as palavras dele. O que eu queria era o meu ruivinho francês de volta e isso eu nunca teria.

Por que Hades tinha que tirar o meu Kamye? Por que ele não me levou? O Kamus tinha tanto o que viver. Tinha um nó na minha garganta que fazia ela doer e todo o meu corpo doía.

“Sabe Dite, Kamus teve um sonho, premonição, visão. Algo assim... Ele sabia Dite, ele sabia e eu não dei ouvidos a ele.” As lágrimas teimavam em cair e a minha voz estava ficando embargada.

“Milo...”

“Dite, por Deus, se eu tivesse ouvido o Kamye, nada disso teria acontecido. Kamus não teria morrido. Ele ainda estaria aqui comigo...”

“Milo...”

“Ele tentou me avisar Afrodite e eu não dei ouvidos. Eu não acreditei Dite. E por isso ele morreu.”

“Milo...”

“Dite, você não entende? Tudo o que aconteceu com ele foi culpa minha. Eu matei o meu próprio namorado. Eu...” Estava desesperado, tentando sair da cama. Tirando aqueles fios que estavam em meu corpo.

“Milo...”

“Dite, eu preciso vê-lo. Eu preciso ver Kamus, eu preciso ver com os meus próprios olhos que o meu amor não está mais respirando, não está mais aqui, não está mais... vivo.” Estava levantando da cama, mas ele não deixou. Fez com que eu deitasse.

“Milo...”

“Dite... Ele está morto e por minha causa...” Não pude terminar a frase. Ele me deu um tapa no rosto e seu olhar estava furioso.

“Escuta aqui grego...” Ele estava sério, com seu dedo indicador apontado para mim. “Kamus não morreu por sua culpa, está bem?” E não esperou eu responder, continuou com a bronca. “Não interessa o que você faz, a morte vem até nós independentemente de onde estejamos. Não dá para enganarmos a Dona Morte. Você entende?” Disse um pouco mais calmo. “E não adianta você querer ir atrás dele Milo não vão deixar você vê-lo e você precisa descansar um pouco. Vê-lo só vai deixar você pior.”

“Dite...” Meu rosto estava coberto de lágrimas e ele estava secando-as gentilmente. “Antes de entrar no táxi ele me disse como eu o ensinei a amar...” Suspirei profunda e sonoramente. “Amá-lo foi tão fácil para mim. Ele era tudo para mim. O meu norte, o meu amigo, pai, irmão...”

E eu já não conseguia mais falar o meu choro preencheu todo aquele quarto, sonoramente alto. Eu não estava me importando com que os outros achavam, eu não estava me importando de estar num hospital e ter que controlar a minha voz. O meu chão foi sugado, o meu norte foi tirado da minha bússola. Eu já não queria mais viver.

Dite me abraçou e eu o abracei com tanta força como um náufrago se abraça num pedaço de madeira.

Ele estava correndo os dedos carinhosamente pela minhas costas tentando me acalmar me embalando como um neném e cantando para mim.

.♥.

Fui liberado do hospital no dia seguinte e Afrodite ficou com os trâmites legais.

Voltar para casa foi o processo mais difícil para mim.

Encarar todas as coisas dele pela casa, ter que empacotar tudo aquilo... Era como destruir um sonho, um futuro com ele.

Fui para o quarto com os passos arrastados e peguei o relógio dele que estava em cima do recamier. Senti a peça gelada e coloquei no meu pulso. O vidro estava quebrado e marcavam doze horas... A hora em que aconteceu aquele acidente.

Dite voltou do hospital trazendo as roupas que Kamus estava usando ontem e eu peguei a jaqueta dele. Tinha o cheiro dele e vesti.

Deitei na cama e fiquei lá por um tempo, lembrando como tudo começou até hoje... Como uma linha do tempo e fiquei assim por horas.

.♥.

Naquele dia ele acordou diferente. Estava meio apavorado e muito preocupado. Eu não o estava reconhecendo, mas estava amando aquela atenção que antes era dedicado apenas ao trabalho. Só que paguei um preço muito alto por isso.

Já se passou um ano desde que Kamus me deixou. Eu ainda sinto saudades dele, mas eu acho que ele não queria que eu vivesse para sempre na depressão e bebidas.

Lembrei-me do pai dele e de como ele queria ter ajudado. Não podia ficar na bebida para sempre. Ele não aceitaria e ainda eu o deixaria triste.

Estava num bar na França. Um bar que eu sempre frequentava com Kamus e sempre tive vontade de cantar lá. Conversei com o gerente e ele me permitiu tocar uma música.

Subi no palco e a luz me iluminou.

Peguei o violão e comecei a cantar.

It’ll be alright

Ficará tudo bem

You said, tomorrow

Amanhã, você disse

Don’t you cry

Não chore

Don’t you shed a tear

Não derrame uma lágrima

When you wake up I’ll still be there

Quando acordar ainda estarei aqui

When you wake up we’ll battle all your tears

Quando acordar combateremos seus medos

Enquanto tocava relembrou quando foi, dessa vez sozinho, para a cidade em que Kamus nasceu.

Escalou a colina do Kamus e parou quando viu a casa de pedras que usaram para se proteger da chuva. Ficou observando a paisagem lembrando das boas memórias que tinham ali.

Uma lágrima escapou de seu olho.

And now I’ll take my heart back

E agora eu guardo meu coração

Leave your pictures on the floor

Deixo suas fotos no chão

Steal back my memories

Roubo o passado das lembranças

I can’t take it anymore

Não posso mais suportar

I’ve cried my eyes out

Sequei minhas lágrimas

And now I face the years

E agora encaro os anos

The way you loved me

Do jeito que me amou

Vanished all the tears

Dissipou todas as lágrimas

Não secou a lágrima. Deixou que ela corresse por seu rosto e caísse na grama.

Olhou para o topo e continuou a escalada.

Just a little more time was all we needed

Apenas um pouco de tempo foi tudo o que precisamos

Just a little time for me to see the light that life can give you

Apenas um pouco de tempo para que eu visse a luz que a vida pode te dar

How we get such a free

Como você pode ser livre

Não demorou para chegar no topo.

Sentir o vento bater no rosto, ver logo abaixo da colina um riacho passando por ali, as nuvens quase davam para tocar.

Sentia-se livre e entendeu porque aquele belo lugar foi por tanto tempo o refúgio do ruivo e naquele mesmo lugar sentiu que Kamus compartilhava com ele aquela imagem. Que ele estava ali do seu lado, abraçando-o e chorou.

“Kamus, que saudades... Eu te amo tanto!” Gritou para o vento e ele levou aquelas palavras embora.

So now I’ll take my heart back

Então, agora eu guardo meu coração

Leave your pictures on the floor

Deixo suas fotos no chão

Steal back my memories

Roubo o passado da lembrança

I can’t take it anymore

Não posso mais suportar

I’ve cried my eyes out and now I face the years

Sequei minhas lágrimas e agora encaro os anos

The way you loved me

Do jeito que me amou

Vanished all the tears

Dissipou todas as lágrimas

Tocou os últimos acordes e ainda de olhos fechados, lembrando-se mais uma vez da trajetória que passaram juntos, recebeu os aplausos das pessoas daquele bar.

Sentiu Kamus de novo, do seu lado, recebendo junto consigo os aplausos.

O amor deles estava sendo aprovado pelas pessoas que aplaudiam e então ele abriu os olhos lentamente e sorriu. Uma lágrima escapou dos seus olhos e ele a limpou logo. Olhou para cima.

“Eu te amo!” Sussurrou e depois saiu de cima do palco recebendo um abraço apertado de Afrodite e do seu novo namorado. Sua família na França.

Notas finais
Gente, esse foi o meu primeiro lemon. Será que fui bem hein? O passado de Kamus revelado. Eu queria ter podido me aprofundar mais nesse passado, mas aí ia ficar muito longo, cansativo e muito dramático também. Nesse capítulo eu coloquei muita música... Mas é que eu acho que a música consegue traduzir sentimentos que eu não consigo por em palavras, por isso adoro song-fics, quando bem feitas lógico! O final foi triste, mas será esse final e ponto final. Não teria como ser diferente. A vida "abriu" os olhos de Kamus e com isso ele conseguiu demonstrar todo o amor que ele sentia por Milo. Lembrem-se antes Milo não sentia que era amado. Eu tentei passar isso nos capítulos anteriores. Não sei se consegui isso As músicas... Vou listá-las nas ordens em que aparecem: Trechos da música: Never gonna be alone - Nickelback A música que Kamus canta é: Thank you for loving me - Bon Jovi A música que Milo canta na formatura é "All about lovin' you", também do Bon Jovi E a música final da apresentação dele num bar é: Take my heart back - Jennifer Love Hewitt - atriz do filme "If Only" no qual a fanfic foi baseada. Muito obrigada àqueles que leram e acompanharam essa short-fic... Beijos carinhosos, Bel.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!