Avalon

6 Capitulo 6


Tomoyo se lembra da sensação. A dor pelo seu corpo inteiro, jogada no chão, olhando para o céu encoberto por nuvens vermelhas. E então, ser salva por seu pai. Ela se lembra nitidamente do rosto dele naquele momento. Ele era um homem que, apesar de estar com mais de 40 anos, ainda tinha a aparência de um jovem de 18, e sua personalidade jovial contribuia pra isso. Ele tinha olhos verdes, cabelos pretos, volumoso e espetados, com uma mecha colorida da mesma cor que seus olhos, que ficava caída em seu rosto, um porte físico atlético, e era um pouco alto. Se lembra dele preocupado com ela, mesmo que no momento devesse se preocupar consigo mesmo, já que estava com ferimentos pelo corpo inteiro, e um grande machucado na barriga que não parava de sangrar. "Você vai ficar bem, você vai ficar bem", era o que ele repetia varias vezes. Seu pai a pegou no colo, com uma certa dificuldade, e a levou para os braços de alguém. Antes que seu pai partisse, Tomoyo tentou estender sua mão para chamá-lo, mas logo perdeu a consciência.

Essas memórias passavam por sua cabeça, enquanto ela vivia por uma situação semelhante a essa. Após a explosão da fábrica, ela estava jogada no chão, sem conseguir se mexer, com dores por todo o corpo, apenas olhando pro céu, dessa vez coberto por uma nuvem densa de poluição. Por sorte, nenhum dos escombros a soterrou. Ela ouviu algumas vozes, e alguém se aproximava. Sua visão escureceu, e ela acordou se sentindo em movimento. Estava dentro de um carro, deitada no banco de trás. Haviam duas pessoas ali, o motorista e alguém no banco do passageiro. Ela não conseguiu ver o rosto de nenhum dos dois, e acabou desmaiando novamente. E então, dessa vez, acordou em um quarto. Sentia muito menos dor agora, e ao olhar por baixo de sua blusa, viu que seus ferimentos estavam tratados e enfaixados. Sem saber onde estava, ela se levantou, e desceu as escadas para o primeiro andar. A casa era simples, feita quase que exclusivamente de madeira, e a escada fazia um barulho muito alto, o que denunciou que ela estava a descendo. Lá, encontrou duas mulheres, uma mais velha e outra mais nova. Reconheceu a mais nova, era a garota loira que Tomoyo havia conhecido no bar. Ela ainda vestia a mesma roupa de antes. A mais velha correu em sua direção assim que a viu.

— Como está se sentindo? — Essa foi a única pergunta que a mulher mais velha fez.

— Uh, bem, eu acho. — Ela respondeu.

— Graças a Deus. Minha filha viu você por acidente jogada no meio dos escombros da fábrica, e insistiu para que nós te ajudássemos. Se for agradecer, agradeça a ela. — Disse a mãe.

— Uh....obrigada. — Agradeceu Tomoyo, estendendo a mão para filha.

— De nada! — Ela respondeu, apertando sua mão, com um sorriso no rosto. — Meu nome é Anne, e o seu? – Ela agia como se não a conhecesse.

— T-Tomoyo.

— Muito prazer, Tommy! — Anne sentiu uma fraca descarga elétrica das mãos dela, mas fingiu não ter sentido nada.

— Tommy?!

— Não gostou?

— É claro que não! — Ela reclamou, quase batendo a perna como uma criança irritada.

— Ta, foi mal então, T-o-m-o-y-o. — Ela zombou.

— Quer alguma coisa? Algo pra comer, ou beber? Se quiser, pode passar o resto da noite aqui. — Disse a mãe.

— Eu agradeço de verdade a ajuda de vocês, de verdade mesmo, mas eu preciso ir embora urgentemente. Eu tenho coisas muito importantes pra resolver. — Disse Tomoyo, se preparando para sair.

— Eu acompanho você! — Disse Anne, colocando seus tênis.

— Não precisa, é melhor ficar em casa. – Disse Tomoyo.

— Qual o problema? — Perguntou a mãe. — Uma companhia é sempre bom. Acompanhe ela até onde der, Anne.

— Exatamente! Qual a graça de andar por ai sem um acompanhamento? — Disse Anne, pronta para sair. — Vamos?

— Tá, pode vir então. — Ela respirou fundo, e permitiu que Anne a acompanhasse.

— Tomem cuidado, ok? — Disse a mãe, se despedindo.

Tomoyo andou em silêncio por alguns quarteirões da cidade, e Anne apenas murmurava algumas músicas, e saltitava levemente, como se estivesse em um passeio no parque ou algo do tipo. As favelas de Avalon, por mais que tivessem um odor ruim e serem desagradáveis de se olhar, ainda tinham seu charme próprio. Suas ruas estreitas e becos escuros eram um perfeito cenário para assassinatos e roubos, mas isso não parecia preocupar a pequena e delicada garota ao seu lado. Tomoyo não conseguia entender o motivo de Anne querer tanto acompanhá-la, mas não conseguia se irritar, já que só estava viva no momento por causa dela. Sentia algo de diferente vindo dela, uma familiaridade estranha, e esse sentimento era inusitado, já que havia conhecido Anne a pouquíssimo tempo.

— Eu vi as notícias. — Disse Anne, quebrando o silêncio. — Não achei que você fosse encrenqueira a esse ponto. Fugir da polícia, ser presa, fugir da prisão, brigar com um líder de uma gangue, invadir uma fábrica e sobreviver a uma explosão?

— Lá vem você se meter de novo na minha vida.....espera, o que tem nas notícias? O que eles estão falando?!

— Os terroristas que atacaram a fábrica da Stigma. Seu rosto apareceu nos jornais, e contaram toda essa história. — Respondeu Anne.

— Como é?! Terroristas?! — Ela se revoltou. — Esses desgraçados manipuladores! E....você não tem medo de mim?

— Não, nem um pouco! Eu sei que você é uma pessoa boa, e que nunca faria uma coisas dessas.

— A gente conversou por 5 minutos em um bar, e eu apareço como uma terrorista na televisão. Quero saber como diabos você tem tanta certeza que sou uma pessoa boa. — Disse Tomoyo. — Na real, a verdade é que eu não sou. Eu só causo problemas pra todo mundo, principalmente pra quem tenta me ajudar. — Ela pensou em Kentaro e na gangue.

— Não se faça de vítima, ok? — Anne se colocou na frente de Tomoyo. — Eu sei bem qual sua índole. Você pode ter varios conflitos dentro de si, mas, no fundo, é uma pessoa boa. Não se deixe abalar só por ter colocado seus amigos motoqueiros em uma enrascada dessas.

— Ok, já chega disso! Como você sabe tanto sobre mim?! Esteve me seguindo por acaso?! E como que você, de todas as pessoas possíveis, foi quem me encontrou ali?

— Não, claro que não. — Anne sorriu. — Mas, eu vi tudo que aconteceu, com todos os detalhes! Tudinho mesmo!

— E eu posso saber como? Achei que tivesse chegado na fábrica depois de tudo.

— Isso! Finalmente tenho a chance de revelar isso pra alguém! — Anne parecia aliviada, e muito animada. — Lá vai.....eu tenho poderes! Assim como você, Tomoyo!

— Ah é? E que tipo de poderes? — Ela não parecia muito impressionada.

— É um pouco complicado, mas pra alguém que solta raios das mãos, acho que vai entender. — Disse Anne. — Resumindo muito, eu consigo acessar a mente das pessoas, saber seus sentimentos, memórias, esse tipo de coisa. Eu consigo fazer isso ao tocar na pessoa, ou ficar menos de 1 metro de distância dela. Eu vi tudo que aconteceu com você e aquela gangue de motoqueiros, e sei como estão sendo injustiçados com todas essas notícias falsas!

— Espera, isso é coisa demais pra se ouvir de uma vez. Tá me dizendo que você invadiu minha mente sem permissão? O que mais você viu além disso?

— Não tenho culpa disso, ta? É meio que automático, as vezes fico até confusa com tantas memórias e sentimentos passando pela minha cabeça ao mesmo tempo. Se eu me concentrar bastante, eu consigo evitar a maioria, e só assim pra eu simplesmente não enlouquecer. Eu evitei ver muito das suas memórias no bar, apenas vi você discutindo com aquele Miles na manifestação. Mas, enquanto eu te enfaixava, acabei acessando quase tudo. Acho que vi tudo que aconteceu nos últimos 4 anos com você. Eu fiquei surpresa ao saber que você era filha do — Anne foi cortada.

— Chega, eu não quero saber. Bom, isso explica muita coisa, até mesmo como você soube que eu briguei com o líder de uma gangue. Aliás, posso saber o motivo de você estar vindo atrás de mim? Sabe que eu vou fazer algo meio perigoso, né?

— É, eu sei bem disso. Mas minha vida anda meio monótona ultimamente, nada demais acontece, e eu quero um pouco de adrenalina, sabe? Aliás, eu meio que não conheço ninguém igual a mim, com poderes e tudo mais. Minha mãe sabe deles, finge não ligar, mas eu sei que no fundo ela liga, e as vezes tem medo de mim. Na verdade, ela as vezes parece querer se livrar de mim. Eu simplesmente sai no meio da noite para ir naquele bar, e ela mal ligou. E um certo dia, eu descobri que ela já cansou de ter que viver com uma filha "bizarra" como eu. Esse é o problema de ler mentes, as vezes você descobre coisas que preferia não saber. Eu ainda amo minha mãe, mas, saber disso me machuca um pouco. Mas agora, eu tenho alguém com quem posso me relacionar, certo? Alguém que me entenda.

— Não posso dizer que me identifico com suas história, mas eu entendo perfeitamente. Por grande parte da minha vida, tive alguém que me entendia e me apoiava, mas agora....

— Ta falando do seu pai, né? Eu sinto muito. — Anne preferiu não tocar muito no assunto, pois sentia que as memórias de Tomoyo sobre isso eram muito delicadas.

— É, mas isso já passou. Mudando de assunto, seus poderes vieram de onde?

— Eu não sei. Ao contrário de você, acho que meus poderes vieram de nascença. Lembro de tê-los desde meus 3 anos de idade. É quase como um dom.

— Quem bom que considera isso um dom. Pra mim isso é só uma bela encheção de saco. Não posso nem pensar em demonstrar meus poderes, e pode vir um agente da Stigma atrás de mim.

— Mas não foi exatamente isso que aconteceu? O Akira era um agente da Stigma, não?

— Pra você ver. Um simples choque já trouxe eles até mim, e os garotos tão nessa por culpa minha.

— Eu diria que não é culpa sua, mas infelizmente é mesmo. Mas, não pense assim, ok? Pense que ainda pode salvá-los. — Anne avista uma casa familiar. — Acho que chegamos na casa do Miles.

— Como você....ah, é verdade. Droga, você já tá sabendo demais pro meu gosto. Preciso buscar algumas coisas aqui. Se quiser pode esperar aqui fora.

— Ok, não vou invadir a privacidade de ninguém.

Tomoyo falou a senha da porta, e ela se abriu. Antes que entrasse, ouviu um helicóptero se aproximando. Ficou surpresa ao ver que ele estava pousando no meio daquela rua estreita. De dentro dele, saiu um homem loiro, com o cabelo estilo mullet, vestindo um terno roxo escuro. Ele era alto, e parecia ter um porte físico forte. Ele passou ao lado de Anne, e ela sentiu algo estranho vindo dele, e teve algumas visões. O homem parou na frente dela, com um sorriso malicioso.

— Tomoyo Arakaki? — Perguntou o homem.

— E quem seria você? — Respondeu ela.

— Me chame de Tamashiro. Sou o chefe das finanças da Stigma, e vim aqui pessoalmente para te fazer uma proposta.

— E por qual motivo eu deveria ouvir a proposta de alguém da Stigma? A empresa que ta me tratando como uma terrorista e um perigo pra sociedade? Só me dê um motivo pra eu não enfiar sua cara no bueiro agora, e é bom ser um belo de um motivo.

— Eu só quero ter uma conversa civilizada, apenas isso. Nada de socos, tiros, principalmente raios. — Disse Tamashiro. — Só me ouça, e prometo que não haverá briga alguma.

— Ta, que seja. — A jovem suspirou. — Sou toda ouvidos.

— Como bem sabe, você e seus amigos motoqueiros são as pessoas mais procuradas pela polícia no momento. E, agora mesmo, eles estão em uma fuga em alta velocidade pela cidade toda. Acredito que em algum momento eles vão ser pegos, pois como já deve saber, nossas forças armadas tem um líder muito severo, e ele não vai deixar seus rapazes pararem até prenderem os terroristas que estão aterrorizando a cidade.

— Não falou nada que eu já não saiba. — Disse Tomoyo, cruzando os braços, parecendo desinteressada.

— É ai que você entra. Se você vier conosco para se encontrar com a presidente Stigma, nós cessaremos a perseguição pelos seus amigos imediatamente. O que acha?

— O que eu acho? — Disse Tomoyo, antes de cair na gargalhada. Após rir por quase 15 segundos, ela finalmente conseguiu responder. — Eu acho que vocês são uma piada.

— Como?

— Essa cidade é a maior sujeira que eu já vi. Sério isso? Tudo vocês resolvem com acordos, então? É assim que aquela maluca da Satsuki ensinou a governar pra vocês? Olha, é melhor ir embora, antes que eu seja obrigada a manter minha palavra e te enfiar de cabeça naquele bueiro cheio de merda.

— Então você tem a chance de ajudar seus amigos, e vai recusar?

— Não é como se eles fossem meus amigos de verdade. Não vou me arriscar a esse ponto por eles.

— Hum, se é assim que você quer fazer. — Disse Tamashiro, voltando para seu helicóptero. — Aproveite suas últimas horas de liberdade, Arakaki. Vai sentir falta delas.

Tamashiro foi embora, e Tomoyo enfim entrou na casa. Ela foi direto para o quarto de Miles, e abriu o baú onde ele guardava seus equipamentos. Dali, pegou uma arma semelhante a um rifle, que disparava lasers e era recarregavel. Depois, pegou um óculos hi-tech, capaz de acessar a rede da internet de qualquer lugar, hackear qualquer tipo de máquina, entre outras funções. Após isso, pegou duas pistolas que disparavam todo tipo de projétil, desde balas de choque, a balas de fogo e até de gelo. Por fim, pegou um machado de aço pequeno, que, com o apertar de um botão, se expandia e tornava-se um grande machado de guerra, que possuía um foguete acoplado em seu cabo, que poderia dar a ele uma força maior na pancada. Ela guardou tudo isso em sua mochila, pegou a chave do carro de Miles, e saiu. Antes, ligou a TV, e viu as notícias falando sobre a gangue de terroristas. Supostamente, a polícia os perdeu de vista, e estão em alerta máximo para encontrá-los.

— Como eu pude meter vocês nisso? — Disse Tomoyo, saindo da casa. — Olha, Anne, isso que eu vou fazer agora é muito perigoso, então, se quiser vir atrás de mim, faça por sua conta e risco,

— Já sabe a resposta, né? Eu vou junto com você sim!

— Nós vamos salvar os garotos, e depois vamos atrás da gangue do Akira pra salvar o Kazuma. Tem noção dos perigos, né? Tudo pode acontecer agora.

— Eu sei, eu sei! Mas, antes, será que pode me ajudar com uma coisa?

— Não. — Disse Tomoyo, curta e grossa.

— Não vai nem ouvir o que é?

— Não sei se percebeu, mas tem uns amigos meus bem fudidos, sabia? Não da pra eu te ajudar agora.

— Por favor, só escuta, ok? Eles vão ficar bem, estão escondidos em algum lugar por ai. Por favor?

— Ta, fala logo, vai.

— Vai ser rápido, juro, ainda mais pra você. Bom, minha mãe meio que se envolveu com um criminoso, por a gente estar sem dinheiro, e acabou ficando com uma dívida alta. Ele disse que caso ela não pague logo, vai simplesmente roubar e vender tudo que temos, até mesmo a gente.

— Espera, até mesmo vocês?

— É, ele disse conhecer alguns caras que adorariam ter "mulheres como a gente" com eles, e que pagariam uma fortuna por isso.

— Fala sério. — Tomoyo estava desacreditada. — Essa cidade fica mais suja a cada dia. Ei, espera, foi por isso que você me seguiu esse tempo todo então?

— Não, claro que não! Eu só achei que você poderia nos ajudar. Mas, não quero que ache que eu estou te usando.

— E o que eu posso ganhar com isso?

— Bom, deixa eu ver....

Anne puxou sua carteira, e tinha varias notas altas de dinheiro. Pegou 5 delas, e as entregou para Tomoyo.

— Isso aqui é o bastante pelos seus serviços?

— Uau, você tem uma fortuna ai! De onde tirou tanto dinheiro?

— Eu, uh.....eu.....eu faço bolos! Isso! — Anne parecia nervosa.

— Bolos?

— É, o que tem? — Seu olhar era como o de uma criança que havia sido pega mentindo.

— Não acho que vender bolos daria um lucro desses, sinceramente.

— É, bom.....é que eles são ótimos, sabe? As pessoas adoram! E alguém sempre tá fazendo aniversário, né?

— Sei......

— Uh.......então, né? As pessoas fazem aniversário todo ano, sabia!? Doideira, né? Então sempre tem alguém pedindo...... — Anne já estava quase ficando sem palavras para se justificar. — E-Enfim, você aceita ou não?!

— Huh.......ok, eu ajudo. — Disse Tomoyo que apesar de sua desconfiança, acabou pegando as notas e guardando no bolso. — Quem sou eu pra negar dinheiro, né? Mas, não pense que eu ligo pra vocês. To fazendo isso pela grana. Que, aliás, eu to pouco me fudendo pra como você conseguiu ele. Pode até estar se prostituindo que, sinceramente, não faz diferença pra mim.

— Eu acho que você se daria melhor nesse tipo de trabalho do que eu, sinceramente.- Anne a encarou da cabeça aos pés.

— Eu duvido......enfim, onde esse cara mora?

— Em uma mansão no canto da cidade, guardada por varios homens, em uma das ruas mais movimentadas. Ele se disfarça como um grande empresário, mas na verdade é um líder de uma facção criminosa. Além de um pervertido sujo.

— Como se todos os grandes empresários não fossem. Vá na frente, então. Espero que os garotos aguentem esperar só mais um pouco.