Avalon
16 Capitulo 16
Satsuki subiu até seu escritório, calmamente. Ao chegar lá, se sentou em seu sofá, e observou o sol que nascia. Ouviu a porta se abrir, e Becker entrou na sala, e se sentou junto com ela, do outro lado do móvel.
— Eles fugiram. — Comentou Becker.
— É, eu sei. — Disse Satsuki(Motoko).
— Ainda não ordenei que nossos homens sigam eles. O que devo fazer?
— A festa não pode parar, não é verdade? Mande todos que puder atrás deles, precisamos fechar tudo com chave de ouro.
— Entendido. — Becker apenas mandou uma simples mensagem, ordenando que todos os homens possíveis fossem atrás do grupo. — É uma bela vista, né?
— Eu prefiro muito mais a noite do que o dia. — Comentou Satsuki.
— Sua mãe me disse a mesma coisa uma vez.
— É? Eu não perguntei sobre a minha mãe, então não fale nada, ok?
— Sinto muito, foi besteira minha comentar sobre ela.
— Relaxa. Eu já cansei de brigar essa noite, foi apenas uma advertência.
— Ah, entendo.
Os dois ficaram em silêncio, apenas olhando para a paisagem. Era possível ver toda a região deserta que cercava a cidade. Sua poluição havia acabado com toda a vegetação que antes cercava aquela região, tornando ali um lugar inadequado para qualquer planta crescer. Era possível ver aonde o deserto terminava, e onde o verde começava. Por ali, ficava Midal, uma cidade que vivia em harmônia com a natureza, e não destruía nada ao seu redor. Então, ela se lembrou que Ryuji estava vivo, e que teria que lidar com ele em breve, porém, não por agora.
—
O grupo dirigia pela avenida, sem saber exatamente onde ir. Tomoyo estava sentada no banco do passageiro, enquanto Masumi dirigia, e Anne, Mitsuru, Kai e Miles se espremiam no banco de trás. Miles estava quase desmaiado, mas aos poucos conseguia recuperar a consciência.
— Onde....onde a gente......onde a gente tá agora? — Perguntou Miles, semi-acordado.
— No carro, dirigindo até onde nosso coração mandar. — Respondeu Mitsuru.
— Ah, entendi, entendi......espera, o meu carro? — Ele finalmente despertou.
— Opa....é, a Tommy deveria dirigir, mas ela tava ocupada metendo a porrada na Satsuki, então né, sobrou pra mim. — Respondeu Masumi, um pouco intimidado.
— Ah, merda. Eu não acredita nisso. — Miles parecia decepcionado consigo mesmo.
— Não acredita no que?
— Que isso tudo tá realmente acontecendo. — Ele reclamou. — Seu pai pediu pra que eu te mantivesse fora de confusão, e é só eu sumir por uma noite, que você literalmente fode com tudo!
— Bom, desculpa ai, ok? Mas eu já sou adulta, e não devia mais ficar seguindo tudo que você me fala! Eu fiz o que achei certo, e aceitei as consequências dos meus atos.
— Você colocou todos esses garotos em perigo! Incluindo essa menina aqui, que nem mesmo saber fecha a mão pra dar um soco!
— Ei, vai reclamar de mim agora?! — Reclamou Anne.
— Eu tenho tantas perguntas. Primeiro, por qual motivo vocês estão usando as armas que eu criei? Segundo, por que o tal Kentaro tá dirigindo um protótipo de uma moto minha?
— Espera, a moto é sua?! — Perguntou Kai, surpreso.
— É, pode apostar que é minha. Eu a construi quando a Tomoyo tinha apenas 10 anos, mais ou menos, mas nunca usei ela de fato, sempre pensei que construiria uma melhor. Mas ainda não se compara com a moto que a mãe dela usava, aquela moto era incrível.......Achei que ela tivesse sido destruída quando Big Square literalmente desabou, mas parece que alguém a achou. — Explicou Miles. — Aliás, vocês sabem de algo sobre Big Square, os pais da Tomoyo, e tudo mais?
— Sim, ela fez literalmente uma biografia da vida de todo mundo pra gente. — Disse Kai.
— Ah, ótimo. Além de tudo, você contou a história toda pra estranhos que você conheceu na madrugada. Perfeito, perfeito! — Reclamou Miles, e Tomoyo bufou de raiva. — Ninguém me explicou ainda sobre as armas.
— Eu peguei pra ajudar eles, é simples!
— E deu pro garoto aqui um óculos e um pedaço de metal? Devia ter pego aquele meu taco de beisebol, teria sido mais útil.
— Taco de beisebol? — Perguntou Mitsuru, interessado.
— É, ele pode se endurecer, criar espinhos, voar de volta pra sua mão como um bumerangue caso for lançado, e até planejei implantar uma pequena arma nele, mas isso eu deixei pra depois.
— Ei, isso é interessante! — Mitsuru parecia interessado.
— Ora, ora, sério? Acho que vamos nos dar muito bem, então. — Disse Miles.
Do lado de fora, Kentaro dirigia sua moto, e sentia o vento frio da manhã passar por seu corpo, sendo amenizado pela jaqueta que vestia. Ele ficava pensando sobre como tanta coisa aconteceu em apenas uma noite, e como ele mudou de um simples garoto de uma gangue para um insurgente e procurado do governo, tudo isso por Tomoyo ter salvo ele naquele beco, e por tê-la chamado para ir na sua casa, e tentar propor que ela entrasse na gangue. Notou que Masumi havia aberto a janela do carro, e se aproximou.
— Como anda sua amada garota? — Perguntou Masumi, dando tapinhas na armadura da moto.
— Nunca senti tanta falta de alguma coisa quanto dela, isso eu te garanto. Então, qual o nosso destino agora?
— Não podemos mais ficar em Avalon, é perigoso demais pra nós. Temos que ir embora, o mais rápido possível. Vamos passar rapidamente na minha casa, depois na casa de vocês, juntar nossas coisas, e vazar. — Disse Miles.
— Anne, e quanto a você?
— Já disse, minha mãe vai ficar muito feliz em estar se livrando de mim. Eu vou junto, já cansei de ficar nessa cidade, numa casa em que eu não sou amada. — Ela parecia triste, porém ansiosa.
— Então, é isso ai. — Disse Tomoyo. Antes que ela falasse mais alguma coisa, ouviu o som de varias motos vindo de trás deles.
Ao olhar pelo retrovisor, viu varios soldados da Stigma, todos em motos, com exceção de um que pilotava um carro-forte. Eram mais de 20 que vinham coordenados, um do lado do outro.
— Ei, galera. — Disse Kentaro. — Acho que ainda não acabou.
— Fala sério, esses caras não desistem?! — Xingou Tomoyo.
— Ok, pessoal! Antes da gente poder ir embora, vamos ter que nos livrar deles! — Gritou Kai.
— Eu vou — Tomoyo foi cortada por Kentaro.
— Você vai ficar sentadinha ai.
— Como é?
— Você já teve seus momentos de brilhar, ok? Deixa comigo dessa vez.
— Se você diz. — Ela se acomodou na cadeira, até pensou em abaixá-la um pouco.
Um dos guardas avançou na direção de Kentaro, e tentou derruba-lo. Kentaro puxou seu cano de metal reserva, que ficava guardado dentro da armadura da moto, e acertou a roda do motoqueiro que se aproximava, derrubando a moto e o guarda junto. Puxou sua arma e atirou em duas motos, as explodindo. Desacelerou um pouco, e ficou no meio do grande grupo de motos. Tentavam o acertar com bastões, e Kentaro bloqueava os golpes com seu cano, e contra-atacava. Derrubou mais de 5 homens assim, e notou que estavam todos se aglomerando nele. Ele levantou sua arma novamente, e em uma manobra perigosa, girou sua moto em 360 graus, fazendo um círculo completo, enquanto atirava um laser contínuo. Não contou quantos ele havia derrubado, mas agora só sobravam mais 6 guardas além do grande carro-forte. Ele trocou golpes com um dos guardas, que tentava a todo custo derruba-lo. Conseguiu vencer após acertar um golpe forte em sua testa, que arrancou sangue dele. Então, um desses guardas avançou contra ele, mas foi atingido por um tiro de choque de Masumi, e acabou caindo de sua moto. O outro começou a bater violentamente contra a moto de Kentaro, e ele sentia que estava perdendo o equilíbrio. Em um ato um pouco descuidado e desesperado, ele jogou sua moto em cima do guarda, e isso o fez se afastar. Ele então avançou novamente contra o guarda, jogando mais uma vez o peso de sua moto nele, que enfim o fez perder o controle e capotar. Atirou na roda de uma das motos, e viu mais um guarda capotar no meio da avenida. Masumi atirou uma bala de fogo em um dos guardas, e quase acabou perdendo o controle do carro por isso. Kentaro então pegou seu cano e o lançou com toda a força na cabeça do homem, que caiu. Aquilo teria sido util, se aquele fosse o último, mas não era. Ainda restava aquele no carro-forte.
Ei, Tommy? — Gritou Kentaro. — Uma ajudinha aqui?
— Ué, achei que fosse seu momento de brilhar! — Ela gritou, colocando a cabeça pra fora da janela.
— Olha, por favor? Eu taquei meu cano fora, e o carro é blindado! Não tem o que fazer!
— Ah, que seja. — Disse Tomoyo.
Em um impulso, Tomoyo deu um grande salto da janela do carro, e aterrissou atrás de Kentaro. Ela preferiu não se sentar, então ficou em pé, agachada, se apoiando com uma mão só nos ombros de Kentaro. Ao sinal dele, ela carregou seu poder e se lançou com força na direção do carro-forte, mirando no motorista, mas acabou acertando a parte de trás. Aquilo fez o carro perder o controle, e Kentaro começou a atirar nas rodas, que tinham uma durabilidade menor que o resto. Após o carro estar completamente descontrolado, ela subiu nele, e deu um grande salto no ar. Dali, ela lançou todo o poder que havia carregado para baixo, acertando carro, e o fazendo literalmente voar. Ela aproveitou, e pulou no carro que estava a 5 metros do chão, e o usou de impulso para pular de volta no carro de Miles, no banco do passageiro, de onde tinha saído.
— Teamwork, baby! — Gritou Tomoyo, empolgada. Ao perceber que havia exagerado, ela se acalmou, e virou o rosto. Essa frase trouxe algumas lembranças para Miles.
O grupo, agora livre, dirigiu para seus destinos, afim de sair da cidade, antes que fossem caçados novamente.
—
Satsuki aguardava enquanto Becker falava no telefone. O sol já havia nascido faziam 2 horas, e sua luz estaria a cegando, caso não tivesse ativado a função de vidros escuros em seu escritório.
— Madame? — Disse Becker, desligando o celular.
— Qual a nova? — Perguntou Satsuki.
— Tomoyo e a gangue saíram da cidade. Eles simplesmente enfrentaram toda a segurança que guardava os portões, e fugiram. Devíamos segui-los?
— Não, não. Já foram perseguições demais pra uma noite só. Deixe eles terem seu momento de paz, e vamos ter o nosso.
— Eles com certeza irão tentar encontrar a safira antes de nós. Sabe disso, não sabe?
— Sim, claro que sei. Ai que está a graça, Becker.
— A graça?
— Isso mesmo. Vai me dizer que estava feliz em ficar procurando a safira sem ninguém pra atrapalhar?
— Bom, confesso que estava meio monótono.
— Então! Agora, temos uma motivação a mais! — Ela suspirou. — Ah, isso vai ser divertido.
— Se a senhora diz, sou obrigado a concordar. — Becker deu um pequeno sorriso. — Deixarei que eles sigam seu caminho por enquanto, então.
— Ótimo. Amanhã de manhã, nós sairemos de Avalon também. Apesar de gostar da competição, não podemos deixar que eles fiquem na vantagem pra sempre.
— Certo, farei os preparativos para nossa jornada, então.
Becker saiu da sala, e Satsuki se levantou do sofá. Andou até as janelas, e observou sua cidade. Ela parecia calma, a manifestação havia cessado pelo momento, e suas luzes neon não ficavam tão aparentes durante o dia. Ao invés disso, as fumaças expelidas pelas usinas ficavam ainda mais aparentes. Satsuki encarou o que havia além da cidade, e conseguia ver, bem de longe, um carro e algumas motos andando pelo deserto. Ela sorriu, pois sabia exatamente quem era.
— Me aguarde, Tommy. Nossa pequena dança está só começando.
—
O grupo parou no meio do caminho, para planejar o que fariam em seguida. O porta-malas, apesar de espaçoso, estava quase transbordando de malas e mochilas. Tomoyo observava a cidade, que viveu durante esses 5 anos. De longe, era possível notar que Avalon era como um grande disco brilhante no meio de um imenso deserto, e seus muros davam um aspecto claustrofóbico para a cidade, vistos desse ângulo. Anne também a observava, e podia-se notar uma certa tristeza em seu olhar.
— Cê ta bem? — Perguntou Tomoyo.
— To, eu só nunca fui muito longe da cidade, sabe? Não conheço muito do mundo além de Avalon e Vanelir, que era onde eu vivia até 4 anos atrás. — Respondeu Anne.
— Eu nunca vivi por tanto tempo em um lugar quanto vivi em Avalon. — Disse Kai.
— Quer dizer nós, né? — Respondeu Masumi.
— Nós até nos esquecemos de como era o mundo lá fora. — Disse Mitsuru. — Antes nós só migrávamos de cidade em cidade a cada semana.
— Olha, eu não sei vocês, mas eu to animado com tudo isso! — Disse Kentaro. — Digo, queriam continuar ali até quando? Precisamos conhecer o resto do mundo, oras!
— Isso não é uma viagem turística, rapazes. Estamos em uma missão. — Disse Miles. — Não era bem isso que eu queria, mas é o que temos pra hoje.
— É, eu sei. Qual é a missão, Tommy? — Perguntou Kentaro
— Encontrar a Safira antes da Stigma, e impedir que eles alastrem seu império cada vez mais pelo mundo. — Disse Tomoyo, e as histórias de seu pai vieram em sua mente. — Nunca achei que faria a mesma coisa que meu pai algum dia.
— Era isso que eu tentava evitar, mas parece que é o seu destino. — Disse Miles. — Não queria que chegasse a esse ponto, mas se é assim que as coisas tem que ser, o que posso fazer? Faça o que achar de melhor. Já era hora de viver sua própria vida. Só espero poder te guiar enquanto isso.
— Obrigada, Miles. — Ela respondeu, com um sorriso sincero no rosto. — Bem, prontos pra continuar? Qual nosso destino agora?
— Vamos pra Midal. Tem algumas pessoas que podem nos ajudar lá. Sabe de quem estou falando, né?
— Midal? Eu.....ah, lembrei! Nossa, não vejo eles faz tantos anos.
— É, eu também. Vai ser uma bela reunião.
— Bem, vamos?
Todos subiram em seus veículos, e seguiram viagem, rumo a Midal, a cidade mais próxima, debaixo do fraco sol da manhã.
—
Enquanto o sol nascia, um antigo portal, um dos usados por Yuke Arakawa no passado, se acendeu novamente. Ele sempre esteve aberto, porém, ficava escondido por uma grande pedra. A pessoa que saiu dele literalmente lançou aquela rocha imensa com um chute, e ela se despedaçou ao cair no chão. Dali de dentro, saiu uma mulher, de aproximadamente 21 anos, um pouco mais alta que a maioria, olhos roxo avermelhado, cabelos um pouco longos e volumosos, na altura das costas, com duas grandes mexas que caiam por cima de seus ombros, e uma cicatriz com forma de X na testa. Se vestia com uma blusa preta, calças jeans brancas, e uma jaqueta da mesma cor das calças.
— Já sabe o que fazer. — Disse uma mulher, de dentro do portal.
— É, eu sei, encontrar a tal Tomoyo. Vai ser fácil de achá-la, né?
— Sim, com certeza. Vai ser como olhar para um espelho.
— Deixa comigo então. Agora vá fazer suas coisas, e não me enche mais o saco.
A garota então saiu andando, e a mulher no portal foi embora. Ela esboçou um pequeno sorriso, ao ver de longe a cidade de Avalon.
— Esse mundo parece interessante.
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Bom, aqui se marca o fim do primeiro ato dessa história. Agradeço a você que chegou até aqui, e espero que tenha se entretido. Juntamente com essa, foi lançada a primeira parte de Big Square, que conta eventos que ocorreram antes de Avalon, servindo como um prelúdio. Recomendo lê-la para um maior entendimento dos acontecimentos e sobre o universo em que essas histórias se passam. Enfim, o proximo ato será lançada em breve, e espero que até lá ainda tenha paciência pra acompanhar a história da nossa querida Tomoyo. E caso já tenha sido lançada, por que está lendo isso aqui? Vai ler o resto logo, ora!
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