Notas iniciais
Olá, fiéis leitores! Como estão? Aqui jaz outro capítulo de "Avalanche". Espero que gostem :)

Eu me sentia menos insegura conforme os dias passavam, meus olhos esverdeados já quase se acostumavam com o sol do verão de Illéa, embora ainda doessem quando tentava ir aos jardins. Em Londres, o cenário cinza e chuvoso era quase uma certeza diária para os ingleses, eu nunca havia sequer notado essa sensibilidade em minhas íris antes. Os dois reinos eram completamente contrastantes, e até meu corpo reagia de forma diferente para isso.

A rainha América havia me pedido desculpas pelo comportamento de Mason logo no dia seguinte da reunião com o rei, deixando claro que não iria acontecer de novo. Embora todos estivessem se preparando para a Seleção do príncipe herdeiro, eu podia notar claramente o quanto não haviam se esquecido de mim. Nas refeições, sempre um prato inglês era preparado como cortesia a minha nação, além de que estava claro a liberdade que eu possuía de ir e vir pelos milhares de cômodos do castelo, os quais só conhecia alguns.

No entanto, Alexander de fato havia estado ausente, não sobrando muito tempo para conversarmos sobre os detalhes do que estávamos prestes a fazer. Eu não conseguia entender o raciocínio do príncipe, mas tinha certeza de que a confiança entre nós dois não passava de um laço frágil e quase invisível. Não éramos propriamente aliados ainda, e quanto mais tempo ele passava distante, mais eu me preocupava de que nosso pacto iria por água baixo. O máximo que podia afirmar com certeza era que nos considerávamos “aceitáveis” o suficiente para formar uma aliança temporária.

As tardes eram calmas em Illéa, o que favorecia minha enxurrada de pensamentos. Os pássaros cantavam como se não existisse uma guerra se formando nos horizontes do sul. Angeles, dentro dos muros, parecia bela e confortável. Imaginar que aquele lugar pudesse ser invadido por rebeldes me trazia calafrios de traumas passados, talvez a situação no país não estivesse tão ruim a esse ponto, mas eu não podia deixar de fantasiar os meus piores medos e temer pela realidade.

Em meu quinto dia enfurnada nos aposentos reais, resolvi que faria algo diferente naquela tarde, estava cansada de cogitar pensamentos ruins e organizar documentos do exército inglês, o quais podiam conter estratégias militares que pudessem ser pertinentes para mim e Alexander no futuro. Minha mente só queria descansar um pouco, o que parecia justo o suficiente depois de tantas situações inusitadas em um curto espaço de tempo.

Usando um dos conjuntos de verão que Eli havia costurado a meu pedido, abri as portas de meu quarto para encarar os soldados ingleses que faziam a minha guarda.

— Boa tarde, princesa – Dallas disse, o semblante sério como sempre.

Ele era ótimo no que fazia, e havia se tornado militar quando eu ainda era uma criança esquisita correndo por Buckingham atrás de mamãe e seu guarda-costas. Amava o fato de ter alguns pontos de apoio como aquele mesmo em um reino que não fosse a Nova Inglaterra.

— Estou pensando em fazer algo diferente hoje – mencionei, tentando retribuir o mesmo olhar gentil para o soldado. – Teria alguma sugestão?

O homem pareceu pensar muito por alguns segundos, ressaltando algumas marcas de expressão em sua testa.

— Há um espaço de arquearia perto dos estábulos. Ainda gosta de arco?

Sorri no mesmo instante. Quando eu tinha em torno de nove anos, amava atirar com arco, era um costume inglês antigo. Mamãe achava fascinante, mesmo que eu usasse braçadeiras e algumas adaptações na arma, ela ainda me dava muitos beijos quando acertava o alvo. Seu guarda-costas também me observava, Thomas me via de longe, junto com Cameron, que preferia ler alguns livros desinteressantes.

Era uma ótima memória, mesmo que doesse quando focava demais naquilo.

— Sim, mas não pratico desde aqueles dias – tentei não me render a tristeza, não queria estragar mais uma tarde com pensamentos demais. – Mostre o caminho, por favor.

Dallas rapidamente trocou de posto com outro soldado inglês, e começou a me guiar pelo castelo. Era impressionante a forma como ele havia gravado tão bem o mapa daquele labirinto, mas aos poucos fui me orientando melhor quando chegamos na ala que dava para os jardins.

O sol estava brilhando como nunca. E quando estávamos para sair na parte exterior da propriedade real, meus olhos doeram bastante com o esforço contra a luz. Cobri meu rosto com os braços no mesmo momento.

— Dallas, espere! – pedi, retornando alguns passos para a sombra e a segurança de dentro do castelo.

Eu olhava para o chão com a visão embaçada, foram vários segundos até que tudo se normalizasse. No entanto, quando recuperei minhas pupilas, notei que o soldado a minha frente parecia assustado com alguma coisa, os lábios abertos estavam em um formato ovalado, e os olhos me encaravam com certo pavor. Fiquei um pouco tensa com aquilo, constatando que a pele dele estava um pouco pálida demais.

— O que foi? – minha fala era clara, eu ansiava por uma resposta.

Ao escutar minha voz, a expressão de Dallas se desmanchava. Mesmo assim, ele ainda permanecia aéreo, como se recebesse uma notícia fatídica da morte de alguém próximo.

— Não precisa se preocupar – tentei acalmá-lo, mesmo não sabendo ao certo o motivo daquela situação. – Ainda não me acostumei com a luminosidade de Illéa. Na Nova Inglaterra você sabe o quanto o clima é diferente, ainda mais o céu.

— Claro. – Dallas tentava inutilmente se desvencilhar de si mesmo, e eu ainda permanecia confusa ao encará-lo. – Perdão, princesa. Achei que pudesse ser algo mais sério.

Talvez fizesse parte de seu trabalho preocupar-se comigo de forma exagerada, afinal, eu era a princesa da nação da qual ele amava e seria Lorde em breve. O máximo que pude fazer foi sorrir, garantindo não haver nada de errado entre nós dois e os meus olhos. Dallas devolveu a expressão, mesmo estando ainda nervoso.

— Se quiser, posso ir até suas criadas pedir um acessório que faça sombra em seu rosto. – Por um segundo, achei que ele estava envergonhado, dando a sugestão apenas para se safar daquilo.

— Ótima ideia. Pegue um daqueles bonés militares que alguns soldados usam, gosto da cor deles.

Acabei concordando, talvez fosse melhor dar essa dádiva ao soldado.

Dallas logo me deixou a sós diante dos portões do jardim. Alguns guardas de Illéa me olhavam de forma curiosa, talvez não fosse todo dia que vissem uma princesa trajada em calças de montaria com uma blusa simples de verão. Por mais que eu cultuasse as aparências, no Palácio de Buckingham sempre existia a possibilidade de ser eu mesma, os soldados ingleses jamais contariam algo ao meu pai, meus irmãos me amavam e os Lordes e conselheiros ficavam em um castelo de verão com uma distância razoável de Londres.

Em Illéa, me sentia livre em outros sentidos. Andei por aquele largo saguão enquanto esperava Dallas, tentando fugir um pouco dos olhares atenciosos. Havia uma grande pintura em uma das paredes que tinha chamado minha atenção, inclinada a saber o que era, aproximei meu rosto para ler as palavras escritas em baixo do quadro.

“Rei Clarkson e rainha Amberly”.

Eram os antigos soberanos de Illéa, os pais de rei Maxon. O homem era alto e grande, uma presença um pouco medonha, mas que era acalmada pela expressão genuína da rainha. Só de olhar, eu conseguia entender as naturezas opostas de cada um. O cabelo loiro do rei havia sido uma característica genética passada até para os atuais príncipes, e sua expressão severa lembrava um pouco Mason ao ser arrogante. No entanto, Amberly se parecia com Alexander de certa forma, a esperança e a gentileza que emanava eram tão sinceras quanto o príncipe nos momentos em que não agia como uma simples criança desinteressada do mundo.

Eu sorri ao pensar naquilo, analisando ainda mais a família Schreave. Eles pareciam ser uma mistura de todas as personalidades possíveis, o que talvez tivesse gerado um atual futuro soberano sem um terço dos culhões necessários para o cargo.

— Dizem que ele foi um rei duvidoso – a voz de Alexander me atravessou em cheio, e logo me virei para encará-lo. – O que está fazendo aqui?

Não nos víamos direito há pouco mais de três dias, apenas trocávamos saudações polidas durante o almoço e o café da manhã. Mesmo assim, ele parecia completamente diferente do garoto que eu havia conhecido na reunião com o rei. Os cabelos dourados pareciam mais desgrenhados do que o normal e algumas poucas olheiras se formavam em seu rosto bronzeado.

Meu coração acelerou.

— Esperando meu soldado – foi tudo o que consegui responder, ainda analisando aquela figura tão dessoante a minha frente.

Todos os pensamentos do antigo rei e da rainha pareciam ter se tornado menos importantes com nosso encontro repentino. Alexander segurava alguns papéis e envelopes, as mangas de sua camisa branca estavam dobradas até os cotovelos e alguns botões do pescoço estavam por abotoar. Ele parecia cansado demais para se importar com todas aquelas coisas.

— Entendo – disse, sacudindo a cabeça por alguns instantes para se manter focado. – Desculpe pelos últimos dias.

Por mais que não admitisse, eu fiquei alegre com aquilo. Nosso pacto parecia firme, e ele dava a entender que realmente se preocupava comigo. Conseguíamos nos tratar mais livremente caso pensássemos que nosso casamento era apenas algo esperando para ser desfeito, uma mera jogada de xadrez que logo mudaria.

— Não tem problema – fitei os papéis em sua mão. – Imagino que esteja muito ocupado, príncipe.

Ele riu, descontraindo o resto da tensão que havia entre nós dois, o que só fez meu coração acelerar ainda mais.

— Pode me chamar de Alexander – pediu, logo tratou de organizar um pouco a pilha de folhas que carregava. – Particularmente, não gosto dos termos da realeza.

Pela primeira vez em muito tempo, soltei um riso sarcástico ao escutar aquelas palavras. Era cômico vê-lo daquela forma, ainda mais por ser um príncipe que tramava negociações pelas costas de seu pai. Alexander parecia relaxado, embora eu notasse que reprimia uma grande quantidade de sono atrasado. Ele não tinha um padrão de comportamento no qual eu pudesse me basear, mas parecia cada vez mais agradável ao meu conceito.

— Se for assim, confio que Avery seja mais bonito quando não está acompanhado de “princesa” – argumentei.

Alexander sorriu de canto, o que o fazia parecer bem mais velho com aquele rosto. Depois de ter arrumado os papéis e os envelopes, ajeitou sua postura diante de mim. Ele parecia tão resiliente que quase o invejei por sua força de vontade.

— Amanhã à tarde poderíamos andar a cavalo se for de seu gosto, Avery. – Seus lábios tremiam, a forma como meu nome soava em sua voz rouca me deixava atônita.

Respirei fundo. Avery. O nome que minha mãe havia me dado, cujo significado eu mal sabia, mas carregava com orgulho, mesmo sendo um tanto masculino.

— Gosto de cavalos, Alexander. Será um prazer. – seus olhos caramelos sorriam por si só ao escutar minha voz, porém sua boca permanecia inexpressiva.

Ficamos ali por alguns segundos um pouco constrangedores, até eu notar a figura proeminente de Dallas ao longe caminhando pelo corredor, o boné estava em suas mãos assim como havia prometido. Alexander percebeu que era o meu soldado e fez um cumprimento de cabeça meio desajeitado para mim. Ele estava quase se retirando, quando parou bruscamente seus movimentos.

— Eu estava quase esquecendo! – suas mãos retiraram um envelope branco do meio da pilha de papéis. – Isso chegou para você da Nova Inglaterra essa manhã.

Peguei logo a carta, ansiosa por saber do que se tratava, Alexander continuou seu caminho a fim de me dar privacidade, mal tive tempo de agradecer. No entanto, logo que li o nome do remetente, meu coração que antes estava acelerado parou de bater por um instante. Não. Não podia ser.

“Thomas Schmidt”

Será que meus olhos liam certo?

Notas finais
A relação de Avery com Alexander continua sendo aprofundada. E Thomas Schmidt parece ter dado as caras depois de alguns anos sem falar com a nossa princesa. O que será que o antigo guarda-costas está aprontando? Não esqueçam de comentar!