Avalanche

27 Retorno


Notas iniciais
Boa leitura!

Quando as portas se abriram, me pus de pé para receber o monarca e o príncipe-herdeiro. Ao contrário do que eu esperava, rei Maxon entrou visivelmente preocupado em meus aposentos, fazendo, no mesmo instante, um movimento com a mão para que eu nem me desse ao trabalho de lhe prestar uma reverência.

Eu havia passado por um ataque rebelde e recebido a notícia da morte de meu pai. Não que a última coisa me afetasse, mas sabia que o rei estava contando com meus sentimentos de luto.

Os cabelos loiros grisalhos pareciam um tanto com os de Alexander, mas sua expressão massiva de receio e exaustão denunciavam a idade e o cargo que tinha. Ao seu lado, Mason parecia abatido pelo ataque rebelde, mesmo que sem ferimentos físicos. Comprimi um sorriso ao pensar que o príncipe-herdeiro finalmente saía de sua bolha mimada.

— Princesa Avery, preciso dizer que é um grande alívio vê-la sã e segura. Mas é claro que não vim aqui só por esse motivo. – Rei Maxon tomou a dianteira, esticando-me sua mão para que eu fizesse o mesmo. Um aperto de mão entre iguais. – Temo que já saiba os pormenores do ataque rebelde. É uma lástima que eu não tenha conseguido evitar o roubo das armas inglesas...

O rei soltou minha mão enquanto suspirava tristemente na direção de Alexander. Maxon parecia ser daquelas pessoas que se culpava até o último instante, sempre achando que poderia ter feito mais. Era nobre e sofria por isso.

— Não foi sua culpa, Majestade. Essas coisas acontecem na guerra. – falei com o máximo de condescendência, vendo que as palavras aliviavam o estado de nervos do rei.

Mason se aproximou por um instante, os olhos vacilavam quando tentavam ir de encontro aos meus. O curativo em meu ombro sequer estava visível, porém, tinha certeza que todos sabiam com um pouco de drama o quão perigoso havia sido o corte. Alguns centímetros a mais e eu sangraria pelo pescoço até a morte.

A culpa nos olhos do futuro rei de Illéa era notável.

— Sinto muito por ter sido tão... – Mason desviou mais uma vez o olhar. – Horrível com você, princesa. Aliás, meus pêsames por sua perda. Agradeço imensamente que tenha mandado seus soldados para me resgatarem.

Suspirei ao pensar em Desmond. Não conseguia sentir nada em relação a sua morte. No entanto, precisava admitir que Mason nunca havia sido tão educado de uma vez só. O contato com Marian Kodak e o ataque rebelde pareciam tê-lo mudado por completo.

— Você ainda pode ser um bom rei. – falei, quase não acreditando no que saía pela minha boca. – Apenas escolha a Selecionada certa e... Seja mais amigável.

Escutei a risada de rei Maxon pela primeira vez naquele instante. Ele bateu carinhosamente nas costas de seu primogênito, que estava cabisbaixo e com vergonha.

— São ótimos conselhos! – elogiou, sua expressão divertida apaziguava a tensão do ambiente. – Princesa, creio que amanhã a senhorita já possa embarcar para a Nova Inglaterra. Mais uma vez, sentimos muito pela sua perda. Digo em nome de Illéa que não queremos mais causar nenhum problema à senhorita. Lhe devemos muito. Sem contar que Príncipe Cameron está ansioso para vê-la!

Respirei fundo, meus olhos embargaram por um momento.

— Majestade, existe alguma notícia de meu outro irmão?

Edwin. Havia semanas que não nos falávamos. Eu sabia que ele não estava bem, não depois da morte de nosso odioso pai e tudo o que havia acontecido comigo.

— Recordo-me que minha filha nos disse há algumas semanas que príncipe Edwin se preparava para iniciar os estudos em uma Universidade. – O rei pareceu pensar por um instante. – Existe alguma outra coisa que eu possa fazer pela senhorita?

Respirei fundo, meu coração acelerava só de pensar em meu irmãozinho. Olhei para Alexander de relance logo em seguida, sabia que ele entenderia o que eu queria dizer.

— Pai... – a voz rouca do príncipe parecia perdida, captando a atenção de Mason e do rei. – Acha que vai mesmo precisar de mim para guiar as tropas russas?

O monarca coçou a barba, olhando de mim para o seu filho como se entendesse o pacto mútuo que tínhamos. No entanto, ele permaneceu em silêncio, com um semblante ilegível demais para extrair qualquer coisa.

— Majestade, – Minha voz saiu fraca, queria forçar uma resposta. – Acho que seria mais confortável para mim se príncipe Alexander me acompanhasse na Nova Inglaterra. Tenho certeza que ele também gostaria de ver a princesa Kaya.

Achei que minha pressão fosse cair quando o rei olhou intrigado para nós dois. Mason achava que havíamos dormido juntos, o que agora era mais do que verdade, e ele mal conseguia esconder a surpresa daquelas palavras. Merda. As coisas não podiam ser simplesmente entendidas como “sem compromisso”?

— Você acha que isso é uma boa ideia? – o rei deu um passo na direção de Alexander, parecia de certa forma muito receoso em dar sua permissão.

O olhar paternal atingiu o príncipe em cheio, que pareceu sem jeito por alguns instantes como se fosse uma criança.

— É mais do que justo. – Ele se defendeu gesticulando. – Veja bem, pai. Eu obriguei a princesa a vir para cá. Agora eu preciso retribuir o favor e ir para o país dela, não acha?

O rei suspirou enquanto ainda encarava o filho. Mason parecia embasbacado pelo raciocínio do irmão. E, de certa forma, eu mesma queria rir da situação. Não tínhamos mais um casamento em jogo, pelo menos ninguém havia citado aquela palavra.

— Você é mais imprevisível que sua mãe, Alexander. – disse o monarca, lançando um olhar gentil para mim. – No entanto, não posso negar um pedido tão simples da princesa. Será uma honra para o meu filho te acompanhar, mesmo que... o vínculo entre vocês tenha sido desfeito. Espero que ele não cause problemas!

Agradeci mentalmente a delicadeza de rei Maxon ao citar aquele maldito casamento arranjado. Como uma última advertência, encarou Alexander mais uma vez para ter certeza de que o filho havia entendido o recado.

Em um cumprimento de cabeça, Mason se despediu de mim, assim como o rei. Ambos caminhando pela porta para nos deixarem mais uma vez a sós.

Minha mente comemorava a pequena vitória no meio de tantos problemas. Ao meu lado, Alexander sentava na cama aliviado.

— Se ele soubesse o quanto você fez por Illéa... – comentei vagamente.

— É melhor assim. As ações tem mais importância quando feitas em segredo. – Respondeu ao dar de ombros. – Acho que vou arrumar algumas coisas para ir com você amanhã.

Sorri ao pensar na forma estranha como ele lidava com as situações, sempre se escondendo, sempre vestindo uma máscara.

— Vou procurar a Marian Kodak. – falei sem pensar muito, queria apenas me distrair e ela sempre conseguia ajudar.

— Tome cuidado com o ombro.

Assenti com a cabeça. Alexander se aproximou de mim e tocou em minha mão, talvez ainda preocupado com tudo o que havia acontecido. Porém, antes que eu conseguisse entender a sucessão de fatos, ele se levantou da cama e foi em direção a porta.

Trocamos um derradeiro olhar caloroso. Por um segundo, duvidei do que meu coração sentia, mas me resignei a continuar impassível.

☆

Eu andava pelos corredores depois de um banho relaxante e uma breve conversa com o soldado Dallas, o qual me assegurava que tudo já estava pronto para a minha volta a Nova Inglaterra. Era estranho deixar Illéa, por mais que o clima não me agradasse, as pessoas eram calorosas de uma forma diferente, além das belas paisagens de Angeles.

Quando eu já estava quase alcançando o último saguão antes do Salão das Mulheres, deparei-me com uma figura inusitada no corredor. August Whitaker arregalou os olhos ao me ver, e em um movimento um tanto quanto sutil, colocou as mãos que seguravam alguns papéis para trás. Logo ao seu encalço, estava a jovem Maia, sua filha peculiar. A garota ajeitou os óculos redondos e olhou diretamente em meu ombro, nem pensou em esconder que sabia sobre o machucado.

Apesar de tudo isso, não pude deixar de pensar em Thomas. Aquela era minha chance de tirar minhas suspeitas a limpo.

— Alteza. – disse August, exprimindo um sorriso, mas sem nenhuma reverência. – Meus pêsames pela sua perda. Tenho certeza que seu país está em um luto terrível.

Engoli a raiva, precisava ser ilegível em minhas emoções.

— É muito sensível da sua parte, senhor. – Coloquei a mão ao peito, bem próxima ao colar da família Schmidt.

Maia semicerrou os olhos pensativa. E por um curto instante, vi que August tensionou os músculos ao focar em meus dedos.

Aquilo já era quase o suficiente para me convencer.

— Soube que a senhorita foi baleada também. – Ele se apressou em dizer. – Deve ter sido tanta coisa em apenas um dia... Estimo que volte em segurança a seu país.

Sim. É claro que você quer isso. Mais um fantoche de Thomas.

Permaneci fingindo a expressão de uma jovem princesa em luto. Enquanto isso, eu via August puxar delicadamente o braço de Maia, preparando-se para seguir seu caminho. Mesmo com um rápido movimento, pude enxergar o papel amarelado dos envelopes em sua mão. Cartas.

Aquilo sim era o suficiente para me convencer.

— Se nos dá licença, Alteza... – August sorriu forçosamente.

— Ah, é claro que sim. Foram palavras tão gentis de sua parte, senhor Whitaker. – Interrompi, brincando com o pingente de leão em meu peito da forma mais irônica que consegui. – Mandarei lembranças suas ao nosso amigo comum. Tenho certeza que Thomas Schmidt vai adorar saber do senhor!

Sorri animada. Por outro lado, eu via a expressão nervosa de August confirmando todas as minhas suposições.

— Schmidt? – Maia murmurou, pensativa enquanto encarava seu pai. – Já sei! É a família inglesa, não é? A do leão!

August respirou fundo com a exclamação da garota, ele parecia ainda sob controle, por mais que a tensão o tomasse. Suas rugas nos olhos lhe deram mais idade do que tinha naquele momento, tamanha era a responsabilidade do cargo que tomava.

— Não falem isso alto. Nenhuma de vocês. – pediu em voz baixa, lançando um olhar de advertência para a filha e depois outro para mim. – Se alguém descobrir de minha ligação com Lorde Schmidt, Maxon pode se sentir ameaçado e isso causaria ainda mais instabilidade na coroa.

— Como?

Rei Maxon? Ameaçado? Instabilidade na coroa?

Maia arregalou os olhos, parecia ter entendido algo além da minha compreensão. Encarei August ansiosa por respostas, um pouco confusa com tudo.

Ele suspirou.

— Venha comigo. – O homem bufou, talvez tomando uma decisão mais difícil do que eu pudesse imaginar.

Eu o segui para uma saleta na direção oposta do Salão das Mulheres, através de um dos corredores que eu talvez nunca tivesse ido. A cada passo eu formulava uma nova pergunta. Não havia muitos guardas pertos e nem criados passavam por ali. Era perfeito para conversarmos com calma.

August sentou-se em uma mesinha de vidro um pouco escondida pelas pilastras do palácio. Eu e Maia logo fizemos o mesmo.

— De onde conhece Thomas? – Semicerrei os olhos, terminando de me acomodar na cadeira.

— Oh! A senhorita é tão ameaçadora quanto ele... – August sorriu minimamente de canto, um ato mais nervoso do que descontraído.

Meu coração palpitou.

— Por acaso, Alexander sabe disso tudo? – continuei as perguntas, mal me importando se tinha ou não uma resposta para a primeira.

— Um pouco. Sim. – Maia disse, a mão ao queixo como se fosse uma intelectual famosa com seus óculos redondos. – Ele sabe que somos Illéa e...

— Maia! – August bufou, irritado e colocando as mãos ao rosto.

Os papéis estavam bem a minha frente em cima da mesa, o homem os havia negligenciado por um segundo e os deixado ali. Com meu braço bom, puxei uma das folhas o mais rápido que consegui.

Como eu previa, era uma carta. E a caligrafia me parecia tão familiar que meus olhos a leram rapidamente.

August Illéa, meu nobre amigo,

Se estiver lendo isso antes das ligações que estou tentando te fazer, saiba que quero Avery imediatamente de volta para casa! Ela não vai mais participar da guerra de seu país. Foi um erro eu ter feito Cameron sugerir a merda desse casamento com seu afilhado, espero que o garoto seja tão inteligente quanto você dita e que tenha aprendido algo sobre estratégia militar com a princesa.

Ela já não pode mais ajudar em Illéa. Seria arriscar demais, espero que entenda.

Mande notícias do estado dela. Qualquer coisa. Escreva o mais breve que der.

Obrigado por estar ajudando tanto.

T.S.”

Engoli toda a saliva de uma vez, estupefata e sentindo minha cabeça rodar. Estava incerta da preocupação nas palavras de Thomas. Incerta se estava mesmo captando a verdade sobre a personalidade dele, que mais parecia altruísta do que realmente manipuladora. Poucas palavras e muitos significados. Eu odiava ter que lidar com o mistério de um Schmidt. Não era nenhuma surpresa que ele havia sugerido meu casamento. Mesmo assim, havia outra coisa que me deixava ainda mais apreensiva.

— August Illéa? – pisquei várias vezes, certa de que estava mesmo enxergando aquele nome.

Larguei o papel sobre a mesma, vendo Maia confirmar com a cabeça enquanto o homem de meia idade estava apenas cabisbaixo, tomado pela incerteza.

— Precisa jurar não contar isso a ninguém. – pediu, erguendo os olhos castanhos por um segundo em minha direção. Apesar de todo aquele caos, vi um sorriso meio autêntico sair dos lábios de August. – Sou bisneto de Gregory Illéa, o tirano que fundou esse país. Meu avô, Spencer Illéa, fugiu antes de assumir o próprio trono e montou um acampamento ao Norte. Eu vivi lá por muito tempo até fazer contato com Maxon para acabarmos com os antigos rebeldes sulistas. Nos tornamos grandes amigos, e então adotei o sobrenome de minha esposa para ser o conselheiro do rei.

Meus lábios se abriram sem que eu quisesse. Thomas não tinha só um bom amigo, como também um contato valioso. O herdeiro legítimo da coroa de Illéa. A dinastia Schreave era tão falsa quanto a inteligência de Mason.

— É quase inacreditável... – sussurrei ofegante, colocando uma das mãos à boca. Segredos e mais segredos rondavam a minha vida. – E como conheceu Thomas?

Maia ficou tão apreensiva quanto eu, mas August apenas suspirou profundamente mais uma vez.

— Ele já ajudou Illéa uma vez. – disse o homem, relutante em suas palavras e convicto de que não tinha uma saída. – Vinte anos atrás, um grande ataque rebelde dos sulistas aconteceu. Os antigos monarcas morreram, e Maxon quase não sobreviveu. Por sorte, como já prevíamos algo assim, a rainha italiana, amiga de América, repassou dinheiro para mim e meus compatriotas do Norte comprarem armas...

— Thomas vendeu as armas para você! – completei a frase sentindo uma epifania me tomar. Meu ombro doeu quando respirei fundo, mas nem cheguei a sentir direito.

Aquilo era surreal demais para ser verdade. Mesmo assim, sabia que August não poderia estar mentindo.

— Não, princesa. – Ele sorriu de canto, como se lembrasse de uma memória antiga. Um brilho nostálgico irrompeu em seus olhos. – Não foi Thomas quem vendeu as armas para mim. Foi sua mãe.

Minha pressão caiu.

— O que? – perguntei sem fôlego.

— Rainha Miranda atendeu meu pedido em segredo. Tudo o que Thomas fez foi a pedido dela. Foi assim que nos tornamos amigos.

Senti o passado me atormentar mais uma vez. A lembrança de minha mãe sussurrando algo no ouvido do guarda-costas em seu leito de morte, as últimas palavras que eu nunca havia descoberto quais eram...

Uma lágrima transbordou de meus olhos. Parecia que Thomas e minha mãe guardavam mais confidências do que eu pensava.

Notas finais
Eis aqui um capítulo de mais revelações. No canon de A Seleção, esse ataque rebelde mencionado no fim do capítulo é um dos eventos mais importantes do último livre da primeira trilogia, a que conta a história de América e Maxon. Para alinhar os assuntos da Nova Inglaterra e de Illéa, e também para que a fanfic faça sentido (rsrsrs), eis o plot twist criativo que inventei: a rainha Miranda quem vendeu as armas para Illéa se defender naquela época! Qualquer dúvida, falem comigo nos comentários ou mandem mensagem ♥ Obrigada pela leitura!