Avalanche
36 Preparativos
Alguém bateu na porta de meu quarto quando era uma da tarde, nem o despertador havia me acordado naquela manhã, apenas as batidas insistentes de alguém que parecia querer muito me ver. Eu acordei sem saber onde estava, com o telefone na minha orelha e com bastante baba no travesseiro.
Relembrei os eventos da madrugada que se passou, cada informação nova que eu tinha sobre minha mãe. Meu deus. Eu deveria ter estado muito bêbada para ligar para Thomas Schmidt.
— Alteza, é o príncipe Alexander. – Eli disse as exatas palavras que eu não queria escutar.
Merda. Que merda gigante. Raciocinei rápido, o que me custou uma pontada na cabeça.
— Diga para voltar em meia-hora. Garanta a ele que eu estou bem e que apenas dormi demais.
Saí da cama em um sobressalto, indo de frente ao espelho perto do guarda-roupas enquanto a criada assimilava minhas ordens. Além de vermelhos, meus olhos estavam um pouco inchados e minha cara amassada.
Eu estava simplesmente horrível à medida que analisava mais meu rosto.
— Não, por favor... Olhe, me deixe vê-la... Talvez ela precise de ajuda... – Escutei a voz sobressaltada de Alexander do outro lado da porta.
Aquilo partia meu coração. E em um misto de adrenalina, peguei o traje mais fácil que me apareceu, trocando-me com toda a pressa do mundo, enquanto fazia um coque no cabelo e caçava meus óculos escuros.
Fui até a porta sem pensar muito. Pelo menos, estava apresentável, e Alexander não veria meus olhos.
— Alteza, peço de novo que cumpra as ordens da princesa. – disse a voz de um dos soldados, o qual não reconheci. Aquele não era o turno de Dallas.
Abri a porta no exato momento em que uma guerra estava prestes a acontecer. Eli encolhia-se em um canto, os dois soldados ingleses bufavam e, logo a minha frente, Alexander parecia completamente ansioso e prestes a perder a cabeça.
Seus olhos se arregalaram ao me ver, e sua boca se abriu em surpresa quase como a de uma criança na noite de Natal. Mil emoções tomaram nossos rostos. Ele parecia aliviado, mas eu estava receosa.
— Não posso dormir até tarde? – indaguei, dando um pequeno sorriso para descontrair a situação. Mesmo assim, o medo de ele perceber a vermelhidão em meus olhos era gigante.
Alexander ficou sem jeito, ainda sem fala e não querendo encarar os soldados impacientes ao meu lado.
— Bom... Acho que fiquei ansioso. Bebi muito café e... – disse, sorrindo de canto. – Desculpa?
Contraí os lábios para não rir. Em poucos segundos ao lado dele, eu já me sentia com o humor um pouquinho melhor.
— Vem. Vamos sair daqui.
Agarrei seu braço, puxando-o para longe daquela confusão toda que ele mesmo havia arrumado. Pude ver Eli me agradecer com o olhar assim que passei por ela. Talvez o gênio do príncipe de Illéa fosse extremamente difícil de lidar. Afinal de contas, Alexander era tão teimoso quanto eu.
Andamos pelos corredores por alguns minutos. Não tinha um destino em mente, apenas tentava pensar em algo rápido o suficiente para ele não desconfiar.
No entanto, meu plano foi por água abaixo quando descemos as escadas em direção ao salão principal. Mason estava ali. E assim que nos viu, acenou para nós dois.
— Ei, vocês dois! – Ele disse, já caminhando confiante ao nosso encontro. – Podem falar comigo por um instante? Principalmente a princesa. Eu preciso muito de um favor...
Revirei os olhos. Aquilo não podia ser bom.
Alexander me olhou compreensivo, entendendo minha falta de gosto pelo seu irmão. Por outro lado, Mason parecia incrivelmente bem. O príncipe-herdeiro sorria como se estivesse na mais plena paz, positivo e sem a mesma aura arrogante de antes.
— Como vocês estão? – perguntou quando já estava de frente para nós, me encarando. – Hoje não é um dia ensolarado, princesa. Acho que os óculos não serão úteis.
De repente, os dois me olharam intrigados, em especial Alexander.
Merda. Mason definitivamente conseguia estragar tudo, mesmo quando estava feliz.
— Meus olhos doem na luz. São sensíveis... – Pensei em algo que pudesse fazer sentido. Era fato para Alexander que eu odiava flashes. – Illéa é um país muito... claro. Não importa se está sol ou não.
Mason pareceu pensar por um breve momento.
— Ah, entendi. – Colocou a mão ao queixo. – Uma das Selecionadas queria ser médica. Teve um encontro em que ela só falou de doenças genéticas, e foi extremamente chato. Mas me recordo de algumas coisas. Se não me engano, sensibilidade a luz era algo assim e não tinha cura...
— Compensa ir a ala hospitalar, Avery. Podemos ir agora mesmo. – Alexander completou, mais preocupado e ansioso ainda. Quantas xícaras de café ele havia bebido?
Aquilo só podia ser um blefe. Mason não era uma fonte fidedigna, ainda mais as falas de uma Selecionada.
— Não. Agora não, Alex. Preciso falar com vocês! Deixe o médico para depois...
Quase dei uma risada. Aquele sim era o Mason.
— Diga logo o que você quer, irmãozinho. – Alexander deu de ombros.
O príncipe-herdeiro me olhou de uma forma estranha. Talvez esperançoso.
— Tive uma ideia muito interessante. E como eu e a princesa somos amigos agora que ela salvou a minha vida... – Mason deu um sorrisinho carregado de medo e vergonha, mas que ainda se mantinha em pé em nome de seu ego. Ele realmente queria que eu gostasse dele agindo daquela forma?— Acho que seria uma ótima ideia se as famílias das Selecionadas viessem para a festa de aniversário da princesa. Eu juro que vão ser poucas pessoas. Só há cinco Selecionadas.
— O que? Você está maluco? É a festa de aniversário dela. Não a sua! – Alexander rugiu assim que o irmão terminou de falar.
Eu soltei uma pequena risadinha. Algo diabólico se formulava em minha mente.
— Tudo bem, Mason. Mas quero uma coisa em troca...
Ambos me olharam incrédulos. E pude ver a semelhança entre os dois, os traços eram iguaizinhos aos do rei.
— Faço o que você quiser!
SIM.
— Quero que fique bêbado com o Igor. – falei, me controlando ao máximo para não rir incontrolavelmente da expressão de Mason.
Alexander fez o mesmo que eu, escondendo o grande sorriso que com certeza não caberia em seus lábios.
— Peça outra coisa. Isso foi baixo demais. – Defendeu-se o príncipe-herdeiro, enquanto chacoalhava a cabeça com um pouco de nervosismo.
— Já disse o que quero. É pegar ou largar, querido amigo. – Usei a mesma expressão que Igor sempre usava comigo, e que agora seria ótima para debochar de Mason. – Pode ser só uma garrafa de whiskey inglês. Aquele maldito russo adora.
O garoto colocou as mãos no rosto. Sentia-se derrotado.
— Tudo bem. – falou, sem conseguir encarar nem eu e nem Alexander direito. – Mas isso vai ser no fim da festa. Depois do bolo.
Apertamos nossas mãos como se fechássemos um pacto demoníaco. Mason devia estar muito desesperado por algum motivo para topar aquilo. E, em partes, desconfiei de seu motivo assim que os cabelos radiantes de Marian Kodak vieram em nossa direção.
Ela usava um vestido roxo escuro, uma cor que contrastava com sua pele e a deixava ainda mais bonita. A Selecionada sorriu ao me ver, como sempre fazia. Embora muito inteligente, Marian me fascinava por sua calmaria. Tudo parecia sempre estar bem para ela. E, de alguma forma, havia conquistado o coração de Mason.
Eu não conhecia as outras Selecionadas, mas sabia que havia uma química entre os dois.
— É ótimo ver todos juntos, Altezas. – Fez uma reverência, me encarando logo em seguida e depois passando seu olhar para Mason. – Ah! Não acredito! Você falou mesmo com ela?
Naquele momento, entendi tudo. Marian sempre tinha boas ideias, e chamar as famílias das Selecionadas para o meu aniversário com certeza era fruto de sua esperteza.
Mason ficou sem graça, um pouco ruborizado.
— Sim, eu vou adorar ter sua família em minha festa. Lembre-se de me apresentar ao seu pai. – falei, tentando salvar a barra do príncipe mais uma vez.
A garota o abraçou sem pensar muito, sequer dando a mínima para a presença de Alexander ou a minha. Mason me agradeceu com o olhar, enquanto retribuía o abraço da Selecionada que parecia ser a futura rainha de Illéa.
Não me atentei muito àquela cena, pois logo senti um toque quente em meu pulso, guiando-me para algum lugar qualquer. Alexander parecia ansioso com algo. Dava passos fumegantes na direção de uma porta ao corredor e nem dizia nada.
— Precisamos ficar sozinhos. – Ele sussurrou quando entramos no cômodo, uma pequena sala de reuniões com algumas mesas e sofás.
Não entendi muito bem sua ação. Mas respirei fundo ao ver que não haviam mais olhos vigilantes em nós, nem soldados ingleses e nem os guardas de Illéa. No entanto, Alexander estava de costas para mim, suspirando alto e em um silêncio ensurdecedor.
— Está tudo bem? – Toquei em suas costas, esparramando meu toque até abraça-lo com meu corpo. Ele sempre me aquecia com sua intensidade, mas parecia um pouco distante naquele momento.
— Estou com um pouco de medo... – sussurrou, virando-se para mim e pondo suas mãos em meu rosto. Adorava quando ele fazia aquilo. – Você não parece bem. E desconfio que tenha chorado por estar usando esses óculos...
Merda. Ele já me conhecia tão bem assim?
— Desculpe. – Suspirei cabisbaixa, sentindo suas mãos segurarem minhas bochechas com ainda mais afinco. – Mas não tem nada a ver com você. Eu só estava meio mal com algumas coisas...
Alexander semicerrou os olhos, um pouco triste com minha resposta.
— Sei que você tem uma escolha pela frente. Por um lado, tento me agarrar ao que conversamos no avião, tento ter certeza daquelas palavras. Mas fico mal... Fico mal só de pensar que você pode ir embora a qualquer instante e eu não te ver mais, Avery... Sua importância para mim se tornou inestimável nos últimos tempos. Não quero ter que te perder.
Meu coração doía com aquilo, e tirei os óculos, que já estavam me incomodando, para que ele pudesse ver melhor o meu rosto. Talvez assim fosse mais fácil mostrar o que eu sentia. No entanto, antes que eu pudesse dizer o quanto me importava com ele, Alexander tirou algo do bolso de dentro de seu casaco.
Eram algumas cartas com selos variados, talvez de países diferentes.
— Chegaram há alguns dias. Desculpe não ter conseguido entregar antes, achei que talvez fosse embora mais rápido...
Suspirei um pouco triste, olhando-o compreensiva.
Peguei a correspondência como em um movimento automático, apenas curiosa com os remetentes de cada carta. No entanto, senti uma pontada no peito assim que entendi do que se tratavam, e minha boca se abriu em pura surpresa. Aqueles eram convites de algumas Academias Militares ao redor do mundo.
Pude ver a assinatura de Igor em duas delas, uma da Academia de Moscou e outra de Kiev. Também vi o símbolo do leão prateado em uma, junto do convite para a Academia de Glasgow, a mesma que Archibald havia me dito. O presidente da Confederação Alemã também havia feito propaganda com alguns folhetins de Universidades de sua pátria. No entanto, uma das cartas me chamou a atenção, nem fazia ideia de onde ela havia vindo. O selo era diferente, assim como o papel mais amarelado que o normal e de textura estranha. Mesmo assim, reconheci a caligrafia de Jasper no envelope de fora.
Soltei um pequeno sorriso, feliz por saber que ele não havia se esquecido de mim tão facilmente. Eu abri a carta sob olhar vigilante de Alexander, sabia que Jasper e eu não tínhamos mais nenhum segredo juntos.
Havia apenas uma pequena polaroid dentro do envelope.
— Essa foi a única que não entendi, chegou junto com a carta inglesa. – O príncipe sussurrou, confuso.
— Vamos descobrir juntos. – Dei um pequeno sorriso, sabendo que havia acalmado as batidas no peito de nós dois. – Também não gosto de ficar sem você.
Respirei fundo, me concentrando na polaroid. Era a imagem de uma pequena tribo com casas feitas de madeira e flores, dois homens negros muito parecidos sorriam para a foto e vestiam roupas coloridas, abraçando-se. A paisagem era de tirar o fôlego, como se fosse impossível ficar triste no meio de tanta vida e harmonia.
“África do Sul, 9 dias antes do seu aniversário.”
Sorri, virando a foto em busca de mais alguma informação. E, para meu alívio, havia algumas palavras ali.
“Dentre os Nwanza, nasceram príncipes gêmeos. Kamut, o da direita, cuida do povo e foi nomeado líder. Mas Zenut é o general e protege seu povo. Ninguém aqui ousa dizer qual deles é o mais importante, e acho que faz sentido assim.
Feliz aniversário, Avy. O príncipe de Illéa fica bem ao seu lado, não o assuste com seu mau-humor.”
Fiquei sem palavras enquanto sorria com a última frase. Aquilo era intenso demais para engolir de uma vez só, e me dava uma pista maravilhosa de como pensar em mim mesma, assim como eu já estava fazendo. Talvez a Academia Militar não fosse a única opção, mas eu sabia que as intenções de Jasper eram apenas de me dizer mais uma vez que não havia lados entre Cam e eu. Éramos gêmeos. Éramos um só.
— Isso foi profundo e... estranho no final. – Alexander disse, e em seu tom de voz ainda havia uma leve tristeza. – Mas não vi nenhuma assinatura. Quem te mandaria algo assim?
Dei um sorrisinho tristonho, encarando seus olhos caramelos e depois seus lábios.
— Não importa. Não vou virar general ou coisa assim... – Toquei em sua bochecha, deixando as cartas em um móvel ao nosso lado. – A menos que você fique do meu lado, é claro.
Ele encostou sua testa na minha, fechando os olhos.
— Seu lugar não é em Illéa. – disse baixinho, seu tom era mais de constatação do que de dúvida. E eu sabia que ele me conhecia bem demais para já admitir aquilo.
— Talvez o seu também não seja. O país está cada dia melhor, e Mason não pode viver dependendo de sua ajuda para sempre. Viva sua vida.
— Um pensamento otimista vindo de você, Avery?
Alexander sorriu, um pouco melancólico, mas ainda assim um sorriso autêntico e bonito.
Não me aguentei nem mais por um segundo, o beijando com o máximo de sentimento que eu poderia colocar em meus lábios. Toquei em seu corpo, puxando-o para mim. Era como se pegássemos fogo de um segundo para o outro, e logo seus braços apertavam minha cintura com uma indecência que eu simplesmente adorava.
Não queria que ficássemos distantes.
— Você é mais do que importante para mim, Alexander. – falei, roçando meus lábios em seu pescoço. Sua pele sempre era quente, e aquilo me excitava horrores. – Só não consigo expressar direito. Mas, veja bem, nesse exato momento estou me esforçando muito para isso.
Alexander riu baixinho quando coloquei uma de suas mãos por debaixo de minha roupa. Ele sequer resistiu, apenas chegando mais perto e me prensando na parede. Seus olhos caramelos me encararam intensos por um instante, o que me fez derreter ainda mais.
Em um dado momento, seus lábios se contraíram.
— Adoro seus esforços, Avery. – Sussurrou. – Mas amo ainda mais você.
Parei de respirar por um longo segundo. O impacto das palavras era tamanho que eu nem sabia o que sentir, e meus olhos se arregalaram como se estivesse diante do paraíso. Uma lágrima solitária saiu de meus olhos e não consegui conter o largo sorriso em meus lábios.
Não consegui responder. Não consegui dizer nada de volta. Só sabia que algo dentro de mim havia se acendido como um farol. E queria me entregar ao sentimento tanto quanto queria amá-lo.
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