Avalanche
20 Pesadelos
Notas iniciais
“Minha cabeça latejava à medida que meu corpo tremia, o medo da morte preenchia cada veia e terminação nervosa, me abraçando como se fôssemos amigas. Mesmo que eu olhasse de um lado para o outro, só conseguia enxergar a sujeira do chão e um pouco das paredes, havia apenas uma fraca lâmpada no teto, a qual detinha uma luz pálida e não iluminava nada.
Era certo o que iria acontecer. Eu não tinha dúvidas. O ambiente fedia a putrefação, muitos outros já deviam ter encontrado o seu fim naquela sala.
Vozes berravam perguntas que eu não conseguia entender, o som vinha do lado de fora, mas era tão ameaçador como se fossem direcionadas a mim. Quando comecei a escutar gritos estridentes, os pelos de meu corpo se eriçaram no mesmo momento. Eu sabia muito bem de quem aquela voz era, conhecia cada nota de seu tom, menos a dor ilustre da tortura.
Abraçada as minhas pernas, tampei meus ouvidos enquanto tremia mais e mais, acabando-me em lágrimas tão confusas quanto a minha mente. Por que estavam fazendo aquilo comigo? Por que estavam machucando a minha mãe?
Apertei as orelhas com mais força, tentando não escutar nenhuma parte daqueles gritos tão agudos, tentando imaginar que tudo ficaria bem. Meu nariz escorria junto com o choro, não havia nada que eu pudesse fazer.
De olhos fechados, comecei a rezar a qualquer um que estivesse escutando. Até meus ouvidos captarem barulhos intensos demais para serem ignorados: tiros. Os sons confundiam-se dentro de mim, eu já não sabia mais se aquilo era um alívio ou não, mas era certo que a voz de minha mãe tinha cessado.
— Princesa! Princesa! – alguém gritava, chegando cada vez mais perto.
Ao escutar a porta daquela pequena sala imunda se abrir, meu corpo estremeceu por inteiro. Passos foram dados, próximos demais para eu poder escapar de qualquer coisa.
— Ela está aqui. Está viva!
Abri meus olhos no mesmo instante, demorando alguns segundos para conseguir enxergar a farda inglesa do homem a minha frente. Meu coração acelerou ao sentir meu destino mudar drasticamente.
Eles estavam ali, haviam conseguido nos salvar.
— Alteza, venha comigo! – pediu.
Meu corpo se agitou, mesmo sem comer há muito tempo, eu ainda tinha forças restantes. Levantei-me em um sobressalto, driblando o soldado com facilidade para sair pela porta correndo. Eu lembrava mais ou menos o caminho, por isso virei à esquerda com meus pés descalços e o vestido sujo, sem hesitar por um segundo.
Mais soldados ingleses se aglomeravam logo a frente, os rostos surpresos assim que me encaravam, sem saber ao certo o que fazer. Não dei bola, correndo para dentro da sala maior a qual eu tinha certeza que minha mãe estava. Ninguém conseguiu me impedir.
Assim que cheguei para vê-la, meus olhos se estatizaram naquela cena. Além dos corpos inertes dos rebeldes nórdicos, mamãe também estava deitada sobre o chão frio, iluminada por outra luz pálida e fraca, com o rosto dolorido enquanto sangrava muito de um tiro na barriga. Ao lado dela, a figura que eu tanto conhecia estava de joelhos com o rosto próximo ao da rainha. Thomas.
Por um segundo, achei que os lábios de minha mãe se mexeram próximos ao ouvido dele, o que significava que ela ainda vivia. Porém, rápido demais para que eu pudesse entender, os olhos verdes intensos do guarda-costas se voltaram para mim, e eu senti o peso do mundo desabar sobre nós dois.
Mamãe estava morta.”
☆
— Eli. – Gritei da cama, enquanto acordava suada jogando os lençóis para longe.
Ofeguei com a respiração entrecortada, tentando manter o controle sob outra noite mal dormida, mal conseguindo me safar dos tremores que sentia pelo corpo. A única coisa que consegui fazer foi agarrar com força o colar de leão que Jasper havia me dado, rezando para esquecer logo o que acabara de sonhar.
Anos se passavam, mas eu ainda tinha pesadelos sobre o mesmo acontecimento.
— Alteza, o que houve? – a criada entrou rapidamente no quarto, pude ver que estava trazendo meu café da manhã às pressas.
— Nada. – Respondi, limpando as poucas lágrimas que saíam. – Apenas fique aqui comigo, sim? Há mais daquele calmante que tomei ontem?
O rosto da mulher me olhou com uma leve desaprovação, enquanto eu sentia o suor frio escorrer pelas têmporas.
— Alteza, não continue assim! – disse, quase em tom de súplica ao colocar a bandeja de café e frutas ao lado da cama. – A rainha já notou quando fui ontem a enfermaria, perguntou-me se estava tudo bem com a senhorita. Tente participar pelo menos do almoço hoje e ficar no Salão das Mulheres por um tempinho, talvez assim tire os olhos atentos de cima de si.
Senti um peso gigantesco ao respirar. Minha cabeça latejava. Já fazia três dias desde que eu não via nem sinal de Alexander, e logo na manhã seguinte Igor visitaria Illéa. A conversa com rei Maxon havia sido um sucesso. No único jantar que participei, Mason revelou a notícia as Selecionadas, escondendo um pouco sua irritação ao me encarar. Com certeza ele sabia que havia um dedo meu ali.
— Vou pensar no seu caso, Eli. – Peguei a xícara de café, afastando as memórias do passado. – Agora me conte novidades, por favor.
A criada pensou por alguns segundos, os quais foram lentos e infernais para mim. Precisava urgentemente me distrair.
— Há uma garota que me perguntou de você, uma das Selecionadas... – disse, botando a mão ao queixo. – Ela me viu e já correu para perguntar... Cabelo bem loiro quase branco... Não me recordo o nome, era bem bonita aliás.
— Marian Kodak. – Soltei um sorrisinho.
— Isso, Alteza! – exclamou. – Ela estava com medo de parecer indelicada, mas disse que gostaria de lhe convidar para fazerem algo juntas assim que possível.
Levantei-me da cama. Talvez fosse espontâneo demais, porém não deixava de ser uma boa ideia.
— Acho que vou vê-la agora. – Mordi os lábios, ainda indecisa e me sentindo mal.
— É uma ótima ideia, Alteza. – Eli confirmou com um sorriso, já indo em direção ao guarda-roupas. – A senhorita Marian estava no Salão das Mulheres, se não me engano.
Em questão de minutos, comi algumas frutas e beberiquei o café. Escolhi um dos vestidos azuis que eu mais gostava para os dias de sol, curto e justo, mas muito elegante. Não consegui ter paciência o suficiente para arrumar direito os cabelos, contentando-me em uma maquiagem básica que Eli fez para esconder as olheiras.
Illéa distraía bastante minha cabeça, como se o castelo fosse um lugar bom demais para estar triste. No entanto, a memória de minha mãe ao chão em seus últimos suspiros me aterrorizava de tempos em tempos, assim com os olhos verdes de Thomas me encarando.
Nada no mundo poderia me salvar daquilo.
Desci as escadas do segundo andar, indo para os corredores que levavam até o Salão das Mulheres, havia criados demais andando por toda parte, provavelmente pelos preparativos da chegada dos russos. No entanto, antes de continuar meu caminho, captei vozes conversando em uma saleta, as quais pareciam um tanto alteradas.
Fiquei em silêncio para tentar entender quem eram.
— Não vamos ficar tirando fotos, pai. Eu já disse. Não incomode a princesa. É até melhor desse jeito já que vamos desfazer tudo isso. – Parei de respirar por um instante, a rouquidão era inconfundível.
Alexander.
Meus lábios pegaram fogo, recordando-me do que eu não queria. Minha cabeça girou por uns segundos incerta do que estava escutando.
— Mais uma exigência sua, meu filho? – O tom benevolente de rei Maxon ecoou em resposta, era claro o quanto ele queria apenas apaziguar a irritação do príncipe. – Segui tudo o que me disse, convoquei a princesa para ajudar nos assuntos militares, pedi ao seu irmão que a evitasse para não ocasionar mais desavenças, até mesmo falei com sua mãe para retirar a criada que colocou nos aposentos da princesa... – escutei um longo suspiro acompanhado de um ar cansado. – O país anda melhor graças a sua aliança com os ingleses, eu confesso. No entanto, nunca aprovei o que você e Kaya fizeram em relação a esses casamentos arranjados. Não é um ato de boa-fé ter feito a princesa Avery vir até aqui para você querer desfazer essa união sem nos dar uma devida explicação...
— Por Deus, Maxon, eu sei! – o príncipe explodiu, rompendo com cada regra de etiqueta que devia ter aprendido a vida toda, chamando até mesmo o seu próprio pai pelo primeiro nome. – Será que não consegue confiar em mim mais uma vez? Não incomode Avery com essas questões. Eu cuido dos russos, eu apareço na TV, eu dou as entrevistas. Só não a incomode, por favor.
Meu coração e mente tentavam assimilar o que tinha acabado de ouvir. Eu nem havia sequer notado aqueles poucos detalhes do cotidiano, nem mesmo a ausência da criada que a rainha havia colocado em meu quarto no meu primeiro dia em Illéa, um ato que achei um tanto suspeito.
Mesmo com nossa relação quebrada em mil cacos, Alexander continuava a dar tudo de si para o meu conforto e privacidade. Minha barriga doía, sentia-me pior do que quando acordara. O medo que me invadia nas lembranças do passado era parecido com o medo que eu sentia pelo meu destino naquele momento.
A vontade de me encolher era gigantesca.
— Alexander, eu fico extremamente orgulhoso de seus esforços recentes para Illéa. Mas você precisa se acalmar e pensar melhor no que vai fazer. Em como fazer. – O rei continuou, pude quase imaginá-lo tocar no ombro do filho como sempre fazia. – Se não quer participar da vida política e ser uma pessoa mais privada, eu entendo. Nunca questionei isso. Mas deveria ter repensado suas escolhas antes de propor um noivado a uma princesa de outra nação, agora você faz parte da mídia, queira ou não.
Pus a mão a boca. Eu queria gritar com o monarca, explicar que Alexander estava sendo manipulado pelas ações de meu irmão em sua busca por me proteger do odioso rei inglês. Queria dizer a verdade aos quatro cantos, mesmo não sendo o momento certo para aquilo. Antes disso, precisava garantir ao príncipe o que havia prometido: a segurança de Illéa, a segurança de sua família. E também descobrir mais sobre as pessoas que estavam ao meu redor.
Assim que escutei os passos de rei Maxon e do príncipe vindo em minha direção, andei sorrateiramente para o lado contrário, buscando outro percurso até o Salão das Mulheres o mais rápido que pude. Eu sentia meu peito inteiro tremer com meus batimentos cardíacos, os quais só se acalmaram quando vi as portas da entrada do salão.
Respirei ofegante. Era demais para entender...
Alexander se importava comigo de uma forma tão sorrateira que eu mal havia notado. Thomas Schmidt guardava um passado repleto de segredos e parecia se importar comigo. Igor havia ocultado esse tempo todo seu contato com o antigo guarda-costas de minha mãe e ainda me oferecia ajuda sem pedir nada em troca.
Ah, Cameron... Onde você nos meteu?
Suspirei, pensando que até mesmo meu próprio irmão gêmeo havia omitido ter um contato dentro do castelo, alguém que não fosse Alexander. No entanto, só saberia mais sobre isso caso conversasse com o príncipe, e isso estava fora de cogitação.
Os homens eram muito complicados. Por isso, adentrei o Salão das Mulheres buscando pela única pessoa que eu poderia chamar de amiga. Os cabelos loiros claros de Marian sobressaíam-se entre as demais, as quais me olhavam com um inebriante receio, todas sentadas com alguns cadernos em mãos.
— Preciso me distrair, Marian. – Meu timbre soou mais autoritário do que o previsto. – Vamos jogar alguma coisa. Não precisa ser xadrez.
A Selecionada olhou por um segundo para as outras, as quais pareciam assustadas com minha presença tão súbita, fazendo reverências horríveis. Notei que havia apenas algumas garotas ali, uma de traços asiáticos e duas morenas de cabelos pretos, pareciam todas estar concentradas em uma atividade.
Marian pareceu sem fala por um instante, pensando em algo além de minha compreensão.
— Alteza, que surpresa! Nós estamos organizando os retoques finais da festa de chegada para o príncipe russo a pedido da rainha. – Ela mostrou seu caderno de anotações. – Talvez a senhorita fosse de grande ajuda, mas também poderia ser injusto com as outras garotas.
Olhei ao redor do salão, constatando que havia outro pequeno grupinho de garotas afastado, os olhares fixos em mim mesmo que tentassem disfarçar.
Revirei os olhos. Por que tudo tinha que ser tão difícil nesse mundo?
— Que parte estão organizando em específico? – questionei, remexendo minhas pernas um pouco impaciente.
A Selecionada de traços asiáticos pareceu tomar a frente de Marian ao me lançar um olhar gentil até demais.
— Bom dia, Alteza. – disse, mostrando um perfil estritamente diplomático e irritante. – Eu sou Angeline Dion. Nosso grupo está discutindo sobre as cores das mesas e dos enfeites, também repassando as escolhas de bebidas. Já estamos quase acabando.
Mordi os lábios, cansada daquela baboseira.
— Vamos jogar um jogo de cartas. – Propus, enquanto notava o rosto da asiática conter uma expressão ruim. – Igor gosta de dourado e vermelho. Escolham whiskies ingleses para as bebidas, ele ama. As comidas não fazem tanta diferença.
Recebi alguns olhares aclamados. Angeline pareceu se dar conta de que eu não estava blefando, e correu para anotar tudo o que eu havia dito. Somente aquelas curtas informações já poupavam o trabalho de horas de discussão, tempo suficiente para jogarmos alguma coisa.
Marian sorriu de canto para mim, piscando sutilmente um de seus olhos ao ir até uma mesinha de centro com revistas e baralhos, pegando um deles para entregá-lo em minha mão.
Embaralhei as cartas assim que as toquei. Meus olhos verdes intensos fitavam de garota para garota, mostrando muito bem a fúria que eu escondia dentro de mim.
Minha expressão era a de um general pronto para o combate. E assim que coloquei as cartas na mesa, finalmente me diverti ao ver como Marian escondia o sorriso em meio ao pavor das outras Selecionadas.
Meus lábios se entreabriram com certo amargor.
— Se uma de vocês falar sobre homens nesse meio tempo, juro que declaro guerra a Illéa e ninguém sairá daqui vivo.
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