Avalanche
29 Perda
Notas iniciais
— Onde estão meus irmãos? – Dei mais passos para trás, ainda assustada e em choque.
O homem de olhos esverdeados permanecia no mesmo lugar, atónito a qualquer mínimo movimento que eu fazia.
Thomas estava diferente, por mais que a expressão contida fosse a mesma de sempre. Não conseguia me lembrar dele de outra forma, mas havia algo para lá de distinto na forma como me observava.
— Cameron está a caminho. – disse, a voz tremendo por um leve instante, como se eu o tivesse desarmado por inteiro.
Algo pulsou mais forte dentro de mim. Não era raiva, mas algo maior. Medo?
— Não quero saber de Cameron! – Uma lágrima nervosa escorreu pela minha bochecha. – Onde está Edwin?
Meus pulmões pareciam arder com a força que eu gastava para vociferar cada frase.
Vi Thomas suspirar profundamente por um instante, forçando-se a parecer inabalável, o que só confirmava minhas suspeitas de que algo havia acontecido com meu irmãozinho. Algo que poderia ser culpa dele.
Eu estava quase me rendendo ao choro, quase me concentrando unicamente em me render ao desespero e ir para cima de Thomas com todos os meus sentimentos. Até que vi um vulto avermelhado passar pela silhueta do homem, correndo em direção a algo atrás de mim.
Era Kaya Schreave, trajada em um sobretudo vinho, com os cabelos loiros voando ao vento enquanto se apressava em abraçar o irmão.
— Não acredito que você veio, Alex! – exclamou com alegria, o timbre adocicado apenas contrastando com a tensão do ambiente.
Desviei o olhar dos dois irmãos que se abraçavam, voltando minha expressão enraivecida para a direção de Thomas. Para minha surpresa, meu gêmeo caminhava cabisbaixo logo atrás da figura do antigo guarda-costas, que ainda tentava parecer inabalável.
Quase perdi a respiração novamente. Cameron era quase outra pessoa, não se assemelhava em nada ao irmão com quem eu havia crescido a vida inteira. Os olhos eram de um cansaço inimaginável, não carregavam mais o brilho do garoto que havia me apoiado em todas as surras de nosso próprio pai.
Desmond estava morto, mas meu irmão parecia tão pálido e abatido quanto um cadáver.
Meus olhos embargaram instantaneamente quando nossos olhares se encontraram. Eu me sentia perdida entre sensações tão contraditórias que seria capaz de explodir. Meu coração não podia aguentar aquilo. Eu não podia perder meu gêmeo, mesmo se ele tivesse matado alguém.
Quando Cameron se postou ao lado de Thomas, notei uma leve similaridade nos dois rostos, rápida demais para ter certeza de qualquer coisa. Minha vista turva apenas tentava focar naquele com quem eu havia dividido o útero, mesmo que a figura do novo Lorde Schmidt me tirasse do sério.
As palavras de August e Dallas ecoavam em minha mente. E aquilo só fazia eu me questionar sobre quem era realmente meu inimigo.
Respirei fundo, olhando para Cameron.
— Avy. – Ele disse, tão fraco que só entendi pela forma como seus lábios se moveram.
Naquele momento, soube que havia um grande sofrimento em meu gêmeo. Uma aflição tão ardente que podia sentir o coração dele queimando por detrás da pele.
— Onde está Edwin? – Meus dentes rangeram, não podia me entregar ao choro antes de saber a verdade.
Cameron arregalou os olhos ao ouvir minhas palavras, e então notei que sua expressão de dor era simplesmente muito pior do que a minha. Em um movimento desesperado, meu gêmeo enlaçou seus braços ao meu redor, apertando-me com força e necessidade. Ambos estávamos com nossas respirações entrecortadas, fungando como as mesmas crianças de sempre que haviam perdido a mãe e ganhado um pai horrível.
Será que conseguiríamos ser inimigos? Disputar uma coroa?
— Eu sinto muito, sinto muito mesmo... – sussurrou, me esmagando com tanta intensidade que eu podia sentir meu ombro machucado doer. – Eu não tive escolha, Avery...
Engoli em seco. Ele havia mesmo matado Desmond? Onde estava Edwin?
As perguntas não saíam de minha boca, mas pude notar com exatidão o momento em que Thomas se aproximou de nós dois. O rosto do homem era de sentimentos indecifráveis, mas era claro como o dia a preocupação dele com a presença de Kaya e Alexander ao fundo.
— É bom ver vocês dois juntos mais uma vez. – A voz cansada do antigo guarda-costas ainda soava estranha aos meus ouvidos. – Vamos conversar em um lugar mais seguro depois, por favor...
Thomas tomou distância de nós dois, caminhando com um certo pesar em seus passos, mesmo que fingisse que não. Seus olhos pareciam ter dificuldade em se desviarem de nós dois.
Senti os braços de Cameron se afrouxarem. Ele parecia fraco, desfalecendo-se em algo que eu não sabia mais o que era. No entanto, seus olhos esverdeados brilhavam tanto quanto os de Thomas ao me ver depois de tanto tempo.
— O que aconteceu com você? Está tudo bem? – perguntou, enquanto procurava atónito em meus ombros algum sinal de meu machucado. – Disseram que você levou um tiro de raspão... Está doendo?
Mais uma vez, tudo sobre Edwin havia sido ignorado, mesmo que eu entendesse a preocupação de Cam.
— Eu estou bem. – falei, juntando forças para me manter sã. – Agora me diga onde está nosso irmãozinho...
Os lábios de meu gêmeo se contraíram por um instante, e logo quando ele estava prestes a me dizer algo, vi o vulto vermelho do sobretudo de Kaya nos interromper. A garota olhava curiosa e feliz para nós dois, como se houvesse algo de belo naquilo tudo.
— Eu estou tão feliz que você está bem, princesa Avery! – Ela sorriu, mas pude ver o receio em me abraçar ou em encostar em mim. – Sinto muito.... Por tudo o que houve, ainda mais pelo seu pai. Se eu puder compensá-la de alguma forma, por favor, me diga... Você ajudou tanto a minha família! E Alex parece muito mais feliz também...
Suspirei, vendo as emoções puras da princesa de Illéa serem jogadas em cima de mim. Por mais que eu admirasse sua ingenuidade, me irritava muito ter que lidar com ela.
Fingi um sorriso, que mais saiu tristonho do que qualquer outra coisa. Com o canto do olho, para o meu alívio, vi Alexander se aproximar. A expressão pensativa dele ao mexer os dedos em seu cabelo loiro só mostrava que havia entendido a situação.
— Kaya, vamos deixar os dois a sós... – disse, curvando os lábios em um sorriso sutil para mim. – Aliás, você também tem muito o que me contar, não acha? Também precisamos ficar a sós.
A princesa tirou os olhos de mim e de Cameron no mesmo instante, focando-os no irmão com o máximo de sua doçura. Parecia uma criança encarando um brinquedo novo, feliz e aliviada.
— Com certeza! – Kaya se voltou para meu gêmeo. Algo no semblante da garota pareceu se suavizar ao encará-lo, como se uma certa chama se acendesse no azulado de seus olhos. – Cam, me desculpe pela interrupção... Você e a princesa necessitam de um tempo juntos. Vou levar Alexander para os jardins enquanto isso. O que acha da ideia?
Pude ver algo no rosto de meu irmão também, algo que o impedia de parecer totalmente sem vida, como uma última luz acesa na escuridão. Que merda seria aquilo?
— Uma ideia maravilhosa, querida. – respondeu, coçando os olhos igual fazia quando éramos crianças e queria esconder o choro. – Peça a Thomas para te acompanhar, por favor.
As palavras eram como um sinal de alerta gritando em minha mente. Cam e Thomas estavam mesmo próximos, tão próximos que até Kaya Schreave havia tido contato com ele.
Suspirei.
Alexander e Kaya continuaram a andar pelo corredor, notei que o príncipe de Illéa ainda me encarava com uma certa preocupação. A irmã o guiava animada, ambos indo em direção ao rosto longínquo de Thomas.
Era surreal vê-lo ali. E eu me sentia de volta no passado, nas últimas memórias horríveis que havia tido com minha mãe.
— Há muito que devo te contar, e preciso que confie em mim mais uma vez.
Cameron colocou uma de suas mãos em cada ombro meu, tomando cuidado com o curativo por debaixo dos panos. Nossos olhares se cruzavam com um sentimento insano por detrás de cada íris.
As palavras pareciam esfaquear minha garganta. Mais do que minha preocupação pelo meu irmãozinho, algo pior ainda me dilacerava por dentro.
— Você matou mesmo o Desmond? – perguntei, as lágrimas saindo sem que eu quisesse.
Não havia compaixão em mim pelo meu pai. Mas o quanto Cameron parecia destruído por dentro e por fora só mostrava que algo o havia abatido intensamente, e poderia ter sido aquilo.
Ambos chorávamos em silêncio. Era difícil negar nossas lágrimas e sentimentos.
— Foi o Edwin. Edwin o envenenou.
Antes que eu pudesse compreender o significado daquelas palavras, Cam se jogou em meus braços mais uma vez, se entregando ao choro. Eu me sentia como um abismo tragando meu próprio irmão em minhas profundezas, engolindo todas as lágrimas e aflições que o continham.
Edwin havia matado Desmond? Edwin, o meu garotinho de ouro?
— Não pode ser... – Senti minhas pernas bambearem com o peso de meu corpo e o do meu gêmeo. – Ele não iria conseguir...
Quis gritar aos quatro cantos que aquilo estava errado. No entanto, antes que eu tivesse noção do mundo ao meu redor, senti que meu corpo se desfalecia no chão. Cam ainda me abraçava, mesmo com nós dois de joelho no piso frio do palácio.
— Não tivemos escolha. – Fungou, acariciando meu rosto enquanto tentava ler minhas emoções.
— Você tinha uma escolha sim, Cameron. Você não devia ter me afastado... Se eu tivesse estado aqui o tempo todo, isso nunca teria acontecido.
Algo queimava em meus interiores, tão ardente que tentei tirar os braços dele de mim. Meu irmão lutou contra, tentando acariciar meu rosto mais uma vez.
— Se arrepende mesmo de ter ido para Illéa, Avery? – Cam olhou bem no fundo de meus olhos, e todas as dúvidas vieram à tona de uma vez só. – Se você não tivesse ido para lá, talvez nem existisse mais uma monarquia e Kaya seria a última Schreave vida. Até onde eu sei, você salvou os dois príncipes de serem mortos pelos rebeldes e foi de grande ajuda para o rei. Você realmente se arrepende disso?
Uma tontura me tomou. O peso de cada palavra era demais para suportar.
— Acha mesmo que eu queria isso? – continuou a dizer, as lágrimas saindo por nossos olhos como se fôssemos duas cachoeiras. – Desmond saiu de controle depois que você foi embora. Ele precisava descontar tudo em alguém... E então tudo chegou em um ponto sem volta... Edwin... Ele...
Senti algo dilacerar meu peito. E sem me importar com nenhum machucado em meu ombro, agarrei a camisa de Cameron com minhas duas mãos.
O desespero em mim havia vencido.
— Onde está Edwin? – gritei.
— Na enfermaria.
Minha mão bateu no rosto de Cam como se fosse um impulso natural. Um ato que eu nunca achei que fosse fazer algum dia.
— Você deixou nosso irmãozinho ser espancado? – sussurrei com o máximo de desgosto. As constatações pareciam ser veneno em minha mente.
A marca de meu tapa estava bem delineada na bochecha de Cam, que apenas permanecia cabisbaixo sem forças para me encarar de verdade.
— Por isso ele matou nosso pai? – continuei, sentindo meus pensamentos e dúvidas me matarem por dentro. – Posso não me arrepender de ter ido para Illéa, mas me arrependo de ter deixado você e Thomas cuidarem do nosso irmãozinho.
O olhar de meu gêmeo se ergueu por um instante.
— Thomas não tem nada a ver com isso, Avery. Se quiser culpar alguém, pode me culpar, mas a escolha era toda de Edwin. Nem eu e nem você tínhamos o direito... – disse, as lágrimas perpassando a marca avermelhada em sua bochecha, e mesmo assim ele ainda defendia o antigo guarda-costas.
Dei as costas para o meu próprio irmão, já pensando em qual seria o caminho mais rápido para a enfermaria do palácio. Ainda não acreditava que tudo aquilo havia acontecido, apenas teria certeza se visse Edwin com meus próprios olhos. Era a única pessoa além de Alexander que eu podia realmente confiar.
— Não me importa, Cameron. – falei em alto e bom som, encarando apenas o caminho a minha frente. – Tudo o que importa é que desde que Thomas voltou as coisas só pioraram.
— Não faça isso... – Pude escutar sua voz embargada atrás de mim, mas eu não tinha muitos motivos para olhar para trás.
Comecei a andar pelo corredor em direção a ala hospitalar, cada passo só me tirava ainda mais de minha sanidade. Eu podia ver os rostos dos soldados ingleses me encarando, muitos sem entender a cena que viam. Os criados tentavam disfarçar, mas sabiam também que algo não estava certo entre mim, Cameron e Edwin.
Meu coração já palpitava quase para fora do peito quando senti que estava próxima da enfermaria.
Logo no símbolo vermelho de área médica, pude ver que alguns soldados muito específicos se agrupavam na frente da entrada. Era óbvio que meu irmão tentaria encobertar tudo...
Soltei o ar furiosa de meus pulmões, me aproximando com um semblante apreensivo na direção daqueles homens. No entanto, nenhum deles pareceu se mover um dedo sequer para que eu passasse. Um dos soldados, ruivo e alto, aproximou-se de mim por um instante, quase tive certeza que já o havia conhecido.
— Princesa, a senhorita não pode passar. São ordens de príncipe Cameron. – disse, encarando-me por um longo momento para tentar ler minhas emoções.
— Você tem novas ordens minhas agora, soldado. Então deixe-me passar.
Fiz um movimento brusco em direção a maçaneta, mas ele logo entrou em minha frente mais uma vez.
— Eu sinto muito, princesa.
Olhei nos olhos azulados do soldado. Ele parecia quase se arrepender do que estava fazendo. Provavelmente conhecia meu temperamento, e sabia que eu teria o que desejava mais cedo ou mais tarde.
— Acredita mesmo que vai conseguir me barrar? – Dei mais um passo na direção da porta, vendo que o soldado não entrava mais em minha frente com a mesma rapidez de antes. – Siga as ordens de sua princesa. É a coisa mais sábia que você vai fazer hoje. Eu preciso ver meu irmãozinho!
Meu olhar severo e a vermelhidão pelo choro apenas me tornavam mais ensandecida. No entanto, quando o homem estava quase se movendo amedrontado para me dar passagem, escutamos a porta da enfermaria ranger e se abrir. Tanto eu quanto o soldado olhamos apreensivos na mesma direção.
Meus batimentos se desregularam por completo ao ver os olhos castanhos me encarando. Era como ir do inferno para o paraíso.
— Jasper? – Minha voz ecoou como se fosse uma melodia longínqua.
Por um segundo, seus lábios se contorceram ao me ver, como ele sempre fazia quando estava surpreso com algo. Mesmo que eu quisesse abraça-lo em desespero, sabia muito bem que ele iria embora. Dallas havia sido claro: Jasper havia renegado seu sobrenome.
— Avery? – falou, desviando nossos olhares logo em seguida.
O cabelo loiro escurecido que eu tanto apreciava parecia fora dos padrões militares, com as mechas tocando quase o ombro de Jasper. Suas roupas também não eram mais do Exército. Ele vestia apenas uma calça jeans e um suéter verde escuro de inverno.
Provavelmente estava ali cuidando de Edwin, o que me fazia querer chorar ainda mais.
— Você vai mesmo embora? – perguntei sem pensar, sentindo que meu desespero agia mais por mim do que eu mesma.
O soldado entre nós entendeu logo a situação ao ver Jasper suspirar, e então se afastou para nos dar espaço.
— É complicado, Avy. – disse simplesmente, soltando mais uma respiração profunda. – Soube que precisou dos serviços de meu amigo Davies em Illéa. Você está bem? Aconteceu tanta coisa...
Senti algumas lágrimas correrem por minha bochecha. Eram tantas revelações para poucos dias que eu já me sentia dissociar dentro de mim mesma. No entanto, pensar em como Edwin havia matado nosso próprio pai me dilacerava mais do que tudo.
— Obrigada por aquilo. Eu estou bem agora. – Funguei, já sentindo que não conseguia segurar minhas emoções perto dele. – Você pode me deixar ver o Edwin?
Jasper torceu os lábios por um instante, e logo me encarou um pouco nervoso. Apesar disso, sorriu minimamente como sempre fazia para me acalmar, não importando o quão ruim a situação era.
— É claro que sim. É o seu irmão. – disse, olhando para os soldados de relance. – E também não quero enfrentar a ira de Avery Black.
Os homens se moverem para longe da porta assim que escutaram aquela última sentença. No entanto, só pude focar no toque da mão de Jasper na minha, guiando-me para dentro da enfermaria.
— Ele já está quase bem. Você vai ver. – sussurrou, enquanto meus olhos doíam com a claridade do cômodo a minha frente.
No fundo, havia ainda um calor entre nós dois. Uma chama que queimava lenta e dificilmente se apagaria, eu só não sabia mais o que Jasper representava de fato para mim.
Fale com o autor