Avalanche
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Notas iniciais
Abri meus olhos devagar. Minhas costas ardiam como o próprio inferno, e à medida que as lembranças voltavam, eu só queria chorar. Quando olhei ao meu redor, constatei que estava no quarto de meu irmão caçula, mais precisamente em sua cama de mogno. Ao lado, na cabeceira, estava seu antigo abajur de dinossauros que mamãe deu em seu último natal. Em meio a tanta dor e aflição, consegui sorrir pensando nela.
— Avy. – Senti um pouco de empolgação na voz de Edwin, ao mesmo tempo que me culpava por deixá-lo tão preocupado. – É melhor não se mexer.
Meu irmão chegou mais perto, até que eu encontrei seus olhos castanhos tão lindos. A pele bronzeada de Edwin era igual a de nossa mãe, mas as feições que carregava eram tão similares ao rei que as vezes ele mesmo se sentia mal por isso.
Senti sua mão na minha. Era nossa maneira de acalmar um ao outro.
— Eu odeio nossas vidas – Edwin sussurrou, seu olhar era cálido e sereno.
Minhas costas estavam cheias de panos quentes, tentei me mexer um pouco mesmo com a dor para ver o que havia ali. Algo pegajoso e esverdeado estava misturado ao tecido.
— Que merda é essa? – resmunguei, sentindo o cheiro estranho que aquilo emanava, uma mistura de enxofre e hortelã.
— Pare! – Edwin colocou suas mãos em meus ombros, fazendo com que eu parasse de me mexer. – Schmidt fez uma mistura de ervas com casca de árvore. Isso fez o sangramento parar, e ele ainda disse que ajudaria com a cicatrização.
Então meu irmão havia falado com Jasper. Não podia culpá-lo pelo desespero, seus conhecimentos em medicina não eram nada se comparados a um soldado de elite com treinamento médico. Embora Jasper Schmidt fosse meu melhor amigo e já soubesse da minha relação com meu pai, eu odiava pedir ajuda para alguém que não fosse Edwin ou Cameron.
— Não faça isso de novo, por favor – pedi. – Sei que estava desesperado.
Seu sorriso mais uma vez iluminou meu dia. Meu irmão sabia da minha relação com os Schmidt, o irmão de Jasper, Thomas, tinha sido o guarda-costas de minha mãe até ela morrer. Eu e Cam tivemos tanto contato com ele durante a infância em meio a guerra que Thomas havia se tornado uma referência de pai para todos nós. E como uma avalanche de gelo e problemas, óbvio que perdi aquele que era meu confidente e soldado mais fiel, durante a pior fase do relacionamento com meu pai, justo quando eu comecei a ser surrada igual um animal, Thomas me abandonou. Minha vida era tão cômica que ser princesa de um país poderoso não significava nada.
— Cam cuidou de tudo com os Schreave. – Edwin me tirou dos pensamentos, aliviando outra situação que eu já estava prestes a me importar. – Nosso pai parece ter atuado muito bem com o rei Maxon. – Colocou alguns dedos nos fios de barba que possuía. – Aquele homem não parece ser um rei que troca seus filhos por alianças. Talvez a situação de Illéa contra os rebeldes tenha voltado a piorar.
Ele estava tão pensativo e melancólico. Edwin havia sido deixado de lado pelo nosso pai mais uma vez, no fundo eu sabia que era melhor assim, mas meu irmão possuía apenas dezesseis anos e talvez quisesse algum reconhecimento paternal. Sempre se menosprezando.
— Obrigada pela informação, Ed. – o chamei pelo apelido, era assim que ele deduzia meu lado amoroso em nossa irmandade.
Dei um pequeno sorriso enquanto me ajeitava na cama, já sentia minhas forças voltando. De alguma forma, aquela pasta nojenta que fedia estava fazendo efeito. Quando olhei para meu irmão, ele seguia pensativo, dando alguns passos de um lado para o outro no piso de madeira. Edwin mal havia notado que eu estava tentando me sentar na cama. Minha blusa havia sido cortada para cuidar dos machucados, por isso vesti cuidadosamente a jaqueta de couro dele, que estava jogada do outro lado da cama com os lençóis. O quarto dele era sempre um caos incorrigível.
— Andei pensando... – começou, ainda sem encarar meu rosto. Um longo discurso viria por aí, Edwin não era do tipo que pensava, mas sempre era sábio em suas análises. – Schmidt me ajudou com algumas investigações sobre a família dos Schreave. Eles parecem genuinamente bons, a rainha America é amada pelo povo igual nossa mãe era. – respirou fundo, dessa vez olhando preocupado em minha direção. — Vai ser a mesma coisa que aconteceu aqui. Thomas acha isso também.
Engasguei com minha própria saliva ao escutar aquele nome. A ira de antes voltou de uma vez só. No entanto, eu não podia gritar com Edwin, não por causa dele.
Um casamento estúpido e um reino à beira de uma guerra civil. Era irônico se não fosse trágico. Nada em nossas vidas poderia piorar, se apenas o meu irmão caçula conseguisse sair desse circo de horrores já seria o suficiente para mim.
— O que Thomas disse? – perguntei, mesmo com os olhos ardendo em fúria pela traição de meu antigo leal amigo, eu sabia que nada no mundo mudaria as habilidades dele.
— Ele disse que Illéa tem uma nova força revolucionária ao sul do país, são alguns rebeldes que não aceitaram bem a retirada do sistema de castas – Edwin prosseguiu, fixando seu olhar mais uma vez na madeira escura do chão. Ele estava muito concentrado, provavelmente havia pensado em me dizer aquilo há vários dias. – A princesa Kaya é fundamental para uma aliança bélica com nosso reino.
— Sim, eu sei de tudo isso. Não é novidade, Edwin. – Fiquei impaciente por alguns segundos. – E eu sou a moeda de troca para garantir que uma mulher não pegue o trono inglês.
Ele se virou para mim, os olhos igualmente raivosos. Éramos todos temperamentais, mas os sentimentos de Edwin eram fervorosos demais para ignorar.
— Você não entende? – Gritou, seu semblante parecia zombar de mim. – Isso é uma dádiva, Avery. Olha o que o nosso pai faz com você? – os olhos castanhos marejavam em lágrimas salgadas, lágrimas de ódio. – Rei Maxon e rainha America parecem, de longe, melhores que os russos ou os italianos. Illéa é um país lindo, mesmo com os problemas no sul. Você vai ficar mais segura lá.
No fundo, eu sabia que aquela era a mais pura verdade. Eu ficava triste ao pensar na ausência de Thomas, quase me quebrava por dentro ao constatar que ele se aproximava de Edwin e o manipulava para chegar até mim, mas que se recusava a fazer contato. Algumas lágrimas escapavam de meus olhos esverdeados, os mesmos olhos de minha mãe e meu gêmeo.
— Eu já conheci o príncipe Alexander – disse, a voz um pouco mais cálida e carinhosa. – Ele é bom, Avery.
— Alexander? – revidei, arqueando as sobrancelhas por não fazer ideia de quem era.
O caçula sorriu. Algo tão genuíno que quase não acontecia.
— Sim, seu noivo. – disse. – Alexander Schreave.
Edwin soltou uma risada alta e tão infantil quanto o abajur de dinossauros ao meu lado. Se não me sentisse tão presa dentro de minhas obrigações, talvez achasse aquilo uma dádiva do destino. Mas no fundo eu só queria estar ao lado de meu gêmeo e de Edwin, protegendo cada um deles no meio daquela realeza estúpida de Lordes e guerras.
Não podia ser princesa. Não podia ser rainha. Não podia nem ser eu mesma.
***
Pensei por horas deitada na cama de Edwin. As costas não doíam mais, apenas quando eu me movia ou caminhava, em questão de dias eu estaria novinha em folha.
Quando o momento do chá da tarde havia chegado, meus pensamentos finalmente haviam se organizado dentro de minha mente. Em um primeiro momento, eu daria o que meu pai queria: aceitar o casamento e não me opor a nada. Enquanto isso, pediria aos meus soldados que investigassem a Câmara Comum, por sorte, os soldados de elite que eu comandava eram quase todos filhos de Lorde, era como uma tradição na Nova Inglaterra e as famílias que a seguiam eram tão prestigiadas quanto a realeza.
No entanto, como Cam estava sozinho cuidando da recepção dos Schreave e dos russos, resolvi que seria bom conversar com os sovietes. Por mais que fôssemos de países “amigos”, o príncipe-herdeiro Igor Pyetov e eu não nos víamos há quase uma década, jogamos xadrez em uma visita que ele fizera a Nova Inglaterra quando tínhamos cerca de nove anos. Igor era genial, sem sombra de dúvidas, mas eu era mais.
Resoluta a ir ao encontro do príncipe, me troquei o mais rápido que deu com minhas costas anestesiadas. Coloquei um traje preto de inverno elegante, um vestido curto de rendas que cobria grande parte de minha pele e que podia ser usado com uma calça preta de couro por debaixo. Eli, minha criada, me ajudou com o resto.
Seguindo pelos corredores arquitetônicos de minha casa, pedi informações de onde Igor estava ao soldado de elite que comandava a parte de segurança. Dallas era bom no que fazia, e ainda bem que fazia parte de meu pequeno círculo de aliados leais ali dentro. Obviamente, Igor estava no Bosque Real, o qual havia tantos quilômetros de extensão que uma pequena praça era dedicada a jogos de xadrez. Os russos amavam aquilo há séculos, era quase doentio.
Vi a figura trajada nas típicas roupas de pele me encarar por alguns segundos, sempre acompanhado de um guarda-costas e dois criados. Ele estava alto, os cabelos pretos iam até os ombros e os olhos castanhos me fisgavam. Embora Igor tivesse se tornado um homem charmoso, era fácil identificar que um russo não era fácil de conviver. Eles eram maníacos demais, só se davam entre si.
O príncipe soviete sorriu de lado quando cheguei mais perto, levantando-se para me dar um breve abraço.
— Soube que irá para aquele país de merda – sussurrou em meu ouvido, seu sotaque tornava as palavras mais afiadas ainda.
Igor continuava o mesmo, devasso e falando abertamente sobre política, com seu país sendo o centro das armas do mundo, era fácil impedir uma guerra antes mesmo dela se iniciar. Ninguém mexia com os sovietes, eles eram malucos.
Logo o príncipe se afastou, arrumando os detalhes em ouro de sua túnica de pele de lobo, o sorriso desdenhoso e com malícia ainda presente.
— Está tão parecido com seu pai que eu poderia lhe chamar de rei – comentei, descontraindo o clima tenso e sentando-me para uma jogada de xadrez.
Igor deu uma gargalhada alta e logo se sentou de frente para mim. Um tabuleiro cheio de peças nos dividia. Eu detinha as brancas, portanto começaria.
— Sabia que viria me ver – começou, obviamente inclinado a ter conversas políticas. Um russo sempre dizia tudo o que queria, não importava o que os outros achassem, em partes tinha sido isso que uniu nossos países. Meu avô era conhecido por ter a grandeza e a loucura como dois lados da moeda. – Quero deixar algumas coisas claras entre nós...
Em jugo pelas aparências, sorri com malícia, iniciando minha jogada de peões no tabuleiro.
— Diga, meu caro amigo – ordenei, o que o deixou levemente incomodado com meu tom. Igor era ainda mais sincero quando o pressionavam.
Ele falou algo em seu idioma para um de seus criados, sussurrou tão baixo que não pude entender. Quase que ao mesmo tempo, o jovem servente o entregou um pequeno cartão.
— Isso é para você, minha cara amiga – Igor me passou aquele pequeno pedaço de papel. Os olhos, no entanto, pareciam neutros de uma forma que eu nunca imaginei que ele pudesse ser. – Eu a facilmente tomaria por esposa, dada sua beleza. Mas sei que somos melhores como rivais amistosos.
Mais uma vez aquele maldito sotaque russo tornava o clima tão afiado que só consegui perder o fôlego ao escutar a palavra “esposa”. Peguei o cartão da mão de Igor com rapidez, notando que havia um número escrito ali. Seu contato pessoal.
Sempre em nome das aparências, soltei uma risada nervosa, tentando me desvencilhar daquela armadilha. Enquanto isso, ele mexia suas peças pretas.
— Quais suas intenções? – indaguei, fervorosa por uma resposta e alterando o curso de um de meus cavalos.
Igor fez uma careta, mostrando-se desentendido.
— Eu nunca te dei esse cartão – disse enquanto levantava-se e chegava mais perto de mim. – Nunca conversamos aqui e agora. – Igor olhou ao seu redor, constatando que além de seus criados e alguns de meus soldados, não havia mais ninguém ali. – Mas se precisar de ajuda do outro lado do oceano, saiba que temos esse tipo de aliança.
Ele parecia um bêbado. Articulando de forma estranha, brincando com os fios de meu cabelo preto como se fôssemos crianças mais uma vez. Eu não conseguia entendê-lo.
— Por que está me ajudando? – ergui o rosto, olhando profundamente em seus olhos escuros, ele estava tão próximo que era quase indecente.
Igor riu, mexendo suas mãos em movimentos desorientados. Quando sua risada cessou, fez mais um movimento com a rainha dentre suas peças. Xeque-mate.
Olhei o tabuleiro boquiaberta. Eu havia perdido em menos de dez minutos.
— Alguém está negociando por sua vida – foi tudo o que ele disse antes de tombar o meu rei e sair andando.
Prendi o ar, extasiada. Havia algo muito perigoso se formando por debaixo dos panos. E eu não tinha sequer noção de quando os pauzinhos começaram a ser mexidos.
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