Avalanche
9 Illéa
Notas iniciais
O castelo de Illéa era um pouco maior que o palácio de Buckingham, parecia bem mais vívido em cores e jardins também. Enquanto eu dava meus primeiros passos ali dentro, notei que havia uma recepção à minha espera, assim como para meus soldados e criados que eu trazia comigo da Nova Inglaterra. Achei aquilo um tanto amável da parte de rainha América, que sorria para mim e Alexander, enquanto Mason e o rei retiravam-se para um compromisso.
Meu misterioso noivo continuava mudo, por vários momentos eu me perguntava se havia realmente escutado sua voz durante o jogo de xadrez ou se havia sonhado com aquilo. Ele parecia sério e fechado o tempo todo, dando leves sorrisos com intenções desconhecidas em poucos momentos. Eu não conseguia decifrá-lo. Ainda.
Minha recepção consistia em um vasto banquete, com comidas típicas da Nova Inglaterra, como geleias e biscoitos, assim como tortas e doces. Segundo a rainha, era para que eu me sentisse em casa, à vontade para pedir o que quisesse no castelo.
Quando eu estava quase satisfeita de tanto beber chá de hortelã, notei que Alexander andava em minha direção, até então ocupado conversando com uma mulher que aparentava ter a mesma idade da rainha.
Coloquei a xícara de forma cuidadosa sobre o pires. O príncipe me estendeu sua mão pela segunda vez naquele dia.
— Acompanhe-me, por favor – pediu, a voz rouca e calorosa do mesmo jeito que eu me lembrava. Então aquilo não havia sido uma ilusão.
Peguei em seu braço. O corpo dele era quente como o sol de Angeles, e carregava a mesma indiferença de uma nuvem no céu, não se importando com aqueles ao seu redor. Sem explicações ou justificativas, Alexander me levou na direção de sua mãe e da mulher que eu analisava. Ambas sorriram, pareciam grandes amigas.
— Essa é a princesa Avery de Nova Inglaterra – rainha América disse, gesticulando para mim. – E princesa, conheça uma de minhas melhores amigas e madrinha de Alexander, Georgia Whitaker.
Ela fez uma curta reverência para mim, um tanto cômica, parecia apenas uma criada no final das contas, vestia-se com trajes floridos e sapatos surrados. No entanto, o sorriso que havia me dado parecia tão verdadeiro quanto o brilho em seus olhos. De cara, senti que havia algo bom nela, algo que me parecia ser um ímã de boas intenções.
— É um prazer conhecê-la, Georgia Whitaker.
A mulher pareceu adorar meu sotaque inglês ao pronunciar seu sobrenome. Alexander mostrou que se divertia também, mas logo continuou a me guiar para dentro dos corredores do castelo, inexpressivo e sem delongas.
— O marido dela é o conselheiro de guerra de meu pai, você provavelmente o conhecerá. – Ele mal se importava em virar o rosto para nos comunicarmos, me deixando chocada por escutar sua voz mais uma vez. – O nome dele é August Whitaker, meu padrinho.
Quando passamos por alguns soldados do reino de Illéa, notei que as fardas e o comportamento deles eram completamente diferentes dos ingleses. Aquele reino era algo que eu nunca havia visto antes, as flores desabrochavam em arranjos pelos longos corredores como se tudo fosse uma floresta viva, era como um paraíso que estava prestes a ruir.
Passamos por um vaso de camélias brancas em um dado momento, as flores que representavam minha mãe. Suspirei triste por um instante.
— Está tudo bem? – a voz de Alexander rompeu qualquer linha de raciocínio que eu pudesse ter, seus olhos caramelizados me fitando com uma expressão inextrincável.
— Sim – respondi. – Conte-me mais sobre August Whitaker.
Foi a única coisa que se passou por minha mente.
— Não há muito mais o que dizer.
Mal me dei conta, porém, logo depois de alguns minutos subindo uma pequena escada, estávamos de frente as portas dos aposentos que seriam meus. Os detalhes minuciosos em mármore e o chão de pedra já me davam vontade de voltar para casa.
— Espero que se sinta confortável aqui. – Alexander soltou meu braço delicadamente, abrindo as portas para que entrássemos. Eu ainda não acreditava que havíamos conversado mais do que três frases em um curto espaço de tempo.
Meus olhos brilharam. O quarto era rústico e cálido. Havia poltronas em couro, quase iguais aos do Escritório Real em Buckingham. Minha cama era maior ainda, mas seguia o preceito da decoração em madeira escura que eu amava. Parecia-se bastante com o meu quarto na Nova Inglaterra, apenas havia muito mais iluminação e luxo, coisas que eu detestava. Por um momento, fiquei extasiada com aquilo tudo.
— Como... – as palavras não saíam de minha garganta.
— Seu irmão comentou sobre seus gostos arquitetônicos.
Eu não entendia como ele conseguia ficar tanto tempo sem sequer mostrar suas verdadeiras expressões faciais, sempre contido. Alexander continuava sério, de uma forma que começava a me irritar. No entanto, o comentário sobre meu gêmeo havia me enchido de alívio. Cameron estava fazendo o possível para me proteger, e eu começava a perdoá-lo internamente.
— Vou deixá-la com seus pensamentos.
O timbre rouco do príncipe foi como um baque em minha mente, que já estava afundada em saudades de meus irmãos e de meu reino. Tratei de me recompor, encarando-o com uma expressão tão idiota que daria tudo para sumir.
— Obrigada pelo cuidado – e pela primeira vez, mesmo que corada, consegui soltar um sorriso mínimo em sua direção.
No instante em que meu gesto o atingiu, vi que seus lábios se contorceram levemente. Eu não sabia o que aquilo significava.
— Amanhã, por volta das oito, teremos uma reunião de assuntos militares – as palavras dele eram rápidas, diferentes do tom contido e calmo que antes carregava. – Passarei aqui para te guiar. O rei exige nossas presenças.
Com passos firmes, Alexander apenas me deu as contas, deixando-me sozinha naquele vasto cômodo em um reino desconhecido, tomada por uma tristeza e uma satisfação que eram mais confusas do que todas as dúvidas em mim.
☆
Quando acordei no dia seguinte, a luz do sol quase me cegava. Provavelmente as cortinas não eram escuras o suficiente para cobrir a luminosidade do verão de Illéa.
— Eli – gritei, era tão reconfortante saber que minha criada estava comigo. – Me ajude com a luz, por favor.
Em questão de segundos, escutei vários passos correndo pelo meu quarto. Quando abri os olhos, vi que Eli não estava sozinha, havia também uma outra criada com ela, mais ou menos de minha idade, pequenina e com cabelos loiros. As duas fizeram uma reverência.
— Quem é você? – fiz uma careta.
— E-eu sou... Lina, Alteza – gaguejou, a voz fina e temerosa. – Servirei a senhorita aqui em Illéa.
Olhei confusa para Eli.
— Foi a pedido da própria rainha. Eu não pude recusar, princesa.
Comecei a divagar sobre as intenções da monarca, até que me lembrei de que teria uma reunião com o rei em poucos minutos.
— Tanto faz – balancei a cabeça, indicando que não estava brava com nenhuma delas. – Bem vinda aos meus aposentos, Lina. Agora, por favor, me traga um pouco de café enquanto me visto. Eli sempre me ajuda com o vestuário.
A pequena saiu quase correndo do cômodo, deixando apenas eu e minha criada.
— Fique de olhos bem abertos pelo castelo, Eli – pedi, minha voz soava gentil, mas carregava uma grande mensagem para ela.
O sorriso que meu deu foi o suficiente para me garantir que tudo estava conforme o plano. Sem perder mais tempo, fui até o grande guarda-roupa de madeira antiga que havia ali, peguei o traje que eu usava nas reuniões da Câmara, um típico vestido inglês azul marinho que ia até meus joelhos, fechado nas costas e de mangas curtas. Para finalizar, calcei meus coturnos e minha meia-calça. Tomei o café de Lina quase em cima da hora.
Quando me olhei no grande espelho que decorava a parede, notei que eu carregava o brasão da coroa inglesa e o leão da família Schmidt com o máximo de orgulho que Avery Black poderia ter. Não havia me esquecido das palavras de Jasper.
“Por razões militares, adie seu casamento o máximo que der”.
Respirei fundo, fechando os olhos para meditar por alguns segundos. Não tinha detalhes da reunião, mal sabia quem estaria lá, mas já tinha a pista de que talvez August Whitaker contasse como presença se os assuntos forem militares, caso ele fosse tão gentil quanto Georgia, eu não deveria me preocupar por enquanto. O rei era um mistério, por mais que o achasse fascinante em vários atos. Tentei relembrar o máximo de informações que tinha recolhido, pensando tanto que me sentia em outro universo. Antes que pudesse continuar em minha insanidade, escutei alguém bater apressado na porta.
Quando saí para o corredor, mal tive tempo de olhar no rosto de Alexander, ele pegou meu braço rapidamente e começou a andar com passos ávidos, seu toque era brusco e aquilo me deixava ainda mais insana.
— Achei que os ingleses fossem pontuais – comentou, ríspido e um pouco irritado. Eu o olhei como uma criança indefesa sem entender nada. – Bati em sua porta várias vezes, princesa.
Opa. Eu mal havia notado aquilo. No entanto, não era uma desculpa válida. Soltei seu braço enquanto andávamos, mostrando minha irritação que só aumentava com suas atitudes. Em um minuto, ele era desinteressado, em outro parecia sociável e agora, com todo certeza, não passava de um idiota.
— Na verdade, nós estamos atrasados há quase um milênio – falei, deixando-o um pouco perplexo com minha atitude. – Não vê que nem mulheres herdeiras podem assumir o trono?
A expressão de raiva se desfez em seu rosto automaticamente, já estávamos de frente para as portas do local da reunião. Alexander parecia extasiado demais para me responder. No entanto, seus lábios se mexeram mesmo assim.
— Desculpe. – pediu, girando a maçaneta e voltando ao seu desinteresse de sempre.
Dentro da sala, pude notar que o rei nos esperava sentado em uma escrivaninha cheia de papéis organizados, havia dois homens ao seu lado, ambos com traje militar. Era quase como o Escritório Real de meu palácio, mas possuía muito mais livros e cores vívidas na decoração. As cortinas rubras esvoaçavam com o vento de verão, fazendo meus olhos doerem pela luminosidade que entrava. Pisquei várias vezes.
— Está tudo bem? – disse um dos homens ao lado do rei, enquanto caminhava na direção das janelas com um andar um pouco lento. Quando a sala ficou um pouco mais escura, pude notar que usava uma bengala.
— Obrigada, senhor – falei, encarando o outro rosto desconhecido.
— Sou August Whitaker – apresentou-se, provavelmente vendo minha curiosidade. Ele tinha uma boa expressão assim como a esposa. – Ajudo Maxon com algumas questões, embora o general Aspen Leger seja bem mais estratégico do que eu.
Nenhum deles se reverenciou, o rei soltou um pequeno riso com o comentário. E, por algum motivo, eu adorei aquele clima. Quando ia me apresentar, notei que uma garota entrou apressada pela porta junto de Mason Schreave. Então eu não era a única atrasada. Alexander pareceu irritado com a presença do irmão, imaginei o que devia haver entre os dois.
— Desculpe, pai. Eu e Maia estávamos falando com minha mãe e Georgia – o príncipe herdeiro se explicou.
A garota que havia entrado com ele ficou ao lado de August, ambos se pareciam muito em feições e sorriso, imaginei que fossem pai e filha. Com apenas um olhar, senti uma inveja que me abateu em cheio.
— Princesa Avery, fico grato com sua presença – o rei disse, enquanto levantava-se de sua escrivaninha. – O motivo de ter chamado todos aqui é para um exercício de estratégia, será interessante para descobrir um pouco mais sobre o raciocínio que vocês detêm. Temos uma situação no Sul do país que todos sabem que é delicada. – O monarca separou dois envelopes dentre os tantos papéis daquela mesa. – Essas são algumas informações do grupo rebelde com o qual estamos lidando, características mais gerais e superficiais. No entanto, quero que forneçam uma abordagem de como lidar e eliminar essa ameaça, não precisa ser algo muito elaborado, mas é crucial que faça sentido. – Peguei um dos envelopes da mão do rei, assim como Mason. – Vocês têm meia hora.
— Eu observarei vocês dois – August disse, sorria para mim e Alexander. – Vamos para aquele canto.
A sala era bem grande, o suficiente para que nós três ficássemos longe de Maia, Mason e o general, que os auxiliava. Quando nos sentamos em uma pequena roda, notei que Alexander me olhava um pouco indeciso.
— O que foi? – questionei, retirando pelo menos dez folhas do envelope, todas cheias de informações que não pareciam tão superficiais assim.
August riu, devia conhecer bem seu afilhado.
— Não gosto de ter que pensar nessas coisas – respondeu, o olhar desmotivado e preguiçoso era cúmplice. – Prefiro outros assuntos menos complicados.
Lembrei-me de quando era criança, eu também odiava tudo que se relacionasse com assuntos do Exército Inglês. O guarda-costas de minha mãe era bem versado na arte da guerra, depois da morte da rainha, ele havia me ensinado muito do que eu sabia atualmente. Pensar mais uma vez em Thomas Schmidt e sua família fez meu coração doer. Mesmo com a lealdade deles em meu peito, me sentia abandonada, Cam tinha sorte em ter um futuro conselheiro que emanava a figura paterna que éramos carentes.
— Não perca tempo – a voz de Alexander foi gentil em me salvar de mim mesma, por um segundo achei que estivéssemos nos entendendo. Ele não parecia ruim, mas ainda era um mistério. – Você terá que fazer tudo sozinha e só tem meia hora.
Virou o rosto para a esquerda, apoiando uma de suas mãos no queixo. Eu sabia qual postura era aquela, estava aprendendo a lê-lo por meio de seu comportamento.
— Ainda bem que não pedi a sua ajuda – respondi um pouco ríspida, apenas para cutucá-lo. No fundo, só queria desfazer qualquer laço que nos levasse a um casamento.
August riu baixinho, atento em nossa interação.
Do outro lado da sala, eu podia ver Mason exaltado ao conversar com o general, Maia parecia mais calculista e lia com atenção as folhas. Resolvi que tomaria o mesmo rumo que a garota, se não lesse rápido o suficiente teria menos tempo para pensar em algo.
Meus olhos corriam por palavras e mais palavras, o Sul de Illéa possuía um relevo plano e o clima um pouco mais quente do que Angeles. Os rebeldes eram famílias ricas que haviam se juntado para uma aliança, autodeclaravam-se como a “Sociedade do Sul”, o que indicava que seus pequenos motins eram feitos por mercenários, pagos e eficientes. Eles matavam cidadãos civis que eram das antigas castas do país, como seis, sete e oito. No entanto, me perguntava como haviam se organizado tão bem em menos de duas décadas.
— Explique-me como se deu o começo das rebeliões no Sul com poucas palavras, por favor – pedi a August quando havia terminado de ler, ele me olhava atento. – Não parece ser algo recente.
Alexander prestou atenção em nossa conversa, talvez interessado por algum motivo desconhecido. O tempo se passava, e eu precisava me provar útil.
— Bem observado, princesa – respondeu o homem. – O Sul sempre teve sua cota de problemas, uma organização rebelde anterior já teve sua base naquele território. Eles possuíam motivos puramente anárquicos, e chegaram a matar os antigos monarcas em um atentado ao castelo na Seleção de rei Maxon. Organizei algumas tropas na época e conseguimos desfalcá-los, mas acredito que o resto desses rebeldes tenha se unido a essa nova organização.
Péssimo. Havia vários motivos então, mais vastos do que somente as antigas castas ou a posição social, eles também tinham o ódio e a fúria pela monarquia. Suspirei melancólica ao pensar naquilo tudo, eram muitas informações. O rei havia perdido seus pais assim como eu havia perdido a minha mãe, talvez fosse por isso que ele sempre me tratava com tanta empatia e gentileza. No entanto, como a rainha inglesa havia sido morta era um segredo que poucos sabiam, dificilmente aquilo teria acontecido com os antigos soberanos de Illéa. A realeza de Nova Inglaterra era cheia de tragédias secretas.
Não pude me conter com aquela linha de raciocínio, senti meus olhos marejarem. Os gritos de minha mãe cortando meu crânio como uma faca.
Respirei fundo, levantando-me bruscamente e andando em círculos pela sala. Eu estava nervosa, August e Alexander pareciam preocupados, mas não diziam nada.
— Dez minutos! – escutei a voz do soberano de Illéa.
O panorama era quase o mesmo de Nova Inglaterra a dez anos atrás, as coisas só tendiam a piorar. Quando os rebeldes nórdicos nos invadiram, eles continham o mesmo fogo e fúria que os faziam odiar as monarquias que não os ajudavam. Infelizmente, meu pai não tinha culhões para lidar com aqueles selvagens e cometeu um erro militar nas terras do Norte. Aquilo nos custou uma guerra e a vida de minha mãe. Em Illéa, aquilo não poderia se repetir. Tentei imaginar a jovem Kaya e a rainha América sendo sequestradas e mortas.
Era doentio, minha cabeça doía ao entrar em um certo nível de colapso.
Não aguentando mais, eu roí uma de minhas unhas, sem me importar mais com minha postura. Só havia um caminho que pudesse ser tomado para lidar com aquela situação antes que piorasse. A Seleção provavelmente desagradaria a Sociedade do Sul ainda mais, e ataques gravíssimos poderiam ser manifestados.
— Os números militares são bons? – encarei August, ele parecia me observar em cada movimento.
— Razoáveis, mas os armamentos e o treinamento deixam ainda mais a desejar. Estamos tentando resolver isso já tem...
—Perfeito. – Eu o cortei.
Era nesse momento que os casamentos arranjados entravam. A Nova Inglaterra possuía um arsenal quase semelhante ao da Rússia, e era mais diplomática que a personalidade difícil do rei Sergey Pyetov, o pai doente de Igor. Kaya havia sido inteligente e corajosa ao tentar sugerir o noivado ao meu irmão, mesmo tendo uma postura ainda bem infantil. Imaginei que ela não poderia ter pensado naquilo sozinha.
Soltei um sorriso doentio. O estresse corria por minhas veias, mas eu me sentia quase genial.
— O tempo acabou – A voz de rei Maxon soou como um tiro. Mason e Maia pararam de falar no mesmo instante.
August e Alexander estavam confusos, olhando para mim apreensivos. Eu podia adivinhar o pensamento deles com facilidade.
— Conseguiu pensar em algo? – disse o príncipe.
Tudo o que eu pude fazer foi soltar uma gargalhada alta e debochada.
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