Avalanche

38 Feliz Aniversário


Notas iniciais
Queridos leitores, um aviso: esse é o penúltimo capítulo, sem contar o curto epílogo que teremos, muito similar ao prólogo. Também aproveito para avisar que esse capítulo extrapolou todos os limites de palavras que eu havia feito para mim mesma. A leitura pode ficar cansativa, sendo quase 5 mil palavras rsrsrs Mas eu garanto do fundo do meu coração que o final promete! Boa leitura, queridos amigos/leitores.

Era simplesmente a melhor festa que eu poderia pedir. Alexander havia combinado com os criados vários preparativos em segredo, o que contava com um show de música clássica ao vivo e muitas mesas de doces do mundo todo. Não tinha palavras para descrever o que sentia naquela noite. A iluminação estava perfeita, pensada para agradar os meus olhos tão sensíveis. No entanto, alguns fotógrafos foram inevitáveis no meio tempo, e as estrelas da noite eram Cam e eu, o que me rendia um certo desconforto toda vez que um flash me cegava.

— Você está bem? – Alexander perguntava de tempos e em tempos, e eu ria até as lágrimas escorrerem.

— Claro, foi só mais um flash. Devo sair horrível e piscando em todas as fotos, por isso eles tiram muitas. – comentei sorrindo, enquanto limpava os olhos com medo de borrar a maquiagem.

— Você está linda de qualquer jeito.

Não queria admitir. Mas sim, eu me sentia linda. Usava um vestido azul marinho longo, com algumas camadas de rendas transparentes repletas de estrelas prateadas. Além disso, Eli havia caprichado na maquiagem e também na escolha de um salto alto preto de verniz. Nunca havia me dado ao luxo de ser uma princesa comum, mas me sentia bem pela primeira vez no papel.

Aquela era a noite dos sonhos que eu nunca nem havia sonhado. E eu só conseguia sorrir.

— Oh! Acho que nunca te vi assim... – Edwin falou, com algumas lágrimas nos olhos e me abraçando de repente. Eu mal sabia de onde ele havia surgido.

Rimos por um instante. E o meu irmãozinho logo me estendeu um embrulho de bolinhas azuis, em que o laço parecia extremamente torto.

— Desculpe, não sei fazer isso direito. – disse ele, dando de ombros.

Quando abri o presente, fui tomada por uma grande surpresa. Era uma bola de cristal com uma camélia branca dentro, a flor preferida de nossa mãe.

— Isso é lindo! – exclamei, o abraçando. – Muito obrigada, Ed!

Antes que eu pudesse assimilar aquilo, vi que Cameron chegava dentre os convidados para me ver. Kaya estava logo em seu encalço. E por um segundo, apenas admirei o loiro e o moreno dos cabelos se contrastando. Ambos ficavam lindos juntos, assim como eu e Alexander devíamos ficar.

— Também temos algo para você, Avy. – Cam disse, sorrindo para mim. – Na verdade, foi a Kaya que fez. Eu só dei a ideia.

A princesa me entregou um embrulho pequeno e super bem feito. Pedi a ajuda de Alexander para segurar a camélia branca de Edwin, enquanto dava de cara com um presente mais do que especial.

Era uma pequena telinha que Kaya havia pintado. Nela, Cam e eu andávamos juntos em um dos jardins ingleses, enquanto Edwin vinha correndo em nossa direção, trazendo uma flor para nos dar. Devíamos ter cerca de uns trezes anos na pintura, enquanto meu irmãozinho não passava dos dez.

Aquilo representava nós três depois que a mamãe se foi. Sempre nós três.

— Amo você, idiota. – Abracei Cam em um solavanco, enquanto algumas lágrimas saiam de meus olhos sem que eu quisesse. – Nunca mais me faça chorar assim no nosso aniversário. E não precisava de um presente, você é meu gêmeo.

— Claro que precisava. Infelizmente, roubei o seu espaço no útero e outras coisas.

— O que é seu é meu também, Cam. – falei, e pude ver seus olhos verdes brilharem. Talvez Jasper tivesse mandado a mesma polaroid com a mensagem para ele.

Edwin pegou a telinha de minhas mãos, contemplando a obra de arte.

— Eu fiquei lindo. – disse, me fazendo sorrir ainda mais.

— Acho que fiz um bom trabalho. – Kaya riu e piscou para Alexander atrás de mim.

Olhei para o príncipe de Illéa por um momento. Ele parecia um tanto cúmplice com aquilo tudo, e semicerrei meus olhos em sua direção. No entanto, antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, Alexander estendeu um presente na direção de Cam, tão bem embrulhado que devia ter sido ele mesmo que fez.

— Kaya vazou algumas informações. E me lembrei de algo que Avery uma vez disse sobre piano e Clair de Lune.

Meu gêmeo sorriu e abriu a surpresa, totalmente sem palavras. Em poucos segundos, vi lágrimas em seus olhos e ele me mostrou o quadrinho. Alexander havia pintado uma mulher grávida ao piano, com uma pequena garotinha que se parecia muito comigo sentada ao seu lado, enquanto outro garotinho muito parecido com Cam agarrava uma das pernas dela.

— Era exatamente assim em algumas noites... Muito obrigado pelo presente!

Meu irmão limpou seus olhos, e Alexander parecia mais feliz ainda com o resultado. Em um momento, senti Edwin agarrar minha cintura. Seu olhar parecia um pouco triste com aquelas memórias todas.

— Ei, vamos comer alguns doces. – Tentei animá-lo. – Ou rir do Mason tendo que lidar com as famílias das Selecionadas.

Todos riram com meu comentário, e começamos a olhar ao redor para tentar achar o maldito do Mason. As garotas e suas famílias estavam com mesas um pouco mais distantes da realeza, mas todos se moviam de um lado para o outro incansavelmente. Mesmo com poucos convidados para os padrões reais, parecia impossível achar o príncipe-herdeiro.

Por outro lado, vi Igor com uma taça de vinho em mãos, andando um pouco sobressaltado pelas mesas e esbarrando em algumas pessoas. O russo estava com os olhos cravados em nós, mas já nem devia estar enxergando direito à essa altura.

Rodei os olhos pelo salão de festa, a procura de Yekaterina. Algo pesou em meu coração assim que a vi sentada, conversando com Thomas e o senhor August Whitaker. Os dois pareciam falar sobre algo um pouco sério, pois a futura rainha da Rússia colocava uma de suas mãos nas costas do antigo guarda-costas, como se tentasse confortá-lo.

Encarei Igor quando ele chegou mais perto de nós.

— Acho que é uma boa hora para dar a vocês isso, queridos amigos. – disse, e não vi nenhum sorriso maníaco em seu rosto. Muito pelo contrário, Igor parecia sóbrio e controlado.

O russo tirou um par de chaves de entre as peles de seu traje. Jogando uma para mim e outra para Cameron.

— Um chalé em Kiev para as férias. – explicou. Logo, olhou para mim e seu sorriso desdenhoso apareceu. – Dokazhi, chto ty khorosh v posteli. Kholodnyy seks eto khorosho, pokazhite printsu svoi umeniya kompensirovat' krivoy nos.

“Prove que é boa de cama mesmo. Transar no frio é muito bom, mostre suas habilidades ao príncipe para compensar esse nariz torto que você tem.”

Fiquei vermelha. De ódio e vergonha.

Mas isso foi pior ainda, pois Igor gargalhou alto e bebeu todo o vinho de sua taça em uma golada só. Enquanto isso, ninguém ao nosso redor entendia nada, e Alexander já estava prestes a me perguntar a tradução.

— On uzhe znayet moi sposobnosti. I ne trat'te vremya na razmyshleniya ob etom. YA nikogda ne budu trakhat' tebya. – respondi fervorosa, cruzando os braços.

“Ele já sabe das minhas habilidades. E não perca seu tempo pensando muito nisso, não é como se eu fosse me divertir com você em algum momento.”

Igor engasgou com a bebida, tossindo por vários instantes e derrubando vinho para todo lado.

— Meu deus! O que você disse a ele? – Kaya perguntou, sobressaltada assim como os demais.

Senti os olhos de Edwin e Alexander curiosos para cima de mim, enquanto Cam já devia imaginar o teor sexual da conversa e se segurava para não rir.

— Ela disse... – O russo bateu no peito, tentando se recuperar. – Que adorou o presente e... É muito grata a mim! Muito grata mesmo!

Mordi os lábios para não chorar de rir com o lado cínico de Igor. A expressão de Kaya era impagável, ela parecia assustada demais para perguntar qualquer outra coisa.

Aproveitei a distração de todos para olhar a mesa de Yekaterina, Thomas e August mais uma vez. A conversa séria entre eles parecia continuar. E eu já estava com medo do que poderia ser.

— Igor, fale comigo por um instante. – Pedi, entregando os presentes que recebi para Alexander, o qual me olhou de um jeito estranho, como se já soubesse que algo não estava certo. – Quero tirar algumas dúvidas com você sobre o chalé que eu... adorei.

— Claro. Deixe-me pegar mais vinho.

O russo foi até a mesa de bebidas mais próxima. Enquanto isso, Kaya e meus irmãos começaram a conversar animados entre si, deixando-me sozinha com Alexander.

— Não está tudo bem. – Ele sussurrou em afirmação.

— Está sim. Essa noite é perfeita e nada jamais poderia mudar isso. – Dei um beijo em sua bochecha, antes de Igor retornar.

— Tudo bem então. Acho que te entregarei meu presente de aniversário mais tarde. Já é quase meia-noite e quero que tudo continue perfeito.

Eu sorri, um pouco sem jeito.

— Obrigada. Volto em alguns instantes. Não é nada demais.

Andei na direção do russo, o qual me estendeu uma dose de whiskey. Bebi de uma vez. Ele era uma péssima influência, mas o assunto que trataríamos pedia um pouco daquilo. Igor já devia saber que era algo sério.

— Vamos, diga as dúvidas sobre o chalé que você adorou. – disse de forma irônica, guiando-me para uma mesa um pouco afastada dos convidados.

— Você parece mais próximo do Thomas do que eu. – Confessei baixinho. – Queria apenas saber porque ele está estranho.

Igor respirou fundo, parecia incomodado.

— Se eu estivesse estupidamente bêbado, eu te contaria. Mas como não estou, só posso garantir que ele não está estranho. – Gesticulou, brincando com alguns fios de meu cabelo enquanto sorria sem mostrar os dentes. – Thomas apenas está nervoso com algumas coisas. Não é como se a vida dele fosse fácil...

— Liguei para ele esses dias. Falamos sobre minha mãe. – comentei, fazendo o russo ficar estático por um instante. – Acha que ele está mal por minha culpa?

— Não. De jeito nenhum. – respondeu, bebendo mais vinho. – Thomas é solitário. Você devia ligar para ele de vez em quando. Eu faço isso bastante e ele odeia, mas quando não ligo, Thomas me liga de volta para perguntar se caí da escada ou algo do tipo...

O russo soltou uma pequena risada, sincera e gostosa de ouvir. Em seguida, me olhou fixamente com suas íris escuras como a noite, talvez esperando alguma reação minha.

— Acho que não sei lidar direito com algumas pessoas. – Admiti, suspirando fundo para dizer o que estava em meus pensamentos. – Aliás, desculpe pela última vez que você esteve aqui. Não queria ter dito aquelas coisas, Igor. Você ajudou tanto Illéa que só posso pensar que fui uma ingrata.

Ele fechou os olhos, sorrindo sem malícia por um instante.

— Acho que você tinha seus motivos. E eu sinto muito pelo merda do Desmond. Da próxima vez que alguém te fizer mal, conte com seus aliados. Jamais vai precisar se sujeitar a algo ruim de novo.

— Obrigada. – Sussurrei. – Mas agora já acabou. Meu odioso pai está morto.

Igor gargalhou alto de forma debochada, tragando o resto do vinho em uma golada só.

Não entendi o motivo de sua atitude. E só pude concluir que ele tinha picos de pura loucura em alguns momentos. Fiquei observando enquanto o russo andava entre as mesas, bebendo algumas doses aleatórias de whiskey e depois seguindo em direção a mesa de sua noiva.

Ele simplesmente havia me deixado sozinha.

No entanto, já era quase meia-noite e eu sabia que a melhor parte da festa ainda estava por vir. Concentrei-me em aproveitar o resto de minha noite, buscando Alexander para cumprimentarmos Marian antes do bolo.

O príncipe havia guardado meus presentes, e me olhava como se o mundo girasse ao nosso redor.

— Vamos conhecer o pai de Marian. Rápido. – falei, agarrando seu braço.

— Uma boa ideia. Talvez o Mason dê as caras também. Ele queria te desejar feliz aniversário.

Caminhamos dentre as mesas azuis e prateadas, vendo as expressões das pessoas que nos olhavam como se fôssemos celebridades. No entanto, pude ver a mesma Selecionada de antes em uma das mesas, onde dois homens sentavam-se ao lado dela. Se Tayse Blanc já possuía um olhar medonho, aqueles que pareciam seus parentes eram ainda piores.

Desviei o olhar, focando-me nos cabelos quase brancos de Marian perto dos quitutes ingleses. Como previsto, Mason estava ao seu lado, conversando com um senhor de idade que possuía a mesma cor extraordinária de cabelos que sua filha.

A Selecionada nos viu e acenou.

— Eu já ia chama-los! – disse ela. – Papai, quero que conheça uma nobre amiga que fiz aqui no castelo, a princesa Avery Black. – Sorriu. – E princesa, esse é Wolfgang Kodak. Meu amado pai.

— É um prazer imenso, senhor. – Estendi a mão, cortando a reverência que achei desnecessária. – Sua filha tem muito potencial para xadrez!

O pai de Marian ficou um pouco sem jeito, tocando em minha mão como se eu fosse feita de porcelana.

— É um elogio muito bom, Alteza. – disse, e sua voz parecia um pouco frágil demais, mas cheia de sinceridade. – Fico feliz que Marian tenha feito uma amiga com tanto bom gosto para jogos.

Sorri, enquanto Alexander também estendia sua mão.

— É um prazer, senhor Kodak. Sou Alexander Schreave.

— Oh! – exclamou o homem. – Eu o vi na TV poucas vezes, Alteza. Mas gostei de seu rosto. Soube que era uma boa pessoa logo de cara, como sua avó.

Mason, que estava quieto, apenas sorria para aquela cena toda. Parecia realmente feliz com os frutos do acordo que tínhamos feito. E eu estava louca para vê-lo se embebedar com Igor.

— Meu irmão é um pouco recluso. Gosta de uma vida mais privada. – O príncipe-herdeiro finalmente disse algo.

— E ele está certo! – O homem sorriu para Alexander. – Assim ele pode viver a própria vida sem se preocupar com o que o povo pensa. É um ato humilde.

— Papai! – Marian chamou a atenção, mas o senhor Kodak se fez de desentendido.

Algo me dizia que, se Mason quisesse mesmo ser parte daquela família, teria que ser mil vezes menos arrogante para se dar bem com seu possível sogro.

Troquei um olhar confidente com Alexander, que logo em seguida olhou as horas em seu relógio de pulso.

— Já está quase na hora. Vamos chamar seu irmão.

Nos despedimos rapidamente dos três. Wolfgang Kodak não parava de olhar com admiração para Alexander, e Mason fingia não estar enciumado com aquilo.

Fomos buscar meu gêmeo na mesa de doces russos, em que ele, Kaya e Edwin estavam.

— Venha comigo, Cam. Está na melhor parte. – Puxei o braço dele, fazendo-o se sobressaltar e rir, mas vir em minha direção.

— O que você aprontou, Avery?

— Você vai ver. – Alexander falou por mim.

Cam ficou meio sem jeito, andando em direção a mesa principal comigo. Os monarcas de Illéa sorriram para nós de seus lugares, e pude ver a rainha conversando com uma mulher ruiva igualzinha a ela, a qual ficava me observando em vários momentos da festa.

— É a tia May. – Alexander disse baixinho em meu ouvido, acenando para a irmã de sua mãe logo em seguida. – Ela está com vergonha de falar com você, mas te achou linda.

Sorri sem saber o que dizer ao certo, fazendo uma nota mental de ir falar com aquela mulher depois.

Faltavam menos de dez minutos para a meia-noite e queria ver a reação de Cam ao ver o bolo. Eu havia me esforçado muito para pensar em algo surpreendente, e estava mais do que feliz com o resultado dos confeiteiros.

No entanto, antes que eu pudesse explicar qualquer coisa ao meu gêmeo, vi a figura de Thomas caminhar em nossa direção. Os guardas já estavam arrumando espaço para a passagem do bolo, então pude ver com clareza quando o homem de cabelos pretos e traje militar passou dentre as mesas.

Cam sorriu para ele, mas Thomas pareceu um pouco desconfortável à medida que chegava mais perto de nós, em especial de mim.

— Feliz aniversário! – disse, e sorriu de canto, olhando para mim por um instante. – Você fica parecida com sua mãe quando está feliz. Devia ficar assim mais vezes.

Mordi os lábios. Não tinha como não lembrar dela em cada aniversário.

— Obrigada, Thomas. – Segurei as lágrimas, vendo que ele também parecia conter muitas emoções.

Cam apertou meu braço.

— Depois que a festa acabar, o Thomas queria conversar com a gente sobre um assunto importante, aquele mesmo que eu te falei quando nos despedimos. O que acha?

Algo no tom de voz de meu gêmeo parecia nervoso, mas ele se controlava bem. Em contrapartida, Thomas apenas me olhou esperançoso.

— Claro. – falei sem pensar, um pouco apressada com o horário. – Mas vamos focar na surpresa que preparei por agora. Acho que você irá amar.

Cam assentiu, mas contraiu os lábios.

— Thomas, pode ficar aqui conosco? – Ele pediu, e os olhos do antigo guarda-costas se arregalaram em surpresa.

— Se não for incomodar sua irmã, eu ficaria feliz com a honra.

Eu sorri, um pouco envergonhada, mas assenti com a cabeça.

Lorde Schmidt ficou ao lado de Cam, e então subimos todos juntos em um pequeno palanque que haviam montado a pedido de Alexander. Além disso, o príncipe estava chamando seus pais para irem ao nosso encontro, nos desejar as felicitações e se prepararem para a chegada do bolo.

— Feliz aniversário, meus amores! Bem-vindos a família! – A rainha América disse quando veio até nós, abraçando Cam e eu ao mesmo tempo. Seu cabelo ruivo estava trançado em um coque, o que deixava seu rosto iluminado e ainda mais feliz.

— América! – Rei Maxon riu envergonhado da fala da esposa, logo vindo apertar a mão de Cam com um olhar mais feliz que o de América. No fundo, o rei parecia finalmente em paz com a união de Kaya, e também não se intrometia no meu relacionamento com Alexander. – Feliz aniversário, meus queridos. Espero que tenham uma vida maravilhosa. Illéa nunca vai esquecer de vocês!

Meu gêmeo e eu agradecemos em uníssono, um pouco sem jeito pela atitude do rei. Os monarcas ficaram atrás de nós no palanque, assim como Igor e Yekaterina, que apenas acenaram enquanto se abraçavam. A mulher de cabelos vinhos ficava ainda mais bonita com a barriga da gravidez, e eu simplesmente não entendia como ela aguentava o lado cafajeste de Igor.

— Avery, é agora! – Alexander gritou, indo em direção aos guardas para dar o sinal esperado.

Faltavam dois minutos para a meia noite. E quando as portas do salão de festas se abriram, um bolo de três andares estava passando em um carrinho por entre os convidados. Peguei na mão de Cam, suando frio e ansiosa para ver o que ele acharia daquilo.

Em um certo momento, notei que Thomas parecia olhar para algo dentre os vários convidados abaixo de nós. Sua expressão era séria, e eu não sabia dizer o que poderia ser ruim em meio a melhor festa de aniversário de minha vida.

O bolo foi se aproximando de nós. Os detalhes já podiam ser vistos.

— Olhe só, metade dele é sua e metade é minha! – falei, enquanto meu irmão sorria sem parar.

A cobertura era de pasta branca em uma metade e de pasta escura na outra. De um lado, havia o céu inglês e elementos que remetiam a Cam, como livros, seus doces preferidos e alguns cavalos. Do meu lado, no entanto, havia o céu noturno com algumas estrelas, um tabuleiro de xadrez e o símbolo das Forças Armadas da Nova Inglaterra.

Aquilo tudo era uma obra prima, quase uma pintura tão bela quanto as de Kaya e Alexander.

— Isso é perfeito! – Cam disse, com uma expressão de felicidade e surpresa que o fazia parecer um garotinho. Simplesmente não me lembrava da última vez em que o havia visto daquele jeito.

Kaya o abraçou por trás. E Edwin apareceu ao meu lado de repente. Os dois pareciam tão fascinados pelo bolo quanto meu gêmeo e eu. Por outro lado, Thomas continuava com os olhos em outro lugar, talvez nem sequer notando nosso bolo.

Respirei fundo. Não queria me chatear com aquilo.

— Ainda tem mais... – sussurrei no ouvido de Cam, caçando os olhos de Alexander.

Fiz um sinal de positivo com a mão assim que o vi.

Alguns segundos depois, os fogos de artifício rugiram aos céus como em um estrondo. E a bandeira da Nova Inglaterra pôde ser vista se formar na exata meia-noite.

— Ficou perfeito! – Alexander disse, chegando por trás de mim e Edwin.

O carrinho do bolo já estava na nossa frente. E todos gritavam em comemoração conforme a música tocava e mais fogos surgiam nos céus com as cores da minha nação. Em um dado momento, pude ver Mason se apressar em vir nos cumprimentar. Ele claramente havia perdido o grande evento, distraindo-se ao falar com Marian e seu pai.

— Esperem um minuto! Esqueci de parabeniza-los. – O príncipe-herdeiro gritou, e vi um vulto atrás dele quando subiu ao palanque.

Mason sorria, mas havia algo de errado na movimentação das pessoas ali. De repente, senti como se um forte perigo me ameaçasse, ao mesmo tempo que meus olhos doíam com a luz de alguns flashes.

O príncipe-herdeiro de Illéa deu passos em nossa direção e estendeu a mão para Cam. No entanto, rápido demais para que eu pudesse acompanhar, duas pessoas surgiram dali de trás. Dois homens estranhos, com roupas de gala, mas com olhares um tanto sanguinários. Ambos mostraram revólveres em suas mãos, um na direção de Mason e outro na minha e de Cam.

Meu corpo gelou.

— Feliz aniver... – Mason não conseguiu terminar de dizer a frase. Vi algo jogá-lo para fora do palanque. Algo que parecia muito com o corpo de alguém.

Tudo se desenrolou em uma fração de segundos, e minha visão embaçada não me deixava pensar com clareza. Tudo parecia deturpado.

Escutei o barulho de gritos, tiros e fogos misturados. De um segundo para o outro, minha felicidade se esvaía de mim como se nunca tivesse existido.

— Cameron e Avery! Se abaixem! – A voz de Thomas soou como um sino de alerta em minha cabeça, mesmo que eu não conseguisse ver de onde ela vinha.

Agarrei o braço de Cameron e o de Edwin no mesmo instante, forçando-os a se abaixar enquanto sentia os braços de Alexander ao meu redor, tentando me proteger.

Mais gritos. E a expressão de meu gêmeo foi de pura dor.

Antes que eu pudesse verificar se a família real e os outros estavam bem, Cam começou a correr para fora do palanque.

— Não! Volte aqui! – gritei, seguindo-o para onde quer que fosse, com Alexander em meu encalço.

Os convidados corriam em todas as direções, e minha cabeça pareceu girar como se eu fosse morrer.

Entretanto, vi com clareza o corpo de Thomas jogado ao chão, ensanguentado com uma ferida de bala no peito, enquanto Mason estava desmaiado e ileso a alguns poucos metros de distância.

Cameron chorava vendo aquilo. E eu não fazia ideia do que pensar. Não fazia ideia se estávamos correndo perigo ainda.

— IRMÃO! – gritei entre lágrimas, pegando em seu braço.

Meu gêmeo nem sequer olhou para mim. No entanto, escutei ele dizer algo que fez meu coração parar de bater por um longo segundo.

— PAI! NÃO! – Cameron berrou desesperado, correndo em direção a Thomas, que parecia estar quase morto ao chão.

Pai?

Suei frio. Os batimentos se aceleravam, e eu queria apenas vomitar.

Pai?

Minha cabeça explodia como se eu tivesse perdido tudo o que eu era.

As lágrimas tomaram meu rosto por completo, enquanto Alexander colocava a mão a boca sem saber o que dizer. Era óbvio. Esse tempo todo, era óbvio. E eu fui burra o suficiente para não notar.

Minhas pernas fraquejaram, mas logo se mexeram como se estivessem sendo controladas, correndo na direção de meu irmão e de todo aquele sangue. Chorei mais ainda ao ver que Thomas estava consciente, mas perdia a cor, ficando mais branco que o normal a cada segundo que passava. Seus olhos verdes já pareciam perder a vivacidade.

Eu não iria aguentar. Me sentia insana o suficiente para querer me livrar daquela angústia.

A mesma cena se repetia. Mamãe havia morrido daquele mesmo jeito, e meu coração se estilhaçava com aquela outra possibilidade.

— O que você disse, Cameron? – Peguei meu irmão pelo colarinho, colocando seu rosto extremamente próximo do meu. Nossas lágrimas salgadas se misturavam, e ele não tinha nenhuma expressão. – Você chamou o Thomas de pai?

Os olhos de meu gêmeo pareciam perdidos, encarando suas mãos sujas de líquido vermelho. Eu o chacoalhei por vários segundos, mas outra coisa me chamou a atenção.

Thomas tentava mexer os dedos em minha direção, enquanto muito sangue saía de seu peito, onde estava o buraco da bala. Ele ainda estava vivo. Ainda podia sobreviver.

— D-des... culp... – Vi seus lábios arroxeados se movendo, enquanto uma única lágrima traçava um caminho por sua bochecha.

Thomas me olhava com pura dor. E eu queria muito morrer em seu lugar.

Larguei Cam. Meu corpo estava paralisado. Senti que a única saída era chorar em pânico igual ao meu irmão. Sentia que não podia ser feliz e nem viver em paz. Sentia que nem sabia mais quem eram meus pais.

Olhei para minhas mãos sujas de sangue, e já não sabia mais se havia algo que eu podia fazer.

— RÁPIDO! ELE ESTÁ AQUI! – A voz de Igor ecoou em minha mente, mas não consegui mover um dedo sequer.

Senti as mãos de Alexander pegarem meu rosto em algum momento. E no meu campo de visão, consegui vê-lo junto a Igor, que estava extremamente nervoso e tenso.

— Presta atenção, Avery! Não é hora de ficar assim ou você vai ficar órfã de vez. – gritou o russo, tão perto de mim que pude sentir o cheiro de álcool de seu hálito.

— Avery, fale alguma coisa. Fale comigo. – Alexander pediu, com seus olhos focados nos meus, mais desesperados do que no dia do ataque rebelde.

Senti uma parte de minha consciência voltar e então encarei Igor, que suavizou sua expressão quando nossos olhos se encontraram.

— Você sabia que ele era meu pai esse tempo todo? – questionei. O sangue fervendo em meus interiores enquanto meu corpo ainda tremia.

Alguns médicos socorriam Thomas, outros tentavam lidar com meu irmão, que ainda não conseguia falar nada. Eu não sabia exatamente no que focar. Meu coração não sabia o que sentir, então apenas me concentrei nas duas figuras a minha frente.

— Óbvio que sabia. Você é igualzinha a ele e tem a mesma frescura nos olhos. – Igor respondeu. No fundo, o medo de perder Thomas era gigante, tanto para ele quanto para mim. – Ele ia te contar hoje... Estava se preparando...

Desviei o olhar, tentando não olhar para os médicos ao redor de Mason e Thomas, mas também nem para Igor.

Chorei mais um pouco e abracei Alexander. Eu queria muito explodir.

Tudo fazia sentido agora: o susto de Dallas quando não consegui andar ao sol, os comentários de Yekaterina e Igor sobre meus olhos, e ainda o comentário engraçado de Edwin sobre Thomas, quando haviam chegado em Illéa.

Não consegui parar de chorar, meu cérebro apenas me fazia sentir mais dor com as linhas de pensamentos.

Eu iria perder o pai que havia acabado de ganhar? E pior, Jasper havia se afastado de mim por que era meu tio? Será que ele já sabia daquilo?

— Confesso que eu e Kaya também desconfiamos... – Alexander sussurrou em meu ouvido, afagando meu cabelo.

Aquilo só me fez perder a cabeça ainda mais. Estava certa de que nada iria ficaria bem daquela vez.

Eu havia me relacionado com meu próprio tio?

— Como Cameron sabia? E o Edwin? – falei soluçando para Igor, que parecia quase explodir em tensão ao me ver daquele jeito. – Por que não me disseram antes? O Jasper sabia disso desde quando?

Os olhos do russo se arregalaram por um instante, assim que falei o nome de meu suposto tio. Ele ficou boquiaberto, talvez entendendo o que eu quis dizer com aquela pergunta. Porém, vi Yekaterina chegar com uma expressão séria perto de nós, trazendo dois médicos que pareciam vir para me atender.

A mulher me olhou por um instante, parecia aflita, mas imponente e inexpressiva. Enquanto o russo ainda não sabia como me responder.

— Não é hora para conversas, Printsessa. – Foi tudo o que Yekaterina disse, antes de fazer um sinal com a mão para os médicos.

Senti uma ardência no braço, minha visão ficou escura e a última coisa que vi foi o castanho dos olhos de Alexander, me encarando com preocupação.

Não, eu não era princesa. E esse tempo todo havia brigado pelo trono que nem sequer era meu por direito, havia desconfiado e sentido raiva daquele que era meu próprio pai. Um pai que levou um tiro por seus filhos.

Notas finais
Parece que o plot chegou rsrsrsrsrsrs Nada novo sob o Sol ou você foi pego de surpresa igual a Avery? Será que no fundo ela já desconfiava? rsrsrsrs Nem acredito que estamos a um passo do gran finale. O próximo capítulo também será longo, mas menor do que esse. Obrigada pelo apoio, pessoal!