Avalanche

7 Despedidas


Notas iniciais
Boa Leitura!

— O que acha desse, senhorita? – perguntou Eli, mostrando-me um vestido dourado que eu nunca havia usado.

Apenas neguei com a cabeça. Fazíamos as malas há quase uma hora, Eli tentava me ajudar, mas mesmo que ela conhecesse muito bem o meu gosto desde criança, continuava a me mostrar vestidos que não faziam jus ao tipo de princesa que eu era.

Enquanto alguns criados empacotavam alguns livros ao meu pedido, meus olhos observavam a vista de Westminster uma última vez. Meu coração sentia a paz que Londres emanava, e cheguei a me perguntar se o castelo de Angeles passaria a mesma segurança que ali naquele cômodo rústico.

Fui tirada de meus devaneios quando Edwin e Cam simplesmente adentraram meus aposentos. Ambos estavam com seus trajes formais de príncipes, rodando os olhos pela confusão de criados e objetos em meu quarto.

— Eli, termine sem mim – pedi.

Abracei Edwin assim que terminei de falar, de alguma forma o caçula parecia tão feliz que cheguei a me espantar. No entanto, logo que olhei para meu gêmeo, senti um pouco de tensão entre nós dois, os olhos esverdeados dele estavam mais escuros que o normal, mostrando que detinha sentimentos intensos demais que gostaria de expressar. Não o cumprimentei.

— Vamos nos despedir de Igor e os irmãos dele – Edwin apressou-se em dizer. – Viemos te chamar para ir conosco, irmã.

— Claro – concordei.

Aquele era meu último dia no palácio, sentia-me sem tempo para aproveitar a companhia de todos que eu gostava.

Cameron me esticou seu braço, convidando-me a andar com ele, o rosto receoso mostrava toda a sua insegurança em relação a mim. Porém, não havia me esquecido de seu pedido de confiança. Aceitei seu convite, deixando Edwin com um sorriso bobo no rosto.

— Podem ir na frente, já os acompanho – disse o caçula.

Meu gêmeo me guiou pelo corredor, andando vagaroso em direção ao salão de entrada do palácio. Eu o encarei por um instante, os olhos dele continuavam da mesma forma.

— Kaya ficará comigo – começou, os passos ainda mais devagar do que antes, a cabeça abaixada com certa preocupação.

Uma troca de princesas. Aquilo soava patético. Suspirei profundamente, quase sem paciência com Cam.

— Nosso pai não vai fazer mal a ela, você sabe disso – tentei o acalmar, rendendo-me a nossa irmandade. Meu orgulho já havia sido destruído por meu pai no dia em que tinha surrado minhas costas. – Não se preocupe com...

— Não é só isso! – falou, o timbre de sua voz era autoritário, assim como o olhar que me direcionou. – Quero garantir sua segurança desde que nossa mãe morreu. E você sabe o quanto me sinto incapaz desde aquele incidente.

Nossos olhos marejaram, ambos órfãos de uma mãe tão exemplar que se assemelhava a um anjo. Os gritos que me perseguiam desde a infância soaram como um alarme por minha cabeça. Cameron sempre se sentia inferior desde que eu havia presenciado a morte da pessoa que mais amávamos no mundo, e ele não.

— Você já carregou um peso gigante nas costas – lágrimas escorriam por nossos rostos, éramos tão idênticos até na hora de chorar pelo passado. – Um casamento arranjado é menos do que uma coroa de espinhos na cabeça.

Senti minha boca se abrir, perplexa por um instante com a coragem que eu via brotar no irmão que cresceu ao meu lado. De certa forma, mesmo com os olhos embargados, Cameron parecia um ótimo rei.

— Mas você terá o casamento e a coroa... – tentei dizer, lembrando-me também do quanto Kaya parecia feliz ao lado de meu irmão. – Você está apaixonado por aquela princesa?

Minhas sobrancelhas se arquearam, mas tudo o que constatei foi que havia pego no ponto fraco de Cam.

— Talvez sim, eu não sei – tentou explicar, apenas se confundindo mais. – Trocamos cartas, nos conhecemos há alguns dias. É cedo demais, mas Kaya me parece genuína como nossa mãe era.

Fechei os olhos por alguns segundos. Odiava quando comparavam alguém com minha figura materna, ninguém no mundo poderia se assemelhar a Miranda Johnson. Cam notou meu desconforto, mas se recusou a pedir desculpas, deixando claro que seus sentimentos por Kaya de fato existiam, por mais precoces que fossem.

— Alexander não me parece ruim também...

— Não vamos falar dele! – ordenei, uma ira de fúria me tomando tão rápida que me assustei comigo mesma.

Meu irmão deu-se por vencido, mas continuou a me olhar um pouco triste com a situação. Já devíamos estar sentindo saudades um do outro. Inesperadamente, ele sorriu, sua íris mirando o colar de Jasper ao meu pescoço. Agarrei o pingente, pronta para protege-lo se assim o precisasse.

— Isso é um bom sinal. – Cameron continuava sorrindo, soltando algumas lágrimas que pareciam ser de alívio. – Fico com inveja que os Schmidt tenham jurado lealdade a você antes de mim. – Seu tom era irônico, o que me deixou ainda mais confusa.

— Mas você e Thomas sempre foram próximos desde a infância. Por que ele me escolheria sendo que não o vejo há anos? – a memória vívida de que eu sempre estava no colo de mamãe e Cam sempre nos braços de seu guarda-costas era a que mais me enchia de segurança e dor quando pensava. – Não consigo entender, Cameron.

Meu gêmeo acariciou minha bochecha, ainda soltando algumas lágrimas enquanto sorria. Eu desconhecia aquela expressão no rosto dele, sempre feliz de uma forma desconhecida quando falávamos dos Schmidt, em especial do novo patriarca.

— Talvez porque você seja mais difícil de lidar do que eu – respondeu, tocando minha mão que agarrava o símbolo do leão. – E também porque Thomas sente a mesma estima por nós dois.

Com aquela frase misteriosa, ele voltou a me guiar pelos corredores, em direção a família russa que se aglomerava em quase vinte pessoas no salão de entrada. Os príncipes mais novos vestidos em couro e peles de lobo, bebericando de vodka e algumas outras bebidas que os criados ingleses serviam. As risadas altas eram irritantes como sempre, os irmãos estavam contando piadas bêbados onde quer que estivessem, dando até mesmo em cima das criadas. Era uma cultura tão caótica que eu quase não notei um detalhe vital no meio daquilo tudo. O rei Sergey não estava ali, muito pelo contrário, Igor destacava-se entre os irmãos, sóbrio e proferindo ordens em russo aos seus servos e soldados, com seu ar autoritário e sorriso irônico para cima de todos.

— O que houve com o rei deles? – sussurrei para Cam, antes que nos aproximássemos mais de Igor, que já nos encarava notando nossa presença.

— Está de cama, parece que anda muito doente nos últimos meses. Igor será coroado logo, talvez antes de mim.

Suspeito. Não me lembrava muito do rei dos sovietes, apenas o vi algumas vezes, mas parecia alguem tão duro e rígido quanto meu pai. No mínimo, qualquer um que se desse bem com rei Desmond II só podia ser igualmente horrível e perigoso. Ninguém poderia dizer se o príncipe herdeiro estava chateado pela situação enferma de seu pai.

— Avery e Cameron – Igor abriu os braços, mostrando sua hospitalidade e o sorriso convencido. – É uma pena que nosso tempo juntos tenha sido tão pouco.

Percebi que os olhos do futuro rei russo recaíam sobre mim com uma curiosidade gigantesca. Talvez por conta de nossa tarde no xadrez.

— Igor – eu apertei sua mão. – Mande melhoras ao rei Sergey.

Rápido demais para Cameron notar, vi que os olhos do russo mudaram por um instante. Mas logo ele já estava mais uma vez chamando a atenção de um de seus irmãos, que havia quebrado um copo de whisky no chão e tinha começado uma briga com um dos caçulas.

— Desculpem-me pelos animais que tive que trazer comigo – meu irmão e eu deixamos uma pequena risada escapar ao escutar o comentário tão aberto de Igor, seu sotaque apenas tornava a situação mais cômica. – Nos veremos de novo em sua coroação, Cameron.

Ambos deram um aperto de mão.

— Que assim seja, Igor. Farei o possível para dar meus votos em sua coroação também. – Meu irmão foi verdadeiramente gentil, pude ver na forma como sorria.

Eles pareciam confiar um no outro, não me encantava mais o fato de que eu tinha o contato pessoal dos russos. Talvez aquilo se estendesse a Cam também.

Antes que pudesse me envolver em mais pensamentos, escutei as portas do salão se abrirem, era meu irmão caçula, que estava acompanhado de outras duas figuras: Princesa Kaya, que usava mais uma vez um vestido irritantemente feminino cheio de detalhes, e um garoto mais velho, que se assemelhava ao rosto de Alexander Schreave, mas possuía um ar sério e mais velho.

Havia escutado o nome dele na reunião com os monarcas de Illéa. Aquele era o príncipe herdeiro, Mason Schreave, que teria uma Seleção daqui poucas semanas. Não pude deixar de notar que ele se parecia muito com rei Maxon em alguns aspectos, embora os cabelos fossem de um loiro bem mais escuros e o semblante menos firme. Só de olhar para aquele rosto eu já conseguia prever que seria um rei razoável e temperamental, ainda tinha muito a aprender, não havia visto de perto os horrores da guerra e do próprio povo.

No entanto, quando me lembrava das feições de Alexander nada me vinha a mente, apenas uma vontade inconcebível de odiá-lo por estarmos naquela situação. Se ele não tivesse aceitado aquele pedido estúpido, apenas o casamento de Kaya bastaria para garantir os armamentos necessários a Illéa. Ainda por cima aquele era outro compromisso ao qual parecia me evitar. Talvez apenas a troca de olhares que tivemos já havia sido o suficiente para formar o ódio de ambas as partes.

Tirando-me de meus devaneios, Igor me puxou para um caloroso abraço. Cam havia ido ao encontro de sua noiva e do outro futuro soberano. Estávamos, em partes, sozinhos, sem que ninguém nos escutasse.

— Conte comigo, Printsessa— sussurrou, esbanjando seu charme com o soar das palavras em russo. – Armas e xadrez.

Soltei um pequeno riso quando seus braços me soltaram, a capa de peles que ele usava só o tornava ainda mais grandioso. Dentre os futuros soberanos das três realezas, o russo era o mais proeminente, mesmo em sua loucura ou devassidão, os outros passavam longe de possuir a mente de general que ele detinha. O xadrez era apenas uma de suas artimanhas, sabia daquilo desde que havia constatado seu espírito competitivo quando éramos crianças. Por mais que tivesse ganho dele em todas as vezes, eu sabia que agora ele era invencível, sua presença passava isso.

Em um último momento de despedidas, Igor chegou um pouco mais perto de mim, tocando no pingente em meu peito de forma cuidadosa.

— Uma bela joia para uma mulher como você – comentou, antes de sorrir maliciosamente e ir ao encontro dos outros príncipes soberanos.

Depois do elogio, não me importei em continuar ali, mesmo notando em minha visão periférica que Kaya acenava para mim com agitação, talvez para me apresentar ao seu irmão Mason. Fingi que não havia percebido nada, retomando o caminho de volta para o meu quarto.

Havia muito a ser feito. E eu precisava pensar muito bem em como proceder. Pela manhã, iria para Illéa com pessoas que não conhecia, e lutaria uma guerra por uma nação que jamais seria minha, com um noivo que eu teimava em odiar.

Notas finais
Vamos lá! Eu quero conhecer os leitores, deixem comentários ;D