Automaton
3 Final
A pista tem uma aparência diferente da de todas as corridas que me lembro.
Holofotes coloridos iluminam o trajeto, contrastando com o a sobriedade do céu noturno. As luzes emprestam um ar romântico à maratona que uma máquina como eu encontra dificuldade para descrever.
O material usado no chão foi substituído ao longo de seus trezentos quilômetros que meu sensor mensura como sendo duzentos por cento mais uniforme e cento e cinquenta por cento menos propenso a incendiar em contato com um objeto em velocidade supersônica. Até mesmo a liga metálica que encobre as laterais da pista foi reformada e as propagandas holográficas da Droide S.A., Robóticos Ltda e do laboratório Engine-F que decoram sua superfície externa foram restauradas.
Há uma multidão de câmeras flutuando perto da linha de partida. Elas focalizam no rosto dos três mais importantes competidores da noite. Nenhuma parece prestar atenção à minha presença. Foram instalados mais cinquenta telões na arquibancada, que à distância dá a impressão de se prolongar sem fim. A histeria hoje quebra um novo recorde: duzentos e vinte decibéis e subindo.
O sistema automatizado alerta para que todos se posicionem. Assim que é dada a largada, ativo o Turbinador em meu sistema, deixando-o em modo de standby por enquanto.
...
A maratona está se provando uma das mais violentas das quais participei. Os corredores competem como se estivessem sob ameaça de serem permanentemente desativados e transformados em sucata pelos seus patrocinadores.
Me mantive distante dos melhores corredores da noite, tomando o cuidado para não tropeçar no entulho formado pelos resquícios dos concorrentes eliminados em seções da pista. Duas vezes quase fui pego na explosão de alguém que não viu quando um fusível quente foi disparado de propósito pelo corredor da frente e a peça entrou numa fresta, incendiando em contato com uma célula de combustível.
Último trecho. A multidão vai ao delírio. Há somente três competidores à minha frente.
Zedd libera uma peça sobressalente, manobra antecipada pelo segundo corredor, mas não pelo terceiro. Ele vê o androide à frente desviar subitamente e, distraído pelo movimento imprevisto do outro, acaba tropeçando na peça.
Assisto em câmera lenta o terceiro competidor perder o equilíbrio e rolar por vários metros, com sua couraça metálica produzindo faíscas contra o chão até despencar da pista e sumir na superfície estéril lá embaixo.
Um competidor a menos. Agora faltam dois.
O segundo corredor se aproxima perigosamente de Zedd. Tentando despistar o concorrente, ele libera um jato de combustível diretamente na pista. O corredor percebe a manobra e desvia. Zedd lança outro, e mais outro. Mas seu concorrente desvia de todos, dançando na pista com a habilidade de um veterano.
Os dois estão finalmente emparelhados quando uma célula de combustível é propulsionada do corpo de Zedd. A força do disparo é tamanha que ela aterrissa no rival, explodindo contra a couraça ao se chocar em alta velocidade. O fluido se espalha pela superfície de titânio, manchando a pista. Correndo logo atrás dos dois, sou obrigado a tomar cuidado para não derrapar em uma das poças por acidente.
Zedd então libera um fusível e o contato da peça sobreaquecida com o corpo de seu rival é o suficiente para provocar uma explosão. O androide fica desorientado e colide com um dos obstáculos na pista.
Só restam agora Zedd e eu.
...
Ele ativa o sensor ótico traseiro e aciona uma pequena luz vermelha na nuca, apagando-a logo em seguida. Zedd não tenta mais nenhuma de suas manobras sujas. Ele sabe que não sou competição para ele.
— Mas o que você está esperando para ativar o Turbinador, desgraçado? – Van Gueller exclama no conforto de sua sala, assistindo a maratona.
Calculo com precisão milimétrica as variáveis envolvidas, determinando, dentre outras coisas, a distância correta entre eu, Zedd e a linha de chegada e o tempo que cada um de nós levará para alcançá-la. Dez segundos são suficientes para eu chegar ao resultado. Verifico o cálculo novamente, precisando a margem de erro. Negligenciável.
Faltando cem quilômetros para alcançar meu destino, aciono o Turbinador em potência máxima.
Meu corpo acelera com um solavanco e disparo pela pista. Seiscentos quilômetros por hora. Seiscentos e cinquenta. Setecentos. O chão se incendeia à minha passagem. Sinto meus sistemas trabalharem a todo vapor, e meus sistemas motores pulsam com a força da energia colossal que circula agora pelos meus tubos de fluido lubrificante.
Zedd me vê disparar feito uma bala e chega a desacelerar, tamanha a improbabilidade de me ver superando a capacidade de um modelo Automaton.
Oitocentos quilômetros por hora, novecentos...
Uma luz irradia das frestas de minha couraça. Sou como um cometa em direção ao Universo, e as câmeras agora estão todas voltadas para mim. Dentre as rajadas de ar que passam pelo meu corpo, posso ouvir meu nome e o de Van Gueller serem aclamados nos megafones. O mundo inteiro acompanha meu trajeto.
Alcanço os mil quilômetros por hora e o sistema de segurança falha. E com ele, vão-se mais dois sistemas auxiliares. Meus motores estão esgotados e cessam toda atividade. E por alguma variável que meu processador avariado agora é incapaz de calcular, continuo acelerando em direção ao meu destino.
A máquina que sonhou com uma existência orgânica.
O androide que queria ser humano.
O sistema de resfriamento não consegue dar conta da temperatura elevada. O termômetro interno já explodiu há muito tempo.
Minhas juntas se desfazem lentamente, sem saber a que velocidade avanço ou como ainda sou capaz de me deslocar. Meus sensores óticos começam a falhar e o mundo perde seus contornos. A pista se torna uma imensidão borrada, feita de sombras indefinidas, e uma grande névoa branca passa a encobrir o mundo.
Segundos antes de meu processador fundir, sinto um calor morno no peito se estender pelo resto de meu corpo. Como se estivesse sendo mergulhado em um relaxante caldeirão de óleo fervente, lubrificando minhas juntas desgastadas e sentindo a sujeira incrustada descolar de meu corpo...
Talvez esse tenha sido o sentimento que arrebatou a mulher do filme quando seus lábios se encontraram com os do seu homem. Talvez todos os seres humanos se sintam assim quando são acometidos por uma forte emoção. Uma força intensa que lhe acomete de repente, aumentando exponencialmente, tal qual a força centrífuga do fragmento de uma estrela, arremessado ao infinito no momento de sua explosão.
Tal como mil fogos de artifício a explodir em seu peito...
Em uma fração de segundo, que para meu cérebro robótico equivale à duração do infinito, sinto-me transcender minha própria existência. Sou tomado de um êxtase que, para uma máquina, deveria ser impossível de sentir. Minhas mandíbulas se abrem em um grito mudo de excitação. A experiência de duzentos anos de funcionamento empalidece perante aquele único e glorioso instante.
Na eternidade infinitesimal que precede minha destruição, meu sonho se transforma em realidade e eu me deixo consumir numa bola de plasma, embalado pela certeza de que finalmente me tornei mais do que um mero autômato.
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