Automaton
1 Capítulo 1
Acelero a quinhentos por hora na pista, desviando com precisão milimétrica dos obstáculos. O túnel de vento ao redor de meu corpo não restringe meus movimentos. O sistema de compensação garante meu equilíbrio perfeito durante a corrida.
Os gritos da multidão não chegam até mim. Apenas registro o som do vento passando a grande velocidade enquanto desafio a resistência do ar. Outro corredor tenta me cortar e solta uma peça sobressalente para me fazer cair. Sem problema. Ergo meu escudo eletromagnético e a peça quica para longe, acertando outro competidor menos atento. A unidade não enxerga o obstáculo na pista e colide com tudo. A explosão na pista acaba eliminando mais dois concorrentes que vinham logo atrás.
Acelero para tentar ultrapassar o rival que me cortou, mas meu cérebro positrônico já calculou a probabilidade de sucesso: menos de vinte por cento. Não poderia ser diferente. Ele pertence a uma unidade serial de fabricação cem anos mais recente do que a minha. Se ao menos eu conseguir empatar, já será uma grande vitória.
Cruzo a linha de chegada e finalmente desacelero, parando a cinquenta quilômetros de distância. O barulho da multidão alcança cento e oitenta decibéis. São quarenta decibéis a mais desde a última maratona. Alguma coisa na corrida de hoje deixou os espectadores mais excitados que de costume.
O sistema de placar eletrônico mostra as fotos tiradas no instante que a linha de chegada foi cruzada. Por cinco milímetros não cheguei em primeiro. O sistema anuncia o nome do vencedor a plenos pulmões e ele saúda a multidão holográfica projetada nos telões onde ficam as arquibancadas. A reação é ensurdecedora. A ovação chega a cento e noventa decibéis. Eles o amam.
Meu nome é pronunciado em seguida e ergo os braços em direção aos telões, extasiado, mas a recepção não ultrapassa os sessenta decibéis. Menor do que a da última corrida. E das trezentas corridas antes dessa.
...
Retorno à área de embarque e me posiciono ao lado dos demais androides, ocupando meu próprio compartimento. Dobro as pernas e encolho os braços em frente ao meu ventre, e verto meu pescoço noventa graus para frente, entrando em estado de suspensão. Um tubo de polímero duro emerge da parte traseira do casulo onde estou guardado e se conecta a uma de minhas entradas, restabelecendo a energia de minhas células de combustível por completo.
A rampa do veículo retrai sozinha e o compartimento de carga é hermeticamente selado. O veículo viaja por trilhos magnéticos, cruzando a grande velocidade a superfície terrestre até desacelerar e adentrar um dos túneis que conduzem à Célula 501.
O trem passa por uma descontaminação completa e em minutos, estou de volta ao setor de manutenção da Central de Jogos e Esportes. Um cabo serpenteia desde o teto feito um cipó vivo e desce até minha posição. Assim que encosta em minha couraça de titânio, ele liga um ímã acoplado à sua extremidade e me suspende pelas costas com um gesto brusco.
Sou arrastado pelos ares feito uma marionete e inserido forçosamente em uma máquina de limpeza e manutenção. Zedd, o vencedor da corrida de hoje, está em outra máquina a poucos metros de distância, já sendo desmontado para o processo começar.
Minha cabeça é sustentada por uma estrutura enquanto meu torso, braços e pernas são minuciosamente desacoplados pelas dezenas de hastes finas da máquina, com instrumentos delicados na ponta, concebidos para perfazer as mais específicas funções exigidas de um trabalho de robótica. Do lado de fora, escuto ao longe a voz do meu patrocinador se elevando. Ele discute com um humano cuja voz reconheço como sendo de David Bernstein, um famoso membro do governo central.
— A decisão já vinha sendo discutida há cinco anos, Van Gueller. Não há mais condições de continuar com a série Automaton. Todos os fabricantes antigos estão abandonando o mercado.
— Mas você é surdo ou o quê? Eu já falei que aceito arcar com todos os custos de manutenção dessa merda!
— O fabricante já declarou que não vai mais fabricar peças sobressalentes. Ou você compra a empresa dele ou paga engenheiros para atualizarem o sistema.
A discussão termina alguns minutos depois, bem como minha manutenção. Van Gueller já está no lobby de recepção à minha espera, e o jeito que ele me encara seria melhor descrito por um humano como fulo.
— Dá para acreditar nessa merda? Depois de trinta anos dando lucro para esses palermas, eles querem acabar com o espetáculo. Trinta anos dividindo o ganho das corridas com esses filhos da puta, e eles nunca fizeram nada para me favorecer. Mas eu tenho que me fuder todo para organizar as corridas. Porra, só a tua manutenção custa dez mil créditos mensais! É palhaçada isso, viu... palhaçada... –ele murmura enquanto acende um charuto, e vejo que suas mãos tremem.
Me limito a encará-lo de volta sem dizer uma palavra. Há muito tempo, aprendi que há momentos em que o silêncio é menos danoso que um falso consolo bem intencionado. As reações humanas são confusas para mim. Fogem a qualquer padrão lógico-racional da minha programação.
— Isso só pode ser coisa daquele Lewinski. Está cheirando a manobra dele. Aquele canalha nunca gostou de eu ter manobrado a compra da Automaton no lugar dele. Agora ele quer me fuder, você acredita? É como o ciclo da vida, tudo vai e volta. Eu fodi com ele, agora é a vez dele me foder. – e soltou uma gargalhada que ecoou pela Central.
Minha falta de reação o irrita mais ainda e ele taca o charuto na minha direção. O objeto bate no meu rosto e cai no chão, sequer sujando minha superfície. A película antiaderente impede que as cinzas fiquem depositadas.
Enquanto o assisto marchar para fora da Central gritando palavrões e fazendo ameaças de morte, me agacho e apanho o charuto, apagando-o com uma lufada de ar projetada pelo meu ventilador interno. Em seguida, taco o charuto em um dos incineradores mais próximos antes de voltar ao veículo para ser transportado de volta à empresa de Van Gueller. Um robô de limpeza se encarrega de varrer do chão as cinzas que sobraram.
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