Auto-retratos
3 La tristeza en persona,o cualquier criatura
Notas iniciais
Noite de 2 de Novembro,cidade do México.
Faxineiros começam a recolher os restos de fitas e flores,que foram deixados na rua.Um homem de pele avermelhada,carrega em uma mão,um pequeno tamborim; na outra,que acabara de sair do bolso,a foto da falecida mãe,na qual ele se lembrara especialmente naquele Dia dos Mortos.Ele olha pro céu com um olhar de saudades e faz um sinal da cruz no peito.
-Ele parece perfeito – Dolores inclinava sua cabeça pra fora do beco sujo em que ela se encontrava.Ela era a tristeza em pessoa,ou seja lá que criatura ela era.Seus seios eram caídos de tanto amamentar a Solidão,suas longas unhas eram sujas de restos mortais de Sonhos e suas costelas eram visivelmente perceptíveis.Seu estômago já não estava ali,nem o intestino,pois havia descoberto que não precisava de alimento para sobreviver.Apesar de não estar ventando,seus cabelos moviam-se,e alguns fios chegavam a flutuar.A barra de seu vestido roxo e um pouco transparente movia-se quase na mesma velocidade do homem que andava,movia-se como tentáculos. Um deles puxou a barra da calça dele.
-Ela está no inferno,não tem como olhar para céu.
-O que disse,señora? Ah si.Mas uma fantasiada do Dia dos Muertos – o homem banalizou o que Dolores havia dito.
-Pensa que eu não sei?Sua madre era uma comerciante,Roberto. Sí,Roberto és su nombre.Ela era uma comerciante,tapeadora,vigarista,por qué iria para o céu?
-Porque cuidou de mim – disse Roberto,assustado e enraivecido ao mesmo tempo.
-Ela não fez nada mais que sua obrigación.Aliás,nem isso fez direito.O deixava na casa de su tia e ia para lãs fiestas,enamorar hombres.Chegava bêbada,as três de la mañana.Estoy mentindo,Roberto?
-No.
-Se ainda estiver duvidando,olhe isto – Dolores fez uns gestos com os braços e falou em línguas estranhas,então um buraco quilométrico abriu-se na sua frente,e várias pessoas se afogavam em lava vulcânica.Entre elas,a mãe de Roberto. Ela pedia socorro. A lava queimava a sua pele e ela saia,expondo a carne viva,a mulher gritava de dor.Logo a pele cicatrizava e o processo se repetia.
-MÃE! – gritou Roberto em prantos.
-Ela está lhe ouvindo,mas não puede subir.Irá ficar lá para sempre...Roberto,também sei daquela mulher...Rita... da qual usted está apaixonado.
-Sí.Estoy – Dolores deu uma gargalhada diabólica e deu uma volta ao redor dele,depois que ele disse isto.
-Ella não o quer.Ella apenas o trata como uma amigo,não percebes?Aliás,quien ia querer um homem horroroso como você?Com essas suas mãos rachadas,e essa pele ressecada?Um pobre,que vai a desfile do Dia dos Muertos,por falta do que fazer? Admita,Roberto,você é um fracasso!Pra qué continuar esta vida de malancolia e dor?Se yo fosse usted,acabaria logo com ella – disse Dolores,tilintando as unhas do polegar e dos dedos indicador e médio
-Ah si,é bem mejor.Usted poderia fazer algo pra me ayudar?
-Com todo prazer! – ela cravou as cinco unhas roxas nas costas de Roberto,elas atravessaram seu peito e as pontas ficaram expostas pelo outro lado do corpo,cheia de sangue.Dolores retirou as unhas de seu corpo,junto com seu coração. – Huuum,una delícia,grande,cheio de amor.Assim que yo gosto — Ela cravou os dentes,todos afiados,no coração que ainda pulsava.Logo depois,soltou-o,fazendo-o rolar no chão.Suas veias,também roxas,visíveis a olho nu,começaram a palpitar mais forte. Uma faxineira gritou por socorro e os outros foram ver o corpo que jazia ensaguentado.
Não aconteceu realmente essa cena horrorosa.A verdade era que apenas um homem deprimido e bêbado,brigou consigo mesmo,chorou por sua mãe e por sua amada. Era isto que seria visto se alguém tivesse assistido a cena.Mas mesmo assim,ela estava lá,olhando os faxineiros procurarem alguma ajuda e alguns chorarem.Dolores limpou a boca e saiu arrastando seus tentáculos até outra esquina,na qual uma garota de maquiagem borrada estava sentada na calçada.
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