-Vamos,querida! Estamos atrasadas para a escola e hoje é meu primeiro dia de trabalho! – disse mamãe pegando as chaves.

-Já vou! – calcei minhas sapatilhas.

-Vou logo para o ponto de ônibus... Amanda!Olha lá,o Big Ben já está marcando nove horas!Rápido

Resmunguei.Fechei a porta do andar de baixo de nossa quitinete. Olhei para o céu.Dois passarinhos voavam circulando um ao outro enquanto piavam desafinadamente.O som de tudo se abafou,só o das pequenas criaturinhas importava agora. Ouvia um ônibus passando,um menino perguntando : “Onde jogo essa água sanitária?”,um carro buzinando, uma mãe dizendo : “Em qualquer lugar!” e uma mulher falando ao celular.

Senti um líquido na minha cara e meus olhos queimando.Exclamei de dor. Alto o bastante para minha mãe vir correndo e se ajoelhar ao meu lado.

-O que foi?Amanda,fala comigo!

-Meus olhos! – gritei – tá tudo escuro!

-Chamem a ambulância!! – Imediatamente a mulher que passava falando ao celular interrompeu sua conversa e discou três números.

A ambulância estava demorando.A queimação nos meus olhos continuava,mesmo que um estudante de enfermagem que passava ter feito os primeiros socorros.Quando os paramédicos chegaram,uma deles veio até mim e questionou coisas básicas,como “quantos dedos tem aqui?” e “que cor é essa?”.A todas eu respondia errado e chorava.Sentia que ela me olhava de uma forma de que não poderia me ajudar muito.No caminho para o hospital dormi.E sonhei que era um daqueles passarinhos.

Acordei.O cheiro não era o da minha cama,nem o som era da TV.Senti mãos úmidas de lágrimas sobre as minhas.Abri os olhos mas continuava escuro.Apalpei a região.Um pano enfaixava minha cabeça na altura dos olhos – deveria ser isso que estivesse me impedindo de enxergar.

-Mãe?É você?

-Sim,eu e Carl estamos aqui.

-Por que esse pano nos meus olhos?Está atrapalhando minha visão!Vou tirar esse negócio agora! – Tirei,com dificuldade o tal pano do meu rosto.Ele parecia grudado.Assim que saiu completamente parecia que eu não tinha tirado a faixa,pois minha visão continuava escura. –Mãe!Porque eu não consigo ver?Me explica,mãe! – Ela gemia alto,parando para soluçar.

-Amanda... – Carl disse em uma voz que misturava medo,tristeza,aversão – Sua cara...está...toda vermelha...e...seus olhos estão... brancos!

Gritei.

...

-E foi assim meu acidente,Tyler.

-Sinto muito.Mesmo.Gostaria que você ainda estivesse na nossa escola,lendo livros com os olhos.Vendo rostos diferentes,enfim.

-Mas,desde aquele dia,eu senti algo diferente...quanto a minha visão.

Tyler fez uma cara de dúvida.

-Desde que eu parei de ver,eu comecei a enxergar.

-Wait... Enxergar?

-Yeah,Tyler. Por exemplo: eu sei que você minha mãe faz o máximo para me manter e pagar um tratamento pra mim,as pessoas do ponto de ônibus sentem pena de mim...Você...eu sei que você me ama... – ele prendeu a respiração – E você não sabe... o quanto... eu fico feliz com isso.

Os dois se abraçaram.Um beijo seria muito incômodo agora.

A mãe de Amanda havia chegado.Ela foi preparar um jantar com o que tivesse.Geralmente era sopa.Tyler e a garota foram para a escada do pequeno apartamento para brincar de Amy-o-que-você-vê-nessa-pessoa.No dia seguinte,Carl voltou ao 207,e o diálogo... bom... você viu no capítulo anterior,mas não todo :

-Mom’s gone?


-Already.


- Carl,can I ask you something?


-You can.


-Do you love me?


-Of course!


-Não,Carl.Não ama...Por que você ainda fica preocupado com essa sua imagem?Tantas coisas pra você se gabar por aí,e quer se fazer “o bom moço que ajuda a ceguinha”? Eu sou cega,e não burra.Consegui aguentar um ano de teatrinho,e em um ano o ouvido de um deficiente visual melhora muito,sabia?Pensa que eu não ouvia seus suspiros de frustração a cada café da manhã,a cada procura por algum objeto que eu precisava?Seu orgulho seria por fazer alguém ter o sentimento de fardo na sua vida,por acaso?Se fosse,você conseguiu. Não,Carllington,eu não agüento mais... E antes que vá embora,leve esses óculos de ceguinha com você,talvez exista outra garota que precise se esconder atrás deles.

E Amanda bateu a porta.Ligou a TV e sentou-se no sofá.Ela deu uma longa expirada.De um ar novo e puro. De um ar de liberdade.

Notas finais
Esta é Amy : https://lh6.googleusercontent.com/-GD0KdIvCE4Q/T1V2u-Kx67I/AAAAAAAAAF0/zMX4tsHW8GI/s512/Amy.png
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.