Ausência
1 Final Feliz
Notas iniciais
O amor calcula as horas por meses,
e os dias por anos,
mas cada pequena ausência, é uma eternidade.
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— Adrien, vamos! Não podemos chegar atrasados no primeiro dia. — Ela o puxou para fora do carro, e um sorriso nasceu em seu rosto.
Era fofo a empolgação dela. Não que fosse algo raro.
Marinette era aquele tipo único de pessoa. Extasiada pela vida. Ficava feliz com facilidade, e mais feliz ainda quando o motivo era a alegria das pessoas próximas a ela. Tinha motivação e paixão de sobra, logo, se empolgava com diversas coisas. Coisas que, para alguns, poderiam ser algo tão simples. Às vezes, nem ao menos percebida. Mas não por ela.
E esse, era um dos motivos de ser tão apaixonado pela garota.
— Devo lembrá-la, minha linda, que foi você quem se atrasou para entrar no meu carro? — Respondeu, zombeteiro. Sendo recebido com uma careta, o que fez o sorriso do garoto se abrir mais.
— Eu não tive culpa! Meu café da manhã quis se espalhar pelo balcão da cozinha, de novo. — Isso, sim, fez Adrien soltar uma boa gargalhada. — E para de me chamar de linda. — Ela pediu, pelo que poderia ser a décima vez naquela semana, enquanto eles entravam pelas portas na nova escola.
Mas Adrien não desistiria fácil.
— Tá bom, linda. — Isso lhe rendeu mais uma careta.
Há alguns dias, após uma sessão de cinema na sua casa com Marinette, Alya e Nino, o loiro havia ouvido, sem querer, ela conversar com a amiga sobre estar se sentindo insegura. Que não era tão "linda" quanto ele, e estava certa que as garotas da nova escola achariam o mesmo. E que não aprovariam os dois estarem juntos.
Ela levou um esculacho da Alya, obviamente.
Desde então, Adrien tomou como missão pessoal lembrá-la o quanto ela era deslumbrante. Por dentro e por fora.
Ele tinha conhecimento sobre o que sua amada sofreu na antiga escola, antes dele estudar lá e conhecê-la. Só de lembrar do que o Kim e Chloé haviam feito com ela, sentia o sangue ferver.
Lembrou-se de quando quase cataclismou Kim por esse motivo. A lembrança lhe rendeu um arrepio.
No entanto, isso era passado. E não havia como mudar o que já havia acontecido. Tudo que podia fazer agora era ajudá-la, de qualquer forma que pudesse. E se isso significasse afirmar que ela era linda cinquenta vezes por dia, então o faria de bom grado.
Chegaram no auditório da escola, onde o resto da turma já estavam esperando, para a introdução do ano letivo.
— Os pombinhos esqueceram do despertador hoje? — Alya cochichou, levando à risadinha de Nino ao seu lado.
— Não começa, Alya. Sabe que quando fico empolgada, perco a noção das coisas
— Oh se eu sei, amiga. — Então as duas riram, por alguma piada interna que ele não entendia. O garoto podia jurar que, às vezes, elas conseguiam ler a mente uma da outra.
— O que perdemos? — Adrien perguntou à Nino, sentando do lado de Marinette, no lugar que o casal separou para os dois.
— Nada de mais, cara, acabaram de começar. Vão apresentar os cursos da escola e explicar como tudo funciona.
— Legal.
De fato, era uma escola incrível, onde os adolescentes podem ser livres para escolherem o que quiserem fazer, sem a pressão de um prazo ou notas em seus ombros.
Ali, eles podiam experimentar várias aulas diferentes, e testar várias habilidades, até que encontrassem uma que tivessem interesse e quisessem desenvolver.
Havia, claro, aqueles que já sabiam bem o que queriam, como a Alya, Nino e Marinette, por exemplo.
Saindo do auditório, caminhou com a garota ao seu lado até chegarem ao seu destino.
— Te vejo no intervalo? — Ela perguntou, parecendo tímida, mas esperançosa também.
Adrien a achava uma graça. Marinette pensou mesmo que ele iria, de alguma forma, recusar esse pedido? Como se ele já não estivesse contando as horas para vê-la de novo.
— Sim, até lá, meu amor. — Deu um beijo em sua mão, antes de deixá-la ir em direção aos outros alunos que faziam parte da área de Artesanato e Criatividade, uma parte ampla da escola onde podiam experimentar pintura, desenho, trabalhos manuais e claro, costura. Entre vários outros talentos.
— Me conte depois que aulas você participou! — Ela exclamou alto, se despedindo por fim.
Assim, todos se separaram. Cada um seguindo para os cursos que haviam se inscrito. Também havia muitos alunos, como Adrien, que eram "os indecisos". Esses podiam participar de qualquer aula que quisessem, sem comprometimento.
Adrien invejava um pouco os amigos. Mas sabia que era só questão de tempo até encontrar algo que fosse sua paixão. Por enquanto, estava focado em viver a vida, experimentar e ser feliz.
Como um adolescente normal.
Exceto que adolescentes normais não eram heróis, ou tinham uma estátua de seu falecido pai na praça da cidade.
Mas esses eram detalhes que ele já havia se adaptado. O importante é que a vida estava, finalmente, voltando aos eixos. E começava com sua gratidão por poder estar ali em Paris, naquela escola, com todos os seus amigos, e não em Londres.
Gabriel nem sempre foi o pai perfeito, mas havia o visto tentando melhorar nas últimas semanas. Eles estavam brigados, e em países diferentes quando tudo aconteceu. E apesar de ter ficado com raiva quando foi mandado à Londres, não poder fazer as pazes com ele agora, era ainda pior.
Após o choque da notícia do falecimento do pai e o funeral, Adrien se viu cercado de amor e afeição, e acabou tendo um verão maravilhoso.
Nathalie se dispôs a continuar cuidando dele, e não havia como expressar tamanha gratidão que tinha pela mulher, era o mais próximo que poderia ter de uma mãe. Também teve Gorila, que se recusou a abandoná-lo. O garoto não sabia o que faria sem eles.
Sua tia, Amelie, passou o verão inteiro na mansão, junto com Félix. Não permitindo que Adrien pudesse ao menos chegar a sentir tristeza.
"Seu pai sempre foi incrivelmente apaixonado por sua mãe, meu querido. E eu sei que ele está mais feliz agora, com ela. Só sinto muito que você tenha ficado sozinho. Por isso estou aqui agora. E sempre estarei, quando você precisar."
Mas Adrien não se sentia sozinho, pelo contrário. Seus dias estavam sendo preenchidos de carinho e atenção, pelos seus amigos.
Todas as semanas, sem exceção, sua turma organizou algo para fazerem juntos. Idas ao cinema, reuniões da banda no Liberdade, dias de piscina na sua casa.
Adrien não se lembrava quando havia se sentido tão amado.
Bom, exceto quando estava com ela.
Marinette.
De alguma forma, essa linda garota conseguiu ser ainda mais maravilhosa do que já era para ele.
O que quer que ela achasse que estava fazendo de bom, Adrien sentia mil vezes mais.
Ela o fez cartas de amor, seus macarons favoritos e o venceu completamente no videogame.
Ele não podia estar mais feliz.
Na verdade, havia um detalhe. Só um mísero detalhe, mas que era capaz de roubar seu fôlego e lhe tirar a paz, completamente.
E era por esse detalhe que ele acordava suando no meio da noite, e ia correndo ao banheiro lavar as mãos.
Pois ainda conseguia sentir os resquícios daquele poder terrível, a sensação das cinzas dela em suas palmas e a dor de seu coração, completamente destruído.
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Divagando durante a aula, repleta de tecidos e aprendendo tudo que sempre desejou, Marinette queria poder afirmar que tudo estava perfeito. A garota quase podia ver um futuro lindo e brilhante, ao alcance de sua mão.
Se não fosse pelos segredos que escondia.
Após meses, ela finalmente estava namorando o garoto que amava: Adrien Agreste. O modelo de Paris, seu melhor amigo e... um senti-ser.
O amor que sente por ele não mudou após ter conhecimento disso, é claro, porque o que sente por ele é verdadeiro e forte.
Mas é forte a ponto de conseguir aguentar manter esses segredos tão pesados?
Com seu alter ego, ela também havia derrotado Monarch.
Derrotado? Falhado? Na verdade, não importava muito. No fim das contas, o resultado era o mesmo: Gabriel Agreste obteve seu desejo. Salvou a vida de Nathalie, e em compensação, se reuniu com seu único e verdadeiro amor.
Não foi uma história bonita. Era, na verdade, feia, cheia de erros e mentiras. Mas havia, finalmente, acabado.
Monarch se foi e ela mentiu para toda Paris, e mundo, sobre isso.
Mentiu para Adrien.
Mas ele é livre agora, e só por isso ela suporta ver aquela estátua e ser a única a saber a verdade. Adrien já perdeu o pai, Marinette não poderia ser aquela a matar as lembranças boas que o garoto possui dele.
Havia feito sua escolha. Agora só lhe restava aprender a conviver com ela.
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— Já devo entregar um pequeno portfólio com meus desenhos, no final do mês. Ai, estou tão empolgada! — Ouviu Marinette dizer, como se aquilo fosse uma surpresa.
Haviam acabado de entrar no carro para ir embora, em direção à padaria dos pais da garota, e estava ouvindo tudo com atenção.
— Sei que você vai ser impressionante, como sempre. — Respondeu com sinceridade. Se havia uma coisa que a Marinette quase beirava a perfeição, era de se destacar quando estava empenhada em algo.
— Ai, desculpa, Adrien. Fiquei tão animada ao falar das minhas aulas, que nem deixei você contar sobre as suas. — Ela disse apreensiva, juntando as duas pequenas mãos na sua.
— Tá tudo bem, linda. — A tranquilizou. — Sabe que gosto de ver você assim.
— Assim como? — Perguntou curiosa.
— Completamente feliz.
Ela arregalou os olhos e se afastou um pouco dele no banco do carro. Adrien não gostou daquilo, mas valeu a pena quando notou a coloração avermelhada das bochechas dela.
— Adrien! Parece que você fala essas coisas de propósito, só para me ver corar. — Ela ralhou alto.
O loiro não conseguiu conter o sorriso.
— Droga, você descobriu. — Disse de forma dramática, jogando o braço acima da cabeça e fechando os olhos. — Vou ter que pensar em outra coisa agora para atingir meu vil objetivo!
Sabia que estava perdoado quando ouviu uma risadinha dela.
— Mas agora é sério, me conta como foi seu dia.
Soltou um suspiro, abriu os olhos e encontrando os azuis safiras dela presos em si.
— Foi bom. Como eu ainda tô bem perdido no que quero, decidi participar de cursos variados, sabe? Assim experimento várias áreas. Exatas, humanas, biológicas, linguística e música.
Estava sendo mais trabalhoso do que havia previsto, mas não ia desistir. Adrien só achava um pouco frustrante. Ter planos e sonhos não deveriam ser algo natural das pessoas? Por que estava tendo que trabalhar tanto apenas para descobrir os dele? Se questionou internamente, enquanto girava com o polegar nas alianças gêmeas, que agora usava na mão esquerda.
— Uau, quanta coisa! Tenho certeza que logo você vai achar algo que goste. — Ela continuou, o que deixou Adrien agradecido. O incentivo dela era importante para ele.
Mas não poderia deixar passar outra oportunidade.
— Mas eu já achei algo que gosto. — Falou com falsa inocência. — Olha você, aqui na minha frente.
— Adrien! — Ele riu alto enquanto ela ruborizava mais.
Mais cedo do que ele gostaria de admitir, Gorila estacionou o carro na frente da padaria Boulangerie Patisserie.
Marinette saiu na frente, abrindo a porta e cumprimentando os pais com animação, enquanto ele pedia para Gorila aguardar um pouco e pegava a mochila dela.
— Oi mãe, oi pai. — A ouviu dizer ao passar pela porta.
— Marinette, querida. Como foi seu primeiro dia? — Sabine perguntou, recebendo a filha com um beijo no rosto.
— Foi maravilhoso!
— Tenho certeza que vamos ouvir tudo a respeito no jantar. — Tom completou, lançando uma piscadela para Adrien, que vinha logo atrás.
Eles conheciam a filha que tinham.
— Com certeza, vão. — Ela respondeu e isso fez Adrien rir.
Passado o momento de euforia da garota, Adrien enfim cumprimentou os dois.
— Olá, Sr. e Sra. Dupain-Cheng.
— Olá, Adrien, querido. Obrigada novamente por levar e buscar a Marinette na nova escola.
— Sabe que é um prazer, não precisam agradecer. — Respondeu um pouco sem graça. A nova escola era longe da casa dela, e mesmo que Marinette tivesse sua scooter, ele, de fato, não via problema nenhum em ir com ela todos os dias.
Na verdade, até preferia assim.
— Bom, está entregue. — Ele direcionou à garota, entregando sua mochila, e viu Sabine e Tom voltarem para trás do balcão. Eles podiam ser um pouco calorosos demais, mas sabiam dar privacidade aos dois quando precisavam.
Bom, o máximo de privacidade que podiam oferecer a menos de dois metros de distância.
— Você já vai? — Era errado ele gostar do fato dela estar tão triste quanto ele, na hora de se despedir?
— Sim, tenho aula de esgrima agora. — Então abriu um sorrisinho e fingiu estar pensativo. — Uma menina me disse que eu ficava lindo com a roupa de treino, não posso desapontá-la.
Foi hilário ver o rosto dela se retorcer em uma careta de vergonha.
— Eu sabia que você não ia esquecer isso! Eu estava pensando em voz alta! Não era para você saber dessa informação.
— Mas agora eu sei e adoro. — Depositou um beijo em sua bochecha rosada. — Te ligo mais tarde.
— Certo. — Marinette respondeu, olhando-o com aqueles olhos brilhantes. — Tchauzinho.
— Tchau, minha linda. — O brilho sumiu na hora.
— Você é impossível!
Adrien ainda estava sorrindo sozinho quando chegou à sua aula.
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Outro pôr do sol, e Ladybug já estava a caminho da Torre Eiffel para seu compromisso diário.
De longe, a heroína já conseguia avistar a figura de preto familiar, a esperando.
Aterrissou e viu Chat Noir abrir um largo sorriso.
— Boa tarde, M'lady. Como você está neste gatástico dia?
Ela achou graça da forma exagerada com que ele a cumprimentou. Chat parecia estar de bom humor. Na verdade, ele sempre era assim.
Se Chat não estivesse com um sorriso no rosto e um trocadilho na ponta da língua, então saberia que algo estava errado na hora.
— Boa tarde, Gatinho. Estou bem, e você?
— Tudo miauravilhoso como sempre, Bugaboo. — Tentou não rir com os trocadilhos péssimos dele. Mas a verdade é que os amava. — Preparada para mais um dia de patrulha pacífica?
— E como estou. — Respondeu sincera, indo se sentar na beirada da torre. Chat logo se juntou a ela. — E espero que continuem pacíficas assim, como foi o verão todo.
— Entendo, M'lady. É estranho ter tantos dias sem enfrentar nenhum akumatizado. — Ele externou seus próprios pensamentos.
Desde que havia recebido os brincos, ela não se lembrava de um tempo de tanta paz. Não que estivesse reclamando, mas chame de pressentimento, ela sabia que as coisas não iam durar.
E a cada dia, isso a deixava mais ansiosa.
— Também acho. Nem sabemos mesmo se alguém pegou o Miraculous da Borboleta. Mas ele não pode ter simplesmente sumido! Alguém está com ele, mas não saberemos como essa pessoa agirá, se fará as coisas iguais ao Monarch fazia no início, sendo apenas o Hawk Moth, ou não. — Tentava não perder o sono com esses pensamentos durante à noite, mas era quase impossível.
— Tenho certeza que, se alguém estiver com ele, deve estar querendo a mesma coisa: nossos Miraculous. — Chat sugeriu, e esse era o maior medo da heroína.
— É uma boa aposta, Gatinho. Mas não temos certeza.
Ela soltou um suspiro audível, e logo em seguida, sentiu um cutucão de leve em seu ombro. Virou o rosto e encontrou Chat a encarando. Os olhos verdes felinos iluminados com otimismo.
— Seja quem for, vai se arrepender ao tentar nos atacar. — Terminou a frase com um sorriso confiante. — Ainda mais agora que você recuperou todas as joias.
— Verdade. — Não sabia se o parceiro fazia isso de propósito ou não, mas sempre que ele demonstrava essa confiança gigante nela, Ladybug se sentia invencível. Mesmo nos piores cenários.
— Falando nisso, como estão nossos aliados? — Ele mudou de assunto, voltando o olhar para a vista à frente. — Não vi nenhum deles o verão inteiro.
— Estão vivendo suas vidas normalmente, por enquanto. E espero que continue assim. — O sol já estava bem baixo agora no céu, pintando a cidade com seus impressionantes tons de amarelo e laranja. — Eu dei instruções para ficarem atentos se virem algum akumatizado, e só se transformarem para participar da luta caso eu os convoque. Eles são muitos agora, preciso de um pouco de ordem. E também, só os quero chamar se for estritamente necessário. Acabamos de ganhar esses Miraculous de volta. Não quero correr nenhum risco.
— Esperta como sempre, M'lady. — Recebeu o elogio com um sorriso.
Os dois caíram em um silêncio confortável, apenas admirando a vista ali do alto. Mesmo fazendo isso todos os dias, Ladybug não conseguia se cansar dela. Ainda mais agora que a prefeita Bustier havia aperfeiçoado a cidade de uma forma tão linda. Tinha mais árvores, mais cor, mais vida.
Passados uns minutos, ouviu Chat coçar a garganta para chamar sua atenção. E o encontrou com as sobrancelhas franzidas, perdido em pensamentos.
— M'lady sei que já conversamos sobre isso, mas ainda não consigo entender. Como Monarch conseguiu o que queria, e depois ficou tudo bem?
Conseguiu sentir seu corpo todo tensionar ao ouvir a pergunta. Bom, se havia algo que conseguia acabar completamente com seu humor, era esse assunto. Odiava lembrar daquele dia.
Mas a culpa de Chat Noir ainda ter dúvidas, era toda sua. Ele queria saber, ela não queria explicar.
Apertou os lábios em uma linha rígida, antes que eles pudessem libertar segredos que não podia.
Sentia que o que aconteceu naquela tumba, não deveria ser conhecimento de mais ninguém, além dela. Nem mesmo, de Chat Noir.
— Não ficou tudo bem. Houve um preço a pagar e ele pagou, apenas isso. — Foi o que conseguiu dizer.
— Me pergunto o que ele pediu. — Chat Noir divagou, ele não estava perguntando a ela, apenas pensando em voz alta.
Então manteve-se em silêncio, refletindo na mesma questão, somente que ela sabia a resposta: Gabriel trocou sua vida com a de Nathalie, para então se reunir com seu verdadeiro amor. Reescrevendo um universo onde ela morreu em paz, antes de se juntar a ela. Assim como Emelie queria.
Ladybug se questionava se ter perdido a luta, para que esse pedido houvesse sido feito, fora algo tão errado assim.
Se culpava por achar que não.
— Não importa o que ele pediu. — Ela falou firme, por fim. — O que importa é que não vamos permitir que isso aconteça novamente. Não vamos mais falhar.
— Nem vamos mais perder vidas inocentes, como a do Gabriel Agreste. — Ele comentou inocentemente, ainda pensativo, sem perceber o quanto o corpo dela petrificou, ainda mais, ao ouvir aquela frase. — Não pudemos protegê-lo.
Ladybug aprumou a postura, pronta para encarar o peso daquela culpa, quando Chat continuou, lançando um sorriso amarelo, para aliviar o clima, e abanando as mãos.
— Não estou te culpando, Bugaboo, sabe disso. Ainda mais quando, eu mesmo, falhei tanto. Nem estava lá para te ajudar. — Então ele terminou o raciocínio, virando-se para frente em uma postura derrotada. — Não sabe o quanto me arrependo. — Disse, ainda alheio ao seu estado.
— Você teve seus motivos, Chat. Ter mandado seu Miraculous foi ajuda o suficiente. — Respondeu séria, enquanto o olhava com carinho, segurando a mão dele por baixo da sua. — Claro, eu teria preferido ter você lá comigo, mas já passou. Não podemos mais fazer nada a respeito. Aconteceu como tinha que acontecer.
Ela precisava que o parceiro não carregasse essa culpa, quando ela mesma já carregava demais em si.
— Sim, tem razão. Mas nossa, não sabe o quanto eu queria ter te visto como Bug Noir! — Ele disse com frustração, jogando os braços para o alto, de forma dramática, e ela finalmente relaxou, grata pela mudança de assunto.
Não conseguiu conter o sorriso antes de responder. Chat há semanas vinha reclamando disso. Mas, para ela, era engraçado vê-lo tão cismado por algo tão bobo.
— Sabe que isso é impossível, Gatinho. A não ser que você estivesse na forma civil.
— Eu não ligaria, contanto que pudesse te ver daquele jeito de novo. — Ela revirou os olhos.
Sabia agora que Chat tinha uma namorada, assim como ele sabia que ela também estava namorando. Esses comentários eram apenas ele sendo, bom, ele.
— Eu só não entendi, também, como você pode fazer essa fusão. Achei que o Miraculous da Criação e da Destruição eram incompatíveis? Não sei explicar. — Ele fez gestos confusos com a mão, como se para ilustrar o seu ponto. — E que eles deveriam ser usados por duas pessoas diferentes, como temos feito.
— Na verdade, eles são o equilíbrio. Forças opostas, mas que se complementam. — Ela explicou com paciência.
Não julgava Chat por ter tantas dúvidas. Tanta coisa havia acontecido naquele dia, que até ela ainda se pagava processando tudo. Passando e repassando todos os acontecimentos na sua mente, se perguntando se poderia ter feito algo diferente, agido melhor. Então, nem podia imaginar como estava sendo para Chat Noir, que nem pode estar lá.
— Mas eu também achava isso, antes, sobre ter um só portador. — Ela continuou. — Talvez uma pessoa só não possa usar porque ficaria tentada a usar o pedido. Ou seria um alvo fácil para quem quisesse roubá-los. — Finalizou o raciocínio, dando as respostas que havia encontrado sozinha, após vários momentos de reflexão.
— Verdade. Adoro conversar com você, Bugaboo. Me esclarece tantas coisas. — Ele respondeu feliz, como se ela o tivesse contado todos os segredos do universo.
— Está admitindo que sou mais inteligente que você? — Alfinetou, dando um leve empurrão nele com seu ombro.
Chat apenas aproximou o rosto do dela, com um sorrisinho emoldurando os lábios.
— Estou dizendo que é por isso que você é nossa líder, e eu, seu leal e humilde servo. — Finalizou com uma reverência de cabeça.
— Para de graça, Chat. Sabe que você não é um servo. — Empurrou o rosto dele para cima, com o dedo na ponta do nariz dele. Ele ergueu o olhar ainda rindo, até que ela completou. — Eu não saberia o que fazer sem você.
Quase que instantaneamente o sorriso no rosto do herói morreu, e ele desviou o olhar dela para o horizonte.
— Saberia sim. — Não entendeu o que ele queria dizer, mas antes que pudesse pensar em algo, Chat se levantou. — Bom, já esgotamos nosso tempo. Paris ficou a salvo por mais um dia.
Ele estendeu a mão, ajudando-a a se levantar.
— E que permaneça assim. — Ela ofereceu um sorriso amigável, que foi logo correspondido.
— Te vejo amanhã?
— Mesmo lugar, mesmo horário.
— Zerou. — Disseram juntos, batendo os punhos.
— Até mais, Gatinho. — Ela estava pronta para saltar, quando Chat a interrompeu.
— Boa viagem de ioiô na volta! — Zombou dela, antes dele pular da torre.
— Pelo menos, eu não pratico pole dance! — Ela gritou de volta, e ouviu um grunhido de irritação.
— Isso é um bastão, e você sabe! — Ele gritou à distância, já em seu "bastão", e isso a fez gargalhar enquanto se balançava de volta para casa.
Estava quase na hora da ligação da noite com Adrien, e não queria deixá-lo esperando.
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