Auschwitz
1 Prólogo
Notas iniciais
Alemanha Nazista — 1934
Os galhos batiam violentamente contra o rosto pálido pelo frio. Um corte sangrava no lábio inferior. As bochechas levemente afogueadas pela adrenalina e o nariz vermelho, enquanto o cabelo vermelho cobria parcialmente o rosto da menina que estava agarrada fortemente a mulher ruiva. O som dos pássaros que instantes antes guiavam Janine pela floresta cessaram, como se anunciasse a chegada dos inimigos, ou ao menos foi o que a mente aterrorizada de Janine pensou. Apertou ainda mais Rosemarie, como se pudesse escondê-la dentro de seu corpo com aquele gesto, de forma que ninguém pudesse mais fazer mal a sua filha.
— Não abra os olhos, está me ouvindo? — perguntou em alemão — Aconteça o que acontecer não abra os olhos!
Cobriu o corpo da menina com a ponta do seu casaco e voltou a andar o mais rápido e sorrateiramente que pode. As folhas no chão juntamente com os galhos não ajudavam naquela tarefa. O mais leve dos passos produzia um estrondoso ruído e Janine tinha certeza de que se havia alguém as observando eles podiam lhe ouvir.
Ela estacou no lugar por um breve momento, olhando para todos os lados da floresta, procurando por alguma ameaça eminente. Tinha certeza de que havia um punhal escondido no bolso do casaco, mas quantos homens conseguiria colocar a baixo até que não conseguisse mais?
— Estou com fome — a voz infantil lhe falou ao pé do ouvido.
— Já vamos comer, já vamos — respondeu.
Permitiu-se relaxar minimamente quando percebeu não haver na floresta ninguém além delas. Mas ainda sim caminhou um pouco mais, para perto de um lago congelado e se sentou perto de alguns arbustos de faias cujas folhas estavam congeladas. O local era cercado por abetos vermelhos, o que ajudava na camuflagem de mãe e filha.
Tão logo se sentou Rosemarie tirou a cabeça do ombro da mãe e a fitou. O rosto corado e levemente aterrorizado.
— Estamos seguras agora? — sussurrou.
Janine sorriu, colocando uma das tranças escuras da filha para traz, em suas costas.
— Só mais um pouco — segurou a mão da filha — Seu pai nos espera na fronteira e então, quando o encontrarmos e voltarmos para a Turquia, tudo ficará bem.
Janine tirou da pequena bolsa de pano que carregava uma vasilha de alumínio. De dentro dela pegou biscoitos e entregou alguns para Rosemarie que prontamente colocou um na boca.
— Vá devagar, querida — falou e pegou uma garrafa térmica de água, dando para a menina — Acho que podemos ficar um pouco aqui e descansarmos — divagou, mas então se lembrou de que ainda estavam perto de casa. Perto de serem pegas.
Deixou que a menina mastigasse mais alguns biscoitos e assim que terminou guardou tudo e a pegou no colo novamente.
— Não podemos patinar um pouco no lago? — perguntou enquanto a mãe caminhava para longe dali e Rosemarie olhava desejosa para trás.
— Oh, não querida, sinto muito. Mas quando chegarmos...
— Lá faremos algo legal — completou a frase da mãe e olhou para ela — Por que estamos fugindo?
— Você sabe o porquê, Rose — respondeu, olhando a sua volta decidindo por qual caminho seguiriam. Por fora da floresta seria mais rápido, a metade do tempo, mas estariam expostas. Por dentro, teriam que tratar de todos os obstáculos impostos pela natureza e chegariam à fronteira somente ao anoitecer.
Decidiu, por fim, seguir ainda pela floresta. As árvores ofereceriam uma proteção extra dos olhos de alguém que pudesse estar procurando por elas. Claro, porque no sistema de Hitler cada indivíduo passou a ser seus "olhos e ouvidos".
A Alemanha estava em guerra com qualquer um que não pertencesse a tal raça ariana, a raça "mais pura" já vista, segundo o Führer¹. A ordem era clara: qualquer um que fosse encontrado deveria pagar pelo 'crime' de ser um 'parasita'. No início, apenas os judeus eram perseguidos. Bombas eram jogadas aleatoriamente por toda a Alemanha, destruindo casas, fazendas e sinagogas. E então, depois, quando o nazismo passou a ser praticado na Polônia, Eslováquia, Áustria e em tantos outros países, o alarme foi geral. Qualquer um que não preenchesse os requisitos da raça ariana, sendo eles indivíduos altos, fortes, claros e inteligentes; deveriam deixar a Alemanha ou qualquer outro país citado acima. Era questão de sobrevivência.
"O povo alemão é um só corpo, mas a sua integridade está ameaçada. Para manter a saúde do povo, é preciso curar o corpo infestado de parasitas". Foi com isso que Adolf Hitler ajudou a disseminar uma metáfora bastante útil para o progresso da nova doutrina.
Os parasitas, a partir daquele momento, não seriam apenas judeus. Qualquer um que não pertencesse e seguisse os preceitos colocados por Hitler — sem exceção — era considerado um parasita. Afinal, quem se importa com a morte de mais de mais de milhares de 'parasitas'? Aquele era apenas o início.
A desculpa de matar o povo judeu por eles terem "ajudado a Alemanha a perder a Primeira Guerra Mundial" era aceita como um argumento válido pelos seguidores do Führer. Isso aterrorizava Janine. Sabia que deveriam sair dali o mais rápido que conseguissem. A carta que o ex-marido mandara era simples e direta: deveriam sair dali antes que os nazistas resolvessem checar o campo ao redor de SimbachamInn a procura de "criminosos".
Janine crescera em uma família de ciganos, de forma que quando o casamento com o pai de Rose não deu certo, ela voltou para a Alemanha pensando que ali poderia criar a filha perto de suas raízes. Aquele havia sido um erro terrível
As horas pareciam passar rapidamente enquanto Janine caminhava o mais rápido que podia com sua filha nos braços. Ao cair da noite, quando os pulmões já não pareciam mais aguentar, avistou, poucos metros a sua frente, a ponte que ligava a BraunauamInn, fronteira com a Áustria. O alivio inundou cada poro de seu corpo. Ali teriam uma chance, embora que pequena, era melhor do que esperar a morte certa continuando na Alemanha.
— Veja! — disse apontando para a ponte — Vamos encontrar seu baba, Rose!
A menina coçou os olhos, tentando permanecer acordada. Janine caminhava apressada pela ponte, e conforme subia pela extensa rampa, mais podia ver da cidade. Ali ainda não seria seguro, mas não havia tantos nazistas ávidos por sofrimento como na Alemanha.
— Halten Sie es!² — gritou uma voz masculina em alemão.
Janine se voltou para trás assustada com o quê ouvira. A poucos metros dela, no começo da ponte, havia um soldado alemão. A suástica brilhava imperial. Pouco atrás dele, um automóvel com os faróis acesos iluminava Janine, assim como outros soldados. Janine os contou. Um, dois, três... Seis soldados.
Deu um passo para trás, olhando pelo canto do olho para o começo da Áustria. Teria mais chances se corresse para o outro país. Era certeza que seria perseguida e talvez morresse, mas tentaria.
— Halten Sie es! — voltou a dizer o soldado, desta vez, dando alguns passos em direção a Janine.
A menina encarava a tudo com os olhos bem abertos. Via na suástica, presa ao braço do soldado e na farda, um sentimento de perigo que tantas vezes vira sua mãe e seu pai se referirem.
— Wirsindkeine Juden!³ — Janine gritou de volta, embora soubesse que aquela afirmação fosse patética e ingênua. Eles não se importavam com quem era ou não judeu.
Enquanto os soldados avançavam, encurralando Janine, mais a noite parecia silenciosa. E então, depois de insultos sendo gritados em alemão, choro incessante houve um silêncio. Segundos depois, um estalido de uma arma de fogo. E então, um grito retumbando na noite:
— Heil Hitler! 4
Há poucos passos de onde Rose estava observando o corpo da mãe caído no chão enquanto as tábuas se tingiam de escarlate, estava um garoto. A diferença de idades entre ela e a garoto não era muita, mas aquilo não impediu o menino de se levantar de onde esteve escondido, observando o que se passava.
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Glossário:
1 — Führer — Líder;
2 — HaltenSie es! — Parem!;
3 — WirsindkeineJuden! — Nós não somos judeus!
4 — Heil Hitler — Salve Hitler.
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