O frio há muito castigava ainda mais os prisioneiros. O tempo seco não ajudava na tarefa que devia ser cumprida por eles. Tampouco os guardas faziam algo para ajudá-los.

As mãos de Rose, mesmo com uma luva improvisada, sofriam com aquilo. Alguns lugares em sua palma tinham pontinhos de sangue, outros estavam vermelhos. A pele tão frágil e ressecada, como se não suportassem o menor dos esforços.

Mas ainda assim, ela continuava em sua tarefa. Descansos não eram permitidos sobre os estreitos e perversos olhos dos que a observavam atentamente, com a ameaça frequente.

A sua frente, Lissa tentava se segurar na enxada, mas sentia que o corpo sucumbiria a qualquer instante.

Rose tirou o pano que cobria sua cabeça.

— O que está fazendo? — indagou a amiga, confusa.

— Fique atrás de mim! — falou a puxando pelo braço — Aí na frente está muito exposta e atrai muita atenção, podem pensar que está doente.

Prendeu o lenço nas mãos de Lissa, tentando aquecê-la e tirou seu próprio cachecol, o colocando ao redor de seu pescoço para deixá-la quente e suportar a terrível temperatura.

— Comeu essa manhã? — Rose perguntou, vendo a assentir, com os lábios tremendo.

— Ela está doente? — uma mulher de uns vinte e poucos anos perguntou, sem desviar seu olhar do trabalho, com medo de atrair atenção — Se estiver não deixe que percebam.

— Ela não está doente — Rose falou, voltando-se para frente.

Mesmo que todos ali estivessem na mesma situação, sabia que não podia confiar em ninguém. Não tinha certeza do que aquelas pessoas fariam por mais um pouco de pão.

Na hora da janta, sendo esta sopa de batata engrossada com farelo de trigo, Lissa estava sendo amparada por Rose de um lado e Gisela de outro.

— Ela precisa de um médico! — Gisela argumentou.

Rose quase riu, achando que aquilo fosse uma piada. Médico... Ali. Para atender um prisioneiro, afinal, suas condições já haviam sido dadas; eram prisioneiros.

— Ela não precisa, vai ficar-

Qualquer que fossem as palavras sumiu, no momento em que viram um guarda se aproximar. Rose o fitou com intensidade, como se estivesse tentando mostrar que protegeria a amiga de qualquer que fossem seus planos.

— O que há de errado? — o tom do homem, para a surpresa das duas soou preocupado. Não frio, e não como soa o tom de um soldado nazista, feito para crer que está à frente de tudo e acima de todos.

Porco Dissimulado! — foi o que Rose quis cuspir na cara dele.

— Ela apenas está com frio — Rose falou, apertando os ombros de Lissa.

O homem pareceu ignorar o que ela disse e se abaixou a frente delas, colocando o rifle para trás e tocando o pulso fraco.

Rose se sobressaltou, e no instante seguinte puxou o braço de Lissa para longe dele.

— Já disse que está tudo bem!

Sem olhar em sua direção, o soldado se levantou, com os olhos fixos em Lissa até dar as costas, caminhando para longe delas.

— Acha que ele vai dizer a alguém? — Gisela sussurrou, com medo de que eles fossem buscá-la.

— Não podemos confiar neles, sabe disso. — Rose murmurou, mas sua atenção não estava mais ali. Estava do outro lado do pátio, o masculino. A procura de um rosto conhecido. Apenas um.

Dimitri não estava em nenhum lugar das proximidades. Também não conseguia enxergar muita coisa com os pequenos focos de luz que estavam espalhados.

— O que foi? — Gisela questionou, mesmo que já soubesse o que procurava. Também sentia saudade de certo judeu. Mas não admitiria isso para Eddie.

— Nada — Rose murmurou, respirando lentamente — Não é nada. Pode ficar com Lissa por um instante? Eu volto já. Dê minha sopa a ela, quanto mais alimentada estiver melhor.

Não deu chances de Gisela dizer alguma coisa, apenas amparar Lissa que parecia cada vez pior.

Andou em passos calmos e lentos até o limite da grade, que separava os campos. Os dedos seguravam fortemente o metal frio da grade. Soltou lentamente a respiração, que formou pequenas nuvens no ar.

Os olhos estreitados caçavam um rosto conhecido ou agradável, qualquer um que pudesse ter notícia de Dimitri. Não encontrou nada. Também não teve a chance de procurar muito

Os guardas soaram o apito, junto ao som dos latidos dos cães e, como se fossem incapazes de voltar ao barracão por conta própria, foram praticamente empurrados para dentro deles.

O espaço para dormirem era mínimo. Todas as cobertas — mesmo sendo poucas — que deveria aquecê-la estavam sobre Lissa, que tremia sem parar.

Um vulto tirou sua atenção do corpo frágil, e ela olhou naquela direção, sem ter exata certeza do que havia visto. Pelo que sabia, podia ser qualquer coisa. Levantou-se, ignorando resmungos mal-humorados de quem tentava aproveitar um dos poucos momentos de descanso, e caminhou para próximo as portas que balançavam com o vento, mas não teve tempo de chegar até lá. Uma mão enluvada de preto cobriu sua boca, girando seu corpo para trás.

O assombro que percorreu seu corpo, junto ao pânico, não a deixara pensar corretamente. Sentia que o coração fosse rasgar o peito por quão forte este batia.

Vieram me buscar, assim como fizeram com mamãe! — Bastou que esse pensamento a atingisse para a reação ser imediata.

O primeiro impulso veio junto com a voz de Dimitri quando a ensinou a socar.

Fechou o punho e colocou toda a sua força nele, empurrando o braço para trás e então o lançando em direção ao rosto do agressor. O gemido de dor emitido foi o seu próprio, quando teve o braço segurado com força e então foi empurrada para o chão.

— Solto se você não tentar me acertar novamente, saumensch! — sussurrou ao ouvido enquanto a segurava com raiva.

Ela reconheceu a voz e isso a fez parar, respirando pesadamente.

— Eu não vou só tentar, desta vez acerto você, porco filho da puta!

O soldado revirou os olhos, mas ainda assim a soltou, passando as mãos pela farda com um nojo aparente no olhar.

Rose se levantou, mas quando estava pronta para tentar acertá-lo outra vez, um frasco foi estendido em sua direção.

Era meio quadrado, amarronzado, mas o líquido dentro dele parecia ser transparente.

— O que é isso?

O homem acenou com a cabeça para trás, onde todos ainda dormiam, parecendo alheios ao que ocorria ali.

— Dê a sua amiga agora e um pouco na manhã. Não a deixe pegar muita friagem também. Algumas doses disso e ela vai ficar bem. Esconda bem e não deixe que ninguém veja que tem isso.

Rose olhou para o frasco como se fosse um animal que nunca viu na vida — não havia visto muitos, de qualquer forma.

— E quem me garante que isso não é veneno? Vocês parecem amar matar e ainda saírem como se tivessem feito algo de bom a essas pessoas — cuspiu — Não confio em nenhum nazista!

O homem estreitou os olhos azuis para Rose, mas não a culpava. Ele próprio não estava acreditando que estava ali. Ele empurrou o frasco em suas mãos e sem dizer mais nada, deu as costas para ela, dando uma única batida na porta que se abriu no segundo seguinte.

Um pouco do ar frio entrou e, por um instante, enquanto o guarda saia, Rose vislumbrou os rostos raivosos destinados a ela e aos outros que dormiam. A porta foi fechada com a mesma destreza e silêncio em que foi aberta e Rose voltou para seu acolchoado. Olhou para o frasco que ainda estava em suas mãos e o abriu, cheirando e então passou o dedo na borda, o levando até a pontinha da língua, provando e esperando por alguns minutos que algo acontecesse. Suspirou antes de chacoalhar Lissa levemente, para os lados.

A amiga piscou os olhos. Surpresa com a forma como foi acordada e mais ainda porque sentia o corpo fraco. A garganta estava um pouco seca, dificultando a fala.

— Rose? — perguntou, piscando contra a escuridão — O que houve?

— Shh! — pousou a mão sobre os lábios secos — Faça silêncio, Liss!

Ela destampou a boca e olhou novamente para o frasco. Por que o tal guarda se certificaria de não ser notado por outros prisioneiros e daria aquilo? Ele poderia muito bem apontar um fuzil para a cabeça de qualquer um ali e matar, alegando qualquer que fosse o motivo. Aliás, nenhum motivo seria necessário.

Ela retirou a tampa que cobria o frasco e o forçou contra os lábios de Lissa, que mesmo ainda confusa bebeu o líquido.

— Não faça perguntas, tudo bem? — perguntou, passando uma mão pelos curtos cabelos loiros dourados que um dia haviam sido longos e cheios de vida — Durma um pouco.

Não se perdoaria se tivesse causado a morte da amiga. Já era ruim o bastante que ela carregasse a culpa por estarem ali. Já estava claro para ela como os nazistas haviam descoberto a localização deles. Rose não havia sido rápida o bastante na fuga quando roubaram o caminhão.

Somente no dia seguinte, na pequena pausa que fizeram para se alimentar, Rose começou a aceitar a ideia de que um maldito soldado nazista havia as ajudado. Primeiro pensou que talvez ele tivesse sentido pena... Mas depois refletiu sobre aquilo. Eles não foram feitos para pensarem, apenas agir em prol de uma doutrina estúpida cujo nem o próprio criador a tinha. Conhecia aquela raça o suficiente para chegar à conclusão de que o único motivo para ter ajudado ela era que não aceitariam que um prisioneiro simplesmente morresse se não fosse por suas mãos.

[...]

— Rose — Lissa murmurou, passando uma mão sobre a testa e logo voltando para trabalhar — Sei que disse que não deveria perguntar sobre, mas...

Ela parou de falar quando sentiu um forte empurrão em suas costas. Teve o vislumbre de olhos raivosos sobre ela e abaixou a cabeça, se concentrando no repetitivo trabalho.

Rose não pode deixar de se sentir aliviada. Não queria dizer a Lissa sobre quem havia dado remédio a ela. Ela tinha uma alma tão nobre que sempre esperava pelo melhor das pessoas, e não queria que mesmo ali ela ainda tivesse seus pensamentos presos aquilo.

No entanto, tornou-se impossível esquecer aquilo quando o homem não parava de observá-las. Aquilo já havia ultrapassado o nível de "apenas cumprindo seu dever".

Rose não era boa com pensar antes de agir. Isso era com Dimitri, que parecia já ter lido muitos livros com frases para ser ditas em momentos sazonais — nada que Rose prestasse muita atenção enquanto ele falava.

Perdeu as contas de quanto tempo havia se passado sem que visse a ele ou a Eddie. Todo dia, durante as pausas, verificava o campo masculino, a procura do rosto conhecido e que lhe trazia paz. Fez isso durante uma semana, até que em um dia, na refeição que chamavam de café da manhã ela o viu. O coração foi a boca, as mãos tremiam. Passou uma mão pelo cabelo quando notou que ele a observava. Lamentou a aparência, que sabia não ser das melhores.

Se havia algo que Rose mais do que amava ouvir de Dimitri — fora seu apelido em russo — era elogios. Não eram muitos, mas eram mais do que suficientes para que Rose percebesse que ele se importava e reparava nela.

No entanto, agora, com os cabelos curtos e parecendo maltratada, desejou que ele não fosse tão observador.

Ela balançou a cabeça, andando até ele com passos firmes.

Somente quando já se aproximavam percebeu que talvez Dimitri já estivesse a olhando por um bom tempo, bem antes de ela própria o perceber.

Rose não parou até estar praticamente apoiada contra a grade. Colocou uma mão sobre a tela, próxima a de Dimitri, mas elas mal se tocaram.

Um sorriso brotou dos lábios rachados de Rose, mas este lentamente foi desaparecendo.

Sentia algo dentro de si ruir conforme o tempo passava e Dimitri nada dizia. Sentiu-se tola, como uma garotinha, como Dimitri costumava dizer que ela era. Sentiu-se boba por ter dedicado boa parte dos seus pensamentos a ele, quando nem o próprio parecia partilhar daquilo. Dimitri provavelmente não se recordava — foi o que Rose pensou — ou não dava tanta atenção ao fato, mas a memória ainda estava acesa nela, como uma chama brilhante. Lembrava-se das caricias que trocaram, da sensação dos toques de Dimitri em sua pele e de como ele repetia seu nome em seus ouvidos naquela noite como se fosse uma oração.

A sensação causada pelas lembranças dos lábios de Dimitri sobre os seus eram como uma válvula de escape dali. Era como experimentar uma parte do paraíso — mesmo que não acreditasse nisso.

Mas agora estava ali, em frente a ele. E nenhuma palavra havia sido dita. As palavras pareciam todas engasgadas em sua garganta. Tinha tanto a dizer que não conseguia saber o que falaria primeiro.

Foi então que desviou a atenção dos olhos marrons escuros quase negros, quando sentiu um suave e frio toque sobre a mão. Os dedos de Dimitri estavam sobre os seus, no curto espaço que a grade permitia.

— Não chora — Dimitri murmurou, tentando fazer a mão atravessar a grande para alcançar o rosto dela — Roza, não chora.

Ela nem sequer havia percebido que tinha o rosto molhado.

— Eu pensei... Pensei que algo de muito ruim tivesse acontecido com você — murmurou, com a voz entrecortada, mas logo parando. O simples pensamento de que algo pudesse ter ocorrido com ele era torturante demais. Teve anseios de tocar-lhe o rosto, certificar-se que estava tudo bem, mas não havia como — Fico feliz por estar bem.

Tinha tanto mais para dizer e perguntar. Ou então, simplesmente ouvir, observá-lo. Viu que havia uma vermelhidão em sua bochecha esquerda. O cabelo que sempre era alvo das mãos dela quando se abraçavam, estavam cortados completamente. O nariz, perfeito e bem formado, tinha alguns sinais de briga. Mas nada pode ser dito quando o apito soou, avisando que o trabalho pesado os esperava. Abriu a boca para dizer a Dimitri rapidamente que queria vê-lo no dia seguinte, mas ele apenas soltou sua mão, dando as costas.

Para Rose, foi como se algo ruim percorresse do seu estômago e chegasse a sua boca, causando um gosto amargo e a forçando a engolir. Era odiosa a ideia de Dimitri não querer saber como ela estava.

Para o russo, era uma tentativa de ainda se manter são; sem promessas. Talvez não visse mais sua Roza e não queria partir sabendo que a decepcionara. A ideia de saber que não conseguiria tirá-la dali fazia com que sentisse uma dor cruel. Nunca havia pensado em perder alguém por quem daria a vida. Ali, aquela opção não era dada, mas o faria na primeira oportunidade que tivesse.

Faria de tudo para que ela não tivesse de assistir a sua partida...

Até mesmo se afastar.