Auschwitz
12 Capítulo 10
A volta havia sido tão silenciosa quanto à ida... Se não fosse pelos batimentos cardíacos de Rose que ainda não pareciam ter se acostumado. O olhar havia adquiro um brilho novo de felicidade. Esperança renascida, literalmente.
Foi com alegria que aconchegou seu corpo o máximo possível no pequeno espaço ali distribuído para todas as mulheres e crianças com mais de 10 anos.
A noite de sono foi tranquila, como não tinha há tempos, mas a forma como despertou deu a ela novamente a sensação de medo. Sensação que pensou que não experimentaria novamente desde que falou com Dimitri.
— O que está havendo? — questionou a primeira pessoa que viu, quando foi forçada a se levantar.
Cerca de sete guardas estavam ali, vasculhando tudo e gritando tantas coisas que Rose era incapaz de compreendê-las. Forçou a mente, enquanto alguém a empurrava para ficar ao lado das outras mulheres, que assistiam a tudo igualmente assustadas. Algumas mais do que outras. Ela tentou prestar atenção ao que era gritado em suas faces, com um legítimo ódio no olhar.
— Onde está?!
Olhou ao redor, vendo que tudo ainda estava sendo vasculhado até um choro se fazer ouvir. Fino e assustado. Inocente.
Entendeu o que eles tanto procuravam. E que finalmente haviam achado. Suas pernas pareciam chumbo ao passo que tentava se movimentar, tentando proteger aquela coisinha tão pequenina que havia levado tanta esperança a todas elas.
Um grito ainda mais alto ecoou pelo pequeno espaço conforme uma mulher de cabelo loiro prendido firmemente em duas tranças ao lado da cabeça se aproximou, segurando Lucy de qualquer jeito. Eliza avançou para cima dela, sedo derrubada, segundos depois, ao chão enquanto tentava alcançar o bebê que ainda chorava assustado.
— Minha filha! — Eliza gritou, enquanto era forçada a ficar no chão — É a minha filha!
— Não podem levá-la — uma voz ao lado de Rose sussurrou baixinho, e então mais alto: — Não podem levá-la!
Rose tinha os olhos presos àquela cena. O oxigênio ali parecia não ser suficiente enquanto via tudo praticamente rodar.
Piscou os olhos que estavam marejados, a fim de livrar das lágrimas que ameaçavam cair e pareceu ter voltado anos no passado. Estava outra vez na ponte de BraunauamInn. Estava outra vez vendo sua mãe ser fuzilada a sua frente, piscando os olhos verdes para ela uma última vez, dando seu último sorriso. Ela sabia que não estava ocorrendo novamente, mas era como se pudesse ouvir a voz da mãe sussurrar para ela:
— Vai ficar tudo bem. Seu pai está nos esperando do outro lado.
Piscou os olhos novamente quando foi empurrada bruscamente para o lado. Pensou que fosse um dos guardas, mas se enganou ao ver que era Elwin, tentando fazer algo. Algo que Rose se sentia incapaz de fazer.
As forças pareciam ter escapado dela. Sentia-se um lixo, tal como eles tentavam fazê-la acreditar que ela fosse.
Um grito soou ao seu lado e ela olhou assustada naquela direção, enquanto Lissa segurava Gisela em seu lugar, dizendo para que se acalmasse. Dizendo que não podiam fazer nada. Disse também que ninguém podia. Que ninguém iria ajudá-los.
— Elas! — um homem baixinho e usando um uniforme como o de Hoss falou, apontando para Elwin e Eliza e outra mulher, que também estava tentando lutar contra aquilo. Perguntou-se onde estaria o outro comandante. Era ele que aparecia sempre como protagonista dos pesadelos de Rose. Aquele homem era novo demais para carregar no olhar o mesmo ódio inexplicável que Hoss tinha. ¹
E então, engolindo, apenas olhou enquanto as mulheres eram arrastadas para fora à base de violência. O bebê foi levado com eles. Enquanto os soldados se retiravam, um par de olhos azuis se demorou sobre Lissa e então seguindo finalmente para fora. Aquilo não passou despercebido para Rose. Não quando Lissa seguiu seus rastros até sumir de vista. Conhecia aquele olhar. Já tinha ganhado um igual várias e várias vezes.
Naquele dia ninguém os chamou para o trabalho e tampouco para as refeições. Permaneceram trancadas durante todo o dia.
— Não vão matar um bebê — Lissa sussurrou, em cima de algumas bases de concreto, tentando ver por pequenos buracos na madeira o que se passava do lado de fora — Não podem. El-
— E porque o deixariam vivo? — Gisela disse, rouca. Havia gritado tanto que sentia a garganta ferida — Para presenciar o que está acontecendo? Para ser enviado a um campo de trabalho quando tiver idade suficiente para andar? ²
Os pensamentos de Rose estavam longe dali. Na forma como o guarda olhara para Lissa, lembrando-se das duas vezes em que ele as ajudou. Passava as unhas na ponta do dedo polegar, ignorando a dor que aquilo começava a causar. Sempre foi boa em ler pessoas, em ler reações, mas quando se tratava do tal soldado, guerreavam dentro dela a intuição com a crença.
Saiu de seus pensamentos quando alguém disse para terem fé, que aquilo terminaria.
— Isso é algo engraçado, não é? — murmurou com amargura, erguendo os olhos castanhos quase sem vida — A fé, eu digo — sua fala despertou a atenção dos que estavam mais próximos — Todo mundo diz que devemos ter fé nas coisas mais impossíveis. No entanto, no momento de pô-las em prática, todos recuam, por medo de não dar certo. Que fé é essa?
Os rostos confusos e magros a olharam, tentando entender o que ela dizia quando prosseguiu.
— Vamos morrer aqui e é nisso que a maioria tem fé. Que o único jeito de sairmos é morrendo. Não percebem que se não tentarmos algo, vamos morrer da mesma forma?
— Outros já tentaram — Lissa murmurou — E morreram assim.
Rose não disse mais nada, apenas se encolheu em um canto, tentando fazer a dor no estômago passar. À noite, quando sabia que a guarda não ficaria tão apostos assim e estaria longe do olhar de qualquer um, ela saiu dali com a mesma destreza do dia anterior, não sendo notada, mas, daquela vez, não seguiu para ver até onde dava o complexo.
Rondou com o maior cuidado possível até chegar onde as refeições eram servidas aos prisioneiros e como esperava, encontrou o que procurava.
Andou suntuosamente até mais perto, mantendo-se perto do que parecia ser um centro administrativo já que pintado em preto estava à suástica imperial. Para ela, nunca pareceu tão importante olhar aquilo. Colou suas costas a da pequena construção e então abaixou até a neve, juntando uma boa quantidade em sua mão e a lançando na outra direção. Sabia que aquilo iria ser checado. E mais importante: sabia quem checaria.
— Wer ist da? ³
Ela não respondeu e logo que a sombra ficou próxima o suficiente ela se ergueu, puxando pela gola da farda que ele usava.
Os olhos azuis que se arregalaram e estavam prontos para reagir se aquietaram quando percebeu quem era.
— O que faz aqui fora? — sibilou em uma voz dura — Volte para dentro ou-
— Vai contar a alguém? — perguntou, engolindo a seco — Então conte! Comece dizendo por que Vasilisa e os outros não morreram durante o envenenamento. Ou sobre como deu medicamento a ela.
A expressão séria minimizou, mas não desapareceu.
— Não negocio com vocês! — cuspiu as palavras duramente e então pegou no braço dela com força, dizendo as palavras vagarosamente — Volte para dentro.
— Não — rebateu cerrando os lábios para reprimir a dor. Não tinha muita força no aperto, mas estava sem comer o dia todo — Estão nos matando. Lentamente. A cada dia mais. Não nos trouxeram aqui para trabalhar, todos sabemos disso. Até mesmo o mais tolo de nós já compreendeu o que se passa aqui.
Ele a soltou, dando um pequeno sorriso, mas que ainda sim não foi o suficiente para Rose acreditar que ele estava feliz com aquilo. Ela estava passando por cima de tudo que sempre acreditou para falar com um soldado que considerava asqueroso. Apenas porque sabia que as chances de sair viva dali diminuíam cada vez mais e queria esgotar todas elas antes de desistir.
— Sei que não se importa com nenhum de nós — murmurou, tentando fazer a voz soar mais passiva — Mas esta do mesmo lado agora, não está?
O sorrisinho não havia morrido.
— Estou?
Ela assentiu.
— Sabe que algo está havendo, não sabe? — perguntou, vendo-o empalidecer enquanto repetia as palavras ditas por Dimitri no dia anterior — Os guardas diminuem cada vez mais e agora a comida...
Christian conteve o suspiro aflito ao imaginar que todos estavam abandonando o barco. Mas nada podia dizer destes, já que ele próprio há muito não seguia o que foi dito pelo Führer. Não sabia o que havia dado nele para começar a conversar com a garota de olhos verdes e traços angelicais. O pai, que servia com o maior gosto no bunker, provavelmente nunca o perdoaria se soubesse que havia se apaixonado por alguém que não deveria.
— O que você quer? — perguntou, mas já sabia o que era quando viu o brilho de ousadia passar pelos olhos da garota.
— Liberdade.
Glossário:
¹ Hoss se afastou quando percebeu o avanço das tropas soviéticas, abandonando o comando de todo o complexo de Auschwitz.
² Não é um padrão, mas a grande maioria das crianças que eram pegas ali (menores de 2 anos) eram adotadas por famílias de militares alemães. Eles acreditavam que mesmo que essa criança fosse um judeu, soviético, cigano ou qualquer origem que eles “condenavam”, mas fosse criada no meio da cultura deles ainda tinha salvação. Foi isso o que ocorreu com Lucy.
³ Quem vem lá — é tipo uma saudação de guerrilheiros, que perguntam isso antes de atirar quando estão no próprio campo de batalha e para não ferir os seus.
Fale com o autor