Auschwitz

13 Capítulo 11


Os olhos azuis não continham mais humor. Estavam centrados e cravados em Rose que se mantinha impassível. Foi uma jogada arriscada; confiar em alguém que estava do lado inimigo, mas era uma boa chance. Se ele tivesse criado afeição por Lissa — o que Rose nunca pensou que desejaria — ela se aproveitaria disso.

Não poderia ser considerado errado. Não era. Aquilo era uma luta pela sobrevivência. Dela e dos outros.

Suspirando, o homem passou uma das mãos pela cabeça, e então a ergueu, soltando a respiração. De olhos fechados, ele falou:

— Há um trem austríaco que vai chegar daqui a três dias. Vai trazer suprimentos e armas.

Rose não conteve sua indignação, se engasgando com as palavras.

— Está tentando nos matar de forma mais rápida? Seria impossível nos esconder em um dos vagões. Todos eles são checados e revistados.

Era por isso que quando tinham de saquear algo, Dimitri nunca os deixava chegar perto de um. Era mais do que arriscado; suicídio era a palavra própria.

Ele balançou a cabeça negando.

— Não vão checar este. Eles estão com pressa. É a única chance — ele abriu os olhos, olhando para Rose e então balançou a cabeça novamente — Eu ainda não acredito que estou ajudando sua gente.

— Não está ajudando — Rose rebateu. Só saberia se ele era confiável quando estivesse longe dali e viva, mas antes que dissesse mais alguma coisa foi atraída pelo que ele dissera — Por que estão com pressa?

O soldado recuou um passo, travando a mandíbula, como se tivesse dito algo que não devia. E realmente não deveria.

Quando ele não respondeu, ela teve ímpetos de insistir. Era grande e ela sabia. Dimitri não estava errado.

— Espere aqui — ele murmurou, marchando para longe dela. Rose se encostou mais a construção. Ficar sozinha ali, ainda com todos os medos, para ela, era melhor do que sobre os vigilantes olhos de um nazista que não sabia se podia mesmo confiar.

Ouviu passos pesados e então ele apareceu novamente a sua frente, carregando dois cantis com água e algumas latas com feijão.

— Tente fazer durar, eu não tenho como conseguir mais e as coisas daqui para frente não vão ficar muito melhores. Vou conseguir mais informações sobre o trem e dou um jeito de avisar.

Ela hesitou antes de abrir os braços e segurar da melhor forma que pode o que era oferecido. Seu estômago se revirando não deixava cogitar as ideias ruins que poderia ter contra o seu gesto.

— Eu sou a Rose — ela murmurou, quando ajeitou tudo.

Pode ver quando os olhos azuis seguiram na direção de seu braço, que mesmo coberto, ele sabia conter os números que haviam tatuado nela. Mesmo apaixonado, nada o fazia esquecer que o nome do que fazia era traição. Em um gesto quase automático, as duas mãos foram para suas costas e ele as entrelaçou ali.

— Christian — falou antes de dar as costas.

— Eu sei — ela sussurrou, mas em um tom considerável para que ele escutasse — Lissa costuma falar enquanto dorme.

Ela, com um inevitável assombro, viu um sorriso cruzar o rosto de Christian antes de ele seguir caminho para onde esteve antes dela o chamar.

[...]

Rose não queria erguer a cabeça por razões quase óbvias; tinha consciência dos olhos castanhos escuro sobre si. Havia uma coisa que ela não conseguia fazer com frequência: mentir para Dimitri.

— Não quero pensar que está me escondendo algo, — ele disse a ela, em um tom afável — mas sei que está, Roza.

Ela olhou para ele, dando um pequeno sorriso dissimulado.

— Estava pensando que você poderia me abraçar daquele jeito novamente — murmurou. Mas, diferente das outras vezes, deixar Dimitri sem graça não adiantou. Ele agora tinha os olhos estreitados e ela sabia que havia confessado sua culpa.

Dando um longo suspiro, ele se arrastou até ficar ao lado dela, Manteve os dois braços ao redor dos joelhos, embora realmente quisesse abraçá-la. Tinha muitos olhos ao redor deles naquele momento.

Ele olhou para a lua que estava sobre eles, brilhando altiva.

— Só, por favor, não faça algo impensado. — abaixou seus olhos até encontrar os dela, que deu um pequeno sorriso travesso. Ele quase sorriu junto e então finalmente passou um braço ao redor dela, mas logo o retirou, quando viu um homem se aproximar.

— ¹ Tovarishch — ele saudou a Dimitri em russo, olhando para Rose por breves segundos e então deu um singelo sorriso, indo se sentar mais perto do resto das pessoas que se aglomeravam bem perto dos focos de luz.

— Fazendo amizades? — Rose perguntou e mesmo que não quisesse, tinha um tom amargo nas palavras. Amizades... Ela não havia feito nenhuma ali. Era difícil fazer amizade em um lugar que nem sua própria sombra era confiável. Lissa, Gisela, Eddie e Dimitri eram sua família.

— Não — ele disse, olhando para Rose e passando o polegar sobre o nariz dela que tinha uma mancha preta de fuligem — Ele era da mesma cidade que eu nasci — respondeu — Me chamou de camarada — explicou, mas ao invés de ouvir uma piada sobre aquilo, Rose fez ao contrário.

— Me leva até lá? — perguntou, entrelaçando seus dedos nos dele, vendo o encaixe entre eles antes de focar em seus olhos — Para a cidade que você nasceu. Quando sairmos daqui. E então você vai fazer aquele doce. Como é mesmo o nome dele?

— Kazinaki— respondeu e Rose sorriu. Ela se recordava do nome, mas gostava de ouvir Dimitri falar. Ele apertou os dedos dela firmemente e assentiu com a cabeça — Eu levo você lá.

Ela o puxou para mais perto, até que tivesse a cabeça encostada contra seu peito forte, podendo ouvir as batidas ritmadas do seu coração. Permaneceram daquele jeito até que o apito soasse.

Haviam lhes dado um pouco de comida naquele dia, juntamente com o trabalho. O que quer que estivesse acontecendo fora dali eles estavam tentando não demonstrar para os prisioneiros. Mas Rose não estava tendo muito tempo para pensar sobre aquilo. Tudo o que fazia ou dizia tinha a ver com o dia que se aproximava. Pensava em um jeito de convencer os amigos a saírem dali. Eddie seria o mais difícil, mas ela sabia que se Dimitri interviesse, ele iria.

Depois de se despedir dele, já estava indo para dentro antes que algum raivoso se voltasse em sua direção quando se deteve. Gisela tinha os olhos desfocados, enquanto permanecia parada no mesmo local.

Olhou ao redor, mas nenhum outro pareceu ter percebido aquilo.

Ela lutou contra o mar de pessoas que tentava chegar ao seu lugar antes de ser pego para chegar até ela.

— O que há? — perguntou, segurando seus ombros e a balançando lentamente — Gisela?

Ela piscou os olhos, atônita e os focou em Rose, antes de se soltar das mãos dela e seguir caminho.

Rose olhou para o local onde ela esteve durante o tempo, confusa com o que havia acontecido. Parecia que por um momento ela não estava ali...

[...]

Não sabia por que, mas cinco mulheres foram chamadas para limpar o Canadá ². Enquanto limpavam tudo — após receberem ordens expressas de que não poderiam sair dali sozinhas — outros soldados se moviam por todos os cantos, carregando caixas e mais caixas para o lado de fora, onde uma enorme fogueira queimava os papeis que eles ali jogavam.

Os móveis também estavam sendo retirados, mas esses não eram queimados. Eram enfileirados próximos aos trilhos do trem de Birkenau.

Rose estava se virando com um pano molhado em mãos quando um soldado deixou uma das caixas de papelão cair. Foi quase automático o gesto de ajuda. Antes que ela se lembrasse de quem ajudava, ela já havia se abaixado.

Mas logo que tocou no primeiro caderno que caíra aberto ali, ela retesou a mão.

Havia um claro desenho de um cérebro humano ali, com setas apontando para várias regiões do órgão. Era tão detalhado que ela podia jurar não se tratar de um desenho, mas sim de uma fotografia. O mais assustador foi na região dos olhos. Pintados de um forte azul.

³“Inserção pela pupila” — dizia a legenda da seta que ligava até a região.

O caderno foi bruscamente fechado pelo soldado que o deixara cair e Rose se levantou, vendo que algumas fotografias estavam espalhadas pelo chão. Seu estômago se revirou com elas. Crianças, visivelmente mortas ou perto disso, estavam expostas ali.

— Saia da frente, filthy — o soldado vociferou, recolhendo as fotos e saindo dali.

Uma mão foi diretamente para a boca, em uma tentativa de segurar o vômito.

Não tinha muitas coisas que a faziam chorar, mas naquele momento, enquanto fazia seu melhor para terminar logo ali e sair, sentia as grossas lágrimas escorrerem pelo rosto.

Fez de tudo para escondê-las quando dois oficiais entraram marchando. Atrás deles, vinha Christian que logo que notou que Rose estava ali desviou os olhos.

— Marechal Himmler 4 não pode estar são! — um deles ladrou — Esse não foi o plano inicial para Auschwitz.

— Não importa os planos iniciais de Himmler, ele os mudou agora! As ordens foram dadas. Sugiro que as cumpra — falou em um tom duro. Somente quando ele olhou em volta, Rose percebeu que se tratava do homem que parecia estar substituindo Hoss. E este parecia ainda pior que ele.

— Perfeitamente, Tenente5.

Abaixando-se para pegar o balde, Rose cruzou seus olhos com Christian e franziu as sobrancelhas. Ele estava sério e meio pálido. Parecia tentar dizer alguma coisa a ela. Coisa essa que ela só foi entender no cair da noite, quando praticamente foi arrastada para longe da fila em que estava.

GLOSSÁRIO:

¹ O termo Camarada é uma saudação para quando uma pessoa é do mesmo partido político que você, era mais utilizado para quem era um comunista.

² Canadá: O lugar “menos pior” para se trabalhar no campo. Um monte de “casas” usadas como depósito, principalmente de registros.

³ Experiências com humanos: Em busca da raça perfeita, Hitler autorizou e contratou um excelente time de cientistas para que eles transformassem qualquer pessoa em um legítimo alemão. Olhos azuis, alto, forte... Um desses cientistas, achando que poderia conseguir isso, fazia experiências injetando tinta azul (exatamente, tinta) nos olhos das pessoas. Poucas sobreviveram a isso, e as que conseguiram perderam a visão. Quanto às fotografias que Rose viu; também não é invenção. Eles eram autorizados a fazerem essas experiências e os próprios cientistas escolhiam os prisioneiros para isso. Separei um artigo para isso, a custo de curiosidade mesmo, quem quiser ler (http://veja.abril.com.br/especiais_online/segunda_guerra/edicao006/sub2.shtml). E, ainda a custo de curiosidade, algumas experiências trouxeram (mesmo que de forma doentia) um avanço para a medicina. A hipotermia (grande exposição a temperaturas baixas) foi profundamente estudada nesse período — imaginem de que forma.

4 Heinrich Himmler: Comandante supremo da SS, Himmler defendia o “extermínio pelo trabalho”. Foi um dos homens mais poderosos da Alemanha Nazi e um dos principais responsáveis pela criação do campo de Auschwitz e o Holocausto. Ele tentou mudar para o lado dos Aliados ao final da Segunda Guerra, mas não conseguiu e quando Hitler descobriu ordenou sua prisão. Suicidou-se em maio de 1945.

5 Tenente Karl Fritzch: Segundo no comando de Auschwitz. Foi ele quem teve a ideia de usar ácido cianídrico para eliminar os prisioneiros.