Ausência
3 Confissão
Notas iniciais
Does she know that we bleed the same?
(Será que ela sabe que nós sangramos da mesma forma?)
Don’t wanna cry but I break that way
(Não quero chorar, mas me quebro mesmo assim)
Where’s my love — SYML
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Mandou a mensagem para o ioiô dela havia poucos minutos. Em instantes, Ladybug estaria ali com ele.
Chat inspirou fundo.
Do alto do telhado, debaixo das estrelas, o herói admirou o céu. Milhares e milhares de diamantes na escuridão.
Apesar de lindo, era uma daquelas raras noites em que não havia lua.
Chat Noir queria saber onde ela estava. Estaria o astro se escondendo dele? Ela também o temia como ele próprio?
Fechou os olhos e expirou devagar. Tentando extinguir as horríveis imagens que vieram em sua cabeça. Não as aceitaria, não ali, naquela momentânea calmaria, sentindo o vento noturno lhe acariciar os cabelos.
Era, de fato, uma bela noite. E queria absorver o máximo de detalhes que pudesse.
— Gatinho! — Não a ouviu chegar. Os movimentos dela a tornavam tão silenciosa, que Chat Noir só a notou quando a heroína o tomou em seus braços. — O que houve? Onde você esteve?
Ela havia percebido sua ausência, claro. Não participar das rondas diárias ao pôr do sol fora um sinal claro e direto.
— Oi, Bugaboo. Senti sua falta. — A rodeou com seus braços. Precisando mais daquele contato do que gostaria de admitir.
— Então por que sumiu? Temi que tivesse acontecido algo com você! — Ela perguntou, parecendo indignada, o afastando de si e olhando em seus olhos.
Chat sentiu a respiração falhar, à medida que seu coração acelerava. A encarou de volta.
— É que algo aconteceu, Ladybug.
Viu o exato momento em que a postura dela mudou. Pelo que conhecia da heroína, ela já devia estar tentando encontrar uma solução em sua cabeça, mesmo que nem tivesse conhecimento ainda do que era o problema.
— Chat, me conta, o que houve? — Suplicou, já puxando a mão dele para a sua.
Teve que se controlar para não puxar a mão de volta. Para nem chegar perto dela com aquele perigo, que era seu toque.
Ele então a puxou para a beira do telhado, onde os dois se sentaram para conversar.
— Lembra da última akumatização do Gabriel Agreste? Quando ele virou Terror Noturno? — Disse após alguns segundos, olhando para o horizonte. As luzes da cidade estavam todas acesas, concebendo um lindo cenário.
— Sim, eu lembro. — Ela respondeu, parecendo reflexiva. — Não pude estar lá com vocês naquela noite, mas o capturaram sem mim.
— Exato, você não estava lá. — Mordeu o lábio antes de continuar, forçando sua voz para continuar estável. — E não a estou culpando, entenda. Mas, por não ter estado lá, não pode consertar o pesadelo que ele me deu. — Abriu um sorriso triste. — E foi o pior dos pesadelos, M’lady. — Sua voz saiu mais quebrada do que gostaria, percebeu pelo arquejo feminino assustado ao seu lado.
— Chat, está me assustando. — Sentiu a pequena mão dela em seu ombro. Uma mão tão pequena…
— Também estou assustado. — Disse com um riso, de falso humor. Ele mirou os olhos verdes nos azuis dela, encontrando seu rosto distorcido com apreensão. — Eu vi um mundo devastado, Bugaboo. A lua estava destruída, havia corpos petrificados para todo lado. — Era difícil de descrever, mas precisou engolir o nó em sua garganta antes de narrar a próxima parte. — E você, morta, nos meus braços. — Ele ergueu os braços à sua frente, como se revivendo aquele momento. — Meus horríveis braços, cobertos de branco.
Não conseguiu manter o contato visual ao perceber o assombro no rosto dela.
— O pior, foi saber que fui eu o causador daquilo tudo. Mesmo que eu estivesse akumatizado, foi minha culpa. E meu medo de ser akumatizado está ficando cada vez maior. Além do medo do meu próprio poder. — Terminou o relato, olhando para a própria mão, fechando-a em um punho apertado. Como se o mero movimento de fechá-la pudesse conter esse terrível poder dentro dela.
Detestava estar sentindo essas emoções, mas não importava o que fizesse, elas não iam embora.
Sentiu o toque acolhedor dela, e estava pronto para receber algum tipo de discurso acalentador. Mas ao se virar, apenas viu Ladybug, pálida, e os olhos franzidos com tristeza.
— Chat. Eu preciso te contar uma coisa. — Uma sensação ruim cresceu em seu âmago ao ouvir essas palavras. Um frio congelando suas entranhas.
Então ele ficou ali enquanto ela narrava, vividamente, como seu pesadelo foi real.
Como, um dia, após usar seus poderes para uso pessoal, ela acabou entregando sua identidade secreta a ele. E a consequência disso foi uma viagem com a Bunnyx para um futuro arruinado.
Ele ouviu com horror sua Lady o descrever com roupas brancas, olhos azuis cruéis e sem alma.
Ela o chamou de Chat Blanc, Monarch de Anti-Chat. Mas para Chat Noir, o nome do pesadelo não importava. Porque não era mais um pesadelo. Era real. Foi real. E o pior:
Ainda poderia ser real.
Mas continuou ouvindo em silêncio, e completamente paralisado, enquanto ela terminava o relato, explicando como conseguiu derrotá-lo e depois voltar no tempo para resolver tudo.
Porém, isso já não bastava mais.
Não parecia mais o suficiente ter resolvido uma vez.
Ele inspirou fundo, na tentativa de controlar seus temores interiores e deixar sua voz mais estável. Seus músculos estavam doendo de tanta tensão.
— Por que nunca me contou? — Chat viu, com pesar, sua Lady aprumar os ombros. Como se ela necessitasse de mais forças, apenas para responder sua simples pergunta.
— Eu não sei, Gatinho. Acho que não queria te assustar, ou ao menos me lembrar, que aquilo havia acontecido. — Chat teve vontade de rir, desviando o rosto para longe dela.
Assustado era pouco para o que ele estava sentindo. Porque não havia importado se ela contou para ele ou não. Esse futuro deu jeito de alcançá-lo da mesma forma.
Parecia que era algo inevitável.
— Quando foi isso? — Levantou, não conseguindo mais ficar sentado, enquanto sua mente estava tão inquieta, ainda de costas para a joaninha.
— O quê? — Ouviu ela se levantar, indo atrás dele no terraço.
— Quando foi que você pegou essa carona com a Bunnyx para o apocalipse? — Perguntou com mais ênfase, virando o corpo e se deparando com ela bem atrás de si.
Viu quando ela soltou um suspiro pesado antes de responder.
— Quase três meses atrás.
— Três meses. — Ele repetiu, fechando os olhos e inspirando fundo. Ele já tinha uma suspeita, mas ouvi-la confirmar ainda doeu. — Pouco antes de você virar guardiã e começar a distribuir Miraculous por aí. — Ele viu ela confirmando com a cabeça, até ele continuar seu raciocínio. — E então me deixar de lado como um gato qualquer.
— Gato qualquer? Claro que não, Gatinh…
— Eu sabia que você estava me evitando na época. — A interrompeu. — Eu só não sabia o porquê! — Não queria sentir raiva, mas havia ficado magoado com o que aconteceu.
O rosto dela, antes repleto de compadecimento, agora estava estampado com irritação.
— Eu não estava te evitando! — Ela enfatizou, inflando as bochechas e apertando os punhos.
— Ah não? Então por que me deixou de lado? — Rebateu. — Está óbvio agora que suas ações foram porque você teve medo. Medo de mim! Medo que eu fosse akumatizado!
Ladybug abriu a boca uma e outra vez. Olhos abertos em espanto e respiração pesada. Antes dela fechá-los e grunhir com irritação.
— Sim, talvez eu estivesse com medo, tá legal? — Ela confessou, jogando as mãos para cima, como forma de desistência. — Aquele futuro ainda estava muito recente na minha cabeça. Mas depois eu percebi que te afastar de mim não ia adiantar nada!
— Mas me afastou! Me deixou de fora das lutas. Dizendo que era perigoso demais! — Cerrou a mandíbula e apertou os punhos, na tentativa de se controlar. — Mas está tudo bem, eu já superei isso. Entendi o seu lado, na época. Só é difícil saber que, um dos seus motivos, era estar com medo por mim.
Estava com raiva de si mesmo. Não dela.
— Eu errei, Chat! Mas eu não te excluí de propósito, eu juro! — Ela levou as duas mãos até os ombros dele, mas as soltou logo em seguida. — É só que muita coisa aconteceu ao mesmo tempo. Poucas semanas depois desse futuro eu virei guardiã e tinha todos aqueles Miraculous sob a minha responsabilidade. — Ela explicou, gesticulando com agitação ao lembrar daquela época.
Ele sabia o quanto havia sido difícil para ela, e como ele falhou em tentar ajudá-la. Mas ainda assim…
— Isso não significa que tinha que mudar tudo. Eu ainda estava ali. — Respondeu com mais calma. Ele segurou as duas mãos dela dentro das suas. — Ainda poderíamos ser apenas nós dois!
— Ainda somos nós dois! — Ela encontrou seus olhos. — Eu e você contra o mundo, não é?
Ele sentiu seu coração se partir.
— Acho que não. Não mais. — Se obrigou a soltá-la, mas dessa vez, foi ela quem o segurou, com força.
— O quê? — Os olhos dela dobraram de tamanho com o choque. — O que quer dizer com isso?
— Eu não consigo mais, M'lady. — Disse com a voz quebrada. Desviando os olhos da atenção dela, pois era covarde demais. A decisão havia apenas passado antes em sua cabeça. Mas agora, sabendo de tudo, não via outra alternativa. Não conseguiu mais segurar toda sua tristeza quando falou. — Estou com medo. Eu não consigo mais, não consigo mais ser o Chat Noir.
Estava de cabeça baixa, para esconder dela sua dor. Não pôde ver sua reação, mas ouviu a exclamação de horror que ela soltou.
— Como assim, Chat? O que está dizendo? — A voz dela beirava ao desespero.
As pequenas mãos dela foram para sua cabeça, levantando seu olhar para o dela. Não queria se sentir confortado ao ver os olhos azuis inundados com lágrimas, assim como o seu, mas se sentiu. Significava que a dor dela comparava a sua. Que ele não era o único sofrendo com isso.
Não conseguiu responder nada enquanto era absorvido por aquela dor nos olhos da garota. Da sua parceira que tanto amava. Aquela que o conhecia tão bem, mesmo com as máscaras entre eles.
Talvez, por conhecê-lo tão bem, é que ela jamais havia lhe contado sobre Chat Blanc. Ela já sabia o que ele poderia fazer, antes mesmo que ele próprio soubesse.
— Por favor, não. — Ela pareceu entender sua seriedade, lido as respostas em seus olhos, pois agarrou seus ombros, como na tentativa de agarrar alguma esperança. — Eu já dei um jeito! O que quer que você tenha medo, sei que podemos dar um jeito, de novo! Eu posso…
— Não pode! — Foi a vez dele agarrar os ombros dela. Nesse momento, o choro já estava insuportável de segurar. Os soluços saiam de seus lábios, sem nenhum controle. — Bugaboo eu… eu senti o seu corpo sem vida no meu colo! — Fechou os olhos com força, tentando tirar aquela imagem da sua mente. Mas era impossível, essa imagem era tudo que conseguia ver. Olhos abertos ou fechados. Estando acordado ou dormindo, isso o assombrava todos os dias, desde que havia sido atingido por aquele vilão. — Eu senti você se desfazer debaixo das minhas mãos!
Apertava os braços da Ladybug enquanto relatava isso. Conscientemente ou não, só precisava senti-la ali. Viva, bem.
Mas até quando?
— Se precisar de um tempo, fique sem se transformar. — Ladybug estava ofegante, as mãos tremendo enquanto ela tentava, em vão, fazê-lo mudar de ideia. — Posso conseguir ajuda dos outros, enquanto você se recupera!
— Você não entendeu, M'lady. Eu não vou voltar.
O choro dela agora se equiparava ao seu. Soltando soluços altos em meio às lágrimas e tremores. Ela também apertava seus braços de volta, e ele sabia que era pelo mesmo motivo que o seu. Ela ainda queria certificar que ele ainda estava ali, com ela.
— Não! Isso não pode estar acontecendo!
Mas não ficaria ali por muito mais tempo.
— Pode ter visto aquele futuro, você vivenciou ele, mas não como eu. Você não foi a causadora dele. — Ele sentia seu coração doendo, mas não iria fraquejar agora.
— Ele não aconteceu! E não vou permitir que aconteça. — A voz dela estava tomada de pavor.
Se sentiu tomado de compaixão. Se fosse ela tentando sair de sua vida, também tentaria de tudo para fazê-la ficar. Mas ele não podia. Era para o bem dela, de Marinette, e tantos outros.
— Enquanto eu for o portador da destruição, esse futuro continuará sendo uma possibilidade. E você sabe! — Reforçou.
— Esse é um risco de eu estou disposta a correr! — Ela continuou, determinada.
— EU NÃO! — Ela se assustou com seu grito, mas precisava que ela entendesse, o quão assustado, ele mesmo, estava. — M'lady, se aquilo acontecer. Se eu for a causa de tantas mortes. Da sua, da minha namorada… — Sua voz falhou ao pensar no corpo de Marinette morto, assim como o de tantos outros. — Eu não vou suportar, e você sabe! Prefiro morrer aqui e agora do que machucar vocês.
— Chat! — Ladybug se jogou em seus braços, o apertando forte enquanto todo o corpo dela tremia.
Chat a aceitou de bom grado, a envolvendo em seus braços e acariciando seus cabelos. Absorvendo cada detalhe dela o máximo que podia. Pela última vez.
— Por isso prefiro te entregar meu Miraculous e saber que vocês estarão a salvo. — Encostou o rosto em sua cabeça, sentindo as lágrimas caírem nos fios escuros. Assim como as dela caíam na sua roupa.
— Não vou aceitar isso! Eu sou a guardiã e não aceito sua renúncia!
— Eu sinto muito. Sinto mesmo. — Apertou mais o corpo da garota, contra o seu. — Mas eu não serei o responsável pela sua morte, M'lady. “E nem da dela” — Completou, em pensamento.
Ela era tão pequena. Mas se essa fosse a última vez que a segurasse em seus braços, ainda seria grato.
Era um milhão de vezes melhor que segurá-la petrificada e sem vida.
Sentia os espasmos dela, tremendo, em meio ao choro desenfreado.
— Estarei torcendo por você a distância. Sempre estarei lá. Mesmo que você não saiba que eu sou. — Deu um beijo no topo de sua cabeça, antes de soltá-la.
Ele levantou decidido, mas Ladybug levantou junto com ele, se recusando a soltá-lo.
— Chat, por favor. Não faz isso, por favor!
Tirar os finos, mas fortes, braços da garota ao redor de si, foi como levar um golpe em seu próprio coração.
Doeu. E então doeu mais. Enquanto pegava seu bastão e se distanciava dela através dos telhados. Ela estava indo atrás dele com seu ioiô, mas não importava. Ele já havia aumentando bastante a distância entre os dois, antes de descer em um beco, e se esconder dela.
— Chat! Chat!!! Gatinho! — Ouviu gritando no alto, os gritos dela sendo perdidos no vento, mas abrindo um buraco em seu coração, toda vez que ela o chamava.
“Me perdoe, Bugaboo”.
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Ladybug estava devastada. Sentia uma mistura de fracasso com desespero. Tristeza com traição.
Como ela continuaria sendo a Ladybug se não tivesse o Chat Noir ao seu lado?
Após perdê-lo de vista, e passar horas correndo em voltas pelos telhados, em vão, a única coisa que pensou foi em voltar para o seu quarto e se destransformar.
Com Tikki livre, ela desabou.
— Precisa ir vê-lo, Tikki! Você sabe quem ele é! Encontre-o e faça o Chat Noir mudar de ideia! — Despejou apressada, sabia que devia estar um caos de lágrimas e cabelos bagunçados, mas isso nem se comparava com a turbulência dentro do seu corpo
Mas Tikki apenas a olhou com simpatia.
— Eu sinto muito, Marinette. Mas ser um portador de Miraculous é uma escolha, não uma obrigação. Não podemos forçá-lo a fazer algo que não quer. — A voz da kwami estava regada com empatia.
Mas Marinette não queria isso. O que ela precisava, era resolver essa situação, antes que fosse tarde demais.
— Mas Paris precisa dele! Eu preciso dele! — Ela colocou as mãos, trêmulas, sobre seu coração, tentando acalmar suas batidas.
Sentia as pontas dos dedos frias, por conta de seu desespero. Seu estômago esfriando e embrulhando ao mesmo tempo, como se não soubesse o que fazer. Parecia que ela ia vomitar, chorar e desmaiar, tudo ao mesmo tempo.
— O Miraculous da criação que precisa de equilíbrio. Plagg deverá encontrar outro portador para o Miraculous da destruição em breve. — Foi como levar uma facada.
Ela fechou os olhos com força, negando veemente com a cabeça.
— Não! Eu me recuso! Não aceitarei ninguém além dele. Eu só quero ele. Quero o meu Chat Noir! — Abriu os olhos e começou a implorar para sua kwami, enquanto apertava com força o cobertor abaixo de si. Sentia que estava caindo, afundando, e só queria se segurar em alguma coisa. — Por favor, Tikki! Por favor!
Mas a pequena apenas franziu os olhinhos para ela.
— Sinto muito, Marinette. Não há nada que possamos fazer.
Aquela noite foi difícil. Chorou em sua cama, abraçada com um gatinho de pelúcia que lembrava demais o motivo da sua angústia.
Não queria se render ao sofrimento. Prometeu a si mesma que iria bolar um plano no dia seguinte. Um plano incrível e maravilhoso que faria o Chat Noir se arrepender de sua decisão. Porque era, no mínimo, impensável ele não continuar sendo seu parceiro. Mesmo que não soubesse ainda o que fazer, ela iria descobrir.
Mas isso seria no dia seguinte. Naquela noite, tudo o que Marinette queria fazer, era continuar a chorar.
Nem percebeu quando seu namorado, Adrien, não ligou para ela. Eles conversavam todos os dias antes de ir para a cama.
Estava muito afundada em sua melancolia para notar. E chorou até dormir.
Apenas para ser acordada por um kwami preto no meio da madrugada.
— Marinette… Marinette.
Ela sentou na cama assustada. E lá estava ele, Plagg, flutuando ao lado de Tikki, e com um anel preto e um papel, no meio de suas patinhas.
— Não. — Foi tudo o que ela conseguiu dizer. Os olhos, já inchados, ficando úmidos novamente sem dificuldade. — Não, não…
— Eu tentei fazer o garoto desistir disso. — Plagg respondeu. A falta de ânimo da voz foi ouvido de forma evidente. — Mas ele está irredutível. Eu sinto muito.
Então ele soltou o papel em sua mão. Para o horror de Marinette, Chat havia escrito um bilhete. Um bilhete de adeus.
Dizem que se você ama uma coisa, tem que aprender a abrir mão. Eu achava uma besteira, até ver você morrer. Naquela hora, nada mais importava, só você. Me desculpa, eu só queria ficar com você, mas eu quero você segura. De mim.
Eu te amo. Demais.
Adeus, minha Ladybug.
Marinette não queria acreditar, sentia espasmos passando pelo seu corpo enquanto perdia o ar e voltava a soltar soluços de dor em meio ao choro, mesmo tapando a boca com a própria mão.
Queria que tudo fosse apenas um sonho. Na verdade, um horrível pesadelo. Mas o que tornava tudo tão terrível, era saber que era real. Muito real.
Ele já havia feito isso antes, duas vezes. Uma por sua causa. Mas agora, parecia que era definitivo. E isso a causou um medo gigantesco.
Sentiu que se não fizesse nada, e não agisse rápido, nunca mais veria o Chat Noir.
Por isso tomou o anel das mãozinhas de Plagg e colocou em seu dedo.
— O que está fazendo, Marinette? — Tikki perguntou surpresa.
Mari não sabia o que estava fazendo. Mas o que sabia era: o Miraculous da Criação e da Destruição eram poderosos demais. Precisam de dois portadores, pois não podem ficar juntos.
E por serem tão poderosos assim, os portadores não devem conhecer a identidade um do outro. Caso um seja pego por um vilão, o outro deve se salvar, para então ter uma chance de salvar seu parceiro. Yin yang.
Foi uma das primeiras regras que recebeu, ao se tornar Ladybug.
E por essa mesma regra, tomou o anel antes que Plagg o levasse embora. Para dar à alguma outra pessoa, um outro “Chat Noir” que ela jamais saberia a identidade. E que jamais aceitaria.
— Ele vai voltar, Plagg. Eu sei. Por isso, não posso deixar você encontrar outro portador. — Falou, com um fio de esperança que ainda teimava em brilhar em seu coração.
— Mas Marinette, você não pode usar os dois juntos. É forte e perigoso demais para você! Sei que já usou os juntos uma vez, mas foi por pouco tempo. Usá-lo continuamente pode trazer danos irreparáveis! — Tikki alertou, depressa. A kwami parecia assustada, mas não havia motivo.
— Não vou usá-lo, vou guardá-lo. — Assegurou à pequena. — E Plagg, como sua guardiã, não tem o direito de encontrar outro portador.
O pequeno kwami preto emitiu um grunhido de desaprovação.
— Mas sem um herói para o Miraculous da Destruição, você não terá equilíbrio nas lutas, Marinette. Você vai sofrer!
— Eu já estou sofrendo, Plagg! — Gritou. Ela tentou controlar o pranto, apertando os lábios, mas as lágrimas grossas já estavam se derramando. — Se o Chat Noir não suportar isso e quiser me ajudar, que ele volte para mim! Você tem permissão para se afastar de mim, apenas para conversar com o Chat Noir, se ele te chamar.
Então o kwami a observou por alguns segundos, antes de responder.
— Se é isso que você quer, guardiã. — Finalizou com uma mesura de cabeça.
E depois voou para a parte de baixo do seu quarto.
Marinette afundou de novo na cama, olhando o anel em seu dedo. Aquilo lhe causando tanta dor, quanto um cataclismo dentro do coração.
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Plagg estava mal, se lembrando da conversa que tivera com Adrien mais cedo.
Ele chegou em casa e desfez a transformação. Já se ajoelhando no chão e chorando com desespero.
— Dói, Plagg, dói tanto! — O loiro agarrava a própria camisa, como se quisesse arrancar o coração do próprio peito.
— Não precisa ser assim, Adrien. — O kwami já havia dito tantas coisas, mas nada estava adiantando. — Sabe que meu Miraculous é da destruição, mas ele é um poder que pode ser usado para o bem! Você mesmo o usou assim, tantas vezes!
— Eu sei, Plagg. Sei muito bem. Mas o que eu vi… Não tinha nada de bom ali, acredite. — O garoto se levantou com dificuldade, cambaleando até sua escrivaninha, onde escreveu algo em um pedaço de papel. — Ache outro portador para você.
O kwami viu as lágrimas caindo do rosto dele, mesmo que o garoto tentasse contê-las.
— Adrien… — Foi quando o viu tirar o anel e estender para ele, junto com o bilhete.
— Pegue. Pegue, por favor. — Havia tanta tristeza naqueles olhos verdes.
Plagg apenas soltou um longo suspiro.
— Não posso mesmo te convencer a desistir?
Adrien apenas negou com a cabeça.
— Lamento, Plagg.
Então o Kwami solenemente pegou o anel.
— Não, Adrien, eu é que lamento.
Estava flutuando em direção à janela, ouvindo os soluços do choro dele, quando o escutou se despedindo.
— Vou sentir sua falta, meu amigo.
— Também vou, garoto. — E ele foi sincero. Kwamis sempre eram sinceros.
Saiu voando em direção à casa de Marinette logo em seguida.
A decisão de Adrien estava machucando ele próprio. E machucando Marinette também, mesmo que ele não soubesse ainda. Mas o que Adrien não sabia, era que havia machucado Plagg. Achava que os dois haviam construído uma amizade nesse tempo. Mas aparentemente, não. Fora descartado, sem chance de defesa.
Ele não iria admitir, mas estava feliz por Marinette não tê-lo deixado escolher outra pessoa. Queria ficar um tempo sozinho.
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